terça-feira, 11 de março de 2014

Livros que li em 2013

Eu achei que já tivesse registrado os livros lidos em 2013. Acabei de perceber que não. Foi um ano muito corrido e de pouca leitura. Mesmo assim, ainda consegui a "impressionante" marca de 12 livros lidos. Considerando que um deles foi "Ulisses" de James Joyce, iniciado no ano anterior, não foi um ano pródigo, é verdade, mas tampouco foi uma sequidão.

Estou desassinando paulatinamente um sem número de periódicos que assino. Primeiro pela minha incapacidade de lê-los (as revistas normalmente se amontoam) e, segundo, porque isso me rouba precioso tempo para ler livros interessantes. Acho que ficarei apenas com a revista Info, da Editora Abril, para me manter minimamente informado do que ocorre na área (trabalho com TI), ainda que eu possa me informar decentemente apenas por sites. Mas, enfim, a comodidade de ter uma revista com alguns temas pré-selecionados é tentadora.

Enfim, os livros lidos na ordem:

1.       Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes (Stephen R. Covey)
2.       Honoráveis Bandidos (Palmério Dória)
3.       O auto da compadecida (Ariano Suassuna)
4.       A queda (Diogo Mainard)
5.       A trilha menos percorrida (M. Scott Peck)
6.       Essa história está diferente (Ronaldo Bressane - organizador)
7.       O que Jesus disse o que Jesus não disse (Bart D Ehrman)
8.       O estudante (Adelaide Carraro)
9.       Entre a cruz e o Arco-Íris (Marília de Camargo César)
10.   Ulisses (James Joyce)
11.   Cristãos, Judeus e Pagãos (Roque Frangiotti)
12.   A ordem do discurso (Michel Foucault)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Vamos ler?

Acabei de dar uma uma olhada aqui nos EPUBs que coleciono, geralmente enviado por amigos: cerca de 2.500. Morrerei e não lerei tudo. Lerei uma ínfima parte, é verdade. Mas eu amo ler. Pena que meu tempo é muito restrito. Em casa há centenas de livros em 3 bibliotecas, se considerarmos que a biblioteca seja um espaço onde ficam armazenados livros. Com tanta coisa para ler, fica difícil decidir o que ler. Há um tempo pedi ajuda alguns amigos para sugerirem livros que eles tinham lido e que acharam interessante. Eles fizeram uma lista que eu reproduzo abaixo. Alguns desses livros eu já li. Não há o menor critério na ordem dos livros: eu simplesmente fui fazendo a lista na ordem em que iam citando. Mas, considerando que os livros são uma resposta à pergunta "Quais os melhores 10 livros que você já leu?", a lista é no mínimo interessante. Vamos a ela, lembrando que sequer me dei ao trabalho de formatar corretamente a lista (gastarei o tempo disso lendo algo):

1.       por tras das palavras  Carlos Mesters
2.       o auto-engano – eduardo gianetti
3.       Armas, Germes e Aço - Os Destinos das Sociedades Humanas
4.       Philip Yancey
a.        Oração: ela faz alguma diferença?
b.       O Deus (in)visível
c.        Alma Sobrevivente
5.       Filosofia: ordem
a.        - Filosofia Antiga: alguns pré-socráticos são interessantes: Xenófanes, Parmênides, Zenão de Eleia. Platão e Aristóteles. E Agostinho, claro

- Medieval: Orígenes, Gregório de Nissa, Anselmo, Abelardo, Escoto, Tomás de Aquino, Averrois (pra dar uma quebrada é legal)

- Moderna (uma leitura direcionada para o debate entre racionalismo e empirismo): Descartes, Locke, Hume, Leibniz e Kant. Tem, claro Berkeley dentre outros.

E depois disso com todas as discussões sobre períodos aqui e acolá tem Nietzsche, Kierkegaard, Marx, Feuerbach, Freud.

Tem o povo da linguagem do século passado: Russell, Rorty, Putnam, Devitt, Dummet, Frege (tô misturando períodos)

Ainda tem a galera de política que eu não tenho muito contato tipo Hobbes, Deleuze, Derrida, Foucault (não leio muito esse povo)

6.       Scribd
a.        mito e realidade, mircea eliade
7.       O Método, de Morin (6 volumes)
8.       Tratado de História das Religiões, de Eliade
9.       Teologia a Caminho, de Hans Küng
10.    Nietzsche, o rebelde aristocrata, de Losurdo
11.    O Império do Sentido, de François Dosse
12.    A Teologia do Século XX, de Rosino Gibelini
13.    Introdução ao AT, de Erich Zenger
14.    A Dinâmica da Fé, Tillich
15.    História das Crenças e das Idéias Religiosas, 3 volumes, Eliade
16.    Vida: Biografia do Keith Richard
17.    Em 6 passos o que faria Jesus: Novíssimo manual de conduta do seguidor de Jesus | Paulo Brabo | ISBN: 978-85-62877-01-8
18.    Para Entender: Pós-modernidade | Mary Rute Gomes Esperandio
19.    Como Fazer Teologia da Libertação | Clodovis Boff e Leonardo Boff | ISBN: 8532605427
20.    “Os Pobres Herdarão a Terra”: Conflitos Rurais e Igreja Católica no Brasil na segunda metade do Século XX
21.    What Would Jesus Deconstruct: The Good News of Postmodernism for the Church | John D. Caputo | Editora: Baker Academic |ISBN-10: 0801031362
22.    How (Not) to Speak of God | Peter Rollins | ISBN-10: 1557255059 (esse é o melhor livro que eu já li...)
23.    Qualquer livro do http://www.johndominiccrossan.com/
24.    Introducing philosophy de Dave Robinson
25.    Anarchy and Christianity, Jacques Ellul
26.    Emerging Churches: Creating Christian Community in Postmodern Cultures, Eddie Gibbs
27.    God's spies: Stories in defiance of oppression
28.    Esse foi o melhor livro infantil que eu li: http://ottawa.bibliocommons.com/item/show/375356026_the_story_of_a_mirror (para meus filhos)
29.    http://peroratio.blogspot.ca/2010/06/2010402-nao-os-devo-ninguem.html
30.    2. Religião e Repressão - Rubem Alves
31.    3. Em 6 passos... - Paulo Brabo
32.    4. Piedade Pervertida - Ricardo Quadros Gouvêa
33.    5. A Mensagem Secreta de Jesus - Brian McClaren
34.    6. O Jesus que Eu Nunca Conheci - Yancey
35.    Matrix: Bem vindo ao deserto do real
36.    Deus Negro
37.    1 - Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas, de Michael Shermer.
38.    2 - História do Espiritismo, de Arthur Conan Doyle (que na verdade fala do moderno espiritualismo em geral, não do Espiritismo kardequiano).
39.    3 - O Oculto, de Colin Wilson.
40.    4 - A religião de Jesus, o judeu, de Geza Vermes.
41.    5 - História do cristianismo, de Paul Johnson.
42.    6 - Autobiografia: Minnhas experiências com a verdade, de M. Gandhi.
43.    7 - Jesus, o filho do Homem, de Gibran Khalil Gibran.
44.    8 - Buda, de Karen Armstrong.
45.    9 - Uma lida em ensaios variados de secularistas e ateus, ótimo para temperar arroubos de petulância dogmática (embora muitos tenham os mesmos defeitos): http://www.infidels.org/).
46.    10 - O animal social, de Eliot Aronson.
47.    Deus é vermelho
48.    1 ) O duplo - Dostoiévski
49.    2 ) O desaparecimento de Deus - R. Elliott Friedman
50.    3 ) Deus não existe! ... Eu rezo para ele todos os dias - Jean-Evys Leloup
51.    4) Creio na ressurreição do corpo - Rubem Alves
52.    1 - Mil e uma noites - a tradução mais recente direto do árabe.
53.    2 - Alguma coisa de Shakespeare, Macbeth, Hamlet ou Mercador de Veneza.
54.    3 - Alguma coisa do Alan Moore - V de Vingança ou Watchmen (pelamordedeus, os quadrinhos, não os filmes).
55.    5 - O Som e a Fúria - Faulkner.
56.    7 - Coração das Trevas - Joseph Conrad.
57.    1º Do sentimento trágico da vida – Miguel de Unamuno
58.    2º O Homem medíocre – Jose Ingenieros
59.    3º Deus uma biografia – Jack Miles
60.    4º O livro de J – Harold Bloom e David Rosenberg
61.    5º Religião e Repressão – Rubem Alves
62.    6º Dogmatismo e Tolerância – Rubem Alves
63.    7º As Veias Abertas da América Latina – Eduardo Galeano
64.    8º A Espera da Aurora – Jean Delumeau
65.    9º Abaixo as Verdades Sagradas – Harold Bloom
66.    10º O Código dos códigos - Northrop Frye
1.       Fim do Cristianismo Pré-Moderno, de André Torres Queiruga/
2.       Livro do Desassossego, Pessoa/
3.       Pequenos Tratado das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville/
4.       O Espírito do Ateísmo, tb do Sponville/
5.       O Homem-Deus ou o Sentido da Vida, de Luc Ferry/
6.       Teologia e MPB, de Carlos Eduardo Calvani/
7.       Matar nossos Deuses, de José Maria Mardones/
8.       Acreditar em Acreditar, de Gianni Vattimo e
9.       Terra Sonâmbula, de Mia Couto
67.    8 - Os Sete Enforcados - Leonid Andreiev. Maravilhoso!
68.    9 - Ilíada e Odisséia de Homero. Impossível não ler os gregos. Vale também ler alguma coisa de Platão ou (adogo) alguma tragédia de Sófocles.
69.    6 - Tess - Thomas Hardy.
70.    7 - Coração das Trevas - Joseph Conrad.
71.    "Deus e as religiões: 'inreligionação', universalismo assimétrico e teocentrismo jesuânico". In Andrés Torres Queiruga, "Do terror de Isaac ao Abbá de Jesus: Por uma nova imagem de Deus". São Paulo: Paulinas, 2001, pp. 315-55, aqui p. 352).
72.    Salvos da perfeição – Elienai Cabral Jr.
73.    Cidade febril
74.    Jesus, o homem que amava as mulheres (indicação GB)
75.    A alma encantadora das ruas – de João do Rio (disponível por diversas editoras)– O dândi carioca sabia tudo sobre a arte de flanar pela cidade e tirar dela, ainda em 1908, belas histórias.
76.    Um Bom Par De Sapatos E Um Caderno De Anotaçoes – Como Fazer Uma Reportagem -de  Anton Tchekhov (editora Martins Fontes).Toda a riqueza de observação e detalhes que usava nos seus contos e peças, a favor do jornalismo-literário em uma reportagem de viagem.
77.    Balas de Estalo – reunião crônicas políticas e de costumes de Machado de Assis –publicado por várias editoras.
78.    Dez dias que abalaram o mundo – John Reed (ed.Conrad)–De uma forma eletrizante, punk-rock mesmo, o autor narra os acontecimentos da revolução russa de 1917.
79.    Paris é uma festa – E. Hemingway (ed.Bertrand Brasil) –As pereguinaçoes boêmias de um dos maiores narradores americanos e a sua convivência com grandes artistas franceses. Para aprender a escrever e observar o mundinho artístico.
80.    Na pior em Paris e Londres – George Orwell (Companhia das Letras, coleção Jornalismo Literário) –A experiência de miserável do autor de “1984”.Aula de escrita e humanismo pelos subterrâneos das cidades.
81.    O Segredo de Joe Gould,de Joseph Mitchell (Cia das Letras). Aula genial de como fazer um perfil de um puta personagem praticamente anônimo de NY, um desses vagabundos que vemos por e mal sabemos da sua genialidade.
82.    Malagueta, perus e bacanaço (ed.Cosac & Nayfi-João Antônio- O universo marginal dos salões de sinuca, rodas de sambas e madrugadas nos bares. Narrativa coloquial e maldita.
83.    Dicas úteis para uma vida fútil -um manual para a maldita raça humana – Mark Twain (ed.Relume Dumará). Um grande almanaque com dicas de etiqueta, moda, comportamento, costumes. Tudo da forma mais mordaz possível. Pra rir e aprender.
84.    O perigo da hora – o século XX nas páginas do The Nation (ed.Scritta). Textos de gênios do jornalismo e da literatura como Kurt Vonnnegut, H.L. Mencken, Gore Vidal, John dos Passos entre outros bambas.
85.    O livro dos insultos – H.L.Menken (Cia das Letras) –Influência importante para muita gente no Brasil, como Ruy Castro e Paulo Francis, por exemplo, com Menken você aprende a ser crítico, ácido e ter uma pena maldita.
86.    Medo e delírio em Las Vegas– (ed.Conrad) A lista não poderia faltar pelo menos uma obra-prima do rei do jornalismo gonzo, a forma mais maluca e ousada de contar histórias. Foi adaptado para o cinema em 1998, pelo diretor Terry Gilliam.

87.    O que queremos dizer quando dizemos 'Inferno'?, Andrés Torres Queiruga.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Livros que li em 2012

Meu amigo Fabinho Silva publica em seu blog todos os anos a relação de livros que ele leu no ano anterior. A partir desse ano resolvi imitá-lo e fazer o mesmo:


Precisamos falar sobre o Kevin (Lionel Shriver)
Se eu fechar os olhos agora (Edney Silvestre)
A cruz de Hitler (Erwin W. Lutzer)
Quase memória (Carlos Heitor Cony)
A felicidade é fácil (Edney Silvestre)
Ostra feliz não faz pérola (Rubem Alves)
A celebração da disciplina (Richard Foster)
Assembleias de Deus (Gedeon Alencar)
O espião que sabia demais (John Le Carré)
Eichmann en Jerusalén (Hannah Arendt)
Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)
Cândido (Voltaire)
Eric Clapton, a autobiografia (Eric Clapton)
Coração das trevas (Joseph Conrad)
Os sete enforcados (Leonid Andreiev)
Fuga do Campo 14 (Blaine Harden)

sábado, 1 de dezembro de 2012

Porque não condeno quem come carne de porco

Os porquíveros


Setembro de 2014. O mundo não havia acabado em 2012, para desespero de alguns, a vida na Terra continuava aquela mesmice chata de sempre, judeus e palestinos se matando, ricos explorando pobres, gente brigando em vez de se amar, enfim, até que, numa tarde típica de setembro, o inacreditável acontece: cai uma capsula do céu. Em São Francisco. Mais especificamente em Castro. Talvez tão impressionante tanto quanto a queda inesperada é o fato de cair em uma região metropolitana dos EUA. Por que não no quintal da minha casa, na cabeça daquele vizinho chato e imoral ou no meio do deserto do Saara? Bem, a Providência sabe o que faz.

Imediatamente a Nasa entra no circuito e descobre ser uma cápsula alienígena. Meses de estudos e descobrem que a cápsula é um engenhosíssimo aparato movido a energia estelar que contém informações de um minúsculo planeta da constelação de Alfa Centauro, planeta tão minúsculo que nossos mais potentes telescópios não foram capazes de detectá-lo. O aparato poderia ser ligado depois de pressionado 10 segundos e 24 centésimos e exibia um monte de informações em código binário. Anos de pesquisa com seus melhores cérebros e a Nasa consegue decifrar o conteúdo da cápsula que, em resumo, contém informações sobre o planeta e sobre sua cultura. Daí, o mais impressionante: o planeta é habitado por seres vivos inteligentes, humanoides e possui um ecossistema muito parecido com o da Terra. Tanto que os terráqueos resolvem batizá-lo de Nova Gaia. Por fim, descobrem que os novagaianos, muito mais avançados cientificamente que nós, estão convidando os terráqueos, por meio de um representante, para conhecer seu planeta. Simplificando, os novagaianos passaram uma série de instruções que resultavam no envio de uma mensagem intergaláctica que, uma vez recebida por eles em questão de horas, implicaria no envio à Terra de um veículo intergalático que, por questões que a ciência deles ainda não resolvera, comportaria apenas um passageiro.

Como tudo nessa história é fabuloso, eles resolvem mandar um cientista da Nasa, brasileiro! Brasileiro? Pois é, o Joãozinho. A argumentação é que, por ser um povo muito sociável, que teoricamente se adapta em qualquer situação, o perfil do brasileiro era o mais indicado. Na realidade, apesar de brilhante, o cientista não passava de um trollador, do tipo que perde o amigo mas não perde a piada. E a Nasa já meio de saco cheio dele – inclusive já havia quem se demitira da Nasa, cientistas até mais brilhantes que ele, por conta do seu perfil trollador, enfim, um cara inconsequente – resolvera se livrar dele: Já que os norte-americanos estavam receosos da aventura interplanetária não dar muito certo, se fosse para queimar alguém, que fosse o inconveniente brasileiro. A lá se foi nosso Joãozinho.

Por ter uma tecnologia muitíssimo mais avançada que a nossa, em algumas horas nosso representante planetário já estava em solo novagaiano cuja atmosfera, inclusive, era absolutamente similar à da Terra. Durante as primeiras horas o submeteram a uma máquina que leu todas as informações químicas, elétricas e sei mais o que do seu organismo, de forma que aprenderam muita coisa sobre a Terra , até mesmo o seu idioma nativo, imaginem!, o português. Por outro lado, desenvolveram rapidamente um programa que, conectado ao seu cérebro por meio de alguns eletrodos, fê-lo aprender rapidamente sobre a língua e cultura do lugar. Acho que já vi esse filme antes...

O intercâmbio durava algumas semanas terráqueas antes de ele voltar para casa e lá se foi nosso herói a imergir na realidade novagaiana. A primeira coisa que lhe chamou a atenção e que, na realidade o chocou bastante, é que, apesar de humanoides, eles se reproduziam de forma assexuada. Não havia cópula e não havia separação de masculino e feminino. Os seres nasciam de um processo muito parecido ao humano, algo semelhante com a placenta, mas independente do ato sexual; os seres daquele planeta eram capazes de provocar isso apenas na sua idade adulta. A geração de um semelhante se dava pela combinação de hormônios e o desejo de se reproduzir, estado de consciência que se adquiria somente na fase adulta da vida. E havia limites para a reprodução que dependiam de aspectos que vamos chamar de psicológicos e que variavam de indivíduo para indivíduo. Portanto, havia a tradicional família também, formada pelo(a) progenitor(a), que era um ser capaz de cuidar sozinho(a) da sua cria. Inclusive, eram mamíferos parecidos com os nossos, com glândulas mamárias e tudo o mais. Na idade adulta eram seres andróginos, bastante sociáveis, mas que não desenvolviam atração mútua. Havia, sim, o instinto materno/paterno em relação às suas crias. Portanto, tinham também sua família celular tradicional.

E havia mais semelhanças e diferenças que, para encurtar a história, vamos nos fixar nas mais importantes: todos eles tinham a pele meio rosada: não havia a nossa riqueza genética. Da mesma forma que os terráqueos, o conhecimento deles havia se desenvolvido ao longo das eras e, portanto, eles tinham sistemas muito parecidos com os nossos: as mitologias, as crenças e o conhecimento científico. Impressionante também o conceito de Deus existente lá, idêntico ao terráqueo. Isso levou nosso Joãozinho, um cristão temente a Deus – diga-se de passagem – a firmar mais ainda sua fé na existência de um deus pessoal. Afinal, nesse vasto universo, os seres humanos haviam conhecido outra civilização alienígena que continha basicamente os mesmos fundamentos de crença. Coisa linda de se ver. Tinha que existir um Deus inteligente por trás disso tudo e, obviamente, só poderia ser o mesmo Deus venerado na Terra. Seria improvável que não fosse assim.

E, continuando nas semelhanças, eles também eram profundamente religiosos, tinham seus cultos, suas religiões, a maioria delas monoteístas. Para finalizar o paralelo, coincidência num sentido e estranheza absurda em outro, se eles não tinham a sexualidade como conhecemos, eles possuíam uma pulsão muito parecida à nossa sexual, mas em relação à alimentação: se, para nós, tudo gira em torno do sexo, para eles, tudo girava em torno da comida. E não era sem razão porque a comida tinha uma relação direta com a capacidade de reprodução deles. Eles eram essencialmente carnívoros – e na Nova Gaia os animais eram os mesmos da Terra, algo impressionante! O prazer supremo daquele planeta era uma picanha maturada. No entanto, havia um animal que era a exceção, uma abominação: o porco. Entendamos o motivo.

Comer carne tinha a ver com a capacidade reprodutiva deles porque uma proteína somente encontrada nos animais era a que desencadeava a capacidade de reprodução deles. Eles até tinham, no livro sagrado deles, o relato da criação dos humanoides novagaianos: depois de criar o mundo, no 24º dia Deus escolhera um animal, extraíra seu fígado e, dele, havia feito o novagaiano. Depois, Deus descansara no 25º dia. Portanto, a essência da existência deles, a capacidade de sua reprodução consistia em consumir a proteína carnívora. Sem isso, eles não se reproduziriam em novos seres, a célula mater da família deles se desintegraria, enfim, toda aquela história que já conhecemos. A carne do porco tinha um problema: possuía outra proteína, ao longo do seu desenvolvimento científico eles haviam percebido isso, que tornava os novagaianos estéreis. A implicação religiosa disso era dramática: não reproduz, é um abominável, coloca em risco a célula mater da família. Se Deus havia feito o novagaiano para se reproduzir por meio da ingestão de proteína carnívora, por que comer carne de porco, que causava o efeito contrário? Afinal, o primeiro ser humanoide daquele planeta, criado por Deus a partir do fígado de um animal, se chamava Carnívoro e não Porquívero!

A questão era mais complexa: para a maioria das pessoas daquele planeta – e isso deve ter relação com a possibilidade de se reproduzir – era asqueroso comer carne de porco. Naquele planeta, quando preparada, invariavelmente a carne ficava com uma coloração próxima à da pele deles e isso causava uma repulsa muito grande nos novagaianos. O pior é que havia quem gostava daquilo! Eca! Havia uma polarização muito grande. A maioria das pessoas acreditava que o gosto pela carne de porco era resultado de hábitos alimentares degenerados adquiridos ao longo da vida. Outros acreditavam que as pessoas já nasciam com uma tendência a gostar de carne de porco. O fato é que a questão era muito polêmica e a polarização se dava mais no âmbito religioso: se Deus havia criado os novagianos para se reproduzirem e constituírem família a partir da ingestão de proteína animal, obviamente era pecado comer aquela carne asquerosa, a suína, que ainda deixa os novagianos estéreis. Joãozinho tinha bastante dificuldade em entender o raciocínio, mesmo porque, como bom brasileiro, ele não dispensava uma suculenta bistequinha de porco. No entanto, uma coisa bastante curiosa era o fato de que algumas pessoas não gostavam de comer carne e se tornavam vegetarianas. Bem, até aí tudo bem: como vegetais não pareciam asquerosos para a maior parte dos novagaianos e a maioria deles até incluía os vegetais na sua dieta. Mas, o fato é que tais novagianos, por não consumirem a proteína da carne, resultavam estéreis também. E aí, eles não eram uma ameaça à célula mater novagaiana? Claro que não! Havia muitas crianças novagaianas órfãs, por diversos motivos, e um vegetariano poderia adotar algumas dessas crianças e tudo bem. E os “porquíveros”, também não poderiam? Claro que não! Tais degenerados comedores de carne de porco eram um perigo à célula mater novagaina, seriam uma má influência às crianças novagaianas. Joãozinho chacoalhava a cabeça para pegar no tranco e jurava não entender nada...

Além do mais, havia a questão da aparência física: a ingestão da proteína suína gerava um efeito “colateral”: as sobrancelhas dos comedores de carne suína se juntavam com o tempo e se tornavam “monocelhas”. Horrível. Era fácil identificar os comedores de carne suína por isso. Na realidade, por uma questão genética ainda não compreendida, alguns comedores de carne suína não desenvolviam esse efeito colateral. E havia novagaianos que, apesar de não consumirem carne suína eram “premiados” como “monocelhas”. E, pra piorar, ainda não estava claro se a “monocelha” era resultado da ingestão da carne suína (parecia que sim) ou uma pré-disposição genética. O fato é que novagaianos dotados de “monocelhas” eram estigmatizados, muitas vezes alvo de violência por parte de pessoas que odiavam esse tipo de novagaiano: “morra, comedor de carne de porco safado!!!”. Uma coisa triste de se ver e que cortava o coração de Joãozinho, o trollador. Sem falar nos novagaianos que morriam de vontade de provar uma bistequinha de porco assada, mas não tinham coragem de sair do forno. Esses eram os mais aguerridos.

A coisa chegou a tal ponto que, naquele planeta, os religiosos mais dogmáticos condenavam os comedores de carne de porco, por macularem a sagrada comida, instituída por Deus para eles se reproduzirem, comendo carne de porco. Ocorre que, naquele planeta, nem todos eram religiosos mais tradicionais, muitos sequer religiosos. E Joãozinho, um amante de uma bistequinha de porco, ainda que isso parecesse uma abominação para a maior parte dos novagaianos, não entendia porque os que apreciavam essa delícia da culinária eram obrigados a se privar disso justamente porque os religiosos achavam que era pecado! Se tais novagaianos “porquíveros” não pensavam assim, ainda que estivessem violando a crença mais profunda dos novagaianos crentes, por que eles deveriam se abster de comer a carne de porco? Não era todo mundo livre naquele planeta? Não diziam que cada um era livre para viver de acordo com sua consciência? Outra coisa que deixou Joãozinho intrigado foi o seguinte: se Deus criou mesmo os novagaianos, e lhe parecia razoável, como bom cristão, uma vez que Deus deve ser tão infinito que não está limitado a um sistema religioso de um planeta nesse universo tão imenso, por que não simplificou as coisas? Não seria mais fácil ter impedido que aparecem porcos naquele planeta? Ou será que porco é tudo isso de ruim que falam por lá? E os vegetarianos estéreis? Que confusão...

Bem, havia uma série de questões implicadas nessa polêmica toda. Como o planeta também possuía um sistema de leis sofisticado, eles estavam às voltas com a criação de uma lei que permitisse aos comedores de carne bovina adotar crianças. Como assim???, pensou Joãozinho. Bem, a verdade é que, exceto esse aspecto curiosíssimo das singularidades de Nova Gaia, o restante do planeta lhe pareceu uma delícia. Entretanto, ele nem em sonhos comentou com alguém que era um fanático por bisteca de porco. Já pensou se descobrem? Ele preferiu não arriscar.

A verdade é que foram algumas semanas terráqueas muito enriquecedoras para ele e, quando estava prestes a embarcar de volta à Terra, ele já estava com saudades, apesar do pensamento recorrente que lhe assaltava sempre que ele pensava na carne de porco: “que pessoal mais estranho...” De volta à terra, nas horas em que passou no veículo intergaláctico, enquanto repassava um poucos suas experiências em Nova Gaia e pensava no que lhe esperava na Terra, uma ideia cruzou seu cérebro: assim que chegasse em casa, iria procurar seu vizinho, o Serginho, aquela bichinha, que ele tantas vezes havia hostilizado, e lhe daria um longo e afetuoso abraço.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Duas em um milhão

O país que eu mais viajei foi a Colômbia. Foram mais de vinte viagens num total de mais de 380 dias de estada naquele país. Eu viajava tanto que me tornei conhecido dos funcionários do aeroporto de Bogotá. Sem falar que, por duas vezes, implicaram comigo na alfândega, afinal, o que eu tanto fazia na Colômbia, se não tinha visto de trabalho? Depois da segunda implicação, falei para as empresas que me contratavam que, sem visto de trabalho, eu não iria mais. Foi assim que passei a viajar para a Colômbia com vistos de trabalho.

Tantas passagens pelo aeroporto, no mínimo umas 40, devem ter rendido algumas histórias. E, de fato, renderam. Não só as passagens nos aeroportos, mas as viagens em si. Lembro-me uma vez, por exemplo, que embarquei em São Paulo de sandália e bermudas (fazia mais de 35 graus e eu já tinha perdido a cerimônia de viajar de avião – chega um momento, em tantas viagens seguidas, que o cidadão não quer saber mais do ritual). Relapso, como sempre, não me ocorreu verificar antes como estava o tempo em Bogotá. Quando desembarquei no aeroporto, eu era o único extraterrestre recém-chegado de Mercúrio. Enquanto todos estavam abrigadíssimos em seus casacos de pele, eu tive que penar quase 1 hora tiritando de frio.

 

Encontrar com pessoas famosas também é algo que já me aconteceu algumas vezes. Numa das ocasiões, eu estava na fila de check-in com minha amiga Alejandra, que sempre me acompanhava ao aeroporto, e lhe contei, impressionado, sobre a beleza estonteando de uma moça um pouco mais à nossa frente. Ela concordou e me disse que a conhecia não se recordava de onde. Minutos depois ela se lembrou: “Ah, é a Natalia Paris!” Realmente, aquela mulher é de outro mundo. Aliás, as mais belas modelos colombianas são todas deslumbrantes. Da primeira vez que pisei em solo colombiano, as colombianas me pareciam feias, até mesmo as artistas de novela. Entretanto, depois que me acostumei com o biótipo da mulher colombiana, descobri sua beleza. A mulher colombiana é realmente bonita, não tanto a justificar o que pensam alguns colombianos chauvinistas, que afirmam ser a mulher colombiana a mais bonita das Américas. Mas, na média, são muito bonitas. Eu trabalhei durante um tempo com o pessoal de um escritório de uma empresa química em Bogotá e era impressionante a quantidade de mulheres lindas. Mesmo sabendo que a incidência de beleza nas camadas mais altas da sociedade é maior (dizem por aí que não existe mulher feia; o que existe é mulher pobre), era evidente que a beleza era um dos itens de grande peso na contratação. Apesar do colírio para meus olhos que aquelas mulheres representavam, acho que as feias deveriam fazer um protesto, afinal, aquilo me parecia beirar a discriminação.

 

Voltando ao aeroporto de Bogotá, engraçado mesmo foi em outra ocasião. Estávamos conversando pelo hall principal do aeroporto e, de repente, a Alejandra teve um repentino surto de tiete descontrolada: “O Rincón! O Rincón!” Lá estava, o negrão de quase 2 metros de altura, à nossa frente. “Obadias, tira uma foto com ele! Eu amo o Rincón!” Que mico! Eu fiquei meio sem ação, pelo inesperado da situação e, naquele instante, não me ocorreu idéia melhor: aproximei-me do Rincón com a Alejandra e ela, descontrolada, pediu para ele tirar uma foto comigo; o cara – super simpático – posou do meu lado e tiramos a foto. O gigante e o rato. Ficou uma foto engraçada. Só muito depois que eu me lembrei que a segunda coisa a fazer era pedir para a Alejandra se postar ao lado dele e eu tirar uma foto também, para sua feliz recordação de tiete. Só que não me ocorreu. Da próxima vez que me encontrei com Alejandra, pedi-lhe desculpas por não ter pensado aquilo naquele momento tão inesperado. E ela, uma tão adorável colombiana, estava mais preocupada comigo e com a recordação que eu poderia exibir aos meus amigos, algo que eu nunca fiz (que ela não saiba disso). Ela sorriu e disse que tudo bem: só o fato de eu ter tirado a foto com ele já tinha valido a pena.

 

Numa outra ocasião, quando ia para Bogotá, me chamou a atenção a forma apaixonada que um casal de pombinhos se comportava no avião. Pareciam em lua de mel. Ele não parecia tão colombiano, mas ela era uma autêntica colombiana. Fiquei toda a viagem ocasionalmente observando-os de soslaio, afinal o amor em sua forma mais apaixonada é algo bonito de se ver. É inspirador. Eu acredito que até um sorriso se esboçava nos meus lábios quando os observava. O amor é lindo! Quando descemos do avião, por algum momento me esqueci do casal de pombos apaixonados. Lembrei-me deles quando vi a colombiana sozinha na fila (as filas na alfândega de Bogotá são lentas e irritantes) e o rapaz em outra fila, bem mais à frente. Achei estranho, mas acreditei que somente um motivo muito forte e premente teria separado aquele tão apaixonado casal, quiçá, recém-casados. Relaxei. Por acaso, quando me dirigia ao estacionamento (provavelmente, naquela viagem, o chofer já havia dito que me esperaria no estacionamento), encontrei a pombinha sendo alegremente esperada por suas duas filhas pequenas e seu marido, que lhe deu um beijo típico daqueles homens saudosos quando reencontram suas amadas. Algumas viagens depois, quando tive que passar no consulado brasileiro em Bogotá, para que eles autenticassem uma assinatura minha, descobri que o Ricardão trabalhava lá.

 

Outra vez, tinha uma viagem marcada para uma segunda-feira de manhã. Normalmente eu viajava aos sábados no final da tarde, pela Varig. Mas naquele fim de semana tínhamos uma conferência missionária em nossa igreja e, dentre as atrações internacionais, estava o missionário radicado em Cúcuta, Colômbia, e grande pregador brasileiro, pastor José Sartirio dos Santos. Como eu não podia viajar durante o fim de semana, afinal eu liderava a parte musical do evento, o primeiro voo disponível era o da segunda de manhã, pela Avianca. Quem se senta do meu lado? O Sartirio em pessoa. Muita coincidência. Não havíamos nos falado durante a conferência mesmo porque era um mega evento e ele só me viu porque eu liderava a música e regia o coral. Do contrário, ele provavelmente nem desconfiaria que eu estivera presente no evento. Conversamos um pouco e eu fiquei meio ansioso, meio desconfortável, afinal queria proporcionar-lhe uma boa viagem, mas não sabia exatamente o que ele gostaria de conversar. Depois de explicar o que eu fazia e mais algumas amenidades, o meu repertório de assunto preparado para um momento tão inusitado se esgotou. E, bingo!, acho que ele era tão tímido quanto eu diante de um desconhecido, porque não se animou muito a esticar mais a conversa (ou então Deus lhe revelou que eu era um infeliz caso perdido e ele nem se animou a esticar o assunto). Fomos quase calados até o fim da viagem e o saldo do encontro foi um gentil convite que ele me fez para visitar Cúcuta assim que possível, intento que eu mantive durante algumas viagens a Bogotá, mas que, algum tempo depois, desisti. Foi uma viagem agradável, apesar do quase silêncio, o que me fez me lembrar de outra ocasião em que viajei com outro pastor, dessa vez um adventista. O sujeito era bastante falante. Na hora da comida emendou uma oração (o que o pastor Sartirio, discreto, não fez), evangelizou a aeromoça que nos atendia (mais um pouco e ele faria o apelo) e me proporcionou uma das melhores viagens que já tive, com sua conversa muito bem articulada e suas repostas enriquecedoras sobre minhas questões a respeito do adventismo.

 

Mas o encontro mais inusitado mesmo foi uma vez quando eu voltava da Colômbia. Mais especificamente, quando esperava o voo numa das salas de espera, juntamente com os demais passageiros. Eu, de minha parte, deveria estar lendo algum livro. Foi quando, por um momento, o tempo parou. Chegou chegando, do jeito que só elas sabem fazer, uma morena de fechar o aeroporto (porque o comércio ela já deveria ter fechado quando da sua passagem por lá). Era uma coroa e se vestia sem exageros. Ocorre que ela era um exagero de beleza. E ainda tinha olhos verdes. Nem precisa dizer que os radares masculinos da sala começaram e fervilhar – alguns travaram. E eu, naturalmente, como também sou filho de Deus e não sou de ferro, quando dei por mim, já estava com a leitura do livro interrompida e com um “uau!” preso na garganta. A mulher era um espetáculo.  Curioso como certas mulheres ficam mais belas à medida que amadurecem!; deveria ser o caso dela, uma desconhecida quase Luíza Brunet[1]. Bem, depois que a comunidade masculina se acalmou e os ponteiros dos relógios se recuperaram, o tempo voltou a se mover.

E como o tempo se move, algum tempo depois eu estava sentado na poltrona do lado da janela, a poltrona do meu lado vazia. Por pouco tempo. Adivinha quem se senta ao meu lado? Pois é, a vida é irônica mesmo. Em carne e osso, em três dimensões (e que dimensões), toda perfumada, a deusa. Entrei em pânico, uma vez que sou caliginefóbico. E agora? Fiquei acuado, músculos retesados, esperando para ver no que aquilo ia dar. Ela me perguntou qualquer coisa e eu lhe respondi qualquer coisa também. Naquela altura do torneio, eu faria o que ela quisesse, me fingiria de morto, o escambal. E não é que a coroa era simpática? Tentou arriscar um português e saiu um portunhol macarrônico. Até então eu nunca tinha percebido como uma colombiana ficava bonita tentando falar português. Escorrega daqui, escorrega dali, a revelação: ela era carioca. Carioca??? Quase não resisti e por pouco não lhe passei uma suprema e assanhada descompostura para os meus padrões: “bonita assim, tinha que ser carioca!”[2].

Ela então me explicou que – não me lembro bem como – conheceu seu marido advogado colombiano no Rio de Janeiro, depois se mudaram para Manaus e, por fim, ele voltou para a Colômbia onde se radicaram. Já estava na Colômbia havia uns 15 anos e, pela primeira vez, estava retornando ao Rio de Janeiro para rever sua família, daí sua dificuldade com o português, que ela iria aproveitar e treinar comigo. Lá pelas tantas, não me lembro como, descobriu que eu sou cristão evangélico. Foi quando ela se entusiasmou de vez. Explicou-me que seu marido era pastor e ela pastora. Durante os dias que antecederam a viagem ela orara a Deus pedindo muito que, no voo, tivesse a companhia de outro evangélico, algo que ela, inclusive, havia dito à sua congregação. Via em mim, portanto, a resposta das suas orações (eu estava podendo, hein?). O fato é que essa foi, provavelmente, a única viagem de retorno que não preguei os olhos. A simpática e lindíssima carioca falava pelos cotovelos. Conversamos e rimos bastante. Foi uma viagem memorável.

 

Por falar em rir bastante, numa outra viagem, sentou-se ao meu lado uma garota muito simpática. Provavelmente também estávamos voltando de Bogotá. Superada minha timidez inicial – porque a garota provavelmente puxou conversa – engatamos um bate-papo para lá de animado. E a garota falava, hein? Éramos dois tagarelas, conversando e rindo muito. Depois do jantar, eu lhe sugeri que dormíssemos um pouco, o que ela concordou. Nos voos da Varig, a manta de dormir geralmente ficava embaixo da poltrona, dentro de um saco plástico. Ela se abaixou e pegou sua manta. Eu fiz o mesmo, mas não encontrei o saquinho. Encontrei apenas a manta que parecia não estar muito bem dobrada. Ao tentar tirá-la, percebi que ela estava enroscada. Tentei com um leve puxão e não consegui. Olhei para a garota, demonstrando com minha fisionomia que algo não estava bem com a manta e, após alguns puxões, a manta saiu. Toda desdobrada, o que me fez crer que ela estava tão enroscada que se desdobrou na minha tentativa de desenroscá-la. Quase imediatamente depois de eu mostrar a garota o meu troféu, a manta toda desdobrada, o passageiro do banco de trás me dá uns tapinhas no ombro e me diz, com certa irritação na voz: “Essa manta é minha!” A garota teve um acesso de riso tão forte que eu achei que não iria parar mais; eu, particularmente, cheguei às lágrimas. Um pouco demais, já controlados, fomos dormir.

 

Já que estou falando de aeroporto, lembro-me de outro episódio que representou um périplo por três países, fora o Brasil. Estava trabalhando num projeto em uma petroleira em Caracas e viajava com bastante freqüência. Na época, a internet não estava tão avançada, e os viajantes tinham que sacar um documento chamado PTA quando a reserva era feita à distância. Eu tinha uma viagem marcada para o retorno a Caracas e o pessoal demorou muito para enviar o PTA. Depois de minha insistência para que não perdêssemos a data do embarque, eles mandaram o número do PTA. Faltavam alguns dias para o embarque. Dirigi-me a uma agência da Varig, na Av. Paulista, em São Paulo-SP, saquei o bilhete e, dias mais tarde, quando fazia o check-in, a moça do balcão colocou uma fita na minha bagagem de mão que dizia “First Class” e me convidou para ir à sala VIP. Aquilo me pareceu estranho, mas, para não pagar mico, agi como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quando peguei o bilhete de volta, dei uma olhada no preço da passagem. 1.900 dólares! Caramba, a passagem costumava sair por menos de 900 dólares! Ficou claro o que havia acontecido: na desorganização do pessoal de Caracas, eles acabaram perdendo o prazo para conseguir me encaixar numa classe econômica. Para não ter que rever as agendas, como essas empresas nadam em dinheiro, reservaram uma passagem na primeira classe. Ótimo. Saí ganhando. Teria dois trechos voados em primeira classe. Era só aproveitar.

Logo ao entrar no voo, uma aeromoça veio com uma carta de vinhos. Escolhi um vinho que me pareceu interessante e fui bebericando. Depois vieram as comodidades de sempre (para aqueles que viajam de primeira classe, obviamente). A poltrona era muito confortável, havia quase que uma mesa para almoçar, o espaço para cada passageiro era enorme. Quase todos os passageiros pareciam executivos, com a exceção de um adolescente sentado um pouco próximo a mim que tinha um olhar tipo eu-sou-o-dono-do-mundo, provavelmente filho babaca mimado de algum industrial. Durante praticamente toda a viagem uma aeromoça ficou próxima a mim e até engatou uma conversa de teor pessoal: “Você mora em Florianópolis?” “Não, essa camiseta a comprei quando passei uma temporada de férias lá”. Senti-me até um pouco importante por conta do tratamento VIP que a aeromoça me dispensou. Tive até a impressão que ela foi mais atenciosa comigo que com os outros passageiros que ela atendeu (eu estava podendo, hein?).

Já em Caracas, precisei dar uma passadinha em Barranquilla, Colômbia, para atender a uma necessidade de última hora em uma empresa química onde eu estava tocando outro projeto. Portanto, em vez de voltar direto para São Paulo, tive que mudar meu trajeto. Peguei um voo direto a Barranquilla, que sai de Caracas, e fui resolver o problema. Alguns dias mais tarde seria meu aniversário e eu tentei resolver logo tudo para estar em Santo André no meu aniversário. No fim das contas, saí de Barranquilla no dia 17 de abril, véspera do meu aniversário, num trajeto Barranquilla-Bogotá-Lima-São Paulo. Minha esperança era que, em Lima, o trajeto mais longo, eu desfrutasse do conforto da primeira classe novamente, já que tinha desmarcado o voo de volta pela Varig que, pelos meus cálculos, teria as delícias da primeira classe novamente. Cheguei a Lima na madrugada do dia 18. Depois de umas 3 horas de espera, embarquei no avião. Como alegria de pobre dura pouco, vi minha chance do conforto da primeira classe voar rapidamente tão logo embarquei no avião: era um caquético avião da Aeroperu. Por sorte, me reservaram a primeira classe, cujo conforto era um pouco melhor que a classe econômica da Varig. E ainda tive que aturar um executivo irritado que sentou ao meu lado, por problemas no voo, que falava cobras e lagartos da Aeroperu, inclusive um suposto episódio de um voo que, segundo ele, teria sido uma zona total: até a aeromoça teria transado com alguém (um passageiro ou um tripulante, não me lembro). Como eu não estava encarando o cidadão, não pude perceber se o seu nariz crescia enquanto ele despejava sua irritação em cima de mim. Pobre é uma desgraça, não é mesmo? O pão sempre cai com a parte da manteiga (aliás, margarina)[3] virada para baixo. Sem falar que durei exatas 23 horas do momento em que saí do escritório em Barranquilla até chegar à minha casa.

Meses mais tarde, num outro voo da Varig, do Brasil para algum país, vi por acaso aquela simpática aeromoça que havia sido tão gentil comigo no voo de primeira classe. Ela até me olhou, muito rapidamente, instante que eu pensei em esboçar um sorriso do tipo lembra-de-mim? Mas aí eu me lembrei que, daquela vez, eu estava na classe econômica. Nem que ela se lembrasse de mim, o que seria virtualmente impossível, naquela seção do avião eu não passaria de uma estatística.

 

E, por falar em voo do Brasil para algum país, semanas depois do meu retorno daquela viagem em que conheci a bela carioca, eu tive que voltar à Colômbia. No voo de ida, aconteceu algo inusitado. Já dentro do avião, esperando o resto dos passageiros se acomodarem, dou uma olhada à minha volta (eu estava na fila esquerda, do lado do corredor) e, quem eu avisto umas três poltronas atrás, na fila do meio? Acertou, caro leitor! Ela mesmo, a quase Luíza Brunet, se você me permite, aquela que havia se sentado ao meu lado no voo de Bogotá para São Paulo, alguns parágrafos acima. Não acreditei! E não é que os contatos da senhora com o pessoal lá de cima, lá do alto, eram fortíssimos, de colocar qualquer Daniel Dantas no chinelo[4]? Ela também mal podia acreditar. Qual seria a chance de isso acontecer? Esperamos todo mundo se acomodar e, como a poltrona do meu lado ficou vazia (que coisa, não?, estou ficando arrepiado – e com um pouquinho de medo, confesso), ela mudou de lugar, e voltamos para Bogotá numa animada conversa, em que ela, dentre outras coisas, falou de sua estada no Brasil.

Já no aeroporto de Bogotá, ficamos juntos todo o trajeto e, na saída, estava o marido, vários irmãos de sua igreja, o cachorro, o papagaio, uma banda de música! Definitivamente, a simpática carioca era muito benquista. “Esse é o irmão do voo do qual lhe falei!” O marido ficou meio sem entender, afinal ela tinha se encontrado comigo na ida e não na vinda. Ela então explicou a coincidência da volta. O marido também era uma pessoa extremamente simpática. Deu-me um cartão com os dados de ambos, endereço e tudo o mais, e me convidou para fazer uma visita à sua comunidade, em Villavicencio. Despedi-me de todo aquele pessoal tão simpático e fui para o hotel. Eu até pensei em visitá-los, mas como Villavicencio fica tão perto de Bogotá que não dá para ir de avião, o pessoal da petroleira me proibiu de fazer o passeio, pois a chance de eu ser parado na estrada por uma “batida” da guerrilha, o que era muito comum, era grande. E se eles soubessem que eu era estrangeiro, era quase certo que eu seria raptado.

 

Aliás, por falar em guerrilha, eu estava em Bogotá quando Ingrid Betancourt foi raptada pelas Farc. Também estava quando a princesa Diana morreu. Também estava quando o prefeito Celso Daniel, de Santo André, minha cidade, foi assassinado. Ainda bem que eu não estava em Bogotá (estava em Santo André) quando o Vítor – meu primogênito – nasceu, mas que teve alguma dificuldade para se adaptar comigo nos primeiros meses de vida porque, a cada retorno de uma viagem, eu tinha que fazê-lo se lembrar que aquele estranho era alguém muito próximo a ele.

 

E por falar em Ingrid, aí vai mais um “causo”. Num desses voos de Barranquilla para Bogotá, houve um problema em Bogotá, o voo inverteu da sua rota e fez uma escala em Medellín, antes de Bogotá. Coincidiu que, ao meu lado, sentara-se uma bela colombiana típica: bonita e com uma tonelada de maquiagem. Era muito simpática a moça. Na conversa ela me disse ser dona de uma fábrica de móveis, que ia a Bogotá a cada 15 dias para lazer e descreveu alguns detalhes – não me lembro agora – que sugeriam uma vida um tanto regalada. A mulher, de fato, sabia viver bem. E, já que o voo tinha desviado para Medellín, tivemos tempo para jogar muita conversa fora e ainda tirar umas fotos. Ela estranhou o fato do avião ter mudado sua rota, coisa que para ela era incomum, afinal os voos daquela rota eram muito regulares e pontuais. No fim, ela me deu um cartão com seus dados e me pediu para ligar quando estivesse de volta à Colômbia.

Alguns meses mais tarde, de volta a Barranquilla, hospedado no magnífico El Prado[5], que me disseram ser de propriedade de narcotraficantes, estava com tempo livre e resolvi dar uma ligada para ela, afinal, poderíamos marcar um encontro para jogarmos mais conversa fora. Ao atender, bastante animada, ela me disse que estava com o noivo, mas, de imediato, marcamos um almoço para alguns dias mais tarde. Ótimo. Alguns dias mais tarde, quando declinei do convite que minhas colegas colombianas de projeto me fizeram para almoçar, a pretexto de ir almoçar com Ingrid (a do avião, é claro, já que não tenho amigos tão importantes como a Betancourt), elas me olharam como quem diz: “o que você vai aprontar?” “Calma, meninas, eu só vou almoçar com a Ingrid e seu noivo!” Chegando ao endereço indicado, notei que era uma casa que chegava a ser modesta. Esperavam-me para o almoço Ingrid, seu noivo (não sei se viviam juntos ou não) e seu filho de oito anos, com uniforme da escola, pronto para ir estudar tão logo terminasse de almoçar.

Tivemos um agradável almoço onde eles me contaram um pouco da cidade, da vida deles (não me lembro dos detalhes) e, quando lhe perguntei da fábrica de móveis, ela me disse que saíra de lá, daquele emprego em que ela era gerente, e estava à procura de outro. Pensei com os meus botões: “Gerente? Tive a impressão que ela havia me dito que era dona...” E a vida social e de lazer intensa? Onde fora parar? Na realidade, sem toda aquela maquiagem, ela até parecia uma pessoal bem mais comum. Seu noivo, inclusive, era parecido a um típico barranquillero, gente simples. Estranho...

Bem, não importava. Importa mesmo é que eles foram extremamente amáveis (como esse pessoal colombiano é simpático!) e me convidaram a acompanhá-los enquanto levavam o filho de Ingrid à escola, o que eu fiz de muito bom grado, no automóvel do noivo de Ingrid, um veículo bem apropriado para alguém de uma vida um pouco mais modesta. Em seguida, me levaram a um tour pela cidade e, embora eu já a conhecesse, eles enriqueceram ainda mais o meu conhecimento a respeito dela. Foram momentos muito agradáveis.

Alguns dias mais tarde, comentando o episódio a uma amiga do projeto, bastante acostumada a viagens entre Bogotá e Barranquilla, uma vez que ela vive em Bogotá, ela não confirmou aquela história que Ingrid havia-me contato a respeito dos voos. Segundo ela, aquela rota costumava atrasar e não era difícil eles inverterem o trajeto Barranquilla-Bogotá-Medellín para Barranquilla-Medellín-Bogotá por conta do tráfego aéreo em Bogotá que sempre foi muito intenso.

No final das contas, cheguei a um acordo com os meus botões: Ingrid era, de fato, uma simpatia em pessoa. Entretanto, para impressionar a outrem, como o ser humano é capaz de mentir, não é mesmo?

 

Para finalizar esse extenso texto, vamos à última história. Há alguns anos atrás, quando fazia um dos cursos de harmonia com o Cláudio Leal, quando descia a pé a Rua Traipú, no bairro Pacaembú em São Paulo-SP, notei que uma pessoa de grande estatura subia a rua em sentido contrário. Eu conheço muita gente e sou conhecido de outro tanto. Portanto, é bastante comum eu me encontrar com uma pessoa, bater o maior papo e me despedir sem ter a menor idéia de quem se trata, pela vergonha de admiti-lo. Mas, sempre que possível, faço um grande esforço para me lembrar da pessoa. Naquele fim de tarde, descendo a rua, pressenti que algo desse tipo poderia acontecer. Eu conheço esse negão! Naqueles poucos segundos em que nos aproximamos, tratei de me esforçar para conseguir me lembrar de quem seria aquela pessoa. Trabalho, igreja, conhecidos, ladrões, vizinhos, uma série de imagens vinham à minha mente, mas eu não conseguia me lembrar. Foi quando nos cruzamos, eu acredito que olhei para ele com aquela cara eu-te-conheço-mas-não-me-lembro-de-onde, ele me olhou, deu um sorriso, cumprimentou-me e eu devolvi o cumprimento também sorridente. É isso, eu conheço esse cara, mas não me lembro de onde! Tanto que ele se lembrou de mim também. Será que é algum porteiro de alguns desses prédios luxuosos da região, já que eu sempre passo por aqui e não estou me lembrando? Se bem que ele estava muito bem vestido para ser um porteiro. Tive ímpetos de olhar para trás, mas não o fiz. E se o cara também olha e me vejo obrigado a parar e engatar uma conversa, novamente com uma pessoa que não consigo me lembrar? Mas, bastaram uns três passos mais e me lembrei: “Caramba, é o Rincón[6]!” Qual a chance disso acontecer?



[1] Ok, caro leitor, concordo que eu forcei na comparação; mesmo porque a Luíza Brunet não tem olhos verdes, tem?
[2] Parece que Gabriel García Márquez também já teve seus momentos idílicos ao lado de uma bela. Ele contou isso com muito mais classe que eu, é claro, no seu conto “El avión de la bella durmiente”
[3] Pobre não tem dinheiro para comprar manteiga, a versão original do ditado.
[4] Já que a relação que eu fiz deve ter sido obtusa, deixa-me explicar. Para quem se lembra, Daniel Dantas, um genial banqueiro, tido como alguns como modelo de empresário agressivo e bem-sucedido e por outros como gângster, foi preso duas vezes na mesma semana e libertado imediatamente – nas duas vezes – pela impetração de habeas corpus, em julho de 2008. A questão é que a sua liberdade sempre foi muito rápida, concedida pelo Ministro do STF, Gilmar Mendes. Muito curioso que um assessor de Daniel Dantas ter supostamente tentado subornar um policial da PF alegando que a preocupação era com a primeira instância porque, em Brasília, Daniel Dantas se garantiria. Fortíssimas as ligações desse senhor com os gângsteres da ocasião no poder, no caso o PT, não? Mas nada comparadas às fortíssimas ligações – nesse caso com a turma do bem – de nossa heroína.
[5] http://www.hotelelprado.com.co/, se não abrir, procura no Google...
[6] Caro leitor, aquela de pensar que o cara era porteiro só porque era negão não aconteceu; foi apenas uma brincadeira para deixar o texto mais interessante, afinal o racismo politicamente incorreto chega a ser engraçado, se não levado a sério, porque aí perderia toda a graça.