sábado, 1 de fevereiro de 2020

Horizontalidade, verticalidade e sacanagem na música

Estava conversando com o Felipe e lhe explicando a diferença entre a música medieval e períodos mais tardios. Uma das características fundamentais é que os músicos pensavam a música horizontalmente, por isso a polifonia é tão rica, atingindo o máximo da sua sofisticação no período barroco. Com o desenvolvimento da linguagem tonal (no período medieval ela é essencialmente modal), a música foi sendo percebida cada vez mais verticalmente, via acordes. Por isso mesmo a polifonia diminui. Citei a ele exemplos de alguns prelúdios de Chopin que ele gosta de tocar onde se percebe claramente que o compositor estava pensando a música verticalmente, a partir do discurso harmônico, o caminho percorrido pelos acordes.

Daí me lembrei de duas piadas memoráveis que ouvi nas pouquíssimas aulas de música que frequentei na Fundação das Artes em SCSul nos meus verdes anos.

Em uma determinada aula o professor dava exemplos de ideias expressas por composições musicais. Daí um aluno perguntou:
- Professor, e música de sacanagem?
- Tem: a Sagração da Primavera.
- Sagração da Primavera?
- Sim. As primeiras notas da obra são as primeiras notas do hino do Corínthians! Isso é muita sacanagem!

E por falar em sacanagem, em outra aula, quando ele falava sobre o pensamento horizontal e não vertical de Bach, soltou a seguinte pérola:
- Bach pensava tão horizontalmente que teve 8 filhos.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Ler é preciso

Em um ano em que trabalhei insanamente em 2 empregos, 70 h semanais, meu cérebro quase fundiu, consegui arranjar tempo para ler. Porque, nessa loucura toda, ler também era uma forma de manter a sanidade mental.

Foram 37 livros, 10.328 páginas, 279 páginas por livro, 28 páginas por dia.

O mais extenso (672 páginas) foi "O capital do século XXI" - Thomas Piketty e o mais curto (96 páginas) "O que é ação cultural" - Teixeira Coelho.

(estatísticas do skoob)

Um deles é especial porque se trata de um livro escrito por mim e por Gustavǒ FredericoSidney GivigiStephanie Zuma LacerdaNelson Costa Jr.Thiago Mendanha e Felipe Fanuel, "Além do crer ou não crer".

A lista completa:

1. O Oceano no Fim do Caminho (Neil Gaiman) - 208 páginas
2. O despertar dos mágicos (Jacques Bergier e Louis Pauwels) - 463 páginas
3. O clube dos anjos (Luis Fernando Veríssimo) - 344 páginas
4. YE (Guilherme Petreca) - 216 páginas
5. A velocidade da luz (Javier Cercas) - 272 páginas
6. 21 lições para o século 21 (Yuval Noah Harari) - 432 páginas
7. Além do crer ou não crer (Gustavo Frederico e outros) - 127 páginas
8. Eu sou Malala (Malala Yousafzai, Christina Lamb) - 288 páginas
9. As armadilhas do poder (Gilberto Dimeinstain) - 155 páginas
10. O livro de Jô (Jô Soares, Matinas Suzuki Jr.) - 480 páginas
11. A tolice da inteligência brasileira (Jessé Souza) - 256 páginas
12. De Repente, Nas Profundezas do Bosque (Amos Oz) - 144 páginas
13. O Ódio Como Política (Esther Solano) - 128 páginas
14. O príncipe da névoa (Carlos Ruiz Zafón) - 184 páginas
15. Vox (Christina Dalcher) - 320 páginas
16. As Vantagens de Ser Invisível (Stephen Chbosky) - 224 páginas
17. O Deus da Idade Média (Jacques Le Goff) - 127 páginas
18. O Capital no Século XXI (Thomas Piketty) - 672 páginas
19. Vidas secas (Graciliano Ramos) - 176 páginas
20. Stalker (Tarryn Fisher) - 288 páginas
21. Tempo é dinheiro (Lionel Shriver) - 464 páginas
22. A verdade sobre o caso Harry Quebert (Joël Dicker) - 576 páginas
23. Orgulho e preconceito (Jane Austen) - 374 páginas
24. Maus (Art Spiegelman) - 296 páginas
25. Ética e vergonha na cara (Mário Sérgio Cortella, Clóvis de Barros Filho) - 112 páginas
26. Persépolis (Marjane Satrapi) - 352 páginas
27. Como as Democracias Morrem (Steven Levitsky, Daniel Ziblatt) - 272 páginas
28. Caminho de Pedras (Rachel de Queiroz) - 256 páginas
29. A fantástica vida breve de Oscar Wao (Junot Díaz) - 336 páginas
30. A Existência De Deus Comprovada Por Um Filósofo Ateu (Dany-Robert Dufour) - 336 páginas
31. O Inocente (John Grisham) - 384 páginas
32. O Dia em que Selma Sonhou com um Ocapi (Mariana Leky) - 320 páginas
33. O que é Ação Cultural (Teixeira Coelho) - 96 páginas
34. Esperando Godot (Samuel Beckett) - 192 páginas
35. A abolição (Emília Viotti da Costa) - 144 páginas
36. Filhos de Sangue e Osso (Tomi Adeyemi) - 560 páginas
37. O lucro ou as pessoas? (Noam Chosmky) - 192 páginas

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Com que roupa eu vou?

- O que você acha? Ponho o vestido branco ou o preto?
Ai, não! Essa pergunta de novo?
- Ah... sei lá! Esses dilemas são muito difíceis para mim!
Ela insiste, me municia com informações a respeito. Mesmo assim é difícil para mim. Meus processos deliberativos são muito diferentes. Sem dizer que tenho apenas meia dúzia de roupas espremidas no cantinho do meu guarda-roupa que foi invadido por suas roupas, já que as outras partes que ela se apossou quando da construção do embutido, com o tempo se mostraram insuficientes. Se eu uso meia dúzia de roupas e simplifico minha vida por isso, por que raios tenho que me meter nessas decisões tão complexas de quem tem roupas que, se colocadas uma ao lado da outra, seriam suficientes para construir uma alameda até a Lua? Quem mandou comprar tanta roupa? Cada um com seus problemas! Por outro lado, sejamos honestos, também tenho minha parcela de culpa: quem me mandou casar?
Essa guerra já aconteceu várias vezes. E ela só termina com minha derrota. Não adianta eu insistir. Preciso escolher. Penso um pouco mais e declaro meu voto:
- Bem, vai com o preto. Ao menos você não vai passar frio.
Ela passa os dois vestidos.
Veste o branco e vai trabalhar.

Mentira! Dessa vez ela usou o preto. Mas poderia ter usado o branco mesmo. Porque a guerra que eu perco não é a guerra em que sou obrigado a votar em um processo decisório. A guerra diz respeito à minha participação compulsória em um jogo de adivinhação. Dessa vez eu acertei quando, vencido, aceitei participar do jogo de adivinhação. Mas nem sempre acerto.

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PS: não menos importante que o texto acima, faz-se necessário um esclarecimento. Embora pareça que me sobre coragem e me falte noção, não é bem assim. Portanto, declaro a quem possa interessar, que esse texto contém ironias e exageros e é apenas o resultado de uma deliciosa oportunidade de escrever uma crônica que não quis perder. Sendo assim, na esperança de que não tenha que dormir no sofá até o ano que vem e na expectativa de vossa atenção e apreço, subscrevo-me, atenciosamente. 😇

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A hipocrisia dos religiosos

Essa treta com a Porta dos Fundos me lembrou uma história (piada?) que ouvi há muito tempo.

Diz que um pastor pregava para uma grande assistência e o tema era algo que tinha a ver com a injustiça ou alguma outra coisa que não significasse vantagem pessoal para a audiência, apesar de ser um tema que devesse mover os chamados cristãos. As pessoas estavam letárgicas, sonolentas. Daí, o pastor resolveu soltar um palavrão no meio da prédica. Instantaneamente a audiência ficou atenta, ligada no discurso. Ele então passou um pito nos ouvintes porque, enquanto ele dizia algo da maior relevância para um cristão, eles não estavam nem aí. Foi só ele colocar um palavrão no meio e imediatamente o gatilho moralista da audiência a pôs em alerta: bando de hipócritas!

É muito interessante que o filme da Porta dos Fundos cause indignação numa intensidade imensa enquanto toda a desgraça que vem carcomendo esse país num galope de 4 cavaleiros do apocalipse nem de longe cause a mesma comoção e, em muitos casos, ao contrário, mobiliza-os para apoiar. Isso me fa chegar à seguinte conclusão:

O moralismo religioso e a hipocrisia definitivamente incapacitaram essas pessoas de olharem o mundo atual com os olhos de Jesus de Nazaré, a quem elas dizem seguir.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Minhas prerrogativas acima de tudo, Eu acima de todos

Temos um problema cultural que aflige as autoridades, policiais inclusive e penso que, de alguma forma, alimenta a sanha violenta dos últimos contra populações empobrecidas: julgam-se acima da lei. Infelizmente, quando passamos pano para a corporação policial diante dos seus atos criminosos, culpando as vítimas, apenas alimentamos esse sentimento de poder que eles possuem em vez de ajudarmos no sentido contrário, educá-los a se lembrar que eles são cidadãos tão devedores de cumprir a lei e os marcos civilizados como qualquer pessoa.
No caso de policiais há uma lei específica que raramente os vejo obedecendo, leis de trânsito, o que me parece um despautério.
Hoje aconteceu algo curioso.
Saía da academia, 7 h da manhã, lentamente e distraído. Comecei a atravessar na faixa quando um veículo veio pela esquerda, na esquina, e parou na faixa esperando eu passar. De rabo de olha dei uma olhada e vi que era um veículo policial. No ritmo em que estava, cansado, continuei. O policial acelerou, não mudei meu ritmo, assim que cheguei na metade da travessia, ele subiu a rua, vagarosamente, não sem antes lançar algum insulto contra mim que não entendi.
Uma mulher que caminhava na calçada no sentido contrário comentou comigo assim que a alcancei:
- Mas que absurdo! Como eles são folgados! E ainda se acham os donos do mundo!
- Pois é. Isso é um problema.
Conversando com uma amiga ontem, ela me dizia que os policiais, quando chegam em uma favela, são hostilizados. Ela estava tentando relativizar a atitude violenta dos policiais em Paraisópolis. Eu lhe disse que entendia a atitude hostil dos moradores. Se os policiais fossem respeitosos com eles, os tratassem com dignidade, estivessem lá como representantes do estado para os servir, não seriam hostilizados. Mas os policiais tratam esses moradores na base da pancada. Como não seriam hostilizados? Eu também teria uma atitude hostil.
Daí, no bairro classe média em que eu vivo, onde as pessoas às duras penas estão aprendendo a respeitar faixa de pedestre, os policiais têm uma atitude tão reprovável como essa?
Complicado, viu? Eu não consigo passar pano para a corporação policial, apesar de respeitar a polícia, reconhecer o importante papel que eles empreendem na comunidade onde moro, diferente das notícias que ouço sobre a atuação deles em comunidades favelizadas.
Enquanto os agentes da lei não evoluírem e se tornarem de fato civilizados, esses problemas só se repetirão.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Definitivamente Deus é o cara

Estou desenvolvendo um sistema.
Em muitos sentidos ele emula um sistema nervoso central.
Pensa num trampo lascado projetar numa arquitetura e realizá-la (escrevendo os códigos) para que um processo mande sinal para outro, que ativa um terceiro processo e assim por diante, tudo dentro de uma lógica pre-determinada e que, depois, o circuito fica fechado supostamente à perfeição. Tráfego de mensagens alguns níveis e sentidos. Como um sistema nervoso central.
Fico pensando no trampo que Deus teve para projetar o ser humano.
Deus é o cara, hein? Maior respeito!
Se bem que ele teve toda a eternidade de ócio à disposição para pensar no assunto e eu estou nisso de verdade há pouco mais de 1 ano.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Régua alta (ou A destruição da família tradicional pela Globo)

Desci para tomar café. A Flávia já estava tomando enquanto assistia Mais você. Passava um trecho de uma novela. Parecia ser um caso homossexual. Perguntei para a Flávia e ela confirmou. Comentei ironicamente: a Globo sempre empenhada em destruir a família tradicional.

Na sequência, Ana Maria continuou conversando com o entrevistado. Lá pelas tantas ele disse que já havia escrito mais de 60 livros. Sessenta livros!, exclamou a Flávia. Pronto, conseguiu prender minha atenção. Quem é?, perguntei. Walcyr Carrasco.

Ah... Walcyr Carrasco! Daí eu lhe contei uma coisa que ela não sabia.

Quando assinava a Veja, meu texto preferido era a última página da Veja São Paulo. Eram crônicas escritas pelo Walcyr Carrasco sobre o cotidiano da cidade. Era um texto simples, despojado, não se notavam pretensões literárias, mas... que textos deliciosos! O cara escrevia demais.

Eu sempre gostei de escrever, mas meus textos sempre me pareceram simples demais, despojados demais, no limite, ruins. Mas, depois de ler os textos de Walcyr Carrasco, percebi que é possível escrever textos despojados e de qualidade. Logo, o despojamento de meus textos de repente não significariam que eles eram necessariamente ruins. Obviamente não com a genialidade de Walcyr Carrasco, mas de repente textos que poderiam ser lidos por outros, por que não?

Eu tive a mesma sensação quando fiz um curso de escrita vocal popular com André Protásio, um arranjador carioca. O mais importante do curso para mim foi perceber que as ideias de arranjo que eu tinha não eram tão ruins assim, até mesmo algumas soluções que me pareciam básicas demais. No curso vi diversos exemplos similares e ficava tão bonito!

Enfim, às vezes o problema é ter uma régua muito alta.

Obrigado, Walcyr Carrasco.

(PS: 10 das melhores crônicas de Walcyr Carrasco na Veja São Paulo Dez crônicas de Walcyr que deram o que falar)