quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Com que roupa eu vou?

- O que você acha? Ponho o vestido branco ou o preto?
Ai, não! Essa pergunta de novo?
- Ah... sei lá! Esses dilemas são muito difíceis para mim!
Ela insiste, me municia com informações a respeito. Mesmo assim é difícil para mim. Meus processos deliberativos são muito diferentes. Sem dizer que tenho apenas meia dúzia de roupas espremidas no cantinho do meu guarda-roupa que foi invadido por suas roupas, já que as outras partes que ela se apossou quando da construção do embutido, com o tempo se mostraram insuficientes. Se eu uso meia dúzia de roupas e simplifico minha vida por isso, por que raios tenho que me meter nessas decisões tão complexas de quem tem roupas que, se colocadas uma ao lado da outra, seriam suficientes para construir uma alameda até a Lua? Quem mandou comprar tanta roupa? Cada um com seus problemas! Por outro lado, sejamos honestos, também tenho minha parcela de culpa: quem me mandou casar?
Essa guerra já aconteceu várias vezes. E ela só termina com minha derrota. Não adianta eu insistir. Preciso escolher. Penso um pouco mais e declaro meu voto:
- Bem, vai com o preto. Ao menos você não vai passar frio.
Ela passa os dois vestidos.
Veste o branco e vai trabalhar.

Mentira! Dessa vez ela usou o preto. Mas poderia ter usado o branco mesmo. Porque a guerra que eu perco não é a guerra em que sou obrigado a votar em um processo decisório. A guerra diz respeito à minha participação compulsória em um jogo de adivinhação. Dessa vez eu acertei quando, vencido, aceitei participar do jogo de adivinhação. Mas nem sempre acerto.

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PS: não menos importante que o texto acima, faz-se necessário um esclarecimento. Embora pareça que me sobre coragem e me falte noção, não é bem assim. Portanto, declaro a quem possa interessar, que esse texto contém ironias e exageros e é apenas o resultado de uma deliciosa oportunidade de escrever uma crônica que não quis perder. Sendo assim, na esperança de que não tenha que dormir no sofá até o ano que vem e na expectativa de vossa atenção e apreço, subscrevo-me, atenciosamente. 😇

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A hipocrisia dos religiosos

Essa treta com a Porta dos Fundos me lembrou uma história (piada?) que ouvi há muito tempo.

Diz que um pastor pregava para uma grande assistência e o tema era algo que tinha a ver com a injustiça ou alguma outra coisa que não significasse vantagem pessoal para a audiência, apesar de ser um tema que devesse mover os chamados cristãos. As pessoas estavam letárgicas, sonolentas. Daí, o pastor resolveu soltar um palavrão no meio da prédica. Instantaneamente a audiência ficou atenta, ligada no discurso. Ele então passou um pito nos ouvintes porque, enquanto ele dizia algo da maior relevância para um cristão, eles não estavam nem aí. Foi só ele colocar um palavrão no meio e imediatamente o gatilho moralista da audiência a pôs em alerta: bando de hipócritas!

É muito interessante que o filme da Porta dos Fundos cause indignação numa intensidade imensa enquanto toda a desgraça que vem carcomendo esse país num galope de 4 cavaleiros do apocalipse nem de longe cause a mesma comoção e, em muitos casos, ao contrário, mobiliza-os para apoiar. Isso me fa chegar à seguinte conclusão:

O moralismo religioso e a hipocrisia definitivamente incapacitaram essas pessoas de olharem o mundo atual com os olhos de Jesus de Nazaré, a quem elas dizem seguir.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Minhas prerrogativas acima de tudo, Eu acima de todos

Temos um problema cultural que aflige as autoridades, policiais inclusive e penso que, de alguma forma, alimenta a sanha violenta dos últimos contra populações empobrecidas: julgam-se acima da lei. Infelizmente, quando passamos pano para a corporação policial diante dos seus atos criminosos, culpando as vítimas, apenas alimentamos esse sentimento de poder que eles possuem em vez de ajudarmos no sentido contrário, educá-los a se lembrar que eles são cidadãos tão devedores de cumprir a lei e os marcos civilizados como qualquer pessoa.
No caso de policiais há uma lei específica que raramente os vejo obedecendo, leis de trânsito, o que me parece um despautério.
Hoje aconteceu algo curioso.
Saía da academia, 7 h da manhã, lentamente e distraído. Comecei a atravessar na faixa quando um veículo veio pela esquerda, na esquina, e parou na faixa esperando eu passar. De rabo de olha dei uma olhada e vi que era um veículo policial. No ritmo em que estava, cansado, continuei. O policial acelerou, não mudei meu ritmo, assim que cheguei na metade da travessia, ele subiu a rua, vagarosamente, não sem antes lançar algum insulto contra mim que não entendi.
Uma mulher que caminhava na calçada no sentido contrário comentou comigo assim que a alcancei:
- Mas que absurdo! Como eles são folgados! E ainda se acham os donos do mundo!
- Pois é. Isso é um problema.
Conversando com uma amiga ontem, ela me dizia que os policiais, quando chegam em uma favela, são hostilizados. Ela estava tentando relativizar a atitude violenta dos policiais em Paraisópolis. Eu lhe disse que entendia a atitude hostil dos moradores. Se os policiais fossem respeitosos com eles, os tratassem com dignidade, estivessem lá como representantes do estado para os servir, não seriam hostilizados. Mas os policiais tratam esses moradores na base da pancada. Como não seriam hostilizados? Eu também teria uma atitude hostil.
Daí, no bairro classe média em que eu vivo, onde as pessoas às duras penas estão aprendendo a respeitar faixa de pedestre, os policiais têm uma atitude tão reprovável como essa?
Complicado, viu? Eu não consigo passar pano para a corporação policial, apesar de respeitar a polícia, reconhecer o importante papel que eles empreendem na comunidade onde moro, diferente das notícias que ouço sobre a atuação deles em comunidades favelizadas.
Enquanto os agentes da lei não evoluírem e se tornarem de fato civilizados, esses problemas só se repetirão.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Definitivamente Deus é o cara

Estou desenvolvendo um sistema.
Em muitos sentidos ele emula um sistema nervoso central.
Pensa num trampo lascado projetar numa arquitetura e realizá-la (escrevendo os códigos) para que um processo mande sinal para outro, que ativa um terceiro processo e assim por diante, tudo dentro de uma lógica pre-determinada e que, depois, o circuito fica fechado supostamente à perfeição. Tráfego de mensagens alguns níveis e sentidos. Como um sistema nervoso central.
Fico pensando no trampo que Deus teve para projetar o ser humano.
Deus é o cara, hein? Maior respeito!
Se bem que ele teve toda a eternidade de ócio à disposição para pensar no assunto e eu estou nisso de verdade há pouco mais de 1 ano.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Régua alta (ou A destruição da família tradicional pela Globo)

Desci para tomar café. A Flávia já estava tomando enquanto assistia Mais você. Passava um trecho de uma novela. Parecia ser um caso homossexual. Perguntei para a Flávia e ela confirmou. Comentei ironicamente: a Globo sempre empenhada em destruir a família tradicional.

Na sequência, Ana Maria continuou conversando com o entrevistado. Lá pelas tantas ele disse que já havia escrito mais de 60 livros. Sessenta livros!, exclamou a Flávia. Pronto, conseguiu prender minha atenção. Quem é?, perguntei. Walcyr Carrasco.

Ah... Walcyr Carrasco! Daí eu lhe contei uma coisa que ela não sabia.

Quando assinava a Veja, meu texto preferido era a última página da Veja São Paulo. Eram crônicas escritas pelo Walcyr Carrasco sobre o cotidiano da cidade. Era um texto simples, despojado, não se notavam pretensões literárias, mas... que textos deliciosos! O cara escrevia demais.

Eu sempre gostei de escrever, mas meus textos sempre me pareceram simples demais, despojados demais, no limite, ruins. Mas, depois de ler os textos de Walcyr Carrasco, percebi que é possível escrever textos despojados e de qualidade. Logo, o despojamento de meus textos de repente não significariam que eles eram necessariamente ruins. Obviamente não com a genialidade de Walcyr Carrasco, mas de repente textos que poderiam ser lidos por outros, por que não?

Eu tive a mesma sensação quando fiz um curso de escrita vocal popular com André Protásio, um arranjador carioca. O mais importante do curso para mim foi perceber que as ideias de arranjo que eu tinha não eram tão ruins assim, até mesmo algumas soluções que me pareciam básicas demais. No curso vi diversos exemplos similares e ficava tão bonito!

Enfim, às vezes o problema é ter uma régua muito alta.

Obrigado, Walcyr Carrasco.

(PS: 10 das melhores crônicas de Walcyr Carrasco na Veja São Paulo Dez crônicas de Walcyr que deram o que falar)

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O leão, as hienas, a Venezuela e o vitimismo

Ontem, pela primeira vez, parei para ouvir uma “live” do presidente. Lembrei-me do que eu dizia aos meus amigos antipetistas raivosos e entusiastas do bolsonarismo: “se existe uma chance do Brasil se tornar uma Venezuela, será com Bolsonaro que guarda muitas semelhanças com Hugo Chávez”.

O autoritarismo, a truculência bolsonarista é algo que não precisamos mais questionar. Apenas isso já poderia mostrar que o Brasil politicamente está muito mais para Venezuela quanto já esteve. Mas vendo a fala do presidente, lembrei-me das vezes que visitei aquele país na era Hugo Chávez e via, com tristeza, a derrocada política lá instaurada nas falas virulentas de Hugo Chávez contra os meios de comunicação e todos os que discordassem dele como se fossem hienas (se me permitem o paralelo) querendo destruir o país. Não posso deixar de dizer que é possível também estabelecer um paralelo entre a grande mídia venezuelana e as organizações Globo, no pior aspecto possível, ainda que nesse caso eu veja que a Globo reproduziu um furo de reportagem em algo de interesse público, algo que é da natureza do jornalismo.

Por fim, não deixa de ser irônico e patético o presidente que mais produz inimigos por meio de seu comportamento inadequado, incompatível com o que se espera de um presidente, se vitimize. Ele não é vítima, muito pelo contrário.

domingo, 27 de outubro de 2019

Pregadores e palestrantes


Sou de uma família de tradição evangélica.

Tenho 2 irmãos (mais novos que eu) pastores.
Tenho um cunhado pastor.
Como toda família de “tradição pastoral”, o domínio do discurso religioso é uma característica.
Apesar de ser uma pessoa muito voltada aos livros e, de certa forma à palavra, nunca fui pregador.
Mesmo porque jamais conseguiria fazer as pregações típicas que falam que Deus vai fazer isso, Deus vai fazer aquilo, Deus de milagres ou, como aos poucos a essência das pregações vêm mudando, autoajuda ou enriquecimento material como prova de que o crente está na direção de Deus.
Fui professor de Escola Bíblica Dominical durante alguns anos e minha “prédica” era sempre uma tentativa de fazer os alunos participarem das aulas dizendo o que pensavam, refletindo sobre o que estava sendo dito, questionando, tentando se aprofundar nas questões. O que era muito difícil porque o crente via de regra não vai à igreja para pensar, refletir, mas para apenas “receber”, numa atitude típica de quem está preparado para ter seu cérebro “lavado” pela palavra.
Ontem à noite, vendo alguns minutos a pregação de uma amiga no facebook, desisti dada a preguiça que me abateu. Aquela pregação típica que fala que Deus vai fazer isso, Deus vai fazer aquilo, o segredo para o sucesso pessoal é isso ou aquilo (autoajuda).
Daí, remontando à minha memória, lembrei-me que minha última “pregação” foi há mais de 15 anos. Acho que fui convidado a pregar duas vezes apenas.
Naquela pregação, escolhi um texto bíblico dos evangelhos, não me lembro mais qual, e procurei refletir sobre os desafios que Jesus nos colocava a partir da sua parábola proposta. Nada de Deus vai fazer isso ou aquilo. Muito pelo contrário. Citei até Chico Buarque. Em uma Assembleia de Deus. Em um culto de domingo à noite.
No final da pregação, o pastor disse para a congregação: que palestra!
Rimos.
E nunca mais fui convidado a pregar novamente. Eheheh.
Ah, sim, no final do culto, uma ou duas pessoas vieram falar comigo que haviam sido desafiadas pelo que eu tinha dito, possivelmente a serem pessoas melhores. Fiquei feliz ao saber que elas não tiveram reforçadas a expectativa de que “a minha bênção vai chegar”. Eu teria ficado frustrado.