sábado, 8 de agosto de 2026

Sobre o filme "Odisseia"

 


Nunca li a Ilíada nem a Odisseia. Em tese, sou desqualificado para emitir juízo sobre o filme Odisseu de Nolan. Mas, dado que a coisa está hypada e fui assistir o filme ontem, resolvi fazer meus comentários sobre. Comecemos pela minha falta de qualificação para opinar, já que a internet hoje em dia é um esgoto a céu aberto coalhado de boçais emitindo todo tipo de juízo sobre assuntos que eles jamais fazem ideia: eu não li as obras literárias, é fato, mas como curioso e interessado sobre a mitologia grega, desde muito me debruço sobre o tema, dado o fascínio que ele exerce sobre mim. Pronto, não sou um especialista no assunto, mas também não vou aqui ficar repetindo coisas que vi por aí, feito um papagaio que repete o que ouviu sem ter ideia se o que ouviu faz sentido ou não. E, sobre isso, vi muita gente embasada fazer críticas ao filme que me pareceram bastante razoáveis. Não quero criticar o filme, não me cabe na minha posição na fila do pão, mas quero fazer uma digressão sobre minha impressão a respeito.

Meu parâmetro "gato escaldado foge de água fria" com Odisseia era o retumbante fracasso (para mim) do filme Tróia. Eu o assisti anos atrás e nem me lembro direito dos detalhes. O que ficou da experiência foi uma preguiça infinita porque, além de despojá-lo totalmente da perspectiva mítica (os deuses do Olimpo brigando entre si e os humanos são apenas marionetes), mudou partes fundamentais da história, criando um contexto maniqueísta insuportável para mim além de mudar o final da história para caber dentro de uma narrativa mega empobrecida hollywoodiana. Enfim, uma perspectiva intragável para mim. O apuro técnico do filme não significa nada se ele estraga de forma tão "olímpica" uma narrativa grega tão singular. Tróia poderia ter eliminado muito da transcendência da tradição da mitologia grega, sem fazer o estrago (a meu gosto) que fizeram na história, inclusive aspectos tão fundamentais e que subvertem toda a canonicidade da história, um desserviço inexplicável (para mim) ao legado dessa história na cultura ocidental. O filme Tróia simplesmente "cagou" a história (já deu pra perceber como detestei o filme, né? ahahahahah).

Nesse caso vale uma digressão antes de prosseguir. Tenho problemas quase intransponíveis de narrativas fantasiosas padrão "O Senhor dos Anéis". Assisti a trilogia num misto de curiosidade e obrigação, mas confesso que nunca me pegou. Já pensei em assistir novamente somente para ver se minha impressão muda. Filmes que mostram monstros, dificuldades gigantescas com a natureza dentro de uma perspectiva fantasiosa, esse tipo de coisa não pega. Monstros e imagens muito bem produzidas me impressionam ZERO! O que me impressiona é a profundidade dos personagens, os significados e, no caso dos mitos gregos, a transcendência daquilo tudo (inclusive pelo tanto que influenciou a cultura ocidental). Mas é característica minha e sei de muita gente que fica em estado de graça diante desse tipo de narrativa.

O que me pega mesmo é narrativa fantasiosa tipo a série "Cem Anos de Solidão" da Netflix. Para mim, que li 2 vezes "Cién Años de Soledad", aquela série é um deslumbramento poético que me põe em contato com o belo. Não duvido que possa haver pessoas deslumbradas com "O Senhor dos Anéis" e que não sejam pegas pela série da Netflix. Tem outra coisa que a série da Netflix se preocupa e que não é preocupação do filme Tróia, até porque são dois tipos de produtos diferentes: é impossível fazer mergulhos próximos em uma obra literária em formatos diferentes: filme ou série. Na série dá para aprofundar muito mais, no filme isso não é possível. Isso me lembra também a série extremamente poética, "Capitu", que faz uma releitura de "Dom Casmurro" sem estragar a história mas levando a um aprofundamento e expansão do universo retratado na obra original. Ovídio, por exemplo, faz isso em relação aos poemas gregos em suas obras. Bom explicar isso para entender melhor minha experiência com "Odisseia".

Minha expectativa com Odisseia era "ai meu deus, estarei diante de uma nova Tróia?". Preferia não cair na esparrela "não assisti, não gostei", embora tenha sucumbido à tentação de dar meus pitacos mesmo antes de ir ao cinema. Enfim, fui assistir ao "trambolho" (olha minha má vontade prévia ahahahahah) de 3 h. Fui preparado para lutar contra o sono, expectativa que se confirmou. Pelos motivos explicados acima, os dois primeiros terços do filme foram chatos e cansativos para mim. Filme interessante? Sem dúvida, mas não o suficiente para me levar a um cinema IMAX. Isso já diz muito sobre o quanto o apelo técnico é o menos importante para mim. Lutei contra o sono 2 terços completos do filme.

Até que veio o terço final e eu acordei. E o filme ficou muito interessante. E, no final das contas, gostei demais do filme por conta de como Nolan o finalizou. O que me pegou, principalmente, foram duas coisas: o peso dado à jornada de Odisseu com sua reflexão no final, e a minha torcida por ele — não é spoiler, está na tradição grega — quando bota para “correr” os pretendentes da sua inquebrável Penélope. Não pretendia entrar em digressões sobre o que Nolan teria feito com a obra literária grega porque há gente demais capacitada para isso. Mas apenas que já não caio mais na armadilha "não assisti e não gostei". O que posso dizer é que "assisti e gostei". E bastante. Por conta de como as coisas são finalizadas. É um filme raso se comparado à tradição grega, mas eu penso ter entendido as escolhas de Nolan, seu objetivo e o que importa de fato nesse tipo de cinema: "filmar um épico que arraste multidões, que tente quebrar recordes de arrecadação e que se estabeleça, de alguma forma, como um marco na linguagem hollywoodiana do momento".

E aqui está o grande trunfo de Nolan frente a um fiasco como Tróia: enquanto Tróia esvaziou a essência da história para fazer um filme de ação genérico, Nolan, mesmo fazendo suas simplificações para o grande público, preservou o núcleo moral e a densidade do mito. Nolan está errado em fazer isso? Claro que não! Vejo problema em pegar um clássico como Odisseia e dar o tratamento que ele deu? Apesar da minha posição na fila do pão, vejo problema algum! Maniqueísmos e simplificações à parte, achei que ele amarrou tudo magistralmente, fez sua reflexão filosófica dentro dos limites palatáveis à sociedade moderna, já está bem mais rico e ainda vai garantir a diversão de muita gente sem fazer o desserviço ao cânone histórico que o filme Tróia perpetrou, por exemplo.

Mandou bem, hein, Nolan?

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