segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Esopo e o autoritarismo obscurantista religioso-bolsonariano brasileiro

Anos atrás, quando meus amigos evangélicos pensadores me diziam que o Brasil corria o risco de cair numa ditadura obscurantista evangélica, eu dizia: “Calma lá, amigos! Não acredito que essas ideias retrógradas terão espaço no Brasil! Temos muita gente civilizada!” Hoje, com a possibilidade de o Brasil se tornar uma teocracia evangélica nos moldes iranianos, devo reconhecer que apostei demais na nossa suposta civilidade.

No período eleitoral, quando Bolsonaro crescia assustadoramente do episódio obscuro da facada, eu dizia aos meus amigos mais catastrofistas: “Calma lá, amigos! Bolsonaro é um falastrão imbecil! Ele chegará ao poder e será enquadrado pelo establishment! Ainda que o establishment político brasileiro seja muito ruim, as forças políticas tradicionais não deixarão que ele instaure seu regime de barbárie!” Devo reconhecer, novamente, que fui muito otimista e acreditei demais na nossa suposta civilidade.

Lembrei-me desses episódios ao ler trechos do livro “Quando as democracias morrem”, de Steven Levitsky, quando cita abomináveis autocratas do século XX, grupo a que Bolsonaro está se tornando aos poucos um “venerável” candidato:

Surgira uma séria disputa entre o cavalo e o javali; então, o cavalo foi a um caçador e pediu ajuda para se vingar. O caçador concordou, mas disse: “Se deseja derrotar o javali, você deve permitir que eu ponha esta peça de ferro entre as suas mandíbulas, para que possa guiá-lo com estas rédeas, e que coloque esta sela nas suas costas, para que possa me manter firme enquanto seguimos o inimigo.” O cavalo aceitou as condições e o caçador logo o selou e bridou. Assim, com a ajuda do caçador, o cavalo logo venceu o javali, e então disse: “Agora, desça e retire essas coisas da minha boca e das minhas costas.” “Não tão rápido, amigo”, disse o caçador. “Eu o tenho sob minhas rédeas e esporas, e por enquanto prefiro mantê-lo assim.”
(...)
Com a ordem política restaurada pela nomeação de Mussolini e o socialismo em retirada, o mercado de ações italiano subiu fragorosamente. Estadistas mais velhos do establishment liberal, como Giovanni Giolitti e Antonio Salandra, se viram aplaudindo a virada dos acontecimentos. Eles encaravam Mussolini como um aliado útil. Contudo, como o cavalo da fábula de Esopo, a Itália logo se viu sob rédeas e esporas. Versões semelhantes dessa história se repetiram em todo o mundo ao longo do último século. Um elenco de outsiders políticos, incluindo Adolf Hitler, Alberto Fujimori no Peru e Hugo Chávez na Venezuela, chegou ao poder da mesma maneira: a partir de dentro, via eleições ou alianças com figuras políticas poderosas. Em cada caso, as elites acreditaram que o convite para exercer o poder conteria o outsider, levando a uma restauração do controle pelos políticos estabelecidos. Contudo, seus planos saíram pela culatra. Uma mistura letal de ambição, medo e cálculos equivocados conspirou para levá-las ao mesmo erro: entregar condescendentemente as chaves do poder a um autocrata em construção.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Não há limite de idade para a arte

Na Fundação das Artes:
- Pai, lembra que no teatro vieram várias pessoas me dar parabéns?
- Lembro.
- Lembra que veio uma senhora sozinha me dar parabéns?
- Lembro - menti.
- Ela está aqui hoje e falou comigo.
- Ah, é? Que legal!
- Ela me disse uma coisa que me deixou com muita vergonha.
- É mesmo? O que foi?
- Ela me disse: "Parabéns de novo, viu? Gostei muito de ver você tocando piano! Gostei tanto que resolvi aprender a tocar piano."
- Nossa, Felipe, que legal!!!

sábado, 13 de julho de 2019

Dois momentos épicos na feira

Momento 1

Parei na barraca de bananas para comprar uma dúzia de banana nanica. Um cliente, do lado de dentro da barraca, desenvolvia um diálogo bem solto com o feirante:
- Casal pra mim é homem e mulher!
E descrevia o acontecido, que um casal homossexual queria um desconto porque algum restaurante dizia que casal tinha desconto. Onde já se viu? Casal é homem e mulher. Quer se beijar? Não faça em público. E todas aquelas baboseiras típicas homofóbicas.
Queria fugir do estereótipo, mas era tão estereotipado que não consigo: um distinto senhor branco, bem vestido, de olhos azuis. O típico “cidadão de bem”.
Eu paguei e fiquei ali, do outro lado da barraca, postado, com aquele comichão: sacaneio ou não? Scaneio ou não?
Daí, o distinto senhor, vendo meu interesse, resolveu deixar a bola quicando bem em frente o gol para eu chutar:
- Foi num restaurante aqui em cima. Estava escrito que “casal tinha desconto” e dois homossexuais queriam desconto. Deu a maior confusão.
- Então... sou homossexual, casado. Eu faço um casal com meu marido. Se eu fosse nesse restaurante, iria exigir desconto também.
- Mas se você e sua esposa...
- Esposa não!!! Ma-ri-do!!! Ele é meu marido.
Visivelmente constrangido, nem terminou o que ia dizer.
- Pra você eu posso não ser um casal com meu marido. Mas eu formo um casal, sim!
- Mas o erro foi do restaurante... A culpa nem é do garçom. Eles deveriam ter colocado que duas pessoas juntas tinham desconto.
Fiquei impressionado com a mudança repentina de discurso. Até parecia uma pegadinha. AHAHAHAHAHAH! Na realidade era. A ocasiãozinha faz a pegadinha. Nossa, que rima tosca!
- Complicado – respondi – mas entendo a dificuldade. Talvez colocar “duas pessoas têm desconto” evitaria esse tipo de situação.
Resolvi não provocar mais porque a sacanagem já tinha sido completada, o senhor já estava visivelmente constrangido, os feirantes meio em suspenso. Com um sorriso amarelo ele capitulou, talvez na tentativa de não me provocar mais e sair daquela situação constrangedora o quanto antes:
- Estamos avançando aos poucos.
- Verdade, aos poucos estamos superando esses preconceitos.
E fiz menção de me retirar.
- Tudo de bom.
- Pro senhor também.

Momento 2

Na barraca de frutas onde tradicionalmente me abasteço, falei com o dono da barraca:
- Vi você ontem!
- Ontem? Não, impossível!
- Eu te vi, sim!
- Ontem não!
Pensei um pouco, recapitulei...
- Ah... verdade! Foi na quinta!
- Na quinta eu faço feira ali perto da Atlântica.
- Isso mesmo. Sabe a José Lins do Rego? Eu estava passando por ela e você, na transversal, estava esperando para entrar.
- Ah... sim, era eu mesmo!
- Tinha um monte de cara com você. Eu até pensei: nossa, esse cara só anda com macho!
O feirante do seu lado começou a sacanea-lo. Ele respondeu:
- Nem todos! Esse aqui é meio macho!
- Ah, sim... Aí já não sei... Ele até que tem cara de macho, hein?
O feirante dono da barraca sacaneou o feirante do lado. E concluiu.
- Sexta em nem saí de casa.
Gargalhei.
- Ahahahahahahah! Putz, suou frio agora, hein?
Foi a vez do feirante do lado sacaneá-lo, sem dó.
Fui embora dando risada.

sábado, 22 de junho de 2019

Grito de Alerta - Gonzaguinha

A Flávia está ouvindo Gonzaguinha. De repente começa a tocar uma música. Ao longo da minha vida, se escutei essa música umas 5 vezes foi muito.

Mas eu sabia a música inteira. Cantei junto.

Voltei mais de 35 anos no tempo, quando era garoto e não ouvia música no rádio porque música ”do mundo” era pecado.

Mas já haviam inventado as partituras musicais e eu tinha uma espetacular coleção de música brasileira impecavelmente arranjada para violão. Foi onde aprendi a tocar violão de forma autodidata.

As músicas eram maravilhosas.

Uma delas era "Grito de alerta”, que depois de solfejar e descobrir eu mesmo a melodia, cantava e tocava violão.

E tantas músicas maravilhosas do nosso cancioneiro aprendi assim. Até os 20 anos, todo meu conhecimento de música popular era quase que inteiramente decorrente da leitura de partituras.

Tanto que, em boa parte das músicas, a letra que eu conhecia eram as notas musicais solfejadas.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

A marcha e a mídia

Nunca fui à marcha, nunca gostei, e estava me lembrando do passado, no início dos anos 2000, quando adolescentes do Cifra, um coro jovem que eu regia, iam todos os anos, entusiasmados. Eles ficavam muito felizes e eu, olhando de longe, o único reparo que fazia – de indignação –era o fato de a grande mídia ignorar solenemente o evento. Era uma inequívoca demonstração do desprezo pelos evangélicos.

Nunca gostei da marcha, sempre a considerei desnecessária pelo fato de acreditar que a fé pode - e deve - ser afirmada de outras maneiras. Mas... se as pessoas estavam indo para as ruas, o mínimo que a imprensa deveria fazer era noticiar. Ao contrário, boicotava sistematicamente.

Hoje pela manhã, assisti com um sorriso irônico no rosto a TV Globo fazendo uma cobertura para lá de empolgada do evento.

É... finalmente a "bispa" Sônia venceu: "O Brasil é do Senhor Jesuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuussssssssssssss!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

Mas eu ainda fico aqui, cofiando minha barba e, como sempre, olhando tudo isso de forma bem desconfiada. Isso inclui a visita de um presidente da república de extrema-direita, esquizofrênico, que investe pesado em um discurso moralista religioso para arregimentar soldados para sua "guerra cultural" particular.

A conclusão que eu chego é que, quando mais a marcha se aproxima do poder, quanto mais ela atrai todo o tipo de gente oportunista como Bolsonaro e Doria, quanto mais ela é encampada por lideranças evangélicas duvidosas, midiáticas no pior sentido, quanto mais ela cresce e vai se tornando a expressão de uma desejada hegemonia evangélica, menos de Jesus ela é.

Se nos anos 2000 eu já ficava meio desconfiado se Jesus tinha realmente a ver com aquilo, agora então... difícil, hein?

Eu não vi Jesus nas fotos. Eu vi uma multidão de gente – a maioria gente sincera, penso – liderada por uma quadrilha de malfeitores que sabe utilizar bem o aparato midiático e de poder para manter essas pessoas como um grande “rebanho” feliz, mas marcado pela posse mental e roubado, em grande parte, da sua consciência política na medida em que repetem chavões vazios.



segunda-feira, 17 de junho de 2019

Aqui não é favela

Noticiário da TV.
Vargem Grande Paulista.
Peguei o noticiário pela metade, mas parece que os assaltos no bairro, talvez em uma rua específica, estão muito altos. Moradores reféns da violência.
A prefeitura, no típico desrespeito ao cidadão que é o padrão de resposta das autoridades, em vez de ativar a inteligência policial, aumentar as rondas policiais, ou sabe-se lá que outras medidas, resolve dar a “solução” mais porca possível: colocou grandes pedras nos dois extremos da rua.
Além de não resolver o problema porque os bandidos conseguem continuar acessando a rua de motocicleta, os veículos dos moradores não podem chegar até suas casas.
Repórter entrevista um cidadão justamente indignado que faz um apelo ao prefeito. Enfim, chama-o à responsabilidade, à razão, protesta com muito fundamento pelo fato de que a medida porca e desastrosa da prefeitura limita o direito de ir e vir dos moradores da rua. E conclui sua fala:
- Aqui não é favela!
Oi?

domingo, 16 de junho de 2019

Lionel Shriver e a forma

Anos atrás, quando estava na crista da onda, li o livro “Precisamos falar sobre Kevin”. Foi uma das experiências literárias mais agradáveis dos últimos tempos. Além da maneira como a escritora formata a narrativa – cada capítulo é uma carta que a protagonista escreve ao marido rememorando cada detalhe de suas vidas ao longo do tempo, numa tentativa de compreender o que havia acontecido em suas vidas – a prosa da escritora é sempre muito afiada, com um humor muito sagaz, fino e uma crítica mordaz à cultura norte-americana. Confesso que, independente da trama que ela construiu de uma maneira que beirou a perfeição (cujo filme, apesar do imenso sucesso, é um pálido reflexo da força do romance), ler o livro foi delicioso pelo seu aspecto, digamos, formal.

Há muitos anos li uma frase, infelizmente perdida, que acredito ter sido escrita por Eça de Queiroz, onde ele dizia que o verdadeiro amante da literatura a ama pela forma, não pelo conteúdo. Aquela frase, provavelmente parafraseada aqui, causou-me identificação e felicidade imediatas. Superados os meus verdes anos, onde eu lia qualquer coisa que caía nas minhas mãos, hoje minhas escolhas literárias são um pouco mais seletivas (com algumas exceções que concedo aqui e acolá em consideração a quem me indicou), hoje prefiro leituras que, do ponto de vista da forma, da narrativa, da escrita, me encha os olhos, me faça prender o fôlego, palpitar, não pelo desenrolar envolvente dos mistérios e desdobramentos de um “thriller”, mas pela a elegância das palavras, das frases, do o senso de humor que se esconde por trás das sentenças, da polissemia. Por esse motivo, livros herméticos para a maioria das pessoas, como Grandes Sertão-Veredas (Guimarães Rosa) e Ulisses (James Joyce), para citar dos exemplos supremos, representaram para mim ao mesmo tempo desafio e um imenso prazer ao enfrentá-los.

Voltando a Lionel Shriver, nunca li análises a respeito de sua obra, mas o segundo livro dela que estou lendo, Tempo é Dinheiro, por sugestão da Alessandra Correia, independente de onde me leve a história, sinto-me diante novamente de um texto muito rico, desafiador, delicioso de se ler. Nem de longe é um desafio como Guimarães Rosa ou James Joyce, mas possui, para mim, aquela elegância, sutileza, sagacidade e mordacidade que me encantaram em Precisamos falar sobre Kevin.

Taí uma escritora para ser saboreada pelos amantes da literatura.