sábado, 8 de agosto de 2026

Sobre o filme "Odisseia"

 


Nunca li a Ilíada nem a Odisseia. Em tese, sou desqualificado para emitir juízo sobre o filme Odisseu de Nolan. Mas, dado que a coisa está hypada e fui assistir o filme ontem, resolvi fazer meus comentários sobre. Comecemos pela minha falta de qualificação para opinar, já que a internet hoje em dia é um esgoto a céu aberto coalhado de boçais emitindo todo tipo de juízo sobre assuntos que eles jamais fazem ideia: eu não li as obras literárias, é fato, mas como curioso e interessado sobre a mitologia grega, desde muito me debruço sobre o tema, dado o fascínio que ele exerce sobre mim. Pronto, não sou um especialista no assunto, mas também não vou aqui ficar repetindo coisas que vi por aí, feito um papagaio que repete o que ouviu sem ter ideia se o que ouviu faz sentido ou não. E, sobre isso, vi muita gente embasada fazer críticas ao filme que me pareceram bastante razoáveis. Não quero criticar o filme, não me cabe na minha posição na fila do pão, mas quero fazer uma digressão sobre minha impressão a respeito.

Meu parâmetro "gato escaldado foge de água fria" com Odisseia era o retumbante fracasso (para mim) do filme Tróia. Eu o assisti anos atrás e nem me lembro direito dos detalhes. O que ficou da experiência foi uma preguiça infinita porque, além de despojá-lo totalmente da perspectiva mítica (os deuses do Olimpo brigando entre si e os humanos são apenas marionetes), mudou partes fundamentais da história, criando um contexto maniqueísta insuportável para mim além de mudar o final da história para caber dentro de uma narrativa mega empobrecida hollywoodiana. Enfim, uma perspectiva intragável para mim. O apuro técnico do filme não significa nada se ele estraga de forma tão "olímpica" uma narrativa grega tão singular. Tróia poderia ter eliminado muito da transcendência da tradição da mitologia grega, sem fazer o estrago (a meu gosto) que fizeram na história, inclusive aspectos tão fundamentais e que subvertem toda a canonicidade da história, um desserviço inexplicável (para mim) ao legado dessa história na cultura ocidental. O filme Tróia simplesmente "cagou" a história (já deu pra perceber como detestei o filme, né? ahahahahah).

Nesse caso vale uma digressão antes de prosseguir. Tenho problemas quase intransponíveis de narrativas fantasiosas padrão "O Senhor dos Anéis". Assisti a trilogia num misto de curiosidade e obrigação, mas confesso que nunca me pegou. Já pensei em assistir novamente somente para ver se minha impressão muda. Filmes que mostram monstros, dificuldades gigantescas com a natureza dentro de uma perspectiva fantasiosa, esse tipo de coisa não pega. Monstros e imagens muito bem produzidas me impressionam ZERO! O que me impressiona é a profundidade dos personagens, os significados e, no caso dos mitos gregos, a transcendência daquilo tudo (inclusive pelo tanto que influenciou a cultura ocidental). Mas é característica minha e sei de muita gente que fica em estado de graça diante desse tipo de narrativa.

O que me pega mesmo é narrativa fantasiosa tipo a série "Cem Anos de Solidão" da Netflix. Para mim, que li 2 vezes "Cién Años de Soledad", aquela série é um deslumbramento poético que me põe em contato com o belo. Não duvido que possa haver pessoas deslumbradas com "O Senhor dos Anéis" e que não sejam pegas pela série da Netflix. Tem outra coisa que a série da Netflix se preocupa e que não é preocupação do filme Tróia, até porque são dois tipos de produtos diferentes: é impossível fazer mergulhos próximos em uma obra literária em formatos diferentes: filme ou série. Na série dá para aprofundar muito mais, no filme isso não é possível. Isso me lembra também a série extremamente poética, "Capitu", que faz uma releitura de "Dom Casmurro" sem estragar a história mas levando a um aprofundamento e expansão do universo retratado na obra original. Ovídio, por exemplo, faz isso em relação aos poemas gregos em suas obras. Bom explicar isso para entender melhor minha experiência com "Odisseia".

Minha expectativa com Odisseia era "ai meu deus, estarei diante de uma nova Tróia?". Preferia não cair na esparrela "não assisti, não gostei", embora tenha sucumbido à tentação de dar meus pitacos mesmo antes de ir ao cinema. Enfim, fui assistir ao "trambolho" (olha minha má vontade prévia ahahahahah) de 3 h. Fui preparado para lutar contra o sono, expectativa que se confirmou. Pelos motivos explicados acima, os dois primeiros terços do filme foram chatos e cansativos para mim. Filme interessante? Sem dúvida, mas não o suficiente para me levar a um cinema IMAX. Isso já diz muito sobre o quanto o apelo técnico é o menos importante para mim. Lutei contra o sono 2 terços completos do filme.

Até que veio o terço final e eu acordei. E o filme ficou muito interessante. E, no final das contas, gostei demais do filme por conta de como Nolan o finalizou. O que me pegou, principalmente, foram duas coisas: o peso dado à jornada de Odisseu com sua reflexão no final, e a minha torcida por ele — não é spoiler, está na tradição grega — quando bota para “correr” os pretendentes da sua inquebrável Penélope. Não pretendia entrar em digressões sobre o que Nolan teria feito com a obra literária grega porque há gente demais capacitada para isso. Mas apenas que já não caio mais na armadilha "não assisti e não gostei". O que posso dizer é que "assisti e gostei". E bastante. Por conta de como as coisas são finalizadas. É um filme raso se comparado à tradição grega, mas eu penso ter entendido as escolhas de Nolan, seu objetivo e o que importa de fato nesse tipo de cinema: "filmar um épico que arraste multidões, que tente quebrar recordes de arrecadação e que se estabeleça, de alguma forma, como um marco na linguagem hollywoodiana do momento".

E aqui está o grande trunfo de Nolan frente a um fiasco como Tróia: enquanto Tróia esvaziou a essência da história para fazer um filme de ação genérico, Nolan, mesmo fazendo suas simplificações para o grande público, preservou o núcleo moral e a densidade do mito. Nolan está errado em fazer isso? Claro que não! Vejo problema em pegar um clássico como Odisseia e dar o tratamento que ele deu? Apesar da minha posição na fila do pão, vejo problema algum! Maniqueísmos e simplificações à parte, achei que ele amarrou tudo magistralmente, fez sua reflexão filosófica dentro dos limites palatáveis à sociedade moderna, já está bem mais rico e ainda vai garantir a diversão de muita gente sem fazer o desserviço ao cânone histórico que o filme Tróia perpetrou, por exemplo.

Mandou bem, hein, Nolan?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Me respeita!

 



Hoje, no Pilates:
Sadissa, a professora do período matutino, enquanto comentávamos algo sobre minha condição física:
— Quantos anos você tem?
— Quantos pareço ter?
— Uns 48.
— Chegou perto. 
Viro para Cansada de Guerra, uma amiga de academia, e lhe pergunto:
— E aí, quantos anos?
— Hum... entre 50 e 52.
— Por aí.
— Quantos anos? — insiste Sadissa.
— 56.
— A idade do meu pai!
Reflete um pouco e acrescenta:
— Nossa, meu pai está rodando sem óleo!
Eu arremato:
— Tá vendo? Tenho idade pra ser seu pai. ME RESPEITA!
Porque essas oportunidades a gente não pode perder 😅.


domingo, 10 de agosto de 2025

Minha experiência SURREAL com a ayahuasca



Outro dia a Andreia me contou: “Obadias, fui tomar um cha de ayahuasca com uma amiga. Foi sensacional!” “Me conta tudo!” Ela me contou sua experiência sensacional. Achei demais. Eu lhe disse: “da próxima vez, me chama, sempre tive curiosidade”.
  

Não tenho curiosidade em drogas, mas confesso que sempre tive curiosidade em alucinógenos, para experimentar como seria uma alucinação. Meu interesse aumentou depois de saber do livro “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley, em que ele descreve sua experiência com o uso da mescalina, um alucinógeno psicodélico retirado de um cacto na cultura mexicana há séculos. Embora não tenha lido o livro, ele relata como o uso da mescalina expandiu sua mente através da intensificação das suas percepções. Eu fiquei pensando se, ao usar um alucinógeno, eu poderia experimentar alguma coisa parecida e, de repente, ter algumas ideias musicais diferentes. Nunca se sabe, né?

Eu já recebera alguns convites muito ocasionais, mas como nunca foi nada viável, nunca dei muita importância. Daí a Andreia me faz esse convite. Perfeito! Mas, sabe como é: sempre dá um medinho na gente, né? Pesquisei bastante para me certificar de que o risco era baixo, assisti documentário e vi que o risco é real para pessoas com problemas de esquizofrenia, por exemplo. Não é o meu caso. Minhas sobrinhas Camila e Letícia foram enfáticas que era muito arriscado e que não valia a pena correr o risco. Minha justificativa sempre foi: “sim, sempre existe um risco, mas, em se tratando de pessoas saudáveis, o risco é baixíssimo, eu teria que ser muito azarado pra dar ruim”. Um amigo, o Fabio, também me contou das suas experiências de algumas sessões com ayahuasca e, embora tenham sido bem lisérgicas e intensas, foi ali no momento da “consagração”, como eles dizem e, finalizado o ritual, ele esperou melhorar e foi para casa. Enfim, a mesma experiência da Andreia. Portanto, o que poderia dar de ruim pra mim, não é mesmo?

Outro aspecto que eu considerava a meu favor é o fato de eu ser 0% místico e 100% cético além de ser extremamente racional. Então eu não embarco fácil em viagens mentais. Já fumei maconha algumas vezes, tragando – claro – e, enquanto as pessoas à minha volta ficavam totalmente brisadas, eu só tinha sono, um sono terrível. Eu poderia ter uma experiência intensa como a da Andreia e do Fabio, ou apenas não sentir nada, como na maconha. Eu até acreditava mais na segunda hipótese. Eu não poderia estar mais enganado.

Na semana, preenchi uma anmese bem completa enviada pela casa e fomos ontem, sábado, 09/08, para o local. Chegando lá foi tudo muito tranquilo, extremamente organizado, eles foram muito cuidadosos, explicando todos os detalhes, enfim. Explicaram que algumas pessoas passariam mal, principalmente da primeira vez, mas é o processo da “limpeza” e que, por pior que elas passassem durante, poderiam ficar tranquilas que, no final, voltariam à normalidade. O processo são 2 goles de chá no espaço de 4 h. o primeiro por volta das 18:30, o segundo por volta das 20 h. Eles afirmaram que não era obrigatório tomar os dois.

Tomei o primeiro chá e fiquei sentado na cadeira, o pote de vômito embaixo dela. 1,5 h daquela aporrinhação toda: músicas, algumas pessoas vomitando, outras gemendo e eu... nadica de nada. Eu tentava de todas as formas me desligar para ver se o chá causava algum efeito em mim. Nada. Fui 2 vezes ao banheiro, porque fiquei apertado. E só. O ambiente à meia luz, diversos incenso rolando, música indígena tocando, o pessoal da casa com uns cajados enormes que lembravam berimbau batendo no chão... criava todo aquele clima. Beleza.

Decidi não tomar o segundo chá porque, se não tinha batido o primeiro, pra mim já tinha dado. Perguntei pra Andreia, que estava sentada um pouco distante, se ela tomaria o segundo chá, ela disse que não. Mais tarde ela me contou que, já na primeira dose, ela teve sua sensacional experiência místico-alucinógena. Um rapaz da casa veio me perguntar se eu tomaria o segundo chá. Eu disse que não. Ele insistiu bastante, dizendo que o segundo era importante porque – não me lembro a expressão que ele usou – eu iria me destravar. Ele insistiu tanto que eu pensei: “já que estou aqui mesmo...” Fui pra fila e falei pra Andreia: “já que estou aqui... bora!” Tomei a segunda dose e fui me sentar. A Andreia tinha entrado na fila também para tomar.

Recomeça todo o processo: todos sentados, relaxados, a música indígena tocando, as batidas no chão, aquela meia luz, os incensos... Comecei a passar mal. MUITO MAL. Comecei a ter ânsia de vômito. Aquela coisa desesperadora e o vômito não vinha. Eu não tinha quase nada no estômago. Até que comecei a vomitar. Não era muita coisa, mas eu vomitei um tempo. Quando consegui me controlar melhor, percebi que estava muito, mas muito mal. Não tinha posição para eu ficar na cadeira. Eu estava quase despencando. O pessoal tinha dito que não era para sair da cadeira, era para ficar sentado. Abri os olhos, olhei à volta, as silhuetas das pessoas sentadas. Mas eu não conseguia mais. Temi pelo pior, que eu caísse. Já tinha tirado os óculos. Pensei: “isso aqui vai dar merda se eu ficar sentado; foda-se, afinal não posso ficar sentado!” Lentamente deitei no chão gelado, de lado, encaixei o balde de vômito entre o meu braço e o corpo, na diagonal, em direção à boca, caso tivesse outro acesso de vômito e pensei: “vou ficar quietinho até melhorar”.

Aquela música, aquelas batidas... Quando dei por mim, minha mente explodiu. FOI U-MA COI-SA IM-PRES-SIO-NAN-TE! Nos meus olhos fechados começaram a explodir imagens psicodélicas de todas as cores e bem intensas numa velocidade vertiginosa! A música ficou mega intensa, em muitas vozes extremamente dissonantes, um bagulho avassalador. E parecia que ela girava, ia para longe e voltava cada vez mais avassaladora. Os meus ouvidos explodiram. Eu comecei ouvir absolutamente tudo, supostamente, que estava ocorrendo à minha volta. Tudo gritando em milhões de decibéis na minha mente. Eu não sabia se eram as vozes mesmo ou se eram alucinações. Eu senti todos os músculos e esqueleto do corpo. Cheiros, sabores. Tudo numa intensidade inacreditável. E era totalmente sem controle. Eu não conseguia sair daquilo, eu não conseguia, eu não conseguia! Era como se fosse um sonho intenso, um pesadelo acordado, já que eu estava consciente, mas sem nenhum controle de mim mesmo, totalmente à mercê daquela coisa que estava me triturando. Eu sentia ora meu corpo se debatendo, ora parecia que eu estava voando, sentia um frio pavoroso (talvez porque estava frio e todas as percepções foram intensificadas). Enfim. Fiquei naquela viagem lisérgica não sei quanto tempo até que consegui perceber de novo onde estava.

Percebi que estava no mesmo local, do solo, eu uma posição ligeiramente diferente. Meu dorso estava todo envolvido no meu vômito e uma vontade imensa de urinar. Não teve jeito. Eu me mijei todo. Dali por diante, por um pouco mais de 1 hora, eu fiquei no chão me debatendo, entrando naquela viagem lisérgica, voltando e, na volta, eu percebi que eu me debatia, urrava, falava coisas. A Adriana me disse que estava todo mundo sentadinho, zen, alguns se manifestando de forma um pouco mais intensa, mas todo dentro da normalidade. E eu no chão, estrebuchando e gritando: “PORRA, CADE MEU CORPO, CARALHO! EU PERDI O CONTROLE DELE!” Isso e outras coisas mais. Quem me disse sobre a fala foi a Andreia porque não me lembro direito o que falei no cpmeço de tudo. Quando ouviu meus gritos, zoeiro que sou, ela achou que eu estava zoando e pensou: "Meu Deus, por que o Obadias está fazendo isso? Que vergonha ele está me fazendo passar!" Mas depois ela percebeu que não era zoeira minha: era sério. A galera ficou meio assustada, porque minha reação foi extremamente intensa. Às vezes eu abria os olhos e via as silhuetas das pessoas sentadas, pareciam estátuas de pedra. Os caras em pé batendo o cajado no chão eram seres disformes, pés enormes, eu não conseguia entender direito. Coisa maluca. Eu queria sair daquilo e não conseguia.

Lá pelas tantas comecei a ouvir, explodinho na minha mente, o hino “Grandioso és Tu”. Eu surtei: “que porra é essa? De onde veio esse hino?” E ele soava distorcido, aquela voz cantando e gritando na minha cabeça! Eu me lembrei de que a Andreia disse que, nas suas viagens, ela foi colocada em contato com a sua Andreia mais nova. Ou seja, memórias antigas foram resgatadas. Eu logo pensei: “caralho, esse hino surgiu do nada na minha mente! Mas eu não tenho nenhuma relação especial com ele!!! Que raios ele está fazendo aqui?” E isso durou um bom tempo até que o hino sumiu. Mas não minha viagem lisérgica que continuou a todo vapor. Hoje, pela manhã, perguntei à Andreia se eles tinham colocado “Grandioso es Tu” para tocar e ela disse que sim, como outros hinos e também canções de outras religiões. De fato, eu me lembro de canções do candomblé na parte em que eu estava “bom”, por exemplo. Isso porque, como vai gente de todo tipo de religião, eles tocam músicas de todas as religiões.

Eu não aguentava mais até que terminou a sessão, as pessoas foram voltando para o normal, mas eu não conseguia. Eu fiquei indo e voltando naquela viagem lisérgica. No chão. Ia, voltava. Tinha descargas elétricas intensas no meu corpo e ele pulava. Tudo sem controle. O cara da casa que estava do meu lado tentou me acalmar. Foi dizendo para eu respirar fundo, que tinha acabado, devagar, devagar.... eu tentava respirar bem fundo, soltar o ar, fazia isso duas ou três vezes até ser atropelado por outra viagem lisérgica, eu perdia totalmente o controle, gritava, rugia, o corpo todo estrebuchando, aquele frio insuportável, eu reclamei, o cara disse “é porque você está no chão”. E eu não conseguia voltar.

Acenderam as luzes. Milhões de sóis explodiram na minha cara! Que loucura. Eu devo ter entrado em outra viagem lisérgica. Depois de tanto ir e voltar, tentaram me sentar na cadeira. Me pegaram e me colocaram. Eu me acalmei. Mas a minha mente ouvia milhões de vozes, multidões de falas desconexas com as vozes das pessoas falando à minha volta, tudo numa intensidade muito forte. O pessoal da casa, a Joyce, amiga da Andreia que a introduziu e que foi conosco, me dizendo para manter os olhos abertos porque, fechados, eu viajaria mais ainda. Eu abria os olhos, estalados, retorcendo a boca, a cara, falando coisas desconexas, fazendo sons com a língua, os lábios, me retorcendo na cadeira... tentava olhar as pessoas e elas estavam todas fora de foco, duas ou três imagens, algumas falavam comigo, outras riam, eu tentava responder, pedia ajuda, queria parar com aquilo, mas eu não dizia nada com nada.

Uma das senhoras da casa ficou um bom tempo comigo, com a mão no meu peito, para eu me acalmar. Eu me acalmava um pouco, mas em seguida entrava em outro transe, até sair de novo. Nesses momentos eu não apagava. Eu simplesmente perdia totalmente o controle, via tudo longe, distante, e todas as sensações dos meus sentidos explodiam pelo corpo. A senhora desistiu e me deixou lá. A Joyce e a Andreia ficaram um bom tempo comigo. Eu peguei na mão das duas, como quem implorando pra me tirar daquilo, dizendo que estava mal e elas rindo dizendo que não, que eu estava melhor. “Não estou melhor, estou bem ruim, vocês sabem disso e estão dizendo que estou bem para não me assustar!” Dizia isso da forma mais desconexa possível. Hoje pela manhã, perguntei à Andreia se minha percepção era correta, de que elas e o pessoal da casa estavam preocupados comigo. Ele disse que sim, todo mundo ficou preocupado, mas o pessoal da casa garantiu que iria passar.

Quando já tinha pouca gente na casa, elas resolveram me levar embora. Eu dormiria na casa da Andreia (não era a ideia inicial: eu iria para casa). Chegaram com o carro próximo, algumas pessoas me apoiaram e me colocaram no banco de trás do carro. “Andreia, vou mijar seu carro todo!” “Não tem problema, eu já coloquei algo no banco” (sei lá o que ela pôs). Eu estava com uma manta da casa que puseram sobre meu corpo quando eu não conseguia mais voltar e disse que eu estava todo mijado. Fui com essa manta para o carro.

Foram embora, a Joyce na direção, a Andreia do lado. O carro é da Andreia. Na ida eu o levei. Na volta eu era um louco varrido no banco de trás. E foi exatamente isso que aconteceu. A volta foi difícil, muito difícil. Eu praticamente me desidratei totalmente no banco do carro da Andreia e elas estavam muito nervosas. Elas conversavam, davam risada, mas eu percebia o quanto estavam tensas.

E eu não dava sossego. Estava TOTALMENTE alucinado no banco de trás. O carro morreu algumas vezes, o Maps as mandou dentro de uma favela que tinha uns caras com armas de alto calibre (o lugar era na zona leste e dava pra ir em vias principais, mas o Maps gosta de sacanear e, nervosas como estavam, nem perceberam). Enfim, entraram em um local e foi muito difícil elas manobrarem para sair de lá. Eu me lembro de tudo. Mas eu vi tudo isso em flashes. Porque eu entrava numa piração lisérgica e voltava. E percebia elas falando, dirigindo, querendo sair da favela, parando em semáforos, acredito. Quando eu retornava do transe, voltava falando palavras desconexas, estrebuchando. Aí eu queria ver a rua. Com os olhos estatelados, eu encostava minha testa no carro e tentava olhar para fora. Parecia que eu estava sempre no mesmo local: escuro, com luzes passando e muito concreto. Mesmo na favela, quando elas estavam tentando manobrar, eu só via luzes, escuridão e cimento. Eu tentava focar minha atenção e por um segundo eu conseguia, mas logo as imagens começavam a distorcer e eu não sabia mais onde estava. As vi falando com algumas pessoas nesses momentos. Eu tive a mesma sensação, milhares de vezes aumentada, que eu tive quando assisti pela primeira vez o filme “Amnésia”. Eu me senti dentro do filme, caminhando por lugares que eu não fazia ideia, tudo distorcido, imagens sobrepostas, a noite, as luzes amarelas, o cimento.

E eu estrebuchando dentro do carro e tentando interagir com as meninas quando voltava do transe. Mas eu não falava coisa com coisa. Eu tentava dar palpites para ajudar os problemas da direção, e falava acelerado, as ideias aos borbotões. E depois eu percebi que devia dizer que as meninas estavam bem, dar um apoio moral a elas. Dizia que elas eram maravilhosas, pedia desculpas. Engraçado que, durante a viagem, quando ia falar, eu dizia uma palavra e via na minha mente a palavra seguinte. Tudo numa velocidade alucinante. Eu falava “eu” e via na mente, por exemplo, “quero” vindo do nada para perto de mim em 3D e eu dizia quero, e logo vinha a outra palavra. Num infinito, mudando pelos mais diversos e aleatórios temas. Parecia aquele joguinho do Atari que eu jogava na infância, acho que “Enduro”, à noite, em alta velocidade, que você só vê a faixa branca da pista e tem que, desesperadamente, fazer as curvas e se manter nela. Era a mesma sensação. Bagulho louco!

E nessa viagem lisérgica das palavras, minha mente soltou absolutamente tudo, até as maiores atrocidades. Minha mente é um oceano de devassidão, mas meu “alterego freudiano” me mantém na linha e eu não digo 10% das ideias que explodem nela enquanto estou conversando com as pessoas, claro. Mas, naquela viagem, o chá de ayahuasca tinha posto meu alterego para dormir e eu falei todas as loucuras que me ocorreram sem o menor constrangimento. Para a Andreia e a Joyce. Elas rachavam o bico, porque eu estava muito louco! Eu dizia e saboreava cada palavra daquelas loucuras que estava dizendo e me esborrachava de rir. De repente eu pedia desculpas (meu alterego tentava acordar) mas depois, na próxima verborragia lisérgica, aqui ou ali eu dizia alguma atrocidade entre minhas falas desconexas. E eu não sabia o nome da Andreia. Troquei o nome dela por outros nomes, a todo instante eu lhe perguntava como se chamava... impressionante!

Eu falava, falava, ria, gritava, me debatia no carro, puxava o cabelo da Andreia, apertava os ombros das meninas, pedia desculpas, pulava a cada solavanco do carro (a impressão dos solavancos estava totalmente aumentada) e, entre um delírio e outro e gritava “EU TÔ LOCAÇOOOOOOOO!”  e me esborrachava de rir.

Ao mesmo tempo eu percebia que meu cérebro estava fritando e, como aquilo não passava, o meu eu consciente tentava manter as rédeas do cérebro porque eu tinha a impressão de que, se eu cedesse ao delírio e o deixasse tomar conta de mim, nunca mais eu voltaria. Eu dizia isso para elas, elas diziam que não. Mas eu tinha a impressão de que elas estavam nervosas e só estavam tentando não piorar as coisas. De vez em quando a Andreia me pedia para colaborar, eu tentava, mas no instante seguinte estava totalmente alucinado, fazendo caretas, gritando, rindo, falando merda e morrendo de medo de não sair daquilo tudo. Eu estava preocupado e pedi para elas me levarem no hospital. Elas disseram que não que, depois de um café em melhoraria. Pra quê? Fiquei com a ideia fixas do café. Toda hora eu pedia café para elas. Às vezes me via repetindo “café, café, café... até ser tomado por um novo delírio ou outra ideia absurda me fazer despirocar e falar coisas sem sentido”.

Enfim, a Joyce ficou na sua casa, a Andreia assumiu o volante e foi até à sua. Estava visivelmente nervosa, xingando uns motoqueiros mal-educados. Eu tentava colaborar com ela, mas só atrapalhava. Então eu passei a dizer que ela era maravilhosa, poderosa, linda e que nos momentos de dificuldade da vida ela brilhava como uma verdadeira rainha que era. Coisas do tipo. Tadinha da Andreia. Teve que aguentar tudo isso. E de alguma forma ela chegou na sua casa. Eu não tinha a menor capacidade de identificar os caminhos, absolutamente nada. Para mim era tudo igual.

Ela me disse para falar baixinho porque não queria assustar os filhos que já estavam dormindo, principalmente se eu chegasse gritando putarias. Claro, eu entendi e, no meu surto, enlouquecido, comecei a falar bem baixinho, totalmente surtado, revirando os olhos, fazendo caretas, barulhos com a boca, rindo, qualquer insanidade. Ela entrou, foi buscar um café. Depois de um tempo infinito apareceu com o café. Eu estava repetindo há muito tempo a expressão “não tenho controle, não tenho controle...” Porque, na viagem de volta, em meio ao devaneio lisérgico, eu tentei tirar uma lição de tudo aquilo, porque era o que eles disseram lá (mais ou menos assim). E eu entendi que tudo aquilo foi um curto-circuito da minha mente e que ele foi piorado porque eu estava tentando segurar a onda. A Andreia mesmo me disse: “você é muito intenso, pensa muito, é muito agitado, é muito acelerado, você precisa acalmar sua mente”. Eu: “é verdade, eu tento controlar tudo na minha mente, e eu todo mijado aqui inúmeras vezes é uma metáfora dessa falta de controle que eu preciso”. E fiquei nessa “vibe” de “preciso perder o controle” na metade final da viagem, quando a ideia me ocorreu no meio das viagens lisérgicas.

Ficamos um tempo conversando, a Andreia preocupada comigo, disse para eu entrar na sua casa e tomar um banho. Mas eu não conseguia me levantar do banco e disse para ela ir dormir que eu ficaria ali até melhorar. Claro que ela não foi. E, assim, por volta da 1:30 da manhã, eu tive uma ideia: “Deixa eu gravar um vídeo pra Camila!” Ela me deu o celular, coloquei no local do vídeo, com alguma dificuldade, e gravei. LO-CA-ÇO! Alguns minutos. E depois fui assistir com a Andreia. Dei muita risada enquanto assistia. E, nesse processo de assistir o vídeo, em alguns minutos... TUDO PASSOU! IM-PRES-SIO-NAN-TE! É claro que eu precisei de uns 30 minutos ao menos para ficar 100% mas, no final do vídeo, seu já estava sóbrio. A brisa tinha sumido totalmente.

Entrei na casa da Andreia, ela me deu umas roupas, tomei banho, ela pegou minhas roupas mijadas e vomitadas e pôs na máquina de lavar. Hoje ela manhã estava sequinhas, como se nada tivesse acontecido. E eu não preguei os olhos à noite. ZERO. Ainda estou acordado. O pessoal da casa disse que até terça feira ainda tem vestígios do chá no organismo e depois tudo liberado.

 A experiência da casa, de uma pessoa normal é um transe de cerca de 1 hora depois de tomar o chá. Até eles terminarem a sessão e as pessoas se recomporem. Algumas estão mais afetadas e precisam de ajuda, mas voltam. Eu só me libertei da viagem lisérgica 5 horas depois e temi muito pela minha sanidade mental. Na realidade, me arrependi amargamente de ter tomado o chá enquanto tentava segurar minha mente. E tive uma experiência real e profunda de um total estágio de loucura. A parte sóbria do meu cérebro coletava todas aquelas informações e comparava com o que tenho armazenado sobre o assunto no cérebro e pensava: “A loucura é isso!” É desesperador. Eu tinha medo de nunca mais sair daquilo e ficar totalmente enlouquecido. Mas saí. 

Minha teoria para essa reação exacerbada é a seguinte: tenho pensamento acelerado de tal forma que às vezes tenho a sensação de estar pensando várias coisas ao mesmo tempo, e chego a me perder nas digressões. Esse perfil foi diagnosticado por profissionais. Imagino que esse processamento muito intenso do meu cérebro potencializou o efeito. Também acredito que a tentativa de controlar as alucinações em vez de me render a elas acabou potencializando ainda mais seu efeito. Sobre o pensamento acelerado, acabei de pesquisar no Gemini e faz sentido:


O pensamento acelerado é, em essência, uma mente que salta de um pensamento para outro rapidamente, com dificuldade de focar em uma única ideia. Quando uma pessoa com esse padrão mental ingere ayahuasca, essa hiperconectividade pode ser percebida de forma ainda mais intensa.

Em vez de experimentar um fluxo de pensamento mais livre e conectado, a pessoa com pensamento acelerado pode ter a sensação de que o fluxo de pensamentos se intensifica drasticamente, tornando-se mais caótico e difícil de processar. Isso pode levar a uma experiência avassaladora e até mesmo assustadora, onde a quantidade de informações e sensações é tão grande que o indivíduo não consegue organizá-la ou compreendê-la.

Isso não significa que a ayahuasca seja totalmente desaconselhada para pessoas com essa característica, mas ressalta a importância de cautela. A experiência pode ser desafiadora, e o acompanhamento de profissionais capacitados é fundamental para navegar por esses pensamentos intensos e, talvez, transformá-los em uma experiência de introspecção e autoconhecimento.

É importante notar que a ciência ainda está estudando o potencial terapêutico da ayahuasca em transtornos psiquiátricos. No entanto, o uso da substância é contraindicado para pessoas com histórico de transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, ou para quem está tomando certos medicamentos, pois a interação com o IMAO pode ser perigosa.

Portanto, um cérebro com pensamento acelerado pode, sim, potencializar o efeito da ayahuasca, mas isso pode se manifestar como um fluxo de informações ainda mais intenso e desorganizado, o que exige um cuidado redobrado e um ambiente seguro.

 

Definitivamente, minha experiência não foi de introspecção e autoconhecimento, muito pelo contrário. A propósito, não tenho TDAH, mas sou neurodivergente e meu cérebro tem características cognitivas peculiares, digamos. Não me ocorreu pesquisar sobre o efeito da ayahuasca em quem tem pensamento acelerado, mesmo porque em tudo o que li a respeito, não encontrei nada citando esse perfil. Se eu tivesse lido, certamente não teria ido. Pra que correr riscos? Agora estou com um medinho de ter alguma sequela e vou procurar um neuro essa semana, contar a história e pedir testes para ver se não zoou nada, se isso é possível.

E, claro... nunca mais voltarei a fazer isso, mesmo que a casa dê um retorno e sugira novas sessões, como é de praxe. Nem pensar! Minha mente é uma caixa de Pandora e é melhor deixa-la quietinha no seu lugar.

E, pra finalizar, disse para a Andreia mandar lavar o estofado do carro e me mandar a conta. É o mínimo, né?

sábado, 5 de abril de 2025

Do Funk ao Funk Carioca

 



Nesta semana fazia um exame no Hospital Brasil quando o alarme do meu celular tocou. Perguntei ao médico que fazia o exame:

- Desligo ou você não se importa com o toque?

- Pode deixar, não tem problema. Não sendo funk...

E, logo, acrescentou:

- Você acredita que outro dia veio um paciente cujo toque do celular era funk?

- Eu curto funk – respondi de imediato.

Ele respondeu algo como “é uma questão de gosto...”

Momentos depois, achei importante dar uma carteira:

- Sou músico, escrevo para orquestra, big band, vozes... e curto funk. 

Ele resolveu então mostrar que também tem um pé na música: tem um piano em casa, a mulher gostaria que ele se livrasse do piano mas ele espera aprender a tocar piano algum dia. Eu lhe disse que a prática instrumental é muito boa, mas exige disciplina. Depois de outras “amenidades” musicais, resolvi fechar o assunto:

- Na realidade eu não tenho o hábito de ouvir funk, mas é uma expressão música absolutamente válida.

Não queria irritar o médico, afinal ele estava me dando umas agulhadas ahahahahah. Mas torci para que ele, com o preparo intelectual que possui, fosse capaz de refletir sobre seu preconceito. 


Se eu tivesse ouvido esse episódio de história negra antes do exame, certamente o teria indicado ao médico como uma aula de História para ele. Porque o nosso maior problema é a ignorância, histórica, inclusive. Vemos isso claramente na alucinação coletiva daqueles que não compreendem a gravidade da tentativa de golpe de estado urdida durante todo o mandato do inominável e que culminou com os atos do 8 de janeiro. Como é importante estudar a História! 


Idem com relação ao funk carioca. O que eu mais vejo são pessoas que falam mal do funk carioca e, parte delas, quando conhecem meus “atributos musicais”, mas desconhecem meu conhecimento histórico e capacidade de inclusão, tentam validar comigo seus preconceitos em relação ao funk, achando, ingenuamente, que irei validá-los. O serviço prestado por mais essa bela aula do professor Thiago André, é mostrar as origens orgânicas, culturais do funk carioca e, assim como o samba na sua origem, sofre de todo preconceito e criminalização por parte da sociedade, principalmente da elite, que molda o pensamento do restante da sociedade.


Acredito que o médico, se inteligente for, teria tido oportunidade de rever seu preconceito e perceber o quanto está equivocado somente por ignorar a História e aceitar discursos hegemônicos sem refletir, sem desconfiar.


Link do episódio de História Preta: Do Funk ao Funk Carioca

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Hérnia de disco

 


Em dezembro de 2021 escrevi um relato do meu problema de hérnia de disco para não me esquecer. Estava perdido no meu computador. Resolvi escrever no blog para ficar arquivado de forma mais organizada.


01/12/2021


Há uns 3 meses, enquanto fazia meu crossfit em casa, senti que a lombar estava doendo. Pensei ser algum problema muscular por eu ter feito algo errado. Parei de fazer os exercícios, esperando que a dor sumisse. Não desapareceu. Logo mais, eu teria retorno na reumatologista pra ver um problema antigo nos ossos. Na consulta, ela viu meus exames e disse que eu não tinha mais nada. estava tudo em perfeita ordem.

- E essa dor lombar?

- Deve ser muscular.

Receitou-me um relaxante muscular.


Não sarava, ao contrário, foi piorando a cada dia. Há cerca de 1 mês, com o aumento das dores, resolvi ir no pronto-socorro, sábado à noite. O ortopedista pediu Raio-X da coluna e disse que estava tudo bem. Solicitou uma ressonância magnética. Fiz a ressonância. Voltei dia 17 no ambulatório. O ortopedista que me atendeu me mostrou o resultado e indicou pra mim uma hérnia no final da minha coluna. Disse-me que iria pedir uma infiltração para a assistência médica. Iria demorar pra aprovar (eles tentam não aprovar), logo ele me avisaria por mensagem quando estivesse aprovado. Disse que, se fosse necessário cirurgia, era algo bem seguro, moderno. Explicou-me como seria. Mas sua primeira recomendação era mesmo um tratamento conservador. Receitou-me medicamentos para dor para diminuir o desconforto. Quando a aprovação da infiltração saísse, ele me avisaria. Se eu tivesse melhorado das dores, nem precisaria fazer nada: ele cancelaria o pedido. Comprei os remédios, parei de tomar o relaxante muscular que a reumatóloga havia me receitado e comecei a tomar os remédios receitados pelo neurologista.


No dia seguinte, ao acordar, fui descer as escadas do sobrado. Na metade da escadaria já não aguentava mais de dor. Desci bem devagar, escorando-me no corrimão. No chão, uma dor intensa, tive impressão de que desmaiaria. Sentei-me e chamei a Flávia. Ela veio enquanto eu quase desmaiava e tinha uma síncope (soube depois). Fiquei gemendo muito tempo no chão, sem conseguir articular nada, enquanto ela ligava para o SAMU. Depois de algum tempo fui melhorando, o SAMU ainda não havia chegado, ela cancelou. Depois de melhorar, ainda no chão, percebi que tinha me urinado todo. Tamanha a dor. Meu irmão passou em casa e deu carona para a gente até o hospital. Meu carro estava no conserto.


No hospital, diante do que eu contei, disseram-me que era melhor eu me internar para que eles entendessem melhor o que havia acontecido. Internei-me. Já medicado constantemente contra a dor, fizeram nova ressonância. O neurocirurgião que assumiu o caso veio falar com a gente: minha hérnia estava causando muita dor e eu precisaria fazer uma infiltração imediatamente. Normalmente isso resolve o problema, a menos que o caso seja muito grave. Eu tomaria a infiltração e melhoraria de cara. Agendaram no centro cirúrgico, sedação, infiltração... A dor não passou. Explicaram-me que alguns organismos demoram mesmo pra responder. Era dar tempo ao tempo. Recebi alta no dia 22.


No dia seguinte, 23, estou deitado no sofá, quando o cara da oficina ligou dizendo que o carro estava pronto. Eu lhe perguntei se ele pode trazer o carro até em casa porque eu estava sem condições de caminhar pela rua. depois eu o levaria de volta. Beleza, ele topou. Alguns minutos depois ele para em frente ao meu portão. Ao descer do sofá, distraído, em vez de me apoiar no chão com o pé direito, fiz com o pé esquerdo, o mais afetado pela dor (a hernia de disco estava afetando meu lado esquerdo). A dor foi lancinante. Dei um grito de dor e caí no chão. Tentei de todas as formas voltar para o sofá e gritei para o cara esperar um pouco. Depois de melhorar um pouco, liguei pra ele e disse que minha esposa estava voltando de um curso e estava perto de casa, a pé. Ele se encontrou com ela que resolveu a parada. Ao chegar em casa, encontrou-me gemendo de dor. Ela já estava meio irritada porque eu estava dando muito trabalho, a coisa não melhorava, cacete! Eu falei pra ela deixar que eu esperaria mais que a dor deveria passar. Fiquei umas 2 h gemendo de dor em cima do sofá e não passava. Nesse ínterim, ela foi dormir. Depois de umas 2 h, a dor aumentando, vi que não tinha jeito: joguei-me no chão, minha alma quase saiu pela boca. Tentei me arrastar até o carro. A dor era tanta que eu não conseguia nem me mexer. Gritei por ela. Ela veio. Falei que não tinha mais jeito, tínhamos que ir para o hospital de novo. Mas eu não tinha como sair dali. Sugeri que ela pedisse ajuda dos vizinhos. Tem uma loja de som em frente de casa. Ela pediu para o dono, o Ni, e o cara da loja de lavagem de bancos que estava com ele, ajudarem. Eles vieram na minha sala, pegaram-me e me colocaram no banco de trás do carro. Eu berrava de dor porque qualquer mexida que desse em mim, a dor explodia. Ela foi até o hospital, que não fica longe, eu gritando de dor. 


No hospital, pediram para ela estacionar na vaga de ambulância e uns caras de ambulância me pegaram e me colocaram em uma maca que eles trouxeram. Eu berrando de dor, porque não aguentava mais. Entraram comigo no pronto atendimento e me disseram que iriam aplicar morfina. E enfermeira me disse que a morfina tiraria minha dor imediatamente (porque ela é muito forte). Demorou um bom tempo para a dor sumir, depois que eu tomei a morfina. A dor foi diminuindo aos poucos. Acho que a dor era tanta que nem mesmo a morfina funcionou tão rápido. Na madrugada desse dia, nova ressonância, a 3ª, para eles virem o que havia acontecido: algo deveria ter piorado. Fiquei quase 1h e 20 minutos na máquina. Impressionante. Acho que analisaram até minha alma. No dia seguinte, depois do laudo da ressonância, uma neurocirgiã veio falar comigo explicando que eu poderia tentar o método mais conservador, nova infiltração, ou ir logo para a cirurgia. De qualquer forma, eu já tinha feito uma infiltração 2 dias antes. Se não tinha funcionado da primeira vez, nada garantia que funcionaria da segunda. Eu perguntei o que ela me aconselharia. Ela não aconselhou nada: a decisão teria que ser minha.


No pronto-atendimento, depois que a dor baixara, eu percebera que minha perna esquerda estava dormente e que eu tinha perdido sensibilidade na planta do pé e em parte da parte de trás da perna. A neuro me disse que isso era um problema e que poderia não voltar mais. Significava que a hérnia tinha pinçado meu nervo ciático e causado lesão nele. Por isso, inclusive, a dor tão forte. Se eu quisesse fazer o método conservador, demoraria de 3 a 6 meses para eu melhorar, com o risco de piorar minha lesão no nervo ciático. Nem tinha muito que pensar, né? Operei.


Meu pé esquerdo não funciona mais direito. Agora vou tentar recuperar isso com fisioterapia. Uma amiga me passou uma fisioterapeuta que, segundo ela, faz milagres. Já entrei em contato com ela. Não trabalha com plano de saúde. Logo, terei que pagar do meu bolso mesmo. 80 reais cada sessão. Ela me disse que, se eu puder ir diariamente, consigo me recuperar mais rápido. Fica no Tatuapé (São Paulo), meio fora de mão pra mim que moro em Santo André. Depois que eu retornar ao médico para tirar os pontos, em 15 dias ele vai me fazer os encaminhamentos. Geralmente fisioterapia que trabalha com assistência médica não dá muita atenção para o paciente. É uma bosta.


Ontem saí para caminhar um pouco na rua (recomendação médica de caminhar cerca de 30 minutos por dia). Fui cortar o cabelo. Fiquei impressionado com minha dificuldade para caminhar, agora que estou "coxo". Senti na pele o que é ser uma pessoa com limitação física. Impressionante. O esforço para caminhar, a dificuldade das calçadas, como é bem mais difícil subir uma ladeira! Complicado mesmo...


Ah... internei-me no Hospital Brasil. Atendimento fora de série. Praticamente tirei férias. Acomodações estupendas no quarto, comida farta e boa. Vida mansa, ahahahahahah! E o pessoal supersimpático. Muito bom mesmo.


sábado, 3 de julho de 2021

Eu ri



Entrega para a Flávia.

Entregador me entrega e pede meus dados.

Enquanto vou falando, ele, de cabeça baixa, vai anotando no celular.

- O que você é dele?

Dele??? – pensei

- Marido.

Os eventos dos próximos segundos se dão em câmera lenta:

Vagarosa e instintivamente, sem se dar conta, interrompe o que estava fazendo, tira os olhos do celular e aos poucos, de baixo para cima, sua mirada chega no meu rosto.

- Pensou que fosse Flávio?

Meio perdido na explicação, ele se enrola um pouco mas consegue encontrar uma resposta desconexa para minha pergunta:

- Não, é que eu preciso pegar seus documentos, saber se você é parente.

- Ah, ok.

Finaliza suas anotações e se despede:

- Bom dia, Deus abençoe.

- Amém – respondo, para sacramentar o alívio que ele deve ter sentido.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Ciclo de vida

 Uma seita, se muito bem-sucedida, torna-se uma religião. Uma religião, por mais bem-sucedida que seja, com o tempo acaba se tornando uma mitologia. A História está aí para demonstrar isso. 

Mitologias servem para explicar o mundo, nossas origens, para onde vamos, é uma maneira de dar respostas a esses mistérios de uma forma que sejamos capazes de assimilar. A diferença entre mitologias e religiões, além do tempo, é que o distanciamento histórico nos permite enxergar as mitologias pelo que elas são, apenas narrativas fantasiosas, enquanto pensamos serem as religiões fatos. 

Certamente as narrativas mitológicas surgem de acontecimentos que, pela tradição oral, vão ganhando contornos cada vez mais míticos, com novos ingredientes épicos e sobrenaturais, que criam um grupo de seguidores fervorosos à memória deles (seita), que podem subsistir ao tempo (religião), até que gerações em um futuro longínquo não acreditem mais na literalidade deles (mitologia).

O que importa realmente disso tudo é o que fazemos com isso: se usamos essa nossa crença (religiosa) ou diálogo (mitológico) para nos tornarmos pessoas melhores.