sábado, 5 de abril de 2025

Do Funk ao Funk Carioca

 



Nesta semana fazia um exame no Hospital Brasil quando o alarme do meu celular tocou. Perguntei ao médico que fazia o exame:

- Desligo ou você não se importa com o toque?

- Pode deixar, não tem problema. Não sendo funk...

E, logo, acrescentou:

- Você acredita que outro dia veio um paciente cujo toque do celular era funk?

- Eu curto funk – respondi de imediato.

Ele respondeu algo como “é uma questão de gosto...”

Momentos depois, achei importante dar uma carteira:

- Sou músico, escrevo para orquestra, big band, vozes... e curto funk. 

Ele resolveu então mostrar que também tem um pé na música: tem um piano em casa, a mulher gostaria que ele se livrasse do piano mas ele espera aprender a tocar piano algum dia. Eu lhe disse que a prática instrumental é muito boa, mas exige disciplina. Depois de outras “amenidades” musicais, resolvi fechar o assunto:

- Na realidade eu não tenho o hábito de ouvir funk, mas é uma expressão música absolutamente válida.

Não queria irritar o médico, afinal ele estava me dando umas agulhadas ahahahahah. Mas torci para que ele, com o preparo intelectual que possui, fosse capaz de refletir sobre seu preconceito. 


Se eu tivesse ouvido esse episódio de história negra antes do exame, certamente o teria indicado ao médico como uma aula de História para ele. Porque o nosso maior problema é a ignorância, histórica, inclusive. Vemos isso claramente na alucinação coletiva daqueles que não compreendem a gravidade da tentativa de golpe de estado urdida durante todo o mandato do inominável e que culminou com os atos do 8 de janeiro. Como é importante estudar a História! 


Idem com relação ao funk carioca. O que eu mais vejo são pessoas que falam mal do funk carioca e, parte delas, quando conhecem meus “atributos musicais”, mas desconhecem meu conhecimento histórico e capacidade de inclusão, tentam validar comigo seus preconceitos em relação ao funk, achando, ingenuamente, que irei validá-los. O serviço prestado por mais essa bela aula do professor Thiago André, é mostrar as origens orgânicas, culturais do funk carioca e, assim como o samba na sua origem, sofre de todo preconceito e criminalização por parte da sociedade, principalmente da elite, que molda o pensamento do restante da sociedade.


Acredito que o médico, se inteligente for, teria tido oportunidade de rever seu preconceito e perceber o quanto está equivocado somente por ignorar a História e aceitar discursos hegemônicos sem refletir, sem desconfiar.


Link do episódio de História Preta: Do Funk ao Funk Carioca

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