Trabalhando em casa no meu sistema enquanto assisto Fauda com Flávia.
Na rua o autofalante do carro anuncia os ovos e a mandioca baratos (nossa, somente agora o trocadilho me ocorreu!).
- Bada, avisa o cara que vou pegar dinheiro pros ovos!
Corro no portão, e pela fresta, assobio.
Ele ouve, para.
Volto pego a chave.
Abro o portão.
Saio para a calçada.
Olho toda aquela imensidão da rua deserta.
A sensação de que já estive naquele lugar antes é indescritível.
terça-feira, 26 de maio de 2020
domingo, 10 de maio de 2020
Contágio infernal em tempos de pandemia
Baixei um livro e comecei a ler. O livro analisa o apoio dos evangélicos a Bolsonaro. Ele já começa dizendo literalmente algo que eu dizia a um amigo essa semana sobre o motivo que leva os evangélicos a apoiarem Bolsonaro.
Para entender melhor o que eu digo, seria interessante assistir 4 séries, que falam sobre o fundamentalismo religioso, presente no judaísmo, islamismo e cristianismo. Embora em religiões diferentes, é rigorosamente o mesmo.
Eu dizia que os fundamentalistas evangélicos apoiam Bolsonaro porque vivem em um mundo paralelo de crenças que somente eles enxergam. A dinâmica do apoio a Bolsonaro nada mais é que a crença em teorias conspiratórias, negação da realidade, anticientificismo, crenças surreais como o terraplanismo, todo esse monte de coisas com uma cobertura de glacê que é o messianismo populista bolsonarista. Esse tipo de solução é o ambiente mais natural, quentinho, confortável a que o fundamentalista religioso está acostumado.
Por isso movimentos fundamentalistas religiosos parecem tão esquisitos para quem olha de fora, enquanto que movimentos religiosos não fundamentalistas não parecem insanos para observadores que não comunguem da mesma crença e até permitem o diálogo.
Veja como o livro começa:
"Para Adela Collins, especialista no gênero em questão, as apocalípticas podem se configurar ou como um tipo de movimento social ou como uma linguagem de estrutura mítico-narrativa na qual uma revelação extraordinária é mediada por um believer, que desvenda uma realidade transcendente - supostamente inacessível aos 'profanos e pecadores' - na medida que vislumbra uma salvação futura ou que prospecta outro(s) mundo(s). Ou seja, apocalípticas são modos de imaginação e linguagem que objetivam alterar a disposição subjetiva e as práticas históricas daqueles que imaginam e sonham com tais futuros. Este é o sentido retroativo da imaginação futurista, ela produz profundas alterações no tempo real da experiência, no intenso agora."
O livro: Contágio infernal - o apocalipse bolsonarista evangélico (Felipe dos Anjos, João Luiz Moura)
As séries: The Family - Democracia Ameaçada (Netflix), O conto da aia, Nada ortodoxa (Netflix) e Califado (Netflix)
link para baixar o livro: https://marketingeditorare.wixsite.com/ebooks
segunda-feira, 4 de maio de 2020
Aldir Blanc subverteu a Navalha de Occam
Uma das mais profundas experiências musicais que a MPB me proporcionou, foi o álbum “Simples e Absurdo” de Guinga e Aldir Blanc.
Já ouvi tantas vezes aquele álbum que devo ter superado as 100 audições. A genialidade, sofisticação, beleza, sensibilidade, exuberância daquelas canções sempre me deixam emocionado, mesmo na enésima audição.
Durante anos o álbum foi motivo para eu cultivar uma quase veneração a Guinga. Sempre que ouvia aquelas melodias sinuosas, inacreditáveis, passando por caminhos inesperados, brincando com aqueles poemas de puro lirismo, simplicidade e toque na alma sem o menos esforço, eu pensava com meus botões:
“Caramba, Guinga é muito gênio pra conseguir sacar melodias tão maravilhosas e inesperadas desses poemas profundamente líricos”.
Porque eu só conseguia conceber essa possibilidade: Aldir Blanc apresentara os poemas a Guinga e ele, com sua capacidade inigualável para parir melodias inesperadas, tinha chegado àquelas soluções geniais. E teria conseguido, com sua genialidade ímpar, parir melodias que traduziam à perfeição o clima sugerido pelos poemas. Quanta genialidade!
E, de fato, Guinga é um dos maiores gênios da nossa cultura.
Mas eu não estava preparado para o que veio a seguir.
Anos depois, assistindo a um documentário com Aldir Blanc, em um determinado momento ele dizia algo assim: “Ao contrário do que se pensa, Guinga não musicou meus poemas; fui eu quem criei poemas para suas melodias”.
Confesso que quase tive uma parada cardíaca. Como assim???
Uma coisa é alguém tão genial como Guinga criar aquelas melodias de poemas já prontos. Mas o contrário, sacar poemas tão maravilhosos e que se adaptassem à perfeição a melodias tão intrincadas quanto aquelas melodias de Guinga, me parecia algo muito, muito mais improvável!
E parece que não era o único que pensava assim, do contrário ele não teria dito o que disse no documentário.
Ou seja, Aldir Blanc era muito mais que gênio.
Com sua suprema genialidade, Aldir Blanc subverteu a Navalha de Occam.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Aprendendo com Algernon a ser mais crítico
Estou lendo o soberbo “Flores para Algernon”, de Daniel Keyes, que conta a história de um retardado mental que, depois de passar por uma cirurgia revolucionária, se torna um gênio. Os problemas que isso desencadeia à sua volta, nas suas relações, são muito interessantes.
De repente, as pessoas se sentem incomodadas por conviverem com alguém mais inteligente, capaz de enxergar coisas que elas não conseguem ver. É muito divertido e um convite à reflexão.
Estou em um trecho que me remeteu ao momento em que vivemos, aos “influencers” que arrastam atrás de si multidões de fãs, geralmente pessoas sem capacidade crítica para validar se o que esses “influencers” estão dizendo é verdade.
Ao ter sua inteligência desenvolvida de forma explosiva, ele foi capaz de ler muito rapidamente e, em um pequeno espaço de tempo, conseguiu absorver informação de especialistas numa quantidade que as pessoas jamais conseguiriam absorver em suas vidas. Daí, sempre que alguém dizia algo, ele tinha informações mais balizadas e rapidamente era capaz de identificar impostores, farsantes. E ele se tornou capaz disso não apenas porque era inteligente, mas principalmente porque sua inteligência o permitiu ler e compreender muito conteúdo que lhe deram ferramentas para rapidamente identificar uma farsa.
Isso me lembrou uma história que meu irmão contou quando estudava Letras na Fundação Santo André. Ele tinha uma professora por quem nutria profunda admiração, dado que ela falava com grande desenvoltura sobre qualquer assunto. Ele ficava embasbacado com tanto conhecimento em tantas áreas (que ele não conhecia). Até o dia em que ela resolveu falar sobre música de concerto, assunto que ele dominava com profundidade. Sua decepção foi terrível. Como ele conhecia bem sobre o assunto que ela se pôs a falar, facilmente identificou erros e equívocos na sua fala. De repente, aquela que era um poço de conhecimento ficava reduzida a uma quase impostora.
Como se defender de mestres da retórica que arrebatam multidões com suas lacrações? Primeiro, sendo inteligente (nem precisa ser gênio). Segundo, sendo o mais cético que puder. E por último e não menos importante, ler muito, pesquisar muito, movido pela sede do conhecimento, não da convicção.
sábado, 28 de março de 2020
Síntese gelatinosa
Como é bom estar na fazenda. Abandonar a grande cidade, o ruído, a agitação, ouvir os mugidos das vacas, o cacarejar das galinhas, sentir o cheiro do fogão à lenha misturado ao cheiro de capim da chuva recente... Esses pensamentos faziam a mente do ator divagar enquanto descia a pequena alameda barrenta com seus amigos também convidados por um amigo em comum, de posses, para um fim de semana de isolamento e descanso.
Desceram, instalaram-se na casa grande e depois saíram todos para a agradável varanda com suas cadeiras de madeira, o morro e o riacho que percorria por trás dele e passava ao lado da fazenda, numa espécie de praia, de águas cristalinas e convidativas para um nado até a outra margem.
Enquanto conversavam, bichano, o mais arredio dos felinos da fazenda, veio se enroscar nos pés dos convidados, num balé apressado e esquisito, que chamou atenção de todos. O dono da fazenda externou sua preocupação, pois aquele animal estava estranhamente agitado nos últimos dias e, algo impensável para ele, agora dera de se enroscar nas pessoas, pior ainda, que ele não conhecia. Nas últimas semanas a fazenda havia ficado vazia. Seria efeito do confinamento do gato, longe das pessoas? Não pode ser, protestaram os convidados. Houve até quem perguntasse seu nome, em tom de brincadeira: Banzé, Marley, Pluto?
O bichano olhou para seu dono, surpreso de ele ter sido capaz de identificar seu sofrimento. Não esperava isso. Mas ele mesmo, nada afeito a sentimentalismos, nas últimas semanas vinha sendo vítima de uma estranha tristeza, uma apatia, uma vontade de nem sei o quê, uma dor no peito, uma sensação de que a vida estava por um fio, incapaz de resistir a qualquer contingência da vida. E a vida é cheia de contingências. Como sobreviver? Como se manter lúcido? E, por mais estranho que parecesse, o que afastava sua profunda angústia ainda que por alguns momentos, era se enroscar nas pernas dos humanos. Mas ele o fazia apressadamente, numa luta feroz entre seu desejo momentâneo e seus princípios milenares.
Dos presentes, ninguém mais que o ator, alguém de profunda sensibilidade, capaz de se entregar na experiência alheia, de seus personagens, um ser dotado de profunda empatia, foi capaz de decodificar o dor que ia no peito daquele desafortunado felino, não se sabe exatamente de onde surgiu a dor, mas ela esta ali, incrustrada no peito felídeo. E capaz de mergulhar no lago do sofrimento alheio, ele estendeu a mão e chamou bichano para si. E para estupefação de seu dono, bichano aceitou o convite e se aninhou no colo artístico.
Foi como se estivesse ocorrendo uma terapia intensiva de recuperação emocional. Enquanto afagava bichano, mergulhando na sua dor o ator pode perceber que o problema estava na fonte da vida, o pequeno coração do animal, que parecia envolvido em uma crosta muito grossa de dor e sofrimento. Foi então que o ator dirigiu ao animal todos seus afetos: calma, tranquilo, tudo vai passar. E, como num processo mágico de transferência de energia, os afetos se incrustaram no âmago do ser, dos sentimentos felinos e o curaram do que o estivesse causando sofrimento.
O animal, de repente, sentiu-se calmo, tranquilo, sereno, e sem a menor cerimônia, protocolo cultivado desde seus mais remotos ancestrais, saltou para o chão da varanda e desapareceu para além dos limites da varanda, sem sequer olhar para trás, sem a menor intenção de agradecimento. O ator, pessoa tão sensível que era, não conseguiu passar incólume por aquele insignificante acontecimento, a já esperada total falta de consideração por parte do felino. E, subitamente, como se a enfermidade tivesse, feita um vírus, evoluído e saltado da cadeia animal para a humana, sentiu seu coração atacado por uma forte pressão de tristeza, desespero, frustração. Enfim, o pântano da dor.
Pálido, com uma forte dor no peito, com o centro das atenções transferidas do gato para ele, seus amigos aflitos tentaram ajudá-lo. É um ataque cardíaco! Ele sabia que não e tentou convencer seus amigos disso. Mostrou-lhes, inclusive, que os sintomas clássicos do acidente coronário não se aplicavam a ele, enquanto lutava com dificuldade para não sucumbir diante da dor lancinante que o feria. Enfim, solícitos que eram, seus amigos o ampararam até o veículo mais próximo e o levaram ao hospital igualmente mais próximo, ainda que a uma desesperadora distância.
Por fim chegaram. Ele estava até mais corado. Mas alguns se lembraram que, perto da morte, as pessoas costumam ter uma súbita melhora. Então era melhor não dar sopa para o azar. Depois da entrevista com o médico no pronto atendimento, ele concordou com o nobre ator não se tratar de um ataque do coração, mas de uma estranha síndrome de fundo emocional que estava se alastrando de forma quase epidêmica e que a ciência ainda não tinha até então encontrado cura nem tratamento. Mas já era claro que tal síndrome era somatização de questões emocionais e atacava o coração dos vitimados.
Mas, como nem tudo está perdido e a ciência sempre está a abrir novas possibilidades, o médico informou o paciente que estavam testando uma nova terapia, algo revolucionário, e que já tinha dado resultado em vários pacientes. Tinha um nome científico complicado, mas poderia ser simplificado para o cidadão comum: síntese gelatinosa.
Em termos práticos, ele seria colocado em um aparelho que ressonância magnética evoluído, que leria todo seu organismo e suas memórias afetivas e sentimentais das últimas semanas. Um processo sofisticado de Inteligência artificial sintetizaria uma gelatina que seria uma espécie de “eu” do paciente que, uma vez ingerida por ele, se deslocaria por suas entranhas, chegaria ao coração e, por algum processo ainda não totalmente compreendido (daí porque uma terapia experimental), a síndrome desapareceria.
O ator aceitou a proposta, não tinha nada a perder, a dor ainda o incomodava bastante. Enfiado dentro da máquina de ressonância durante os 40 minutos necessários para sintetizar a miraculosa gelatina, ele se viu envolvido em uma espécie de viagem onírica freudiana. Enquanto a máquina mapeava suas informações, seu cérebro percorria vertiginosamente por sensações, memórias, sentimentos das últimas semanas, sons, cheiros, música, ruído, ventania, cores, abraços, amigos, espaços, alucinações e aquele felino que lhe partira o coração.
Findo o prazo necessário para a síntese da gelatina, os médicos lhe apresentaram a gosma miraculosa que, adicionada de uma essência para lhe tornar mais palatável, proporcionaria a cura. Devidamente acomodado em uma maca, deglutiu a gelatina. No momento em que ela tocou seu esôfago, escorregando por seus órgãos internos, um portal se abriu em sua mente e era como se ele mesmo estivesse dentro de si, enxergando seus órgãos internos.
Lentamente ele escorria dentro de si mesmo, descendo pelo esôfago. Foi quando ele enxergou o coração sobressaltado, agitado, irrequieto. Nesse momento, o ele-gelatina se sentiu profundamente tocado por aquele sofrimento, aquela inquietação e seu impulso imediato foi se aproximar do coração e envolvê-lo suavemente.
O coração parecia um gatinho assustado, precisando de carinhos, afagos. E a única ideia que ocorreu ao eu-gelatina, a síntese do empático ator, foi carinhosamente afagar aquele coração agitado: calma, tranquilo, tudo vai passar. E em meio aquela confusão, que para o ele-gelatina eram dores de uma vida agitada, correria, gases lacrimogênios, o abraço carinho foi deixando o coração cada vez mais calmo, mais calmo, mais calmo...
Morreu.
Desceram, instalaram-se na casa grande e depois saíram todos para a agradável varanda com suas cadeiras de madeira, o morro e o riacho que percorria por trás dele e passava ao lado da fazenda, numa espécie de praia, de águas cristalinas e convidativas para um nado até a outra margem.
Enquanto conversavam, bichano, o mais arredio dos felinos da fazenda, veio se enroscar nos pés dos convidados, num balé apressado e esquisito, que chamou atenção de todos. O dono da fazenda externou sua preocupação, pois aquele animal estava estranhamente agitado nos últimos dias e, algo impensável para ele, agora dera de se enroscar nas pessoas, pior ainda, que ele não conhecia. Nas últimas semanas a fazenda havia ficado vazia. Seria efeito do confinamento do gato, longe das pessoas? Não pode ser, protestaram os convidados. Houve até quem perguntasse seu nome, em tom de brincadeira: Banzé, Marley, Pluto?
O bichano olhou para seu dono, surpreso de ele ter sido capaz de identificar seu sofrimento. Não esperava isso. Mas ele mesmo, nada afeito a sentimentalismos, nas últimas semanas vinha sendo vítima de uma estranha tristeza, uma apatia, uma vontade de nem sei o quê, uma dor no peito, uma sensação de que a vida estava por um fio, incapaz de resistir a qualquer contingência da vida. E a vida é cheia de contingências. Como sobreviver? Como se manter lúcido? E, por mais estranho que parecesse, o que afastava sua profunda angústia ainda que por alguns momentos, era se enroscar nas pernas dos humanos. Mas ele o fazia apressadamente, numa luta feroz entre seu desejo momentâneo e seus princípios milenares.
Dos presentes, ninguém mais que o ator, alguém de profunda sensibilidade, capaz de se entregar na experiência alheia, de seus personagens, um ser dotado de profunda empatia, foi capaz de decodificar o dor que ia no peito daquele desafortunado felino, não se sabe exatamente de onde surgiu a dor, mas ela esta ali, incrustrada no peito felídeo. E capaz de mergulhar no lago do sofrimento alheio, ele estendeu a mão e chamou bichano para si. E para estupefação de seu dono, bichano aceitou o convite e se aninhou no colo artístico.
Foi como se estivesse ocorrendo uma terapia intensiva de recuperação emocional. Enquanto afagava bichano, mergulhando na sua dor o ator pode perceber que o problema estava na fonte da vida, o pequeno coração do animal, que parecia envolvido em uma crosta muito grossa de dor e sofrimento. Foi então que o ator dirigiu ao animal todos seus afetos: calma, tranquilo, tudo vai passar. E, como num processo mágico de transferência de energia, os afetos se incrustaram no âmago do ser, dos sentimentos felinos e o curaram do que o estivesse causando sofrimento.
O animal, de repente, sentiu-se calmo, tranquilo, sereno, e sem a menor cerimônia, protocolo cultivado desde seus mais remotos ancestrais, saltou para o chão da varanda e desapareceu para além dos limites da varanda, sem sequer olhar para trás, sem a menor intenção de agradecimento. O ator, pessoa tão sensível que era, não conseguiu passar incólume por aquele insignificante acontecimento, a já esperada total falta de consideração por parte do felino. E, subitamente, como se a enfermidade tivesse, feita um vírus, evoluído e saltado da cadeia animal para a humana, sentiu seu coração atacado por uma forte pressão de tristeza, desespero, frustração. Enfim, o pântano da dor.
Pálido, com uma forte dor no peito, com o centro das atenções transferidas do gato para ele, seus amigos aflitos tentaram ajudá-lo. É um ataque cardíaco! Ele sabia que não e tentou convencer seus amigos disso. Mostrou-lhes, inclusive, que os sintomas clássicos do acidente coronário não se aplicavam a ele, enquanto lutava com dificuldade para não sucumbir diante da dor lancinante que o feria. Enfim, solícitos que eram, seus amigos o ampararam até o veículo mais próximo e o levaram ao hospital igualmente mais próximo, ainda que a uma desesperadora distância.
Por fim chegaram. Ele estava até mais corado. Mas alguns se lembraram que, perto da morte, as pessoas costumam ter uma súbita melhora. Então era melhor não dar sopa para o azar. Depois da entrevista com o médico no pronto atendimento, ele concordou com o nobre ator não se tratar de um ataque do coração, mas de uma estranha síndrome de fundo emocional que estava se alastrando de forma quase epidêmica e que a ciência ainda não tinha até então encontrado cura nem tratamento. Mas já era claro que tal síndrome era somatização de questões emocionais e atacava o coração dos vitimados.
Mas, como nem tudo está perdido e a ciência sempre está a abrir novas possibilidades, o médico informou o paciente que estavam testando uma nova terapia, algo revolucionário, e que já tinha dado resultado em vários pacientes. Tinha um nome científico complicado, mas poderia ser simplificado para o cidadão comum: síntese gelatinosa.
Em termos práticos, ele seria colocado em um aparelho que ressonância magnética evoluído, que leria todo seu organismo e suas memórias afetivas e sentimentais das últimas semanas. Um processo sofisticado de Inteligência artificial sintetizaria uma gelatina que seria uma espécie de “eu” do paciente que, uma vez ingerida por ele, se deslocaria por suas entranhas, chegaria ao coração e, por algum processo ainda não totalmente compreendido (daí porque uma terapia experimental), a síndrome desapareceria.
O ator aceitou a proposta, não tinha nada a perder, a dor ainda o incomodava bastante. Enfiado dentro da máquina de ressonância durante os 40 minutos necessários para sintetizar a miraculosa gelatina, ele se viu envolvido em uma espécie de viagem onírica freudiana. Enquanto a máquina mapeava suas informações, seu cérebro percorria vertiginosamente por sensações, memórias, sentimentos das últimas semanas, sons, cheiros, música, ruído, ventania, cores, abraços, amigos, espaços, alucinações e aquele felino que lhe partira o coração.
Findo o prazo necessário para a síntese da gelatina, os médicos lhe apresentaram a gosma miraculosa que, adicionada de uma essência para lhe tornar mais palatável, proporcionaria a cura. Devidamente acomodado em uma maca, deglutiu a gelatina. No momento em que ela tocou seu esôfago, escorregando por seus órgãos internos, um portal se abriu em sua mente e era como se ele mesmo estivesse dentro de si, enxergando seus órgãos internos.
Lentamente ele escorria dentro de si mesmo, descendo pelo esôfago. Foi quando ele enxergou o coração sobressaltado, agitado, irrequieto. Nesse momento, o ele-gelatina se sentiu profundamente tocado por aquele sofrimento, aquela inquietação e seu impulso imediato foi se aproximar do coração e envolvê-lo suavemente.
O coração parecia um gatinho assustado, precisando de carinhos, afagos. E a única ideia que ocorreu ao eu-gelatina, a síntese do empático ator, foi carinhosamente afagar aquele coração agitado: calma, tranquilo, tudo vai passar. E em meio aquela confusão, que para o ele-gelatina eram dores de uma vida agitada, correria, gases lacrimogênios, o abraço carinho foi deixando o coração cada vez mais calmo, mais calmo, mais calmo...
Morreu.
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Mr. Robot e o poder do mito na mente do "pobre de direita"
Terminei de assistir a série Mr. Robot e, refletindo sobre o final, lembrei-me de um amigo "pobre de direita" que me disse certa vez ser contra taxar ricos porque, quando for rico, não irá querer pagar imposto. Não vou entrar no mérito de qual raciocínio tortuoso me levou de Mr. Robot a meu amigo "pobre de direita", mas o fato é que sua justificativa me deixou estupefato.
Nem é preciso fazer qualquer digressão sobre os diversos aspectos surreais do pensamento do meu amigo, mas o que interessa no momento é o fato de que tanto meu amigo como o "pobre de direita" pensam como pensam porque vivem em um mundo de fantasia onde substituem a realidade por uma alucinação paralela. E, nessa alucinação, eles acreditam piamente que têm alguma chance de se tornarem ricos. A chance do meu amigo se tornar tão rico a ponto de justificar sua aversão a taxação de grandes fortunas talvez seja a mesma de ele ganhar na megasena.
Eu diria que nem o "pobre de esquerda" nem o de direita se tornarão ricos. A diferença é que o "pobre de esquerda" é capaz de reconhecer os motivos enquanto o de direita abraça uma alucinação que o faz negar a realidade. Então ele vive a vida toda acreditando que, se fizer as coisas de determinada forma, sem questionar o mundo à sua volta, por algum passe de mágica meritocrático se tornará rico.
Na realidade, penso que somente pessoas pequenas vivem em função de se tornarem ricas. Sejam ricas ou pobres, essas são as criaturas menos interessantes que passarão pela existência. Some-se a essa total falta de atrativos de uma vida assim a alucinação do "pobre de direita" de acreditar que se tornará de fato rico.
O que sustenta essa alucinação são os mitos, as distrações muito bem urdidas para deixar esse "pobre de direita" andando em círculos, enquanto acredita que está fazendo a coisa certa, quando na realidade está desperdiçando sua existência em uma busca que certamente não lhe trará uma fração do que ele espera. Mas os mitos estão ali, uma prisão na sua mente que lhe impedirá de se emancipar integralmente como ser humano.
Em um país como o Brasil, de uma população bastante mística, supersticiosa, de religiões fundamentalistas, viver em um mundo de fantasia sustentado por mitos é um exercício diário cuja repetição constante leva à perfeição. Portanto, a menos que o brasileiro se liberte dessa prisão onde está metido, dificilmente será capaz de perceber o quanto ele gasta de sua energia para sustentar os mais ricos e poderosos e quanto o mito da meritocracia o torna prisioneiro de um mundo imaginário onde, para tudo funcionar bem, basta ele seguir as regrinhas que os mais ricos e poderosos lhe dizem ser o elixir da felicidade, mesmo que seu sonho de uma vida melhor nunca se concretize e ele morra sem descobrir o motivo.
sábado, 1 de fevereiro de 2020
Horizontalidade, verticalidade e sacanagem na música
Estava conversando com o Felipe e lhe explicando a diferença entre a música medieval e períodos mais tardios. Uma das características fundamentais é que os músicos pensavam a música horizontalmente, por isso a polifonia é tão rica, atingindo o máximo da sua sofisticação no período barroco. Com o desenvolvimento da linguagem tonal (no período medieval ela é essencialmente modal), a música foi sendo percebida cada vez mais verticalmente, via acordes. Por isso mesmo a polifonia diminui. Citei a ele exemplos de alguns prelúdios de Chopin que ele gosta de tocar onde se percebe claramente que o compositor estava pensando a música verticalmente, a partir do discurso harmônico, o caminho percorrido pelos acordes.
Daí me lembrei de duas piadas memoráveis que ouvi nas pouquíssimas aulas de música que frequentei na Fundação das Artes em SCSul nos meus verdes anos.
Em uma determinada aula o professor dava exemplos de ideias expressas por composições musicais. Daí um aluno perguntou:
- Professor, e música de sacanagem?
- Tem: a Sagração da Primavera.
- Sagração da Primavera?
- Sim. As primeiras notas da obra são as primeiras notas do hino do Corínthians! Isso é muita sacanagem!
E por falar em sacanagem, em outra aula, quando ele falava sobre o pensamento horizontal e não vertical de Bach, soltou a seguinte pérola:
- Bach pensava tão horizontalmente que teve 8 filhos.
Daí me lembrei de duas piadas memoráveis que ouvi nas pouquíssimas aulas de música que frequentei na Fundação das Artes em SCSul nos meus verdes anos.
Em uma determinada aula o professor dava exemplos de ideias expressas por composições musicais. Daí um aluno perguntou:
- Professor, e música de sacanagem?
- Tem: a Sagração da Primavera.
- Sagração da Primavera?
- Sim. As primeiras notas da obra são as primeiras notas do hino do Corínthians! Isso é muita sacanagem!
E por falar em sacanagem, em outra aula, quando ele falava sobre o pensamento horizontal e não vertical de Bach, soltou a seguinte pérola:
- Bach pensava tão horizontalmente que teve 8 filhos.
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