sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Me respeita!

 



Hoje, no Pilates:
Sadissa, a professora do período matutino, enquanto comentávamos algo sobre minha condição física:
— Quantos anos você tem?
— Quantos pareço ter?
— Uns 48.
— Chegou perto. 
Viro para Cansada de Guerra, uma amiga de academia, e lhe pergunto:
— E aí, quantos anos?
— Hum... entre 50 e 52.
— Por aí.
— Quantos anos? — insiste Sadissa.
— 56.
— A idade do meu pai!
Reflete um pouco e acrescenta:
— Nossa, meu pai está rodando sem óleo!
Eu arremato:
— Tá vendo? Tenho idade pra ser seu pai. ME RESPEITA!
Porque essas oportunidades a gente não pode perder 😅.


domingo, 10 de agosto de 2025

Minha experiência SURREAL com a ayahuasca



Outro dia a Andreia me contou: “Obadias, fui tomar um cha de ayahuasca com uma amiga. Foi sensacional!” “Me conta tudo!” Ela me contou sua experiência sensacional. Achei demais. Eu lhe disse: “da próxima vez, me chama, sempre tive curiosidade”.
  

Não tenho curiosidade em drogas, mas confesso que sempre tive curiosidade em alucinógenos, para experimentar como seria uma alucinação. Meu interesse aumentou depois de saber do livro “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley, em que ele descreve sua experiência com o uso da mescalina, um alucinógeno psicodélico retirado de um cacto na cultura mexicana há séculos. Embora não tenha lido o livro, ele relata como o uso da mescalina expandiu sua mente através da intensificação das suas percepções. Eu fiquei pensando se, ao usar um alucinógeno, eu poderia experimentar alguma coisa parecida e, de repente, ter algumas ideias musicais diferentes. Nunca se sabe, né?

Eu já recebera alguns convites muito ocasionais, mas como nunca foi nada viável, nunca dei muita importância. Daí a Andreia me faz esse convite. Perfeito! Mas, sabe como é: sempre dá um medinho na gente, né? Pesquisei bastante para me certificar de que o risco era baixo, assisti documentário e vi que o risco é real para pessoas com problemas de esquizofrenia, por exemplo. Não é o meu caso. Minhas sobrinhas Camila e Letícia foram enfáticas que era muito arriscado e que não valia a pena correr o risco. Minha justificativa sempre foi: “sim, sempre existe um risco, mas, em se tratando de pessoas saudáveis, o risco é baixíssimo, eu teria que ser muito azarado pra dar ruim”. Um amigo, o Fabio, também me contou das suas experiências de algumas sessões com ayahuasca e, embora tenham sido bem lisérgicas e intensas, foi ali no momento da “consagração”, como eles dizem e, finalizado o ritual, ele esperou melhorar e foi para casa. Enfim, a mesma experiência da Andreia. Portanto, o que poderia dar de ruim pra mim, não é mesmo?

Outro aspecto que eu considerava a meu favor é o fato de eu ser 0% místico e 100% cético além de ser extremamente racional. Então eu não embarco fácil em viagens mentais. Já fumei maconha algumas vezes, tragando – claro – e, enquanto as pessoas à minha volta ficavam totalmente brisadas, eu só tinha sono, um sono terrível. Eu poderia ter uma experiência intensa como a da Andreia e do Fabio, ou apenas não sentir nada, como na maconha. Eu até acreditava mais na segunda hipótese. Eu não poderia estar mais enganado.

Na semana, preenchi uma anmese bem completa enviada pela casa e fomos ontem, sábado, 09/08, para o local. Chegando lá foi tudo muito tranquilo, extremamente organizado, eles foram muito cuidadosos, explicando todos os detalhes, enfim. Explicaram que algumas pessoas passariam mal, principalmente da primeira vez, mas é o processo da “limpeza” e que, por pior que elas passassem durante, poderiam ficar tranquilas que, no final, voltariam à normalidade. O processo são 2 goles de chá no espaço de 4 h. o primeiro por volta das 18:30, o segundo por volta das 20 h. Eles afirmaram que não era obrigatório tomar os dois.

Tomei o primeiro chá e fiquei sentado na cadeira, o pote de vômito embaixo dela. 1,5 h daquela aporrinhação toda: músicas, algumas pessoas vomitando, outras gemendo e eu... nadica de nada. Eu tentava de todas as formas me desligar para ver se o chá causava algum efeito em mim. Nada. Fui 2 vezes ao banheiro, porque fiquei apertado. E só. O ambiente à meia luz, diversos incenso rolando, música indígena tocando, o pessoal da casa com uns cajados enormes que lembravam berimbau batendo no chão... criava todo aquele clima. Beleza.

Decidi não tomar o segundo chá porque, se não tinha batido o primeiro, pra mim já tinha dado. Perguntei pra Andreia, que estava sentada um pouco distante, se ela tomaria o segundo chá, ela disse que não. Mais tarde ela me contou que, já na primeira dose, ela teve sua sensacional experiência místico-alucinógena. Um rapaz da casa veio me perguntar se eu tomaria o segundo chá. Eu disse que não. Ele insistiu bastante, dizendo que o segundo era importante porque – não me lembro a expressão que ele usou – eu iria me destravar. Ele insistiu tanto que eu pensei: “já que estou aqui mesmo...” Fui pra fila e falei pra Andreia: “já que estou aqui... bora!” Tomei a segunda dose e fui me sentar. A Andreia tinha entrado na fila também para tomar.

Recomeça todo o processo: todos sentados, relaxados, a música indígena tocando, as batidas no chão, aquela meia luz, os incensos... Comecei a passar mal. MUITO MAL. Comecei a ter ânsia de vômito. Aquela coisa desesperadora e o vômito não vinha. Eu não tinha quase nada no estômago. Até que comecei a vomitar. Não era muita coisa, mas eu vomitei um tempo. Quando consegui me controlar melhor, percebi que estava muito, mas muito mal. Não tinha posição para eu ficar na cadeira. Eu estava quase despencando. O pessoal tinha dito que não era para sair da cadeira, era para ficar sentado. Abri os olhos, olhei à volta, as silhuetas das pessoas sentadas. Mas eu não conseguia mais. Temi pelo pior, que eu caísse. Já tinha tirado os óculos. Pensei: “isso aqui vai dar merda se eu ficar sentado; foda-se, afinal não posso ficar sentado!” Lentamente deitei no chão gelado, de lado, encaixei o balde de vômito entre o meu braço e o corpo, na diagonal, em direção à boca, caso tivesse outro acesso de vômito e pensei: “vou ficar quietinho até melhorar”.

Aquela música, aquelas batidas... Quando dei por mim, minha mente explodiu. FOI U-MA COI-SA IM-PRES-SIO-NAN-TE! Nos meus olhos fechados começaram a explodir imagens psicodélicas de todas as cores e bem intensas numa velocidade vertiginosa! A música ficou mega intensa, em muitas vozes extremamente dissonantes, um bagulho avassalador. E parecia que ela girava, ia para longe e voltava cada vez mais avassaladora. Os meus ouvidos explodiram. Eu comecei ouvir absolutamente tudo, supostamente, que estava ocorrendo à minha volta. Tudo gritando em milhões de decibéis na minha mente. Eu não sabia se eram as vozes mesmo ou se eram alucinações. Eu senti todos os músculos e esqueleto do corpo. Cheiros, sabores. Tudo numa intensidade inacreditável. E era totalmente sem controle. Eu não conseguia sair daquilo, eu não conseguia, eu não conseguia! Era como se fosse um sonho intenso, um pesadelo acordado, já que eu estava consciente, mas sem nenhum controle de mim mesmo, totalmente à mercê daquela coisa que estava me triturando. Eu sentia ora meu corpo se debatendo, ora parecia que eu estava voando, sentia um frio pavoroso (talvez porque estava frio e todas as percepções foram intensificadas). Enfim. Fiquei naquela viagem lisérgica não sei quanto tempo até que consegui perceber de novo onde estava.

Percebi que estava no mesmo local, do solo, eu uma posição ligeiramente diferente. Meu dorso estava todo envolvido no meu vômito e uma vontade imensa de urinar. Não teve jeito. Eu me mijei todo. Dali por diante, por um pouco mais de 1 hora, eu fiquei no chão me debatendo, entrando naquela viagem lisérgica, voltando e, na volta, eu percebi que eu me debatia, urrava, falava coisas. A Adriana me disse que estava todo mundo sentadinho, zen, alguns se manifestando de forma um pouco mais intensa, mas todo dentro da normalidade. E eu no chão, estrebuchando e gritando: “PORRA, CADE MEU CORPO, CARALHO! EU PERDI O CONTROLE DELE!” Isso e outras coisas mais. Quem me disse sobre a fala foi a Andreia porque não me lembro direito o que falei no cpmeço de tudo. Quando ouviu meus gritos, zoeiro que sou, ela achou que eu estava zoando e pensou: "Meu Deus, por que o Obadias está fazendo isso? Que vergonha ele está me fazendo passar!" Mas depois ela percebeu que não era zoeira minha: era sério. A galera ficou meio assustada, porque minha reação foi extremamente intensa. Às vezes eu abria os olhos e via as silhuetas das pessoas sentadas, pareciam estátuas de pedra. Os caras em pé batendo o cajado no chão eram seres disformes, pés enormes, eu não conseguia entender direito. Coisa maluca. Eu queria sair daquilo e não conseguia.

Lá pelas tantas comecei a ouvir, explodinho na minha mente, o hino “Grandioso és Tu”. Eu surtei: “que porra é essa? De onde veio esse hino?” E ele soava distorcido, aquela voz cantando e gritando na minha cabeça! Eu me lembrei de que a Andreia disse que, nas suas viagens, ela foi colocada em contato com a sua Andreia mais nova. Ou seja, memórias antigas foram resgatadas. Eu logo pensei: “caralho, esse hino surgiu do nada na minha mente! Mas eu não tenho nenhuma relação especial com ele!!! Que raios ele está fazendo aqui?” E isso durou um bom tempo até que o hino sumiu. Mas não minha viagem lisérgica que continuou a todo vapor. Hoje, pela manhã, perguntei à Andreia se eles tinham colocado “Grandioso es Tu” para tocar e ela disse que sim, como outros hinos e também canções de outras religiões. De fato, eu me lembro de canções do candomblé na parte em que eu estava “bom”, por exemplo. Isso porque, como vai gente de todo tipo de religião, eles tocam músicas de todas as religiões.

Eu não aguentava mais até que terminou a sessão, as pessoas foram voltando para o normal, mas eu não conseguia. Eu fiquei indo e voltando naquela viagem lisérgica. No chão. Ia, voltava. Tinha descargas elétricas intensas no meu corpo e ele pulava. Tudo sem controle. O cara da casa que estava do meu lado tentou me acalmar. Foi dizendo para eu respirar fundo, que tinha acabado, devagar, devagar.... eu tentava respirar bem fundo, soltar o ar, fazia isso duas ou três vezes até ser atropelado por outra viagem lisérgica, eu perdia totalmente o controle, gritava, rugia, o corpo todo estrebuchando, aquele frio insuportável, eu reclamei, o cara disse “é porque você está no chão”. E eu não conseguia voltar.

Acenderam as luzes. Milhões de sóis explodiram na minha cara! Que loucura. Eu devo ter entrado em outra viagem lisérgica. Depois de tanto ir e voltar, tentaram me sentar na cadeira. Me pegaram e me colocaram. Eu me acalmei. Mas a minha mente ouvia milhões de vozes, multidões de falas desconexas com as vozes das pessoas falando à minha volta, tudo numa intensidade muito forte. O pessoal da casa, a Joyce, amiga da Andreia que a introduziu e que foi conosco, me dizendo para manter os olhos abertos porque, fechados, eu viajaria mais ainda. Eu abria os olhos, estalados, retorcendo a boca, a cara, falando coisas desconexas, fazendo sons com a língua, os lábios, me retorcendo na cadeira... tentava olhar as pessoas e elas estavam todas fora de foco, duas ou três imagens, algumas falavam comigo, outras riam, eu tentava responder, pedia ajuda, queria parar com aquilo, mas eu não dizia nada com nada.

Uma das senhoras da casa ficou um bom tempo comigo, com a mão no meu peito, para eu me acalmar. Eu me acalmava um pouco, mas em seguida entrava em outro transe, até sair de novo. Nesses momentos eu não apagava. Eu simplesmente perdia totalmente o controle, via tudo longe, distante, e todas as sensações dos meus sentidos explodiam pelo corpo. A senhora desistiu e me deixou lá. A Joyce e a Andreia ficaram um bom tempo comigo. Eu peguei na mão das duas, como quem implorando pra me tirar daquilo, dizendo que estava mal e elas rindo dizendo que não, que eu estava melhor. “Não estou melhor, estou bem ruim, vocês sabem disso e estão dizendo que estou bem para não me assustar!” Dizia isso da forma mais desconexa possível. Hoje pela manhã, perguntei à Andreia se minha percepção era correta, de que elas e o pessoal da casa estavam preocupados comigo. Ele disse que sim, todo mundo ficou preocupado, mas o pessoal da casa garantiu que iria passar.

Quando já tinha pouca gente na casa, elas resolveram me levar embora. Eu dormiria na casa da Andreia (não era a ideia inicial: eu iria para casa). Chegaram com o carro próximo, algumas pessoas me apoiaram e me colocaram no banco de trás do carro. “Andreia, vou mijar seu carro todo!” “Não tem problema, eu já coloquei algo no banco” (sei lá o que ela pôs). Eu estava com uma manta da casa que puseram sobre meu corpo quando eu não conseguia mais voltar e disse que eu estava todo mijado. Fui com essa manta para o carro.

Foram embora, a Joyce na direção, a Andreia do lado. O carro é da Andreia. Na ida eu o levei. Na volta eu era um louco varrido no banco de trás. E foi exatamente isso que aconteceu. A volta foi difícil, muito difícil. Eu praticamente me desidratei totalmente no banco do carro da Andreia e elas estavam muito nervosas. Elas conversavam, davam risada, mas eu percebia o quanto estavam tensas.

E eu não dava sossego. Estava TOTALMENTE alucinado no banco de trás. O carro morreu algumas vezes, o Maps as mandou dentro de uma favela que tinha uns caras com armas de alto calibre (o lugar era na zona leste e dava pra ir em vias principais, mas o Maps gosta de sacanear e, nervosas como estavam, nem perceberam). Enfim, entraram em um local e foi muito difícil elas manobrarem para sair de lá. Eu me lembro de tudo. Mas eu vi tudo isso em flashes. Porque eu entrava numa piração lisérgica e voltava. E percebia elas falando, dirigindo, querendo sair da favela, parando em semáforos, acredito. Quando eu retornava do transe, voltava falando palavras desconexas, estrebuchando. Aí eu queria ver a rua. Com os olhos estatelados, eu encostava minha testa no carro e tentava olhar para fora. Parecia que eu estava sempre no mesmo local: escuro, com luzes passando e muito concreto. Mesmo na favela, quando elas estavam tentando manobrar, eu só via luzes, escuridão e cimento. Eu tentava focar minha atenção e por um segundo eu conseguia, mas logo as imagens começavam a distorcer e eu não sabia mais onde estava. As vi falando com algumas pessoas nesses momentos. Eu tive a mesma sensação, milhares de vezes aumentada, que eu tive quando assisti pela primeira vez o filme “Amnésia”. Eu me senti dentro do filme, caminhando por lugares que eu não fazia ideia, tudo distorcido, imagens sobrepostas, a noite, as luzes amarelas, o cimento.

E eu estrebuchando dentro do carro e tentando interagir com as meninas quando voltava do transe. Mas eu não falava coisa com coisa. Eu tentava dar palpites para ajudar os problemas da direção, e falava acelerado, as ideias aos borbotões. E depois eu percebi que devia dizer que as meninas estavam bem, dar um apoio moral a elas. Dizia que elas eram maravilhosas, pedia desculpas. Engraçado que, durante a viagem, quando ia falar, eu dizia uma palavra e via na minha mente a palavra seguinte. Tudo numa velocidade alucinante. Eu falava “eu” e via na mente, por exemplo, “quero” vindo do nada para perto de mim em 3D e eu dizia quero, e logo vinha a outra palavra. Num infinito, mudando pelos mais diversos e aleatórios temas. Parecia aquele joguinho do Atari que eu jogava na infância, acho que “Enduro”, à noite, em alta velocidade, que você só vê a faixa branca da pista e tem que, desesperadamente, fazer as curvas e se manter nela. Era a mesma sensação. Bagulho louco!

E nessa viagem lisérgica das palavras, minha mente soltou absolutamente tudo, até as maiores atrocidades. Minha mente é um oceano de devassidão, mas meu “alterego freudiano” me mantém na linha e eu não digo 10% das ideias que explodem nela enquanto estou conversando com as pessoas, claro. Mas, naquela viagem, o chá de ayahuasca tinha posto meu alterego para dormir e eu falei todas as loucuras que me ocorreram sem o menor constrangimento. Para a Andreia e a Joyce. Elas rachavam o bico, porque eu estava muito louco! Eu dizia e saboreava cada palavra daquelas loucuras que estava dizendo e me esborrachava de rir. De repente eu pedia desculpas (meu alterego tentava acordar) mas depois, na próxima verborragia lisérgica, aqui ou ali eu dizia alguma atrocidade entre minhas falas desconexas. E eu não sabia o nome da Andreia. Troquei o nome dela por outros nomes, a todo instante eu lhe perguntava como se chamava... impressionante!

Eu falava, falava, ria, gritava, me debatia no carro, puxava o cabelo da Andreia, apertava os ombros das meninas, pedia desculpas, pulava a cada solavanco do carro (a impressão dos solavancos estava totalmente aumentada) e, entre um delírio e outro e gritava “EU TÔ LOCAÇOOOOOOOO!”  e me esborrachava de rir.

Ao mesmo tempo eu percebia que meu cérebro estava fritando e, como aquilo não passava, o meu eu consciente tentava manter as rédeas do cérebro porque eu tinha a impressão de que, se eu cedesse ao delírio e o deixasse tomar conta de mim, nunca mais eu voltaria. Eu dizia isso para elas, elas diziam que não. Mas eu tinha a impressão de que elas estavam nervosas e só estavam tentando não piorar as coisas. De vez em quando a Andreia me pedia para colaborar, eu tentava, mas no instante seguinte estava totalmente alucinado, fazendo caretas, gritando, rindo, falando merda e morrendo de medo de não sair daquilo tudo. Eu estava preocupado e pedi para elas me levarem no hospital. Elas disseram que não que, depois de um café em melhoraria. Pra quê? Fiquei com a ideia fixas do café. Toda hora eu pedia café para elas. Às vezes me via repetindo “café, café, café... até ser tomado por um novo delírio ou outra ideia absurda me fazer despirocar e falar coisas sem sentido”.

Enfim, a Joyce ficou na sua casa, a Andreia assumiu o volante e foi até à sua. Estava visivelmente nervosa, xingando uns motoqueiros mal-educados. Eu tentava colaborar com ela, mas só atrapalhava. Então eu passei a dizer que ela era maravilhosa, poderosa, linda e que nos momentos de dificuldade da vida ela brilhava como uma verdadeira rainha que era. Coisas do tipo. Tadinha da Andreia. Teve que aguentar tudo isso. E de alguma forma ela chegou na sua casa. Eu não tinha a menor capacidade de identificar os caminhos, absolutamente nada. Para mim era tudo igual.

Ela me disse para falar baixinho porque não queria assustar os filhos que já estavam dormindo, principalmente se eu chegasse gritando putarias. Claro, eu entendi e, no meu surto, enlouquecido, comecei a falar bem baixinho, totalmente surtado, revirando os olhos, fazendo caretas, barulhos com a boca, rindo, qualquer insanidade. Ela entrou, foi buscar um café. Depois de um tempo infinito apareceu com o café. Eu estava repetindo há muito tempo a expressão “não tenho controle, não tenho controle...” Porque, na viagem de volta, em meio ao devaneio lisérgico, eu tentei tirar uma lição de tudo aquilo, porque era o que eles disseram lá (mais ou menos assim). E eu entendi que tudo aquilo foi um curto-circuito da minha mente e que ele foi piorado porque eu estava tentando segurar a onda. A Andreia mesmo me disse: “você é muito intenso, pensa muito, é muito agitado, é muito acelerado, você precisa acalmar sua mente”. Eu: “é verdade, eu tento controlar tudo na minha mente, e eu todo mijado aqui inúmeras vezes é uma metáfora dessa falta de controle que eu preciso”. E fiquei nessa “vibe” de “preciso perder o controle” na metade final da viagem, quando a ideia me ocorreu no meio das viagens lisérgicas.

Ficamos um tempo conversando, a Andreia preocupada comigo, disse para eu entrar na sua casa e tomar um banho. Mas eu não conseguia me levantar do banco e disse para ela ir dormir que eu ficaria ali até melhorar. Claro que ela não foi. E, assim, por volta da 1:30 da manhã, eu tive uma ideia: “Deixa eu gravar um vídeo pra Camila!” Ela me deu o celular, coloquei no local do vídeo, com alguma dificuldade, e gravei. LO-CA-ÇO! Alguns minutos. E depois fui assistir com a Andreia. Dei muita risada enquanto assistia. E, nesse processo de assistir o vídeo, em alguns minutos... TUDO PASSOU! IM-PRES-SIO-NAN-TE! É claro que eu precisei de uns 30 minutos ao menos para ficar 100% mas, no final do vídeo, seu já estava sóbrio. A brisa tinha sumido totalmente.

Entrei na casa da Andreia, ela me deu umas roupas, tomei banho, ela pegou minhas roupas mijadas e vomitadas e pôs na máquina de lavar. Hoje ela manhã estava sequinhas, como se nada tivesse acontecido. E eu não preguei os olhos à noite. ZERO. Ainda estou acordado. O pessoal da casa disse que até terça feira ainda tem vestígios do chá no organismo e depois tudo liberado.

 A experiência da casa, de uma pessoa normal é um transe de cerca de 1 hora depois de tomar o chá. Até eles terminarem a sessão e as pessoas se recomporem. Algumas estão mais afetadas e precisam de ajuda, mas voltam. Eu só me libertei da viagem lisérgica 5 horas depois e temi muito pela minha sanidade mental. Na realidade, me arrependi amargamente de ter tomado o chá enquanto tentava segurar minha mente. E tive uma experiência real e profunda de um total estágio de loucura. A parte sóbria do meu cérebro coletava todas aquelas informações e comparava com o que tenho armazenado sobre o assunto no cérebro e pensava: “A loucura é isso!” É desesperador. Eu tinha medo de nunca mais sair daquilo e ficar totalmente enlouquecido. Mas saí. 

Minha teoria para essa reação exacerbada é a seguinte: tenho pensamento acelerado de tal forma que às vezes tenho a sensação de estar pensando várias coisas ao mesmo tempo, e chego a me perder nas digressões. Esse perfil foi diagnosticado por profissionais. Imagino que esse processamento muito intenso do meu cérebro potencializou o efeito. Também acredito que a tentativa de controlar as alucinações em vez de me render a elas acabou potencializando ainda mais seu efeito. Sobre o pensamento acelerado, acabei de pesquisar no Gemini e faz sentido:


O pensamento acelerado é, em essência, uma mente que salta de um pensamento para outro rapidamente, com dificuldade de focar em uma única ideia. Quando uma pessoa com esse padrão mental ingere ayahuasca, essa hiperconectividade pode ser percebida de forma ainda mais intensa.

Em vez de experimentar um fluxo de pensamento mais livre e conectado, a pessoa com pensamento acelerado pode ter a sensação de que o fluxo de pensamentos se intensifica drasticamente, tornando-se mais caótico e difícil de processar. Isso pode levar a uma experiência avassaladora e até mesmo assustadora, onde a quantidade de informações e sensações é tão grande que o indivíduo não consegue organizá-la ou compreendê-la.

Isso não significa que a ayahuasca seja totalmente desaconselhada para pessoas com essa característica, mas ressalta a importância de cautela. A experiência pode ser desafiadora, e o acompanhamento de profissionais capacitados é fundamental para navegar por esses pensamentos intensos e, talvez, transformá-los em uma experiência de introspecção e autoconhecimento.

É importante notar que a ciência ainda está estudando o potencial terapêutico da ayahuasca em transtornos psiquiátricos. No entanto, o uso da substância é contraindicado para pessoas com histórico de transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, ou para quem está tomando certos medicamentos, pois a interação com o IMAO pode ser perigosa.

Portanto, um cérebro com pensamento acelerado pode, sim, potencializar o efeito da ayahuasca, mas isso pode se manifestar como um fluxo de informações ainda mais intenso e desorganizado, o que exige um cuidado redobrado e um ambiente seguro.

 

Definitivamente, minha experiência não foi de introspecção e autoconhecimento, muito pelo contrário. A propósito, não tenho TDAH, mas sou neurodivergente e meu cérebro tem características cognitivas peculiares, digamos. Não me ocorreu pesquisar sobre o efeito da ayahuasca em quem tem pensamento acelerado, mesmo porque em tudo o que li a respeito, não encontrei nada citando esse perfil. Se eu tivesse lido, certamente não teria ido. Pra que correr riscos? Agora estou com um medinho de ter alguma sequela e vou procurar um neuro essa semana, contar a história e pedir testes para ver se não zoou nada, se isso é possível.

E, claro... nunca mais voltarei a fazer isso, mesmo que a casa dê um retorno e sugira novas sessões, como é de praxe. Nem pensar! Minha mente é uma caixa de Pandora e é melhor deixa-la quietinha no seu lugar.

E, pra finalizar, disse para a Andreia mandar lavar o estofado do carro e me mandar a conta. É o mínimo, né?

sábado, 5 de abril de 2025

Do Funk ao Funk Carioca

 



Nesta semana fazia um exame no Hospital Brasil quando o alarme do meu celular tocou. Perguntei ao médico que fazia o exame:

- Desligo ou você não se importa com o toque?

- Pode deixar, não tem problema. Não sendo funk...

E, logo, acrescentou:

- Você acredita que outro dia veio um paciente cujo toque do celular era funk?

- Eu curto funk – respondi de imediato.

Ele respondeu algo como “é uma questão de gosto...”

Momentos depois, achei importante dar uma carteira:

- Sou músico, escrevo para orquestra, big band, vozes... e curto funk. 

Ele resolveu então mostrar que também tem um pé na música: tem um piano em casa, a mulher gostaria que ele se livrasse do piano mas ele espera aprender a tocar piano algum dia. Eu lhe disse que a prática instrumental é muito boa, mas exige disciplina. Depois de outras “amenidades” musicais, resolvi fechar o assunto:

- Na realidade eu não tenho o hábito de ouvir funk, mas é uma expressão música absolutamente válida.

Não queria irritar o médico, afinal ele estava me dando umas agulhadas ahahahahah. Mas torci para que ele, com o preparo intelectual que possui, fosse capaz de refletir sobre seu preconceito. 


Se eu tivesse ouvido esse episódio de história negra antes do exame, certamente o teria indicado ao médico como uma aula de História para ele. Porque o nosso maior problema é a ignorância, histórica, inclusive. Vemos isso claramente na alucinação coletiva daqueles que não compreendem a gravidade da tentativa de golpe de estado urdida durante todo o mandato do inominável e que culminou com os atos do 8 de janeiro. Como é importante estudar a História! 


Idem com relação ao funk carioca. O que eu mais vejo são pessoas que falam mal do funk carioca e, parte delas, quando conhecem meus “atributos musicais”, mas desconhecem meu conhecimento histórico e capacidade de inclusão, tentam validar comigo seus preconceitos em relação ao funk, achando, ingenuamente, que irei validá-los. O serviço prestado por mais essa bela aula do professor Thiago André, é mostrar as origens orgânicas, culturais do funk carioca e, assim como o samba na sua origem, sofre de todo preconceito e criminalização por parte da sociedade, principalmente da elite, que molda o pensamento do restante da sociedade.


Acredito que o médico, se inteligente for, teria tido oportunidade de rever seu preconceito e perceber o quanto está equivocado somente por ignorar a História e aceitar discursos hegemônicos sem refletir, sem desconfiar.


Link do episódio de História Preta: Do Funk ao Funk Carioca

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Hérnia de disco

 


Em dezembro de 2021 escrevi um relato do meu problema de hérnia de disco para não me esquecer. Estava perdido no meu computador. Resolvi escrever no blog para ficar arquivado de forma mais organizada.


01/12/2021


Há uns 3 meses, enquanto fazia meu crossfit em casa, senti que a lombar estava doendo. Pensei ser algum problema muscular por eu ter feito algo errado. Parei de fazer os exercícios, esperando que a dor sumisse. Não desapareceu. Logo mais, eu teria retorno na reumatologista pra ver um problema antigo nos ossos. Na consulta, ela viu meus exames e disse que eu não tinha mais nada. estava tudo em perfeita ordem.

- E essa dor lombar?

- Deve ser muscular.

Receitou-me um relaxante muscular.


Não sarava, ao contrário, foi piorando a cada dia. Há cerca de 1 mês, com o aumento das dores, resolvi ir no pronto-socorro, sábado à noite. O ortopedista pediu Raio-X da coluna e disse que estava tudo bem. Solicitou uma ressonância magnética. Fiz a ressonância. Voltei dia 17 no ambulatório. O ortopedista que me atendeu me mostrou o resultado e indicou pra mim uma hérnia no final da minha coluna. Disse-me que iria pedir uma infiltração para a assistência médica. Iria demorar pra aprovar (eles tentam não aprovar), logo ele me avisaria por mensagem quando estivesse aprovado. Disse que, se fosse necessário cirurgia, era algo bem seguro, moderno. Explicou-me como seria. Mas sua primeira recomendação era mesmo um tratamento conservador. Receitou-me medicamentos para dor para diminuir o desconforto. Quando a aprovação da infiltração saísse, ele me avisaria. Se eu tivesse melhorado das dores, nem precisaria fazer nada: ele cancelaria o pedido. Comprei os remédios, parei de tomar o relaxante muscular que a reumatóloga havia me receitado e comecei a tomar os remédios receitados pelo neurologista.


No dia seguinte, ao acordar, fui descer as escadas do sobrado. Na metade da escadaria já não aguentava mais de dor. Desci bem devagar, escorando-me no corrimão. No chão, uma dor intensa, tive impressão de que desmaiaria. Sentei-me e chamei a Flávia. Ela veio enquanto eu quase desmaiava e tinha uma síncope (soube depois). Fiquei gemendo muito tempo no chão, sem conseguir articular nada, enquanto ela ligava para o SAMU. Depois de algum tempo fui melhorando, o SAMU ainda não havia chegado, ela cancelou. Depois de melhorar, ainda no chão, percebi que tinha me urinado todo. Tamanha a dor. Meu irmão passou em casa e deu carona para a gente até o hospital. Meu carro estava no conserto.


No hospital, diante do que eu contei, disseram-me que era melhor eu me internar para que eles entendessem melhor o que havia acontecido. Internei-me. Já medicado constantemente contra a dor, fizeram nova ressonância. O neurocirurgião que assumiu o caso veio falar com a gente: minha hérnia estava causando muita dor e eu precisaria fazer uma infiltração imediatamente. Normalmente isso resolve o problema, a menos que o caso seja muito grave. Eu tomaria a infiltração e melhoraria de cara. Agendaram no centro cirúrgico, sedação, infiltração... A dor não passou. Explicaram-me que alguns organismos demoram mesmo pra responder. Era dar tempo ao tempo. Recebi alta no dia 22.


No dia seguinte, 23, estou deitado no sofá, quando o cara da oficina ligou dizendo que o carro estava pronto. Eu lhe perguntei se ele pode trazer o carro até em casa porque eu estava sem condições de caminhar pela rua. depois eu o levaria de volta. Beleza, ele topou. Alguns minutos depois ele para em frente ao meu portão. Ao descer do sofá, distraído, em vez de me apoiar no chão com o pé direito, fiz com o pé esquerdo, o mais afetado pela dor (a hernia de disco estava afetando meu lado esquerdo). A dor foi lancinante. Dei um grito de dor e caí no chão. Tentei de todas as formas voltar para o sofá e gritei para o cara esperar um pouco. Depois de melhorar um pouco, liguei pra ele e disse que minha esposa estava voltando de um curso e estava perto de casa, a pé. Ele se encontrou com ela que resolveu a parada. Ao chegar em casa, encontrou-me gemendo de dor. Ela já estava meio irritada porque eu estava dando muito trabalho, a coisa não melhorava, cacete! Eu falei pra ela deixar que eu esperaria mais que a dor deveria passar. Fiquei umas 2 h gemendo de dor em cima do sofá e não passava. Nesse ínterim, ela foi dormir. Depois de umas 2 h, a dor aumentando, vi que não tinha jeito: joguei-me no chão, minha alma quase saiu pela boca. Tentei me arrastar até o carro. A dor era tanta que eu não conseguia nem me mexer. Gritei por ela. Ela veio. Falei que não tinha mais jeito, tínhamos que ir para o hospital de novo. Mas eu não tinha como sair dali. Sugeri que ela pedisse ajuda dos vizinhos. Tem uma loja de som em frente de casa. Ela pediu para o dono, o Ni, e o cara da loja de lavagem de bancos que estava com ele, ajudarem. Eles vieram na minha sala, pegaram-me e me colocaram no banco de trás do carro. Eu berrava de dor porque qualquer mexida que desse em mim, a dor explodia. Ela foi até o hospital, que não fica longe, eu gritando de dor. 


No hospital, pediram para ela estacionar na vaga de ambulância e uns caras de ambulância me pegaram e me colocaram em uma maca que eles trouxeram. Eu berrando de dor, porque não aguentava mais. Entraram comigo no pronto atendimento e me disseram que iriam aplicar morfina. E enfermeira me disse que a morfina tiraria minha dor imediatamente (porque ela é muito forte). Demorou um bom tempo para a dor sumir, depois que eu tomei a morfina. A dor foi diminuindo aos poucos. Acho que a dor era tanta que nem mesmo a morfina funcionou tão rápido. Na madrugada desse dia, nova ressonância, a 3ª, para eles virem o que havia acontecido: algo deveria ter piorado. Fiquei quase 1h e 20 minutos na máquina. Impressionante. Acho que analisaram até minha alma. No dia seguinte, depois do laudo da ressonância, uma neurocirgiã veio falar comigo explicando que eu poderia tentar o método mais conservador, nova infiltração, ou ir logo para a cirurgia. De qualquer forma, eu já tinha feito uma infiltração 2 dias antes. Se não tinha funcionado da primeira vez, nada garantia que funcionaria da segunda. Eu perguntei o que ela me aconselharia. Ela não aconselhou nada: a decisão teria que ser minha.


No pronto-atendimento, depois que a dor baixara, eu percebera que minha perna esquerda estava dormente e que eu tinha perdido sensibilidade na planta do pé e em parte da parte de trás da perna. A neuro me disse que isso era um problema e que poderia não voltar mais. Significava que a hérnia tinha pinçado meu nervo ciático e causado lesão nele. Por isso, inclusive, a dor tão forte. Se eu quisesse fazer o método conservador, demoraria de 3 a 6 meses para eu melhorar, com o risco de piorar minha lesão no nervo ciático. Nem tinha muito que pensar, né? Operei.


Meu pé esquerdo não funciona mais direito. Agora vou tentar recuperar isso com fisioterapia. Uma amiga me passou uma fisioterapeuta que, segundo ela, faz milagres. Já entrei em contato com ela. Não trabalha com plano de saúde. Logo, terei que pagar do meu bolso mesmo. 80 reais cada sessão. Ela me disse que, se eu puder ir diariamente, consigo me recuperar mais rápido. Fica no Tatuapé (São Paulo), meio fora de mão pra mim que moro em Santo André. Depois que eu retornar ao médico para tirar os pontos, em 15 dias ele vai me fazer os encaminhamentos. Geralmente fisioterapia que trabalha com assistência médica não dá muita atenção para o paciente. É uma bosta.


Ontem saí para caminhar um pouco na rua (recomendação médica de caminhar cerca de 30 minutos por dia). Fui cortar o cabelo. Fiquei impressionado com minha dificuldade para caminhar, agora que estou "coxo". Senti na pele o que é ser uma pessoa com limitação física. Impressionante. O esforço para caminhar, a dificuldade das calçadas, como é bem mais difícil subir uma ladeira! Complicado mesmo...


Ah... internei-me no Hospital Brasil. Atendimento fora de série. Praticamente tirei férias. Acomodações estupendas no quarto, comida farta e boa. Vida mansa, ahahahahahah! E o pessoal supersimpático. Muito bom mesmo.


sábado, 3 de julho de 2021

Eu ri



Entrega para a Flávia.

Entregador me entrega e pede meus dados.

Enquanto vou falando, ele, de cabeça baixa, vai anotando no celular.

- O que você é dele?

Dele??? – pensei

- Marido.

Os eventos dos próximos segundos se dão em câmera lenta:

Vagarosa e instintivamente, sem se dar conta, interrompe o que estava fazendo, tira os olhos do celular e aos poucos, de baixo para cima, sua mirada chega no meu rosto.

- Pensou que fosse Flávio?

Meio perdido na explicação, ele se enrola um pouco mas consegue encontrar uma resposta desconexa para minha pergunta:

- Não, é que eu preciso pegar seus documentos, saber se você é parente.

- Ah, ok.

Finaliza suas anotações e se despede:

- Bom dia, Deus abençoe.

- Amém – respondo, para sacramentar o alívio que ele deve ter sentido.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Ciclo de vida

 Uma seita, se muito bem-sucedida, torna-se uma religião. Uma religião, por mais bem-sucedida que seja, com o tempo acaba se tornando uma mitologia. A História está aí para demonstrar isso. 

Mitologias servem para explicar o mundo, nossas origens, para onde vamos, é uma maneira de dar respostas a esses mistérios de uma forma que sejamos capazes de assimilar. A diferença entre mitologias e religiões, além do tempo, é que o distanciamento histórico nos permite enxergar as mitologias pelo que elas são, apenas narrativas fantasiosas, enquanto pensamos serem as religiões fatos. 

Certamente as narrativas mitológicas surgem de acontecimentos que, pela tradição oral, vão ganhando contornos cada vez mais míticos, com novos ingredientes épicos e sobrenaturais, que criam um grupo de seguidores fervorosos à memória deles (seita), que podem subsistir ao tempo (religião), até que gerações em um futuro longínquo não acreditem mais na literalidade deles (mitologia).

O que importa realmente disso tudo é o que fazemos com isso: se usamos essa nossa crença (religiosa) ou diálogo (mitológico) para nos tornarmos pessoas melhores.



domingo, 31 de janeiro de 2021

Apito amigo

Fabio é meu primo rico. Nem tão rico assim. Mas, pra quem é muito pobre, qualquer um que esteja acima da linha da pobreza é rico. Ele estudou o colégio, hoje ensino médio, em uma escola pública, é verdade, mas em uma região de gente mais endinheirada. Era uma escola bastante tradicional, concorrida e que, dentre outras características, se destacava nos esportes. Seu colégio sempre batia cartão nos jogos interescolares.

A classe que lhe foi assignada no 1º colegial era uma combinação bem interessante e, do ponto de vista dos esportes, bastante feliz. Ele não tinha grandes habilidades esportivas, mas seus colegas de classe eram insuperáveis. Por isso mesmo, logo no primeiro ano, o time de futebol da sala ganhou o campeonato de futebol de campo da escola. Que, a propósito, tinha em suas dependências, um belo campo de futebol.

É verdade, ganharam, mas era uma classe muito problemática e arruaceira. Matavam aula, pulavam o muro da escola nas horas vagas e aprontavam presepadas na vizinhança, por exemplo. Qualquer confusão na escola e poderiam apostar: a sala do Fabio estava de alguma forma envolvida. Isso foi no 1º ano, no 2º e no 3º. Era uma turma muito coesa, apesar de haver alguns alunos na sala que não faziam parte das piores traquinagens. Com o tempo, tais arruaceiros se tornaram “personas non grata” na escola.

Mas o fato é que aquela turma era invencível no futebol. No segundo ano faturou o campeonato também. Isso só aumentou a rivalidade com os demais e o sentimento geral, no colégio, de que aquilo não estava certo: como pode uma turma de arruaceiros levar o caneco 2 anos seguidos o torneio mais tradicional da escola, praticamente um patrimônio de sua rica história?

No 3º ano botar a mão no caneco eram praticamente favas contadas. Mas o clima de animosidade na escola estava cada vez pior: tem que haver um jeito de parar esses marginais! E, como são essas coisas do destino, em uma das semifinais do torneio, estava a sala do meu primo Fabio e um time formado por um misto de alunos da escola, a maioria deles monitores.

Monitores, naquele tempo, eram alunos mais aplicados, mais “inteligentes”, que aprendiam melhor a matéria e depois davam aula de reforço para seus colegas em dificuldade. Nem precisa dizer que eram os queridinhos dos professores e uma espécie de heróis na escola: está em dificuldade na matéria? Procure um monitor em um horário alternativo. E os caras eram muito gente boa. Não tinha como não gostar deles.

E lá estava, numa das semifinais, o time de arruaceiros contra o time de monitores, que também jogavam uma bola redonda demais. Foi todo um evento. Meu primo Fabio estava tão empolgado com a ideia que cedi ao seu convite e fui lá assistir o “histórico” jogo. Afinal, o clima na escola era pura tensão: de um lado a classe dos arruaceiros e vários simpatizantes, alguns fanáticos até, torcendo pelo time, do outro lado o restante da escola, sangue nos olhos, uma sede insaciável de “justiça”, de acabar a raça com aquela quadrilha de marginais safados que, como é possível, tinha destruído a gloriosa tradicional futebolística da escola, com figuras tão detestáveis no time, com sua malandragem insuportável que, de alguma forma, os tornava invencíveis no campo. Mas dessa vez era diferente: o selecionado de monitores era bala e tinha o apoio mais que empolgado da maioria absoluta do colégio. E você sabe como é jogo de futebol: metade da vitória está nas arquibancadas.

Cheguei ao campo, as arquibancadas, que não eram tão grande já estavam lotadas, gente saindo pelo ladrão, uns pendurados nos ombros dos outros, aquele clima de tensão eletrizando no ar. O jogo começa.

Bem, não existe jogo de futebol sem juízes e bandeirinhas, não é mesmo? Dada a tensão do jogo, chamaram um treinador de futebol de outra escola para apitá-lo e professores do mesmo colégio fizeram papel de bandeirinha. Geralmente juízes são pessoas mais discretas, mas naquele dia tudo foi diferente. Parecia que o juiz queria roubar a cena. 

Foi uma das arbitragens mais controversas da história do torneio daquela história. Eu estava lá, eu me lembro bem. Até mesmo eu, que não sou especialista em futebol, fiquei chocado. O juiz massacrou o time de arruaceiros da classe do meu amigo. Qualquer esbarrão, mesmo acidental, contra um jogador dos monitores... falta! Qualquer olhada atravessada contra o juiz... cartão amarelo! Reversão de cobrança de lateral foi mato naquele dia. E o público da escola estava histérico. A gritaria era generalizada. Eu nunca estive em um espetáculo do Coliseu da Roma antiga, mas estava me sentindo naquele lugar. Na arena, uma disputa de sangue com um lado apanhando bonito do juiz, era o que meu bom senso me dizia. Nas arquibancadas, o público vibrando, torcendo, urrando a cada estocada contra o time de arruaceiros, o grito entalado nos anos anteriores agora liberado com toda força. Para essas pessoas, finalmente se fazia justiça, os arruaceiros estavam aprendendo uma grande lição, a gloriosa tradição futebolística do colégio sendo restaurada pela firme e justa mão daquele árbitro que ganhava a estatura de um super-homem.

Eu chocado. O Fabio exultante.

Ah, não contei? Pois é. Apesar do orgulho de fazer parte de uma classe tão talentosa nos esportes, meu primo foi aos poucos sendo convencido que aquele time era uma vergonha para a escola, manchava sua história, nunca a escola tinha sido tão humilhada com um grupo de marginais como aquele. Então meu primo também queria que a justiça fosse feita e, para ele, a justiça estava sendo feita com louvor. Eu estupefato. Nem tanto com a atitude do juiz e dos bandeirinhas, que já era deplorável, mas com a reação das demais pessoas. A impressão é que estávamos vendo jogos bem diferentes. Eu via um grande circo armado, as pessoas viam o espetáculo da justiça sendo feito por pessoas acima de qualquer julgamento, os adorados monitores, o técnico da outra escola, os professores como bandeirinhas.

O jogo se arrastou em um doloroso zero a zero, apesar da surra que o time de arruaceiros estava tomando do árbitro que, na minha leitura, tinha assumido um lado na disputa. Mas, na metade do 2º tempo... pênalti! Meu, aquilo foi ridículo. Um dos monitores se jogou na área, no melhor estilo de um telequete, e lá foi o juiz com seu apito decretar a derrota do time de arruaceiros. Claro que o jogador do time de monitores caprichou, sepultou a bola no fundo da rede e, dadas as condições de jogo, não tinha como o time de arruaceiro reverter o resultado.

Então, o desejado, o aspirado ardentemente, o maior anseio da maioria da escola se concretizou: o time de marginais não iria para a final. E tudo isso em um jogo histórico, épico, em que a justiça teria sido feita.

Saí de lá bastante decepcionado. Conversei muitas vezes depois com o Fabio sobre aquele que foi um dia trágico para mim, glorioso para ele. 

- Mas Fábio, você não viu que o juiz foi totalmente parcial?

- Que parcial, virou torcedor do time de marginais?

- Não é questão de torcer para o time de marginais, até eu que não sou especialista em futebol vi os absurdos!

- Do que você está falando? Eu vi um juiz correto, que apitou certinho, tudo de acordo com as regras.

- De acordo com as regras? Você não viu que as vezes o juiz conversava com o treinador do time de monitores? Desde quando juiz faz isso?

- Ué, o que tem a ver? Você não entende nada mesmo, né? Isso é comum. De repente o treinador queria falar alguma coisa sobre a grama, a posição do sol, sei lá.

- Cara, não é possível! Aquilo foi um espetáculo patético, uma palhaçada!

- Ah vá... Não é você que estuda na escola! Você não conhece esses caras. Eu estudo com eles, eu conheço. Eles precisavam ser parados mesmo. E foram parados! A justiça foi feita.

- Parados daquele jeito, roubando? Isso é justiça? Você enlouqueceu? E você viu como as pessoas gritavam o nome do juiz a cada falta que ele dava contra o time da sua classe? O cara estava todo pimpão. Aquele juiz deve ser um cara muito vaidoso para se deixar levar pelo orgulho daquele jeito.

- Nada a ver, cara! O juiz foi corretíssimo. Fez tudo direitinho. O resultado foi mais do que justo e, o melhor, o time foi eliminado. O juiz foi o herói do jogo.

- Cara, estou chocado... E aquele pênalti? De onde o juiz tirou aquilo? Do orifício corrugado onde não bate nossa estrela mãe?

- Se liga, cara, o pênalti foi justíssimo. Estou achando engraçado você. Nem conhece os caras e agora está de mimimi. Algumas pessoas que já participaram dos treinos do time da minha classe disseram coisas horríveis. Esses caras são muito escrotos. As pessoas odeiam eles!

- OK, tudo bem que odeiem pelo motivo que for, mas isso não é razão para simplesmente esquecerem as regras do jogo e exibirem aquele espetáculo tão patético. Ridículo, primo.

- Cara, os professores da escola estavam lá, os bandeirinhas eram professores. Então você quer dizer que todo mundo estava conspirando contra o time de marginais? Os marginais são uns coitadinhos injustiçados pelos professores, diretores e você está certo?

- Fabio, enfia uma coisa na sua cabeça: o fato de os professores não dizerem nada não quer dizer que não foi roubado. De repente os professores no fundo também queriam ver a derrota do time e se fingiram de mortos, tacitamente deram seu apoio àquele espetáculo dantesco. Pelo jeito você não conhece a natureza humana mesmo...

- Pronto, agora seu inteligentão, arrogante, vem me ensinar como funciona a natureza humana...

Enfim, até hoje conversamos sobre aquele episódio fatídico e o Fabio segue inflexível com a leitura de um jogo que eu jamais enxerguei.

Não bastasse, na confusão do resultado, entre a loucura das pessoas que estavam comemorando a vitória do time dos monitores, alguém surrupiou a mochila do treinador da outra escola e, depois que a poeira baixou, divulgou anonimamente imagens de uma caderneta que encontrou na mochila, onde o juiz tinha anotações de algumas estratégias acordadas entre o técnico do time de monitores para garantir que a efetividade do time de marginais fosse prejudicada. Até mesmo o pênalti tinha sido previsto como plano B, caso houvesse o risco de o time de monitores não ganhar.

Obviamente que isso virou um escândalo e acabei sabendo. Mas para as pessoas que queriam ver o time fora do campeonato, aquilo não importava, era um “mal” menor, já que o maior benefício tinha sido alcançado: ao menos tiramos o time do campeonato. E mais, tais pessoas ainda conseguiam utilizar uma justificativa que me parecia surreal: “aquela caderneta foi roubada, ela não pode ser considerada para nada!” Não é espantoso? Uma caderneta que exibe os planos de um roubo não deve ser considerada porque essa caderneta só veio a público por meio de um roubo. Dá pra aguentar a moral dessas pessoas? E as explicações e minimizações que o árbitro do jogo deu sobre tais anotações? Um completo disparate. Só alguém muito cara de pau pra dizer aquilo. Mas, o mais triste mesmo foi ver quase todo mundo batendo palma e celebrando que, finalmente, a justiça tinha sido feita e aquele time de marginais tinha sido extirpado da competição.

Numa das conversas com meu primo eu lhe disse que nós, seres humanos, somo assim mesmo, muito contraditórios. Quando queremos muito algo, quando temos muita raiva, quando pensamos com a bile, não com o cérebro, aceitamos todo tipo de absurdo e fazemos toda a ginástica possível para justificar o injustificável, num profundo exercício de auto engano que permita nosso intelecto absorver o absurdo que for. Em esportes, principalmente no futebol, como as emoções contam muito, é até compreensível que isso aconteça. E, no final das contas, um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol. O problema mesmo é quando incorporamos essa moral dúbia e depois levamos esse tipo de comportamento para áreas mais “sérias” de nossas vidas, a política, por exemplo. Nesse caso, o estrago pode ser grande.