Minha amiga Macy já havia me dito que, em Brasília, os motoristas respeitam faixa de pedestres. Experimentei essa sensação “estranha” de estar em um local civilizado em uma faixa de pedestres em frente ao Conjunto Nacional: basta você se aproximar da faixa e os veículos vão parando... Impressionante para os padrões de civilidade do trânsito de São Paulo.
Ontem, um episódio recorrente comigo no trânsito, me fez lembrar Brasília. Trafegava por uma rua tranquila em Santo André e, ao me aproximar de uma faixa de pedestres, vi um senhor parado como quem ia atravessar a rua. Parei. Ele olhou para mim e eu assenti a cabeça como quem diz: “Pode atravessar”. Ele deu um passo para trás. Eu dei uma buzinadinha de leve. Ele me olhou novamente. Assenti com a cabeça e com o braço, como quem lhe diz: “É sério, pode atravessar!”. Ele deu outro passo para trás.
Pensei: que mico, o tiozinho só estava na borda da calçada vendo o tempo passar. Pus o carro em movimento e parti. Pelo retrovisor o observei atravessar com segurança pela faixa de pedestres assim que eu me afastei. Por aqui, boa parte dos pedestres desconfia quando um veículo para dando passagem. Eles não entendem que isso seja possível.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Desventuras de um voo Brasilia - São Paulo
(texto escrito na madrugada de 12 de abril, no táxil, quando retornava para casa)
Me atrapalhei com o transito em Brasília (uma obra na pista que causou um grande congestionamento) e acabei chegando quase na hora do embarque. Em vez de embarcar às 17:20 rumo a Congonhas, embarquei às 22 e pouco rumo a Guarulhos, 226 reais mais pobre (era a opção menos cara). Tive tempo suficiente para observar a muvuca do aeroporto em Brasília. Pareceu-me uma grande confusão, mas nada se comparou aos caos que encontrei em Guarulhos.
Na aterrissagem o avião ficou taxiando um tempo infinito (preferi tirar uma soneca) porque havia 8 aviões fazendo fila. Quando finalmente ele abriu as portas, descobri que estávamos em um local remoto do aeroporto e fizemos um longo percurso de ônibus para chegarmos ao terminal. No setor das bagagens, outro caos: as pessoas se apinhavam e mal dava para andar. Descobri que a esteira do meu voo estava ao fundo compartilhando malas de outros 2 voos mais. Tentei acompanhar na ponta dos pés o amontoado de malas que circulava pela esteira, uma multidão à minha frente, caindo pelos lados, em meio a reclamações gerais, para ver se enxergava a minha. A coisa estava feia. Pedi licença às pessoas e pulei para o lado de dentro da esteira, onde poderia divisar mais facilmente minha mala quando ela chegasse e, enquanto isso, incorporei o funcionário da Infraero e contribuí para o fluxo das malas de forma menos precária, ajudando os passageiros a reorganizar as malas quando elas se amontoavam e colocando de novo na esteira as malas que caíam do lado de dentro. Depois de muito tempo, minha mala apareceu. O turba, possivelmente agradecida, abriu espaço e me ajudou a passar para o lado de fora da esteira e me mandar, enquanto outro passageiro, talvez inspirado pelo meu gesto, pulou para o lado de dentro e me substituiu no serviço voluntário.
Quando consegui chegar do lado de fora do aeroporto, um taxista me abordou: “táxi comum!”. Desconfiado, preferi optar pela frota do aeroporto mesmo, não antes de lhe perguntar quanto custaria a corrida até Santo André. Cento e cinquenta dilmas. 150 reais???, exclamei estupefato. Você vai pagar de 180 a 190 no oficial. Fiz as contas... será que vale o risco por conta de 40 reais, já que perdi muitas horas sem contar no prejuízo que já vou acumular ainda mais no táxi por conta da mudança de aeroporto? Preferi não correr o risco. Fui para a fila do Guarucoop e, quando informei o endereço, soube do preço: extorsivos 181 reais. Paguei com o coração espumando de raiva e fui para a fila do táxi. Foi quando percebi que a fila que eu tinha visto era o finalzinho dela, porque o início mesmo estava muuuito longe. E quase não havia táxis: eles não estavam dando conta. Abri meu ebook e me pus a ler para não sofrer a lentidão da espera interminável. Até que consegui embarcar no táxi.
Que tragédia! Não me lembro de ter chegado de qualquer voo nacional por Guarulhos. Pensei: será que isso é problema de desembarque nacional? Passando pelo desembarque internacional, tive impressão que a fila do táxi estava maior ainda.
Imagina na Copa...
Me atrapalhei com o transito em Brasília (uma obra na pista que causou um grande congestionamento) e acabei chegando quase na hora do embarque. Em vez de embarcar às 17:20 rumo a Congonhas, embarquei às 22 e pouco rumo a Guarulhos, 226 reais mais pobre (era a opção menos cara). Tive tempo suficiente para observar a muvuca do aeroporto em Brasília. Pareceu-me uma grande confusão, mas nada se comparou aos caos que encontrei em Guarulhos.
Na aterrissagem o avião ficou taxiando um tempo infinito (preferi tirar uma soneca) porque havia 8 aviões fazendo fila. Quando finalmente ele abriu as portas, descobri que estávamos em um local remoto do aeroporto e fizemos um longo percurso de ônibus para chegarmos ao terminal. No setor das bagagens, outro caos: as pessoas se apinhavam e mal dava para andar. Descobri que a esteira do meu voo estava ao fundo compartilhando malas de outros 2 voos mais. Tentei acompanhar na ponta dos pés o amontoado de malas que circulava pela esteira, uma multidão à minha frente, caindo pelos lados, em meio a reclamações gerais, para ver se enxergava a minha. A coisa estava feia. Pedi licença às pessoas e pulei para o lado de dentro da esteira, onde poderia divisar mais facilmente minha mala quando ela chegasse e, enquanto isso, incorporei o funcionário da Infraero e contribuí para o fluxo das malas de forma menos precária, ajudando os passageiros a reorganizar as malas quando elas se amontoavam e colocando de novo na esteira as malas que caíam do lado de dentro. Depois de muito tempo, minha mala apareceu. O turba, possivelmente agradecida, abriu espaço e me ajudou a passar para o lado de fora da esteira e me mandar, enquanto outro passageiro, talvez inspirado pelo meu gesto, pulou para o lado de dentro e me substituiu no serviço voluntário.
Quando consegui chegar do lado de fora do aeroporto, um taxista me abordou: “táxi comum!”. Desconfiado, preferi optar pela frota do aeroporto mesmo, não antes de lhe perguntar quanto custaria a corrida até Santo André. Cento e cinquenta dilmas. 150 reais???, exclamei estupefato. Você vai pagar de 180 a 190 no oficial. Fiz as contas... será que vale o risco por conta de 40 reais, já que perdi muitas horas sem contar no prejuízo que já vou acumular ainda mais no táxi por conta da mudança de aeroporto? Preferi não correr o risco. Fui para a fila do Guarucoop e, quando informei o endereço, soube do preço: extorsivos 181 reais. Paguei com o coração espumando de raiva e fui para a fila do táxi. Foi quando percebi que a fila que eu tinha visto era o finalzinho dela, porque o início mesmo estava muuuito longe. E quase não havia táxis: eles não estavam dando conta. Abri meu ebook e me pus a ler para não sofrer a lentidão da espera interminável. Até que consegui embarcar no táxi.
Que tragédia! Não me lembro de ter chegado de qualquer voo nacional por Guarulhos. Pensei: será que isso é problema de desembarque nacional? Passando pelo desembarque internacional, tive impressão que a fila do táxi estava maior ainda.
Imagina na Copa...
O trem
Fazia tempo que não pegava o trem para São Paulo antes das 7
h da manhã. Não existe fila na bilheteria em Santandré. Isso me impressiona. Achava
que nesse horário haveria uma fila enorme. Compro o bilhete e enquanto passo
pela catraca, o trem chega. Nem dá tempo de passar para a plataforma do outro
lado. Escolho a primeira porta mais à direita porque descerei próximo das
escadas em Tamanduateí. Na realidade, o trem chega lotado e fica claro que nem
todo mundo entrará. Calmamente me aproximo da porta, passando pelas pessoas que
desistiram, esperando que eu seja o último a embarcar. Dessa forma não ficarei
ensardinhado do lado de dentro. A estratégia funciona e eu fico bem no centro
da porta. Não empurro como os demais porque, se o fizer, caberá uma pessoa mais
e perderei minha posição estratégica.
O trem finalmente fecha as portas depois de eu colocar a
mochila nos ombros, deixando-a pendurada pela frente. A ideia é não ter que
ficar com meu rosto espremido em alguém e ainda me sobrar algum espaço para eu
abrir meu Mutarelli e continuar minha leitura. O espaço não permite. Melhor utilizar
o livro com outra utilidade: dados os aromas de hálito matutino e perfume
barato que assaltam minhas narinas, decido afundar meu rosto na capa do livro e
tentar, com o cheiro da encadernação, dar algum alento para meu olfato. Quando embarquei,
certifiquei-me de que não haveria nenhuma mulher próxima a mim para que, por
descuido, não ficasse roçando nela e ser interpretado de maneira incorreta. Não
havia. Portanto, com a cara afundada no livro, além dos corpos me pressionando
por todos os lados exceto na frente graças à mochila, o que me incomoda mesmo é
sentir na minha mão, que segura o livro, dois jatos de respiração nasal que
emitem duas pessoas. Isso me incomoda bastante, mas faz parte inevitável da experiência
de trens lotados. Aliás, não sei como as pessoas conseguem soltar jatos de
vento tão fortes pelo nariz enquanto respiram naturalmente. Para eu fazer o
mesmo, tenho que empreender um grande esforço diafragmático, o que gera
cansaço.
Prefeito Saladino. A porta se abre, gente que sai, gente que
entra, naturalmente sou empurrado para mais dentro. Minha expectativa de que me
livre dos jatos respiratórios faz com que essa onda de gente a me empurrar me
pareça uma boa ideia. Realmente, mudo de posição e agora estou de costas para
uma senhora gordinha. Tento diminuir a pressão desse lado para não incomodá-la.
Livro-me da respiração nasal mas dou de cara com dois senhores com um
insuportável hálito de cachaça. Afundo ainda mais minha cara no livro, fecho os
olhos e espero o tempo passar.
Em Utinga quase nada muda e, em São Caetano, com a abertura
das duas portas, eu não mudo de lugar mas mudo de posição, agora de frente à
porta por onde entrei. Gente que sai, gente que entra, o trem fecha as portas e
percebo que, uma pessoa depois da porta, vai uma garota de cabelos negros. Muito
bonita e com ar de ser bastante meiga. Sua expressão denota que ela está
bastante incomodada com o desconforto mas não reclama. Fico com dó dela. Depois
de algum tempo, desvio o olhar: já pensou se ela me flagra olhando e confunde
meu sentimento de empatia com outra coisa?
Finalmente chegamos a Tamanduateí. Alívio. A multidão se
aglomera no acesso às escadas rolantes. Aproveito que quase ninguém acessou as
escadas fixas e a escalo de 2 em 2 degraus. Ainda dá tempo de subir as escadas
rolantes caminhando porque ela ainda não está entupida. O metrô chega logo e me
posiciono no primeiro vagão, afinal vou fazer a baldeação na estação
Consolação. O metrô está apenas lotado, o que me parece uma ótima ideia. Portanto,
ainda que sinta algumas pessoas me encostando, isso é bem leve ou ocasionalmente
por conta da inércia. Abro o livro e continuo a leitura. Vez por outra sinto
uma cotovelada nas costas. Penso ser resultado da inércia. Do meu lado esquerdo
há uma garota que me parece bastante bonita também. Vez por outra seu braço
roça no meu e fica encostado. Gosto da sensação. Mas, sempre que isso acontece,
depois de desfrutar alguns segundos do toque, afasto delicadamente meu braço,
para ela não achar que estou me aproveitando. Continuo minha leitura.
Na estação Trianon-Masp ela sai, o que me obriga a me mover
para lhe dar passagem. Quando me movo girando o corpo, percebo uma moça alta
atrás de mim que me fuzila com o olhar. Daí suponho que as cotoveladas talvez
não fossem acidentais: talvez, por estar lendo e meio desligado dos balanços do
trem, eu tenha encostado nela algumas vezes e sua reação tenha sido me dar uma
cotovelada por me considerar folgado ou imaginar que eu estava me aproveitando.
Sei lá.
Finalmente chego na estação Consolação. Sempre que desço lá,
observo se a luz da esteira está verde. Se não estiver, mudo minha rota para a
esquerda e vou pelo piso normal. Não gosto muito de caminhar pela esteira
parada. Distraído, me esqueço disso e, quando me dou conta, não dá mais para
escapar: entro na esteira estacionária. Na minha frente vai uma garota de calça
jeans desbotada e sapato preto de salto alto. Sacolejante. Mulher de calça
jeans desbotada e salto alto me parece muito chique. Fora da esteira, na parte
do piso, um rapaz caminha lendo sua revista de tecnologia. Normalmente eu leria
também, mas como estou lendo um livro de papel e não um e-book que dá para
aumentar a letra e ler em movimento sem ter que compensar o balanço natural da
caminhada, desisto da leitura. Acompanho o sacolejo à minha frente. Duas esteiras
paradas e uma catraca depois, já no túnel,
caminho um pouco mais rápido que a moça à minha frente e, no rabo de
olho, dou uma olhadela rápida. Não que ela seja feia, e é um pouco nariguda, mas
eu preferia a visão do sacolejo.
Quase chegando na plataforma da estação Paulista, fico atrás
de um senhor que anda calmamente: chinelo de dedo, bermuda, camisa estampada e chapéu.
Baixinho, constituição óssea avantajada, lhe dá um aspecto atarracado. Tem o
tronco desproporcional, o que implica em pernas um pouco mais curtas. Mas nem
tanto, como acontece com anões, por exemplo. Mas ele anda com passos bem curtos
e arrastando os chinelos. Me pergunto se ele anda assim por conta da sua
constituição física ou por conta de sua personalidade. Não me parece que ele
tenha pernas tão curtas que não lhe permitam dar passos um pouco maiores. Mas de
qualquer forma me pareceu uma figura meio insólita na multidão.
Desço para a plataforma sentido Luz, sentido que sempre me
parece anormal, já que na maioria absoluta das vezes, quando embarco por ali, o
faço no sentido oposto e, ufa!, o trem está menos lotado. Ainda estou com a
mochila pendurada na frente. Um rapaz olha com muita atenção a TV no teto do
vagão do lado oposto ao meu, o que me chama a atenção. Curioso, vou ver o que
tanto lhe prende e fico surpreso ao ver que, do lado em que estou, está
passando um comercial besta. Fico pensando se o que estou vendo é o mesmo que
ele assiste. Distraído nesse exercício, desequilibro-me quando o trem dá
partida e dou um encontrão, com a mochila, em uma senhora à minha frente. Imediatamente
ela se vira, um misto de surpresa e começo de indignação, mas quando dá de cara
com minha imediata expressão de pesar pelo incidente, a tensão do seu rosto
desaparece e dá lugar a um sorriso compreensivo que interpreto como uma
aceitação do pedido de desculpas que meu olhar sugere.
Uma estação depois desembarco na República e, como ocorre
das poucas vezes que desembarquei ali, minha primeira reação é seguir a
multidão que se desloca para a escadaria que dá acesso ao pavimento inferior,
para a baldeação, quando caio em mim a tempo: opa, não é por aqui! Desvio do
fluxo e vou em direção à escada rolante que dá acesso ao pavimento superior e
depois à saída.
Absorto em pensamentos, passo pelas escadarias, vou pela
Sete de Abril e, quando me dou conta, já estou apresentando o RG na recepção do
edifício.
terça-feira, 11 de março de 2014
Livros que li em 2013
Eu achei que já tivesse registrado os livros lidos em 2013. Acabei de perceber que não. Foi um ano muito corrido e de pouca leitura. Mesmo assim, ainda consegui a "impressionante" marca de 12 livros lidos. Considerando que um deles foi "Ulisses" de James Joyce, iniciado no ano anterior, não foi um ano pródigo, é verdade, mas tampouco foi uma sequidão.
Estou desassinando paulatinamente um sem número de periódicos que assino. Primeiro pela minha incapacidade de lê-los (as revistas normalmente se amontoam) e, segundo, porque isso me rouba precioso tempo para ler livros interessantes. Acho que ficarei apenas com a revista Info, da Editora Abril, para me manter minimamente informado do que ocorre na área (trabalho com TI), ainda que eu possa me informar decentemente apenas por sites. Mas, enfim, a comodidade de ter uma revista com alguns temas pré-selecionados é tentadora.
Enfim, os livros lidos na ordem:
Estou desassinando paulatinamente um sem número de periódicos que assino. Primeiro pela minha incapacidade de lê-los (as revistas normalmente se amontoam) e, segundo, porque isso me rouba precioso tempo para ler livros interessantes. Acho que ficarei apenas com a revista Info, da Editora Abril, para me manter minimamente informado do que ocorre na área (trabalho com TI), ainda que eu possa me informar decentemente apenas por sites. Mas, enfim, a comodidade de ter uma revista com alguns temas pré-selecionados é tentadora.
Enfim, os livros lidos na ordem:
|
1. Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente
Eficazes (Stephen R. Covey)
|
|
2. Honoráveis Bandidos (Palmério Dória)
|
|
3. O auto da compadecida (Ariano
Suassuna)
|
|
4. A queda (Diogo Mainard)
|
|
5. A trilha menos percorrida (M. Scott
Peck)
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|
6. Essa história está diferente (Ronaldo
Bressane - organizador)
|
|
7. O que Jesus disse o que Jesus não
disse (Bart D Ehrman)
|
|
8. O estudante (Adelaide Carraro)
|
|
9. Entre a cruz e o Arco-Íris (Marília
de Camargo César)
|
|
10. Ulisses (James Joyce)
|
|
11. Cristãos, Judeus e Pagãos (Roque
Frangiotti)
|
|
12. A ordem do discurso (Michel
Foucault)
|
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Vamos ler?
Acabei de dar uma uma olhada aqui nos EPUBs que coleciono, geralmente enviado por amigos: cerca de 2.500. Morrerei e não lerei tudo. Lerei uma ínfima parte, é verdade. Mas eu amo ler. Pena que meu tempo é muito restrito. Em casa há centenas de livros em 3 bibliotecas, se considerarmos que a biblioteca seja um espaço onde ficam armazenados livros. Com tanta coisa para ler, fica difícil decidir o que ler. Há um tempo pedi ajuda alguns amigos para sugerirem livros que eles tinham lido e que acharam interessante. Eles fizeram uma lista que eu reproduzo abaixo. Alguns desses livros eu já li. Não há o menor critério na ordem dos livros: eu simplesmente fui fazendo a lista na ordem em que iam citando. Mas, considerando que os livros são uma resposta à pergunta "Quais os melhores 10 livros que você já leu?", a lista é no mínimo interessante. Vamos a ela, lembrando que sequer me dei ao trabalho de formatar corretamente a lista (gastarei o tempo disso lendo algo):
1. por tras das palavras Carlos Mesters
2. o auto-engano – eduardo gianetti
3. Armas, Germes e Aço - Os Destinos das
Sociedades Humanas
4. Philip Yancey
a.
Oração:
ela faz alguma diferença?
b. O Deus (in)visível
c.
Alma
Sobrevivente
5. Filosofia: ordem
a.
- Filosofia
Antiga: alguns pré-socráticos são interessantes: Xenófanes, Parmênides, Zenão
de Eleia. Platão e Aristóteles. E
Agostinho, claro
- Medieval: Orígenes, Gregório de Nissa, Anselmo, Abelardo, Escoto, Tomás de Aquino, Averrois (pra dar uma quebrada é legal)
- Moderna (uma leitura direcionada para o debate entre racionalismo e empirismo): Descartes, Locke, Hume, Leibniz e Kant. Tem, claro Berkeley dentre outros.
E depois disso com todas as discussões sobre períodos aqui e acolá tem Nietzsche, Kierkegaard, Marx, Feuerbach, Freud.
Tem o povo da linguagem do século passado: Russell, Rorty, Putnam, Devitt, Dummet, Frege (tô misturando períodos)
Ainda tem a galera de política que eu não tenho muito contato tipo Hobbes, Deleuze, Derrida, Foucault (não leio muito esse povo)
- Medieval: Orígenes, Gregório de Nissa, Anselmo, Abelardo, Escoto, Tomás de Aquino, Averrois (pra dar uma quebrada é legal)
- Moderna (uma leitura direcionada para o debate entre racionalismo e empirismo): Descartes, Locke, Hume, Leibniz e Kant. Tem, claro Berkeley dentre outros.
E depois disso com todas as discussões sobre períodos aqui e acolá tem Nietzsche, Kierkegaard, Marx, Feuerbach, Freud.
Tem o povo da linguagem do século passado: Russell, Rorty, Putnam, Devitt, Dummet, Frege (tô misturando períodos)
Ainda tem a galera de política que eu não tenho muito contato tipo Hobbes, Deleuze, Derrida, Foucault (não leio muito esse povo)
6. Scribd
a.
mito
e realidade, mircea eliade
7. O Método, de Morin (6 volumes)
8. Tratado de História das Religiões, de
Eliade
9. Teologia a Caminho, de Hans Küng
10. Nietzsche, o rebelde aristocrata, de
Losurdo
11. O Império do Sentido, de François
Dosse
12. A Teologia do Século XX, de Rosino
Gibelini
13. Introdução ao AT, de Erich Zenger
14. A Dinâmica da Fé, Tillich
15. História das Crenças e das Idéias
Religiosas, 3 volumes, Eliade
16. Vida: Biografia do Keith Richard
17. Em 6 passos o que faria Jesus:
Novíssimo manual de conduta do seguidor de Jesus | Paulo Brabo | ISBN:
978-85-62877-01-8
18. Para Entender: Pós-modernidade | Mary
Rute Gomes Esperandio
19. Como Fazer Teologia da Libertação |
Clodovis Boff e Leonardo Boff | ISBN: 8532605427
20. “Os Pobres Herdarão a Terra”:
Conflitos Rurais e Igreja Católica no Brasil na segunda metade do Século XX
21.
What Would Jesus Deconstruct: The
Good News of Postmodernism for the Church | John D. Caputo | Editora: Baker
Academic |ISBN-10: 0801031362
22. How (Not) to Speak of God | Peter
Rollins | ISBN-10: 1557255059 (esse é o melhor livro que eu já li...)
23. Qualquer livro do
http://www.johndominiccrossan.com/
24. Introducing philosophy de Dave
Robinson
25. Anarchy and Christianity, Jacques
Ellul
26.
Emerging Churches: Creating Christian
Community in Postmodern Cultures, Eddie Gibbs
27.
God's spies: Stories in defiance of
oppression
28. Esse foi o melhor livro infantil que
eu li:
http://ottawa.bibliocommons.com/item/show/375356026_the_story_of_a_mirror (para
meus filhos)
29. http://peroratio.blogspot.ca/2010/06/2010402-nao-os-devo-ninguem.html
30. 2. Religião e Repressão - Rubem Alves
31. 3. Em 6 passos... - Paulo Brabo
32. 4. Piedade Pervertida - Ricardo
Quadros Gouvêa
33. 5. A Mensagem Secreta de Jesus -
Brian McClaren
34. 6. O Jesus que Eu Nunca Conheci -
Yancey
35. Matrix: Bem vindo ao deserto do real
36. Deus Negro
37. 1 - Por que as pessoas acreditam em
coisas estranhas, de Michael Shermer.
38. 2 - História do Espiritismo, de
Arthur Conan Doyle (que na verdade fala do moderno espiritualismo em geral, não
do Espiritismo kardequiano).
39. 3 - O Oculto, de Colin Wilson.
40. 4 - A religião de Jesus, o judeu, de
Geza Vermes.
41. 5 - História do cristianismo, de Paul
Johnson.
42. 6 - Autobiografia: Minnhas
experiências com a verdade, de M. Gandhi.
43. 7 - Jesus, o filho do Homem, de
Gibran Khalil Gibran.
44. 8 - Buda, de Karen Armstrong.
45. 9 - Uma lida em ensaios variados de
secularistas e ateus, ótimo para temperar arroubos de petulância dogmática
(embora muitos tenham os mesmos defeitos): http://www.infidels.org/).
46. 10 - O animal social, de Eliot
Aronson.
47. Deus é vermelho
48. 1 ) O duplo - Dostoiévski
49. 2 ) O desaparecimento de Deus - R.
Elliott Friedman
50. 3 ) Deus não existe! ... Eu rezo para
ele todos os dias - Jean-Evys Leloup
51. 4) Creio na ressurreição do corpo -
Rubem Alves
52. 1 - Mil e uma noites - a tradução
mais recente direto do árabe.
53. 2 - Alguma coisa de Shakespeare,
Macbeth, Hamlet ou Mercador de Veneza.
54. 3 - Alguma coisa do Alan Moore - V de
Vingança ou Watchmen (pelamordedeus, os quadrinhos, não os filmes).
55. 5 - O Som e a Fúria - Faulkner.
56. 7 - Coração das Trevas - Joseph
Conrad.
57. 1º Do sentimento trágico da vida –
Miguel de Unamuno
58. 2º O Homem medíocre – Jose Ingenieros
59. 3º Deus uma biografia – Jack Miles
60. 4º O livro de J – Harold Bloom e
David Rosenberg
61. 5º Religião e Repressão – Rubem Alves
62. 6º Dogmatismo e Tolerância – Rubem
Alves
63. 7º As Veias Abertas da América Latina
– Eduardo Galeano
64. 8º A Espera da Aurora – Jean Delumeau
65. 9º Abaixo as Verdades Sagradas –
Harold Bloom
66. 10º O Código dos códigos - Northrop
Frye
1. Fim do Cristianismo Pré-Moderno, de André
Torres Queiruga/
2. Livro do Desassossego, Pessoa/
3. Pequenos Tratado das Grandes
Virtudes, de André Comte-Sponville/
4. O Espírito do Ateísmo, tb do
Sponville/
5. O Homem-Deus ou o Sentido da Vida, de
Luc Ferry/
6. Teologia e MPB, de Carlos Eduardo
Calvani/
7. Matar nossos Deuses, de José Maria
Mardones/
8. Acreditar em Acreditar, de Gianni
Vattimo e
9. Terra Sonâmbula, de Mia Couto
67. 8 - Os Sete Enforcados - Leonid
Andreiev. Maravilhoso!
68. 9 - Ilíada e Odisséia de Homero.
Impossível não ler os gregos. Vale também ler alguma coisa de Platão ou (adogo)
alguma tragédia de Sófocles.
69. 6 - Tess - Thomas Hardy.
70. 7 - Coração das Trevas - Joseph
Conrad.
71. "Deus e as religiões: 'inreligionação',
universalismo assimétrico e teocentrismo jesuânico". In Andrés Torres
Queiruga, "Do terror de Isaac ao Abbá de Jesus: Por uma nova imagem de
Deus". São Paulo: Paulinas, 2001, pp. 315-55, aqui p. 352).
72. Salvos da perfeição – Elienai Cabral Jr.
73. Cidade febril
74. Jesus, o homem que amava as mulheres
(indicação GB)
75. A alma encantadora das ruas – de João do Rio
(disponível por diversas editoras)– O dândi carioca sabia tudo sobre a arte de
flanar pela cidade e tirar dela, ainda em 1908, belas histórias.
76. Um Bom Par De Sapatos E Um Caderno De Anotaçoes – Como Fazer Uma
Reportagem -de Anton Tchekhov (editora Martins Fontes).Toda a riqueza de
observação e detalhes que usava nos seus contos e peças, a favor do
jornalismo-literário em uma reportagem de viagem.
77. Balas de Estalo – reunião crônicas
políticas e de costumes de Machado de Assis –publicado por várias editoras.
78. Dez dias que abalaram o mundo – John Reed
(ed.Conrad)–De uma forma eletrizante, punk-rock mesmo, o autor narra os
acontecimentos da revolução russa de 1917.
79. Paris é uma festa – E. Hemingway (ed.Bertrand Brasil) –As pereguinaçoes boêmias de um dos maiores narradores americanos
e a sua convivência com grandes artistas franceses. Para aprender a escrever e
observar o mundinho artístico.
80. Na pior em Paris e Londres – George Orwell
(Companhia das Letras, coleção Jornalismo Literário) –A experiência de
miserável do autor de “1984”.Aula de escrita e humanismo pelos subterrâneos das
cidades.
81. O Segredo de Joe Gould,de
Joseph Mitchell (Cia das Letras). Aula genial de como fazer um perfil de um
puta personagem praticamente anônimo de NY, um desses vagabundos que vemos por
e mal sabemos da sua genialidade.
82. Malagueta, perus e bacanaço (ed.Cosac &
Nayfi-João Antônio- O universo marginal dos salões de sinuca, rodas de sambas e
madrugadas nos bares. Narrativa coloquial e maldita.
83. Dicas úteis para uma vida fútil -um manual para a maldita raça
humana – Mark Twain (ed.Relume Dumará). Um grande almanaque com dicas
de etiqueta, moda, comportamento, costumes. Tudo da forma mais mordaz possível.
Pra rir e aprender.
84. O perigo da hora – o século XX nas páginas
do The Nation (ed.Scritta). Textos de gênios do jornalismo e da literatura como
Kurt Vonnnegut, H.L. Mencken, Gore Vidal, John dos Passos entre outros bambas.
85. O livro dos insultos – H.L.Menken (Cia das
Letras) –Influência importante para muita gente no Brasil, como Ruy Castro e
Paulo Francis, por exemplo, com Menken você aprende a ser crítico, ácido e ter
uma pena maldita.
86. Medo e delírio em Las Vegas– (ed.Conrad) A lista não poderia faltar pelo menos uma
obra-prima do rei do jornalismo gonzo, a forma mais maluca e ousada de contar
histórias. Foi adaptado para o cinema em 1998, pelo diretor Terry Gilliam.
87. O que queremos dizer quando dizemos 'Inferno'?, Andrés Torres
Queiruga.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Livros que li em 2012
Meu amigo Fabinho Silva publica em seu blog todos os anos a relação de livros que ele leu no ano anterior. A partir desse ano resolvi imitá-lo e fazer o mesmo:
Precisamos falar sobre o Kevin (Lionel Shriver)
Se eu fechar os olhos agora (Edney Silvestre)
A cruz de Hitler (Erwin W. Lutzer)
Quase memória (Carlos Heitor Cony)
A felicidade é fácil (Edney Silvestre)
Ostra feliz não faz pérola (Rubem Alves)
A celebração da disciplina (Richard Foster)
Assembleias de Deus (Gedeon Alencar)
O espião que sabia demais (John Le Carré)
Eichmann en Jerusalén (Hannah Arendt)
Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)
Cândido (Voltaire)
Eric Clapton, a autobiografia (Eric Clapton)
Coração das trevas (Joseph Conrad)
Os sete enforcados (Leonid Andreiev)
Fuga do Campo 14 (Blaine Harden)
Precisamos falar sobre o Kevin (Lionel Shriver)
Se eu fechar os olhos agora (Edney Silvestre)
A cruz de Hitler (Erwin W. Lutzer)
Quase memória (Carlos Heitor Cony)
A felicidade é fácil (Edney Silvestre)
Ostra feliz não faz pérola (Rubem Alves)
A celebração da disciplina (Richard Foster)
Assembleias de Deus (Gedeon Alencar)
O espião que sabia demais (John Le Carré)
Eichmann en Jerusalén (Hannah Arendt)
Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)
Cândido (Voltaire)
Eric Clapton, a autobiografia (Eric Clapton)
Coração das trevas (Joseph Conrad)
Os sete enforcados (Leonid Andreiev)
Fuga do Campo 14 (Blaine Harden)
sábado, 1 de dezembro de 2012
Porque não condeno quem come carne de porco
Os porquíveros
Setembro de 2014. O mundo não havia acabado em 2012, para
desespero de alguns, a vida na Terra continuava aquela mesmice chata de sempre,
judeus e palestinos se matando, ricos explorando pobres, gente brigando em vez
de se amar, enfim, até que, numa tarde típica de setembro, o inacreditável
acontece: cai uma capsula do céu. Em São Francisco. Mais especificamente em
Castro. Talvez tão impressionante tanto quanto a queda inesperada é o fato de
cair em uma região metropolitana dos EUA. Por que não no quintal da minha casa,
na cabeça daquele vizinho chato e imoral ou no meio do deserto do Saara? Bem, a
Providência sabe o que faz.
Imediatamente a Nasa entra no circuito e descobre ser uma
cápsula alienígena. Meses de estudos e descobrem que a cápsula é um
engenhosíssimo aparato movido a energia estelar que contém informações de um
minúsculo planeta da constelação de Alfa Centauro, planeta tão minúsculo que
nossos mais potentes telescópios não foram capazes de detectá-lo. O aparato
poderia ser ligado depois de pressionado 10 segundos e 24 centésimos e exibia
um monte de informações em código binário. Anos de pesquisa com
seus melhores cérebros e a Nasa consegue decifrar o conteúdo da cápsula que, em
resumo, contém informações sobre o planeta e sobre sua cultura. Daí, o mais
impressionante: o planeta é habitado por seres vivos inteligentes, humanoides e
possui um ecossistema muito parecido com o da Terra. Tanto que os terráqueos
resolvem batizá-lo de Nova Gaia. Por fim, descobrem que os novagaianos, muito
mais avançados cientificamente que nós, estão convidando os terráqueos, por
meio de um representante, para conhecer seu planeta. Simplificando, os
novagaianos passaram uma série de instruções que resultavam no envio de uma
mensagem intergaláctica que, uma vez recebida por eles em questão de horas,
implicaria no envio à Terra de um veículo intergalático que, por questões que a
ciência deles ainda não resolvera, comportaria apenas um passageiro.
Como tudo nessa história é fabuloso, eles resolvem mandar um
cientista da Nasa, brasileiro! Brasileiro? Pois é, o Joãozinho. A argumentação
é que, por ser um povo muito sociável, que teoricamente se adapta em qualquer situação,
o perfil do brasileiro era o mais indicado. Na realidade, apesar de brilhante,
o cientista não passava de um trollador, do tipo que perde o amigo mas não
perde a piada. E a Nasa já meio de saco cheio dele – inclusive já havia quem se
demitira da Nasa, cientistas até mais brilhantes que ele, por conta do seu
perfil trollador, enfim, um cara inconsequente – resolvera se livrar dele: Já
que os norte-americanos estavam receosos da aventura interplanetária não dar
muito certo, se fosse para queimar alguém, que fosse o inconveniente
brasileiro. A lá se foi nosso Joãozinho.
Por ter uma tecnologia muitíssimo mais avançada que a nossa,
em algumas horas nosso representante planetário já estava em solo novagaiano
cuja atmosfera, inclusive, era absolutamente similar à da Terra. Durante as
primeiras horas o submeteram a uma máquina que leu todas as informações
químicas, elétricas e sei mais o que do seu organismo, de forma que aprenderam
muita coisa sobre a Terra , até mesmo o seu idioma nativo, imaginem!, o
português. Por outro lado, desenvolveram rapidamente um programa que, conectado
ao seu cérebro por meio de alguns eletrodos, fê-lo aprender rapidamente sobre a
língua e cultura do lugar. Acho que já vi esse filme antes...
O intercâmbio durava algumas semanas terráqueas antes de ele
voltar para casa e lá se foi nosso herói a imergir na realidade novagaiana. A
primeira coisa que lhe chamou a atenção e que, na realidade o chocou bastante,
é que, apesar de humanoides, eles se reproduziam de forma assexuada. Não havia
cópula e não havia separação de masculino e feminino. Os seres nasciam de um
processo muito parecido ao humano, algo semelhante com a placenta, mas
independente do ato sexual; os seres daquele planeta eram capazes de provocar
isso apenas na sua idade adulta. A geração de um semelhante se dava pela
combinação de hormônios e o desejo de se reproduzir, estado de consciência que
se adquiria somente na fase adulta da vida. E havia limites para a reprodução
que dependiam de aspectos que vamos chamar de psicológicos e que variavam de
indivíduo para indivíduo. Portanto, havia a tradicional família também, formada
pelo(a) progenitor(a), que era um ser capaz de cuidar sozinho(a) da sua cria.
Inclusive, eram mamíferos parecidos com os nossos, com glândulas mamárias e
tudo o mais. Na idade adulta eram seres andróginos, bastante sociáveis, mas que
não desenvolviam atração mútua. Havia, sim, o instinto materno/paterno em
relação às suas crias. Portanto, tinham também sua família celular tradicional.
E havia mais semelhanças e diferenças que, para encurtar a
história, vamos nos fixar nas mais importantes: todos eles tinham a pele meio
rosada: não havia a nossa riqueza genética. Da mesma forma que os terráqueos, o
conhecimento deles havia se desenvolvido ao longo das eras e, portanto, eles
tinham sistemas muito parecidos com os nossos: as mitologias, as crenças e o
conhecimento científico. Impressionante também o conceito de Deus existente lá,
idêntico ao terráqueo. Isso levou nosso Joãozinho, um cristão temente a Deus –
diga-se de passagem – a firmar mais ainda sua fé na existência de um deus
pessoal. Afinal, nesse vasto universo, os seres humanos haviam conhecido outra
civilização alienígena que continha basicamente os mesmos fundamentos de
crença. Coisa linda de se ver. Tinha que existir um Deus inteligente por trás
disso tudo e, obviamente, só poderia ser o mesmo Deus venerado na Terra. Seria
improvável que não fosse assim.
E, continuando nas semelhanças, eles também eram
profundamente religiosos, tinham seus cultos, suas religiões, a maioria delas
monoteístas. Para finalizar o paralelo, coincidência num sentido e estranheza
absurda em outro, se eles não tinham a sexualidade como conhecemos, eles
possuíam uma pulsão muito parecida à nossa sexual, mas em relação à
alimentação: se, para nós, tudo gira em torno do sexo, para eles, tudo girava em
torno da comida. E não era sem razão porque a comida tinha uma relação direta
com a capacidade de reprodução deles. Eles eram essencialmente carnívoros – e
na Nova Gaia os animais eram os mesmos da Terra, algo impressionante! O prazer
supremo daquele planeta era uma picanha maturada. No entanto, havia um animal que
era a exceção, uma abominação: o porco. Entendamos o motivo.
Comer carne tinha a ver com a capacidade reprodutiva deles
porque uma proteína somente encontrada nos animais era a que desencadeava a
capacidade de reprodução deles. Eles até tinham, no livro sagrado deles, o
relato da criação dos humanoides novagaianos: depois de criar o mundo, no 24º
dia Deus escolhera um animal, extraíra seu fígado e, dele, havia feito o
novagaiano. Depois, Deus descansara no 25º dia. Portanto, a essência da
existência deles, a capacidade de sua reprodução consistia em consumir a
proteína carnívora. Sem isso, eles não se reproduziriam em novos seres, a
célula mater da família deles se desintegraria, enfim, toda aquela história que
já conhecemos. A carne do porco tinha um problema: possuía outra proteína, ao
longo do seu desenvolvimento científico eles haviam percebido isso, que tornava
os novagaianos estéreis. A implicação religiosa disso era dramática: não
reproduz, é um abominável, coloca em risco a célula mater da família. Se Deus
havia feito o novagaiano para se reproduzir por meio da ingestão de proteína
carnívora, por que comer carne de porco, que causava o efeito contrário?
Afinal, o primeiro ser humanoide daquele planeta, criado por Deus a partir do
fígado de um animal, se chamava Carnívoro e não Porquívero!
A questão era mais complexa: para a maioria das pessoas
daquele planeta – e isso deve ter relação com a possibilidade de se reproduzir –
era asqueroso comer carne de porco. Naquele planeta, quando preparada,
invariavelmente a carne ficava com uma coloração próxima à da pele deles e isso
causava uma repulsa muito grande nos novagaianos. O pior é que havia quem
gostava daquilo! Eca! Havia uma polarização muito grande. A maioria das pessoas
acreditava que o gosto pela carne de porco era resultado de hábitos alimentares
degenerados adquiridos ao longo da vida. Outros acreditavam que as pessoas já
nasciam com uma tendência a gostar de carne de porco. O fato é que a questão
era muito polêmica e a polarização se dava mais no âmbito religioso: se Deus havia criado
os novagianos para se reproduzirem e constituírem família a partir da ingestão
de proteína animal, obviamente era pecado comer aquela carne asquerosa, a
suína, que ainda deixa os novagianos estéreis. Joãozinho tinha bastante dificuldade
em entender o raciocínio, mesmo porque, como bom brasileiro, ele não dispensava
uma suculenta bistequinha de porco. No entanto, uma coisa bastante curiosa era
o fato de que algumas pessoas não gostavam de comer carne e se tornavam
vegetarianas. Bem, até aí tudo bem: como vegetais não pareciam asquerosos para
a maior parte dos novagaianos e a maioria deles até incluía os vegetais na sua
dieta. Mas, o fato é que tais novagianos, por não consumirem a proteína da
carne, resultavam estéreis também. E aí, eles não eram uma ameaça à célula
mater novagaiana? Claro que não! Havia muitas crianças novagaianas órfãs, por
diversos motivos, e um vegetariano poderia adotar algumas dessas crianças e
tudo bem. E os “porquíveros”, também não poderiam? Claro que não! Tais degenerados
comedores de carne de porco eram um perigo à célula mater novagaina, seriam uma
má influência às crianças novagaianas. Joãozinho chacoalhava a cabeça para
pegar no tranco e jurava não entender nada...
Além do mais, havia a questão da aparência física: a
ingestão da proteína suína gerava um efeito “colateral”: as sobrancelhas dos
comedores de carne suína se juntavam com o tempo e se tornavam “monocelhas”.
Horrível. Era fácil identificar os comedores de carne suína por isso. Na realidade,
por uma questão genética ainda não compreendida, alguns comedores de carne
suína não desenvolviam esse efeito colateral. E havia novagaianos que, apesar
de não consumirem carne suína eram “premiados” como “monocelhas”. E, pra
piorar, ainda não estava claro se a “monocelha” era resultado da ingestão da
carne suína (parecia que sim) ou uma pré-disposição genética. O fato é que
novagaianos dotados de “monocelhas” eram estigmatizados, muitas vezes alvo de
violência por parte de pessoas que odiavam esse tipo de novagaiano: “morra,
comedor de carne de porco safado!!!”. Uma coisa triste de se ver e que cortava
o coração de Joãozinho, o trollador. Sem falar nos novagaianos que morriam de
vontade de provar uma bistequinha de porco assada, mas não tinham coragem de
sair do forno. Esses eram os mais aguerridos.
A coisa chegou a tal ponto que, naquele planeta, os religiosos
mais dogmáticos condenavam os comedores de carne de porco, por macularem a sagrada
comida, instituída por Deus para eles se reproduzirem, comendo carne de porco. Ocorre
que, naquele planeta, nem todos eram religiosos mais tradicionais, muitos sequer
religiosos. E Joãozinho, um amante de uma bistequinha de porco, ainda que isso
parecesse uma abominação para a maior parte dos novagaianos, não entendia
porque os que apreciavam essa delícia da culinária eram obrigados a se privar
disso justamente porque os religiosos achavam que era pecado! Se tais
novagaianos “porquíveros” não pensavam assim, ainda que estivessem violando a
crença mais profunda dos novagaianos crentes, por que eles deveriam se abster
de comer a carne de porco? Não era todo mundo livre naquele planeta? Não diziam
que cada um era livre para viver de acordo com sua consciência? Outra coisa que
deixou Joãozinho intrigado foi o seguinte: se Deus criou mesmo os novagaianos,
e lhe parecia razoável, como bom cristão, uma vez que Deus deve ser tão
infinito que não está limitado a um sistema religioso de um planeta nesse
universo tão imenso, por que não simplificou as coisas? Não seria mais fácil ter
impedido que aparecem porcos naquele planeta? Ou será que porco é tudo isso de
ruim que falam por lá? E os vegetarianos estéreis? Que confusão...
Bem, havia uma série de questões implicadas nessa polêmica
toda. Como o planeta também possuía um sistema de leis sofisticado, eles
estavam às voltas com a criação de uma lei que permitisse aos comedores de
carne bovina adotar crianças. Como assim???, pensou Joãozinho. Bem, a verdade é
que, exceto esse aspecto curiosíssimo das singularidades de Nova Gaia, o
restante do planeta lhe pareceu uma delícia. Entretanto, ele nem em sonhos
comentou com alguém que era um fanático por bisteca de porco. Já pensou se
descobrem? Ele preferiu não arriscar.
A verdade é que foram algumas semanas terráqueas muito
enriquecedoras para ele e, quando estava prestes a embarcar de volta à Terra,
ele já estava com saudades, apesar do pensamento recorrente que lhe assaltava
sempre que ele pensava na carne de porco: “que pessoal mais estranho...” De
volta à terra, nas horas em que passou no veículo intergaláctico, enquanto
repassava um poucos suas experiências em Nova Gaia e pensava no que lhe
esperava na Terra, uma ideia cruzou seu cérebro: assim que chegasse em casa,
iria procurar seu vizinho, o Serginho, aquela bichinha, que ele tantas vezes
havia hostilizado, e lhe daria um longo e afetuoso abraço.
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