Outro dia a Andreia me contou: “Obadias, fui tomar um cha de ayahuasca com uma amiga. Foi sensacional!” “Me conta tudo!” Ela me contou sua experiência sensacional. Achei demais. Eu lhe disse: “da próxima vez, me chama, sempre tive curiosidade”.
Não tenho curiosidade em drogas, mas confesso que sempre tive curiosidade em alucinógenos, para experimentar como seria uma alucinação. Meu interesse aumentou depois de saber do livro “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley, em que ele descreve sua experiência com o uso da mescalina, um alucinógeno psicodélico retirado de um cacto na cultura mexicana há séculos. Embora não tenha lido o livro, ele relata como o uso da mescalina expandiu sua mente através da intensificação das suas percepções. Eu fiquei pensando se, ao usar um alucinógeno, eu poderia experimentar alguma coisa parecida e, de repente, ter algumas ideias musicais diferentes. Nunca se sabe, né?
Eu já recebera alguns convites muito ocasionais, mas como nunca foi nada viável, nunca dei muita importância. Daí a Andreia me faz esse convite. Perfeito! Mas, sabe como é: sempre dá um medinho na gente, né? Pesquisei bastante para me certificar de que o risco era baixo, assisti documentário e vi que o risco é real para pessoas com problemas de esquizofrenia, por exemplo. Não é o meu caso. Minhas sobrinhas Camila e Letícia foram enfáticas que era muito arriscado e que não valia a pena correr o risco. Minha justificativa sempre foi: “sim, sempre existe um risco, mas, em se tratando de pessoas saudáveis, o risco é baixíssimo, eu teria que ser muito azarado pra dar ruim”. Um amigo, o Fabio, também me contou das suas experiências de algumas sessões com ayahuasca e, embora tenham sido bem lisérgicas e intensas, foi ali no momento da “consagração”, como eles dizem e, finalizado o ritual, ele esperou melhorar e foi para casa. Enfim, a mesma experiência da Andreia. Portanto, o que poderia dar de ruim pra mim, não é mesmo?
Outro aspecto que eu considerava a meu favor é o fato de eu ser 0% místico e 100% cético além de ser extremamente racional. Então eu não embarco fácil em viagens mentais. Já fumei maconha algumas vezes, tragando – claro – e, enquanto as pessoas à minha volta ficavam totalmente brisadas, eu só tinha sono, um sono terrível. Eu poderia ter uma experiência intensa como a da Andreia e do Fabio, ou apenas não sentir nada, como na maconha. Eu até acreditava mais na segunda hipótese. Eu não poderia estar mais enganado.
Na semana, preenchi uma anmese bem completa enviada pela casa e fomos ontem, sábado, 09/08, para o local. Chegando lá foi tudo muito tranquilo, extremamente organizado, eles foram muito cuidadosos, explicando todos os detalhes, enfim. Explicaram que algumas pessoas passariam mal, principalmente da primeira vez, mas é o processo da “limpeza” e que, por pior que elas passassem durante, poderiam ficar tranquilas que, no final, voltariam à normalidade. O processo são 2 goles de chá no espaço de 4 h. o primeiro por volta das 18:30, o segundo por volta das 20 h. Eles afirmaram que não era obrigatório tomar os dois.
Tomei o primeiro chá e fiquei sentado na cadeira, o pote de vômito embaixo dela. 1,5 h daquela aporrinhação toda: músicas, algumas pessoas vomitando, outras gemendo e eu... nadica de nada. Eu tentava de todas as formas me desligar para ver se o chá causava algum efeito em mim. Nada. Fui 2 vezes ao banheiro, porque fiquei apertado. E só. O ambiente à meia luz, diversos incenso rolando, música indígena tocando, o pessoal da casa com uns cajados enormes que lembravam berimbau batendo no chão... criava todo aquele clima. Beleza.
Decidi não tomar o segundo chá porque, se não tinha batido o primeiro, pra mim já tinha dado. Perguntei pra Andreia, que estava sentada um pouco distante, se ela tomaria o segundo chá, ela disse que não. Mais tarde ela me contou que, já na primeira dose, ela teve sua sensacional experiência místico-alucinógena. Um rapaz da casa veio me perguntar se eu tomaria o segundo chá. Eu disse que não. Ele insistiu bastante, dizendo que o segundo era importante porque – não me lembro a expressão que ele usou – eu iria me destravar. Ele insistiu tanto que eu pensei: “já que estou aqui mesmo...” Fui pra fila e falei pra Andreia: “já que estou aqui... bora!” Tomei a segunda dose e fui me sentar. A Andreia tinha entrado na fila também para tomar.
Recomeça todo o processo: todos sentados, relaxados, a música indígena tocando, as batidas no chão, aquela meia luz, os incensos... Comecei a passar mal. MUITO MAL. Comecei a ter ânsia de vômito. Aquela coisa desesperadora e o vômito não vinha. Eu não tinha quase nada no estômago. Até que comecei a vomitar. Não era muita coisa, mas eu vomitei um tempo. Quando consegui me controlar melhor, percebi que estava muito, mas muito mal. Não tinha posição para eu ficar na cadeira. Eu estava quase despencando. O pessoal tinha dito que não era para sair da cadeira, era para ficar sentado. Abri os olhos, olhei à volta, as silhuetas das pessoas sentadas. Mas eu não conseguia mais. Temi pelo pior, que eu caísse. Já tinha tirado os óculos. Pensei: “isso aqui vai dar merda se eu ficar sentado; foda-se, afinal não posso ficar sentado!” Lentamente deitei no chão gelado, de lado, encaixei o balde de vômito entre o meu braço e o corpo, na diagonal, em direção à boca, caso tivesse outro acesso de vômito e pensei: “vou ficar quietinho até melhorar”.
Aquela música, aquelas batidas... Quando dei por mim, minha mente explodiu. FOI U-MA COI-SA IM-PRES-SIO-NAN-TE! Nos meus olhos fechados começaram a explodir imagens psicodélicas de todas as cores e bem intensas numa velocidade vertiginosa! A música ficou mega intensa, em muitas vozes extremamente dissonantes, um bagulho avassalador. E parecia que ela girava, ia para longe e voltava cada vez mais avassaladora. Os meus ouvidos explodiram. Eu comecei ouvir absolutamente tudo, supostamente, que estava ocorrendo à minha volta. Tudo gritando em milhões de decibéis na minha mente. Eu não sabia se eram as vozes mesmo ou se eram alucinações. Eu senti todos os músculos e esqueleto do corpo. Cheiros, sabores. Tudo numa intensidade inacreditável. E era totalmente sem controle. Eu não conseguia sair daquilo, eu não conseguia, eu não conseguia! Era como se fosse um sonho intenso, um pesadelo acordado, já que eu estava consciente, mas sem nenhum controle de mim mesmo, totalmente à mercê daquela coisa que estava me triturando. Eu sentia ora meu corpo se debatendo, ora parecia que eu estava voando, sentia um frio pavoroso (talvez porque estava frio e todas as percepções foram intensificadas). Enfim. Fiquei naquela viagem lisérgica não sei quanto tempo até que consegui perceber de novo onde estava.
Percebi que estava no mesmo local, do solo, eu uma posição ligeiramente diferente. Meu dorso estava todo envolvido no meu vômito e uma vontade imensa de urinar. Não teve jeito. Eu me mijei todo. Dali por diante, por um pouco mais de 1 hora, eu fiquei no chão me debatendo, entrando naquela viagem lisérgica, voltando e, na volta, eu percebi que eu me debatia, urrava, falava coisas. A Adriana me disse que estava todo mundo sentadinho, zen, alguns se manifestando de forma um pouco mais intensa, mas todo dentro da normalidade. E eu no chão, estrebuchando e gritando: “PORRA, CADE MEU CORPO, CARALHO! EU PERDI O CONTROLE DELE!” Isso e outras coisas mais. Quem me disse sobre a fala foi a Andreia porque não me lembro direito o que falei no cpmeço de tudo. Quando ouviu meus gritos, zoeiro que sou, ela achou que eu estava zoando e pensou: "Meu Deus, por que o Obadias está fazendo isso? Que vergonha ele está me fazendo passar!" Mas depois ela percebeu que não era zoeira minha: era sério. A galera ficou meio assustada, porque minha reação foi extremamente intensa. Às vezes eu abria os olhos e via as silhuetas das pessoas sentadas, pareciam estátuas de pedra. Os caras em pé batendo o cajado no chão eram seres disformes, pés enormes, eu não conseguia entender direito. Coisa maluca. Eu queria sair daquilo e não conseguia.
Lá pelas tantas comecei a ouvir, explodinho na minha mente, o hino “Grandioso és Tu”. Eu surtei: “que porra é essa? De onde veio esse hino?” E ele soava distorcido, aquela voz cantando e gritando na minha cabeça! Eu me lembrei de que a Andreia disse que, nas suas viagens, ela foi colocada em contato com a sua Andreia mais nova. Ou seja, memórias antigas foram resgatadas. Eu logo pensei: “caralho, esse hino surgiu do nada na minha mente! Mas eu não tenho nenhuma relação especial com ele!!! Que raios ele está fazendo aqui?” E isso durou um bom tempo até que o hino sumiu. Mas não minha viagem lisérgica que continuou a todo vapor. Hoje, pela manhã, perguntei à Andreia se eles tinham colocado “Grandioso es Tu” para tocar e ela disse que sim, como outros hinos e também canções de outras religiões. De fato, eu me lembro de canções do candomblé na parte em que eu estava “bom”, por exemplo. Isso porque, como vai gente de todo tipo de religião, eles tocam músicas de todas as religiões.
Eu não aguentava mais até que terminou a sessão, as pessoas foram voltando para o normal, mas eu não conseguia. Eu fiquei indo e voltando naquela viagem lisérgica. No chão. Ia, voltava. Tinha descargas elétricas intensas no meu corpo e ele pulava. Tudo sem controle. O cara da casa que estava do meu lado tentou me acalmar. Foi dizendo para eu respirar fundo, que tinha acabado, devagar, devagar.... eu tentava respirar bem fundo, soltar o ar, fazia isso duas ou três vezes até ser atropelado por outra viagem lisérgica, eu perdia totalmente o controle, gritava, rugia, o corpo todo estrebuchando, aquele frio insuportável, eu reclamei, o cara disse “é porque você está no chão”. E eu não conseguia voltar.
Acenderam as luzes. Milhões de sóis explodiram na minha cara! Que loucura. Eu devo ter entrado em outra viagem lisérgica. Depois de tanto ir e voltar, tentaram me sentar na cadeira. Me pegaram e me colocaram. Eu me acalmei. Mas a minha mente ouvia milhões de vozes, multidões de falas desconexas com as vozes das pessoas falando à minha volta, tudo numa intensidade muito forte. O pessoal da casa, a Joyce, amiga da Andreia que a introduziu e que foi conosco, me dizendo para manter os olhos abertos porque, fechados, eu viajaria mais ainda. Eu abria os olhos, estalados, retorcendo a boca, a cara, falando coisas desconexas, fazendo sons com a língua, os lábios, me retorcendo na cadeira... tentava olhar as pessoas e elas estavam todas fora de foco, duas ou três imagens, algumas falavam comigo, outras riam, eu tentava responder, pedia ajuda, queria parar com aquilo, mas eu não dizia nada com nada.
Uma das senhoras da casa ficou um bom tempo comigo, com a mão no meu peito, para eu me acalmar. Eu me acalmava um pouco, mas em seguida entrava em outro transe, até sair de novo. Nesses momentos eu não apagava. Eu simplesmente perdia totalmente o controle, via tudo longe, distante, e todas as sensações dos meus sentidos explodiam pelo corpo. A senhora desistiu e me deixou lá. A Joyce e a Andreia ficaram um bom tempo comigo. Eu peguei na mão das duas, como quem implorando pra me tirar daquilo, dizendo que estava mal e elas rindo dizendo que não, que eu estava melhor. “Não estou melhor, estou bem ruim, vocês sabem disso e estão dizendo que estou bem para não me assustar!” Dizia isso da forma mais desconexa possível. Hoje pela manhã, perguntei à Andreia se minha percepção era correta, de que elas e o pessoal da casa estavam preocupados comigo. Ele disse que sim, todo mundo ficou preocupado, mas o pessoal da casa garantiu que iria passar.
Quando já tinha pouca gente na casa, elas resolveram me levar embora. Eu dormiria na casa da Andreia (não era a ideia inicial: eu iria para casa). Chegaram com o carro próximo, algumas pessoas me apoiaram e me colocaram no banco de trás do carro. “Andreia, vou mijar seu carro todo!” “Não tem problema, eu já coloquei algo no banco” (sei lá o que ela pôs). Eu estava com uma manta da casa que puseram sobre meu corpo quando eu não conseguia mais voltar e disse que eu estava todo mijado. Fui com essa manta para o carro.
Foram embora, a Joyce na direção, a Andreia do lado. O carro é da Andreia. Na ida eu o levei. Na volta eu era um louco varrido no banco de trás. E foi exatamente isso que aconteceu. A volta foi difícil, muito difícil. Eu praticamente me desidratei totalmente no banco do carro da Andreia e elas estavam muito nervosas. Elas conversavam, davam risada, mas eu percebia o quanto estavam tensas.
E eu não dava sossego. Estava TOTALMENTE alucinado no banco de trás. O carro morreu algumas vezes, o Maps as mandou dentro de uma favela que tinha uns caras com armas de alto calibre (o lugar era na zona leste e dava pra ir em vias principais, mas o Maps gosta de sacanear e, nervosas como estavam, nem perceberam). Enfim, entraram em um local e foi muito difícil elas manobrarem para sair de lá. Eu me lembro de tudo. Mas eu vi tudo isso em flashes. Porque eu entrava numa piração lisérgica e voltava. E percebia elas falando, dirigindo, querendo sair da favela, parando em semáforos, acredito. Quando eu retornava do transe, voltava falando palavras desconexas, estrebuchando. Aí eu queria ver a rua. Com os olhos estatelados, eu encostava minha testa no carro e tentava olhar para fora. Parecia que eu estava sempre no mesmo local: escuro, com luzes passando e muito concreto. Mesmo na favela, quando elas estavam tentando manobrar, eu só via luzes, escuridão e cimento. Eu tentava focar minha atenção e por um segundo eu conseguia, mas logo as imagens começavam a distorcer e eu não sabia mais onde estava. As vi falando com algumas pessoas nesses momentos. Eu tive a mesma sensação, milhares de vezes aumentada, que eu tive quando assisti pela primeira vez o filme “Amnésia”. Eu me senti dentro do filme, caminhando por lugares que eu não fazia ideia, tudo distorcido, imagens sobrepostas, a noite, as luzes amarelas, o cimento.
E eu estrebuchando dentro do carro e tentando interagir com as meninas quando voltava do transe. Mas eu não falava coisa com coisa. Eu tentava dar palpites para ajudar os problemas da direção, e falava acelerado, as ideias aos borbotões. E depois eu percebi que devia dizer que as meninas estavam bem, dar um apoio moral a elas. Dizia que elas eram maravilhosas, pedia desculpas. Engraçado que, durante a viagem, quando ia falar, eu dizia uma palavra e via na minha mente a palavra seguinte. Tudo numa velocidade alucinante. Eu falava “eu” e via na mente, por exemplo, “quero” vindo do nada para perto de mim em 3D e eu dizia quero, e logo vinha a outra palavra. Num infinito, mudando pelos mais diversos e aleatórios temas. Parecia aquele joguinho do Atari que eu jogava na infância, acho que “Enduro”, à noite, em alta velocidade, que você só vê a faixa branca da pista e tem que, desesperadamente, fazer as curvas e se manter nela. Era a mesma sensação. Bagulho louco!
E nessa viagem lisérgica das palavras, minha mente soltou absolutamente tudo, até as maiores atrocidades. Minha mente é um oceano de devassidão, mas meu “alterego freudiano” me mantém na linha e eu não digo 10% das ideias que explodem nela enquanto estou conversando com as pessoas, claro. Mas, naquela viagem, o chá de ayahuasca tinha posto meu alterego para dormir e eu falei todas as loucuras que me ocorreram sem o menor constrangimento. Para a Andreia e a Joyce. Elas rachavam o bico, porque eu estava muito louco! Eu dizia e saboreava cada palavra daquelas loucuras que estava dizendo e me esborrachava de rir. De repente eu pedia desculpas (meu alterego tentava acordar) mas depois, na próxima verborragia lisérgica, aqui ou ali eu dizia alguma atrocidade entre minhas falas desconexas. E eu não sabia o nome da Andreia. Troquei o nome dela por outros nomes, a todo instante eu lhe perguntava como se chamava... impressionante!
Eu falava, falava, ria, gritava, me debatia no carro, puxava o cabelo da Andreia, apertava os ombros das meninas, pedia desculpas, pulava a cada solavanco do carro (a impressão dos solavancos estava totalmente aumentada) e, entre um delírio e outro e gritava “EU TÔ LOCAÇOOOOOOOO!” e me esborrachava de rir.
Ao mesmo tempo eu percebia que meu cérebro estava fritando e, como aquilo não passava, o meu eu consciente tentava manter as rédeas do cérebro porque eu tinha a impressão de que, se eu cedesse ao delírio e o deixasse tomar conta de mim, nunca mais eu voltaria. Eu dizia isso para elas, elas diziam que não. Mas eu tinha a impressão de que elas estavam nervosas e só estavam tentando não piorar as coisas. De vez em quando a Andreia me pedia para colaborar, eu tentava, mas no instante seguinte estava totalmente alucinado, fazendo caretas, gritando, rindo, falando merda e morrendo de medo de não sair daquilo tudo. Eu estava preocupado e pedi para elas me levarem no hospital. Elas disseram que não que, depois de um café em melhoraria. Pra quê? Fiquei com a ideia fixas do café. Toda hora eu pedia café para elas. Às vezes me via repetindo “café, café, café... até ser tomado por um novo delírio ou outra ideia absurda me fazer despirocar e falar coisas sem sentido”.
Enfim, a Joyce ficou na sua casa, a Andreia assumiu o volante e foi até à sua. Estava visivelmente nervosa, xingando uns motoqueiros mal-educados. Eu tentava colaborar com ela, mas só atrapalhava. Então eu passei a dizer que ela era maravilhosa, poderosa, linda e que nos momentos de dificuldade da vida ela brilhava como uma verdadeira rainha que era. Coisas do tipo. Tadinha da Andreia. Teve que aguentar tudo isso. E de alguma forma ela chegou na sua casa. Eu não tinha a menor capacidade de identificar os caminhos, absolutamente nada. Para mim era tudo igual.
Ela me disse para falar baixinho porque não queria assustar os filhos que já estavam dormindo, principalmente se eu chegasse gritando putarias. Claro, eu entendi e, no meu surto, enlouquecido, comecei a falar bem baixinho, totalmente surtado, revirando os olhos, fazendo caretas, barulhos com a boca, rindo, qualquer insanidade. Ela entrou, foi buscar um café. Depois de um tempo infinito apareceu com o café. Eu estava repetindo há muito tempo a expressão “não tenho controle, não tenho controle...” Porque, na viagem de volta, em meio ao devaneio lisérgico, eu tentei tirar uma lição de tudo aquilo, porque era o que eles disseram lá (mais ou menos assim). E eu entendi que tudo aquilo foi um curto-circuito da minha mente e que ele foi piorado porque eu estava tentando segurar a onda. A Andreia mesmo me disse: “você é muito intenso, pensa muito, é muito agitado, é muito acelerado, você precisa acalmar sua mente”. Eu: “é verdade, eu tento controlar tudo na minha mente, e eu todo mijado aqui inúmeras vezes é uma metáfora dessa falta de controle que eu preciso”. E fiquei nessa “vibe” de “preciso perder o controle” na metade final da viagem, quando a ideia me ocorreu no meio das viagens lisérgicas.
Ficamos um tempo conversando, a Andreia preocupada comigo, disse para eu entrar na sua casa e tomar um banho. Mas eu não conseguia me levantar do banco e disse para ela ir dormir que eu ficaria ali até melhorar. Claro que ela não foi. E, assim, por volta da 1:30 da manhã, eu tive uma ideia: “Deixa eu gravar um vídeo pra Camila!” Ela me deu o celular, coloquei no local do vídeo, com alguma dificuldade, e gravei. LO-CA-ÇO! Alguns minutos. E depois fui assistir com a Andreia. Dei muita risada enquanto assistia. E, nesse processo de assistir o vídeo, em alguns minutos... TUDO PASSOU! IM-PRES-SIO-NAN-TE! É claro que eu precisei de uns 30 minutos ao menos para ficar 100% mas, no final do vídeo, seu já estava sóbrio. A brisa tinha sumido totalmente.
Entrei na casa da Andreia, ela me deu umas roupas, tomei banho, ela pegou minhas roupas mijadas e vomitadas e pôs na máquina de lavar. Hoje ela manhã estava sequinhas, como se nada tivesse acontecido. E eu não preguei os olhos à noite. ZERO. Ainda estou acordado. O pessoal da casa disse que até terça feira ainda tem vestígios do chá no organismo e depois tudo liberado.
A experiência da casa, de uma pessoa normal é um transe de cerca de 1 hora depois de tomar o chá. Até eles terminarem a sessão e as pessoas se recomporem. Algumas estão mais afetadas e precisam de ajuda, mas voltam. Eu só me libertei da viagem lisérgica 5 horas depois e temi muito pela minha sanidade mental. Na realidade, me arrependi amargamente de ter tomado o chá enquanto tentava segurar minha mente. E tive uma experiência real e profunda de um total estágio de loucura. A parte sóbria do meu cérebro coletava todas aquelas informações e comparava com o que tenho armazenado sobre o assunto no cérebro e pensava: “A loucura é isso!” É desesperador. Eu tinha medo de nunca mais sair daquilo e ficar totalmente enlouquecido. Mas saí.
Minha teoria para essa reação exacerbada é a seguinte: tenho pensamento acelerado de tal forma que às vezes tenho a sensação de estar pensando várias coisas ao mesmo tempo, e chego a me perder nas digressões. Esse perfil foi diagnosticado por profissionais. Imagino que esse processamento muito intenso do meu cérebro potencializou o efeito. Também acredito que a tentativa de controlar as alucinações em vez de me render a elas acabou potencializando ainda mais seu efeito. Sobre o pensamento acelerado, acabei de pesquisar no Gemini e faz sentido:
O pensamento acelerado é, em essência, uma mente que salta de um pensamento para outro rapidamente, com dificuldade de focar em uma única ideia. Quando uma pessoa com esse padrão mental ingere ayahuasca, essa hiperconectividade pode ser percebida de forma ainda mais intensa.
Em vez de experimentar um fluxo de pensamento mais livre e conectado, a pessoa com pensamento acelerado pode ter a sensação de que o fluxo de pensamentos se intensifica drasticamente, tornando-se mais caótico e difícil de processar. Isso pode levar a uma experiência avassaladora e até mesmo assustadora, onde a quantidade de informações e sensações é tão grande que o indivíduo não consegue organizá-la ou compreendê-la.
Isso não significa que a ayahuasca seja totalmente desaconselhada para pessoas com essa característica, mas ressalta a importância de cautela. A experiência pode ser desafiadora, e o acompanhamento de profissionais capacitados é fundamental para navegar por esses pensamentos intensos e, talvez, transformá-los em uma experiência de introspecção e autoconhecimento.
É importante notar que a ciência ainda está estudando o potencial terapêutico da ayahuasca em transtornos psiquiátricos. No entanto, o uso da substância é contraindicado para pessoas com histórico de transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, ou para quem está tomando certos medicamentos, pois a interação com o IMAO pode ser perigosa.
Portanto, um cérebro com pensamento acelerado pode, sim, potencializar o efeito da ayahuasca, mas isso pode se manifestar como um fluxo de informações ainda mais intenso e desorganizado, o que exige um cuidado redobrado e um ambiente seguro.
Definitivamente, minha experiência não foi de introspecção e autoconhecimento, muito pelo contrário. A propósito, não tenho TDAH, mas sou neurodivergente e meu cérebro tem características cognitivas peculiares, digamos. Não me ocorreu pesquisar sobre o efeito da ayahuasca em quem tem pensamento acelerado, mesmo porque em tudo o que li a respeito, não encontrei nada citando esse perfil. Se eu tivesse lido, certamente não teria ido. Pra que correr riscos? Agora estou com um medinho de ter alguma sequela e vou procurar um neuro essa semana, contar a história e pedir testes para ver se não zoou nada, se isso é possível.
E, claro... nunca mais voltarei a fazer isso, mesmo que a casa dê um retorno e sugira novas sessões, como é de praxe. Nem pensar! Minha mente é uma caixa de Pandora e é melhor deixa-la quietinha no seu lugar.
E, pra finalizar, disse para a Andreia mandar lavar o estofado do carro e me mandar a conta. É o mínimo, né?

