sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sequestro relâmpago?

Há pouco estava fazendo minha caminhada diária quando, ao cruzar uma rua, percebi que uma Meriva chegava e dava seta para entrar no sentido de onde eu vinha. Atravessei na frente, agradeci sem olhar e, para minha surpresa, alguns segundos depois, possivelmente esperando os demais carros passarem, a Meriva não entrou à esquerda, saiu num solavanco, entrou à direita, passou por mim e parou de repente no meio fio um pouco mais à minha frente. Achei que estavam perdidos e, possivelmente, iriam me pedir alguma informação.

Continuei andando como quem não quer nada e, quando cheguei ao lado do carro, filmado, ouvi uma voz no banco de trás que pareceu dar a seguinte ordem: “abre o vidro!” Assustei-me, a pessoa da frente estava abrindo o vidro, olhei disfarçadamente e era uma moça com um olhar muito assustado. Estranhei.

Andei mais alguns metros, havia alguns carros estacionados, me escondi atrás de um deles e não tive dúvidas: liguei para o 190 dizendo suspeitar estar presenciando um sequestro relâmpago. Perguntas de praxe, onde, se eu via o carro, modelo, placa. Não dava para enxergar a placa e o carro continuava parado. Perguntei para a policial se era comum o carro ficar estacionado em sequestro relâmpago. Ela não me respondeu e queria a placa. Tentei me aproximar disfarçadamente, mas com medo de o suposto bandido perceber minha manobra. Quando faltavam alguns metros, o carro arrancou subitamente, rodou alguns metros e parou de novo bruscamente.

Disse à policial que não havia conseguido, ele havia arrancado bruscamente e parado mais à frente. Eu iria tentar alcança-lo novamente. A policial disse que mandaria uma viatura averiguar e desligou. Segui o carro, quando chegava perto, ele arrancou novamente. Andou mais uns 50 metros e parou bruscamente de novo. Os motoristas que passavam buzinavam irritados. Eu comecei a segui-lo de longe, correndo, agora sem intenção de anotar a placa somente para ver onde ia dar, caso a polícia aparecesse rapidamente.

Ele repetiu novamente a manobra, saiu bruscamente, rodou mais uns 50 metros, os outros motoristas buzinando e parou em frente a uma rua. Continuei correndo. Foi quando o carro fez menção de retornar em voltar na minha direção. Gelei. Alguém teria percebido alguma coisa? Mas não, ele entrou meio em disparada na rua à sua frente, um local ermo. Parei e pensei em voltar correndo para a esquina anterior mais próxima e ver onde o carro havia ido. Pensei melhor: e se eu der de cara com o carro e os caras perceberem que os estou seguindo?

Fiquei na padaria da esquina, movimentada, esperando ver se o carro passaria na rua de trás, no outro sentido. Não passou. Se ele entrou à direita na rua, fatalmente voltou para a avenida porque era uma bifurcação em Y. Fiquei de olho. Impressionante a quantidade de Merivas pratas que passaram por mim naqueles minutos. Perdi o carro de vista. Fiquei uns 20 minutos esperando e a polícia não apareceu.

Abandonei minha caminhada e voltei para casa intrigado e derrotado. Definitivamente havia algo acontecendo naquele carro pois suas manobras não eram nada normais. Poderia até mesmo ser uma briga entre um casal (o homem estaria no banco de trás e a moça no banco da frente: de qualquer forma, muito estranho). Ou poderia ter sido mesmo um sequestro relâmpago. Se ao menos eu pudesse ter anotado a placa, teria ajudado a polícia a averiguar.

Só espero agora a polícia não me localizar pelo número do meu celular e sugerir que eu estava passando um trote...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Fim de tarde no portão - tenor

Ufa, depois de um bom tempo sem gravar, ontem retomamos as gravações. Vamos ver se não paramos mais. Gravamos o tenor de "Fim de tarde no portão" com o André Lima. A gravação foi tranquila, o André mandou muito bem. A gravação ocorrida entre 22:26 e 23:51 começou quando o Brasil já ganhava de 3 a 1 dos EUA. Tudo bem que não valia nada. Tomara que consigamos também dar de goleada nos imprevistos, na preguiça, na dificuldade de reunir as pessoas, enfim, em todos os "acidentes de percurso".


terça-feira, 15 de maio de 2012

Enquanto isso, na Terra de Vera Cachoeira...

Há cerca de um mês descobri que minha habilitação está vencida desde setembro do ano passado. Enrolado como sou, ainda não consegui regularizar a situação e, há pouco, resolvi recorrer a um despachante perto de casa:
- (...) daí eu preciso renovar minha habilitação. Também estou com os pontos estourados: não faço a menor ideia de quanto. Vocês fazem esse serviço, não?
- Sim. 1.300 reais
- MIL E TREZENTOS??? Mas por quê?
- É que você precisa de blá-blá-blá...
- Não estou entendendo. E se eu for direto no Ciretran?
- Aí você não paga nada, mas vai ter que esperar a decisão e boa vontade do juiz, ele vai lhe dar um tempo de suspensão... Com a gente você consegue reduzir o tempo de suspensão à metade, não vai precisar fazer o curso de reciclagem, nada.
- Peraí, mas isso é cambalacho, não?
- Não, claro que não!
- Então quer dizer que se eu for pessoalmente, vou ter que fazer tudo e vocês conseguem simplificar bem a coisa, diminuir o prazo... OU seja, vocês utilizam esse dinheiro para pagar alguém no Ciretran?
- É claro (afinal, eles não iriam dizer que estavam me assaltando gratuitamente).
- Nesse caso seria melhor eu ir direto ao Ciretran, não?
- Sim, mas você vai ficar com suspensão muito mais tempo, vai ter que fazer o curso de reciclagem... Faz o seguinte: deixa eu tirar uma cópia da sua habilitação, eu consulto e lhe retorno e você decide o que vai fazer.
- Perfeito, então.
Depois da cópia da habilitação, já de saída, perguntei:
- Digamos que eu não tivesse pontos na carteira, quanto custaria?
- 230 reais.
- Ou seja, o custo todo é por conta dos pontos.
- Exato.
- Muito obrigado.

Esse é o país que se diz indignado com Demóstenes, Cachoeira e todos os larápios políticos corruptos e mafiosos de plantão.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Skål, Skol, Kol?

(olha só o que eu achei perdido na net... uma publicação de junho de 2008)
Um dos CDs do Tom Jobim que eu gosto muito é o Terra Brasilis. Parte por causa do nome. Eu o considero bastante eufônico: Terra Brasilis!

Quando eu pensei em dar um nome para meu grupo vocal que estava se formando, pensei que deveria ter algo como Brasilis no nome, ou algo similar. Embora eu deteste termos em inglês, gosto muito de termos em latim. Brasilis! Gosto disso.

Então eu pensei que o sobrenome do grupo poderia ser Brasilis. Só faltava o nome. Fiz uma pesquisa com os integrantes do grupo e lhes disse que eu queria um nome que dissesse algo a respeito da música que eu procuraria fazer que, em tese seria música “evangélica” feita por “brasileiros”. Ainda que eu não gostasse muito o termo “evangélica”, não poderia negar esse fato.

Das sugestões que eles deram, lembro-me de ter ficado com 2 opções, uma delas Kerigma, que eu tinha minhas restrições porque já é um termo muito utilizado. Foi aí que contatei meu grande amigo e erudito Vítor Hugo de Moraes (que inspirou o nome do meu filho), expliquei-lhe o meu objetivo e ele me respondeu o seguinte:

Badá,


Envio arquivo (palavras.gif) com a imagem da palavra kerigma em grego e hebraico (a palavra em hebraico é lida da direita para a esquerda).

No arquivo estão duas formas para a escrita da palavra em grego. São elas: forma uncial, que seria uma espécie de letra maiúscula (imagem superior do arquivo) e a forma cursiva (imagem inferior), a minúscula.

Na realidade os textos gregos mais antigos estão escritos na forma uncial, mesmo pq na época do surgimento do NT não existia a forma cursiva. Eu gosto dessa palavra. Acredito que ela está dentro do contexto proposto pelo coral.

Na minha opinião, a maioria das palavras em hebraico que significam proclamar/proclamação não são eufônicas, como: karah, bassar, galah, caphar, nagad etc. Exceto por uma, minha preferida: kol (voice, sound, noise, thunder, proclamation....).

Permita-me dar uma sugestão: KOL KERIGMA. Uma junção de hebraico e grego, que traduzida livremente seria algo como a VOZ DA PROCLAMAÇÃO.

Espero um retorno, um grande abraço a todos.

Vitor Hugo



A solução encontrada por ele, Kol Kerigma, e sua tradução livre “Voz da proclamação” foi o que faltava para eu encontrar a solução final, com o Brasilis que eu queria, em tradução livre: “Vocal Brasileiro”, ou apenas, Kol Brasilis, nome que traz, na origem das suas palavras, a tradição hebraica e latina que fazem parte do meu universo cristão brasileiro. Fechado.



Portanto, meu grupo vocal se chama Kol Brasilis ou apenas “Kol”, para os íntimos.

Sal, Sabão

Minha mãe e suas histórias. Tem uma assim:

Diz que a mulher recomendou ao marido distraidíssimo uma compra:
- Benhê, vai na venda comprar sal. É sal, hein? Não vai se atrapalhar!
La foi o marido distraído, recitando a compra pra não ter erro:
- Sal, sal, sal, sal, sal, sal...
Compenetrado que estava para não esquecer o produto a ser comprado, não percebeu um acidente no meio do caminho e deu uma dolorosa topada em uma pedra.
Sua reação foi imediata e irritada:
- Sai daí Ticão, com seu sabagão, sabão, sabão, sabão, sabão, sabão, sabão...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O motociclista, o furgão e o major

Essa manhã, trafegando pela Av. Cupecê engarrafada, pela pista do meio, havia um veículo de passeio na minha frente e, depois dele, um pequeno furgão. Como o baú era um pouco sobressalente, o retrovisor do motorista tinha uma haste um pouco maior que o normal. Uma fila interminável de motocicletas passava por mim e, quando se deparavam com o retrovisor, os motociclistas diminuíam, faziam uma pequena manobra e seguiam adiante. Até que, num daqueles momentos em que os motociclistas desaparecem por conta de um semáforo fechado lá atrás, veio um maluco, calculou mal, não diminuiu a velocidade e, plaft!, resvalou de leve no retrovisor do furgão, parado no congestionamento.
 
O motociclista parou a moto, xingou o motorista do furgão, ajeitou seu retrovisor e se mandou.

Lembrei-me de uma crônica do Fernando Veríssimo em que ele imaginava como seria se os militares do país do major Parsifal, na época em que ele de forma lenta e gradual entrava pela abertura, começassem a trabalhar como cabeleireiros ou taxistas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A dentista

Minha relação com os dentistas é antiga e começou na minha infância. Por tomar muitos antibióticos, meus dentes se estragaram rapidamente. Isso me custou um dos dentes da arcada dentária superior e, na pré-adolescência, recordo-me de ter feito um tratamento de canal no Sindicato dos Metalúrgicos, levado por meu pai, na época funcionário da Otis em Santo André. Foi uma experiência traumatizante, e me lembro como era horrível e dolorosa a raspagem que o dentista fazia no canal do dente.
Anos depois, fiz um tratamento com um dentista perto de casa, o dr. Paulino. No início ia com minha mãe. Fiquei um bom tempo tratando os dentes e não gostava nada daquilo. Mas, enfim, era obrigatório porque meus dentes realmente eram muito frágeis. Ganhei várias obturações, inclusive nos dentes da frente.
Depois de adulto voltei ao dentista novamente, dessa vez com o dr. Marcos e fiz mais uma série de restaurações, canais e novas obturações. Na época, eu já reclamava de um dos dentes do siso. Parecia haver um buraco e juntava comida. Ele analisou o dente e comentou:
– Hum, isso não será uma extração: será uma cirurgia.
A senha estava dada: nunca mais apareci.

Passarem-se mais de 10 anos e eu sempre adiava a volta ao dentista porque sabia que teria que fazer minha entrevista final com aquele dente do siso. O fato é que, depois de tantos anos, uma restauração que o dr. Marcos fizera num dos dentes da frente que quebrara acabou escurecendo. Ele fizera uma gambiarra para não ter que fazer uma caríssima jaqueta mas, depois de uma década, a gambiarra estava escura. Eu não conseguia rir sem tapar a boca ou disfarçar o riso. Terrível.
Como eu começara um tratamento ortodôntico numa clínica com meu filho, o Vítor, animei-me com a história e resolvi encarar esse desafio de anos adiado. Fiz orçamento em alguns dentistas e acabei optando pela clínica mesmo, porque eles me pareceram mais profissionais que os demais, até mais honestos: o avaliador sugeriu não fazer todas as obturações que uma dentista havia sugerido e deu razões bastante plausíveis que, na minha opinião, a outra dentista poderia ter feito o mesmo. Se não o fez, foi por estar preocupada com seu faturamento ou por imperícia.
Paguei tudo de uma vez (quer dizer, no cartão de crédito, parcelado) para não ter como desistir da extração do dente do siso quando ela chegasse.

A clínica tem profissionais especializados em cada caso, de forma que eu comecei o tratamento pelo mais simples: as restaurações nos dentes da frente. O tratamento foi feito com uma dentista. Ela sempre estava com seu jaleco e seu gorro. Mas o seu jeito extremamente profissional me cativou. Sem falar que ela parecia ser muito bonita. E tinha um jeito de aplicar a anestesia que me deixou “anestesiado”! Ela passava uma pasta e depois aplicava a agulha com tanto jeito que nunca consegui sentir as picadas, nem mesmo na frente dos dentes frontais, embaixo do nariz, onde costuma incomodar um bocado. Depois fiquei sabendo que hoje é assim mesmo: a técnica melhorou. O fato é que eu gostava de ir ao dentista! Incrível. Eu simplesmente fechava os olhos e relaxava! Às vezes conversávamos amenidades:
– Quantos anos você tem?
– Quanto você acha?
– 25 anos.
Na mosca. Numa ocasião perguntei-lhe se o ofício da restauração odontológica tinha algum paralelo com a vocação artística (papo cabeça, hein?), ela me disse que, de certa forma, sim, e que gostava disso. Também me contou que estudou odontologia influenciada por sua tia dentista. Sua tia também é bonita assim? Bem, essa pergunta não fiz, o que provavelmente exporia meu total amadorismo nessas questões.
Numa das vezes em que estava de volta na recepção para agendar o próximo retorno, ela veio pelo corredor, toda gloriosa, e avisou que ia tirar seu carro do estacionamento. Quando reconheci seus passos no corredor, antes de ouvir sua voz, virei a cabeça e me dei de cara com ela sem o gorro. Ela era bastante bonita! As madeixas meio encaracoladas e compridas querendo esvoaçar com seu passo rápido. Ela anda bem rápido. Tive ímpeto de encará-la para olhar bem no seu rosto, explorá-lo, mas não fui capaz de fazê-lo, pois minha curiosidade poderia me trair. Acho que lhe dei um despistante sorrisinho cortês e voltei a falar com a moça da recepção, disfarçando a impressão que sua súbita aparição havia me causado. Essa foi a única vez que a vi em ação fora do contexto deusa-paciente, ops!, dentista-paciente, em traje quase civil.
Na última seção ela lixou meus dentes, me disse que ficariam um pouco ásperos. Se com o passar dos dias eles não ficassem lisinhos, que eu voltasse e ela daria uma nova lixada. Foi o único trabalho que ela não fez direito: não ficou lisinho. Pensei em procurá-la na próxima consulta que faria para continuar o tratamento com outro profissional e solicitar uma nova lixada. Para evitar que ela me pedisse para esperar um pouco mais, resolvi esperar por conta própria. Nunca mais a vi. Depois fiquei sabendo que ela tinha saído de lá. Meus dentes continuam ásperos. E tristes.

A próxima fase foi recuperar o dente escuro: tive de fazer uma jaqueta que custou o olho da cara. O profissional era um dentista muito simpático cuja esposa estava no mesmo período de gravidez da Flávia. Então trocamos algumas impressões sobre esse momento. Era seu primeiro filho. Ele também foi muito profissional. Quando precisou tirar uma radiografia para verificar se o trabalho havia ficado bom, percebeu uma necrose na raiz do dente ao lado. Perguntou-me se doía e eu lhe disse que sim, resultado de uma queda que tivera quando adolescente. Ele me informou que seria melhor eu tratar o canal desse dente, afinal ele poderia “explodir” a qualquer momento, mesmo não tendo “explodido” em tantos anos, porque isso é imprevisível. Então era melhor tratar. Doeu de novo. Dessa vez no bolso.
Algo que me incomodou um pouco nesse dentista é que ele parecia um perfeccionista. Fez o molde, me explicou toda a cadeia produtiva da jaqueta e fiquei de voltar uma semana depois para testar. Uma semana depois voltei. Ele tirou o dente falso que havia confeccionado, testou o molde e demorou cerca de uma hora fazendo pequenos ajustes e desgastes na peça. Quando já me coçava a unha do dedão de tanto ficar com a boca aberta, ele concluiu: não ficara bom e teria que tirar novo molde para encomendar nova peça. Não acreditei! Eu pensando que o cara iria dizer que fora o melhor pino da sua carreira e o sujeito me vinha com essa de que não ficara bom! Vai gostar assim da profissão! Melhor para mim, entretanto, apesar da minha impaciência. Quando retornei novamente, ele testou um bom tempo o pino, fez ajustes e, por fim, feliz, concluiu que ficara bom. Perguntou-me se eu percebera que dessa vez havia ficado melhor. Claro que menti.

Numa das idas à clínica, uma das simpáticas recepcionistas perguntou a origem do meu nome. Expliquei-lhe o significado de “Obadias” e, quando ela perguntou a origem do sobrenome, fiz aquela cara típica de quem vai tocar num assunto doloroso, mas que se esforça para apresentar naturalidade e lhe preguei a peça que gosto de pregar em pessoas desavisadas. Expliquei-lhe que meus pais adotivos me encontraram na escadaria de uma igreja e, por isso, resolveram me dar esse sobrenome. Ela não sabia o que dizer. Só foi capaz de dizer que havia muita gente bondosa no mundo, o que eu concordei, comovido. Tenho o palpite que uma senhora sentada na recepção só não se levantou e me deu um abraço solidário por pura vergonha. Algumas semanas mais tarde, quando lhe perguntei se ela se recordava da história da origem do meu nome, ela fez uma cara de Madre Teresa de Calcutá e me disse que – claro! – se lembrava. Então eu lhe expliquei que era uma brincadeira, que “de Deus” é sobrenome da família do meu pai. Ela teve ímpetos de me dar umas palmadas, acredito.
– Como você pode ter feito isso? Eu contei para todo mundo! – protestou a piedosa recepcionista.
– Então desconta!
A outra recepcionista quase morreu de rir. Foram necessários vários retornos à clínica para a recepcionista deixar de me receber com um afetuoso ‘seu’-Obadias-o-senhor-me-paga!

Depois do dentista da jaqueta, fui encaminhado para uma dentista para fazer o canal. Era uma senhora muito simpática também. Mas não aplicava a anestesia tão bem quanto a garota de 25 anos. Talvez ela já não tivesse mais paciência ou não tivesse tanta necessidade de auto-afirmação. Ou talvez não fosse tão boa para aplicar anestesia como a garota. Mas, se não me engano, dava aulas em faculdade. Então deveria ser uma profissional altamente capacitada. Só não gostava muito das incontáveis ligações que ela atendia sempre com a mesma recomendação “não fecha a boca!”, o que era bastante cansativo para mim.
Fiquei surpreso de saber que ela ainda ia fazer a raspagem com os palitinhos que tanto de traumatizaram na infância. Ela me explicou que, apesar de tanta tecnologia, algumas coisas não mudam. Mas depois se retratou: disse que existe um aparelho automático que faz isso, mas que não fica tão bom. Então ela preferia fazer do modo antigo mesmo. Bem, diante da uma tão dedicada artesã, eu só tinha que agradecer, nem que isso representasse mais sofrimento para mim. Mas confesso que não foi tão ruim quanto minhas memórias me contavam.
Depois de algumas visitas, ela colocou o curativo definitivo. Pediu-me que aguardasse um prazo maior. Enroladíssimo como sempre estou no meu trabalho, não voltei no dia agendado e o prazo maior se converteu num prazo tão grande que eu receava que ela diria que o trabalho se perdera por causa do retorno tão depois. Ainda bem que isso não aconteceu e pude concluir o canal.

E então chegou o temido fim. A hora da verdade. Mas nem tudo é tragédia. Quando fui apresentado à dentista, eu pensei que não seria tão ruim assim se eu tivesse que extrair os quatro dentes do siso em vez de “apenas” dois, o problemático e seu irmão superior. Era uma morena muito simpática. Bonita, mas principalmente muito simpática. Pensando bem, simpática é pouco, mas deixa para lá.
Ao analisar a radiografia ela me informou que, de fato, aquele era um caso complicado. Segundo ela, há três níveis de gravidade de um dente do siso: o normal, que é quando o dente nasce de pé; o mediano, quando ele nasce meio torto; o pior caso, quando ele nasce deitado. O meu era o pior caso, e ele estava deitado para o lado do outro dente, o que piorava ainda mais a situação. Seria necessário cerrar o dente e outros detalhes da tortura que ela descreveu. Bem, pelo menos eu seria tratada por uma morenaça, se isso servia de consolo.
No dia agendado, um sábado, tomei os remédios com a antecipação solicitada e fui como uma ovelha ao matadouro. Ela me recebeu com duas assistentes. Uau! Não pelas assistentes, se bem que elas mereciam (nem tanto), mas pelo número de profissionais. Três profissionais para extrair o desgraçado de um dente? Ela então explicou que as outras duas eram estudantes e, mais que assistentes, iam assistir à extração. Então eu concluí que de fato meu caso era um tanto singular e fiquei feliz em saber que, se não iria ajudar para o avanço da ciência, ao menos contribuiria para o aperfeiçoamento de futuras dedicadas profissionais.
Depois de várias agulhadas, espera, mais agulhadas, espera e agulhadas de novo (a anestesia não estava pegando bem) a tortura para valer começou. E dá-lhe bate-papo com as meninas. Eu percebi que era estratégia da dentista porque, entre uma conversa e outra, ela não conseguia deixar de escapar algum comentário surpreso com a dificuldade no meu dente. Ela não queria me assustar. Num certo momento eu pedi para ela parar porque parecia que minha cabeça ia estourar. Quem se assustou foi ela. Perguntou-me se eu tinha pressão alta e eu lhe disse que não: baixa. Não me lembro bem, mas ela fez alguns comentários, tomou algumas precauções e depois de me perguntar uma centena de vezes se já estava melhor, retomou a extração.
Para encurtar a história, depois de quase 2 horas e meia ela desistiu. Não de arrancar o dente, é claro, ou os pedaços dele que foram saindo aos poucos, mas de arrancar as raízes. Ela me explicou que nunca vira um caso tão complicado, que as raízes estavam totalmente sedimentadas com o osso e que seria inócuo tentar extirpá-las. Ela cerrara o que fora possível e as quatro raízes ficaram lá mesmo, grudadinhas no osso, depois de me garantir que não haveria problemas. E dá-lhe pontos. Quando tudo terminou, ela me explicou que se assustara, de fato, com minha reclamação da cabeça que parecia explodir.
Voltei para casa dirigindo o carro com uma mão e segurando uma bolsa de gelo na outra. A recuperação foi relativamente rápida, já que no terceiro dia já estava em condições de voltar às minhas atividades com moderação. Mas doeu muito depois. Quando voltei para tirar os pontos, nova tortura. Ela disse que nem se lembrava de ter colocado tantos pontos, mas tivera realmente que fazê-lo por causa do estrago na minha boca. Tirar os pontos foi uma tortura também. Até achei que foi pior que extrair o dente.
Voltei para casa e depois de alguns dias tive que voltar porque o local continuava sangrando e doía muito como se estivesse cheio de pedrinhas. Ela falou que, de fato, como a região cortada fora muito grande, a sujeira se acumulou nas camadas de gengiva e boa parte da que tinha se cristalizado estava me incomodando juntamente com aquela que não havia cristalizado ainda. E dá-lhe mais uma seção de pinça para arrancar as pedrinhas. Mais uma seção de tortura! Eita dentinho desgraçado da moléstia!
Tendo em vista a complicação, ela sugeriu que eu esperasse mais uns quinzes dias para voltar e extrair o dente superior. Não segui seu conselho: seis meses depois retornei.
Era uma quinta-feira, já havia me preparado emocionalmente, havia revisado meu testamento, enfim, tomara todas as medidas de praxe. Menos arranjar alguém para ir comigo e me levar de volta para casa. A caminho da clínica, a covardia me tomou e liguei para a Flávia que estava na faculdade (a sua quarta – vai gostar de estudar assim!). Quem sabe ela poderia passar lá e dirigir o carro para casa com escala na farmácia para comprar o remédio contra a dor. Ela achou que não era uma boa ideia improvisar naquele momento e pediu para eu solicitar que seu pai me ajudasse. Como eu sabia com o sogro tinha que ir ao médico mais tarde, decidi assumir minha condição de saco de batatas com dignidade. Encarei a bronca sozinho.
A dentista me chamou, conversamos um pouco, comentei sobre a preocupação da Flávia e da reação negativa da Flávia quando lhe disse que uma equipe de TV iria à nossa casa me entrevistar num programa que iria tratar sobre pessoas que trabalham em casa.
– Como as mulheres são complicadas!
Ela concordou. E disse que, caso fosse homem, pensaria o mesmo. Seus amigos lhe dizem que ela tem cabeça de homem.
– Então você gosta de futebol.
E não é que ela gosta mesmo? De todos os esportes e é corintiana. Veja que beleza! Morenaça, quase linda, simpaticíssima e ainda corintiana! Que fique registrada mais uma prova de que a perfeição não existe.
Bem, vamos ao que interessa porque estou fugindo do assunto.
Para não me assustar, ela disse que seria mais fácil porque o osso superior é mais poroso. Valeu pela tentativa de me tranqüilizar. Quatro agulhadas, o meu nível de aflição subindo, alguns minutos de espera, e então ela pega a primeira pinça. Procura uma melhor posição para chacoalhar o dente, dá uma experimentada, força um pouquinho e...
– Pronto, acabou!
Quê??? Em menos de um minuto o dente estava extraído!
– Eu acho que Deus viu o seu sofrimento da outra vez e quis facilitar as coisas para você dessa vez.
Receita preenchida, prontuário assinado por ela e por mim, recomendações para meu retorno a fim de arrancar os pontos, nos despedimos com um aperto de mão.
– Acabou. Agora você ficou livre de mim.
Quando dei por mim, já tinha soltado o lacônico e involuntário comentário:
– Que pena!
E foi tudo.