terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Espírito Carnavalesco

Fim de tarde, me aproximo da fila de carros parados no semáforo das avenidas Lauro Gomes e Atlântica, em Santo André. Observo uma garota que vem em direção ao meu carro, falando com os motoristas e passageiros que estão parados à minha frente. Com exceção de um dos veículos, todos os demais lhe dão dinheiro.

Trata-se de uma garota branca, cabelo castanho-claro, liso, preso em um coque mal feito. Aparenta ter uns 20 anos e, segundo o padrão de beleza vigente, não poderia ser chamada de feia. Não é magra, parece bem nutrida. Veste-se mal com uma roupa suja. Também segura nas mãos uma garrafinha vazia de água mineral.

Quando se aproxima de mim, o semáforo abre e só consigo lhe dizer “vou ficar lhe devendo dessa vez” pois o motorista atrás de mim começa a buzinar impacientemente para eu arrancar logo. Mas deu tempo para ouvir o que ela tinha a me dizer: “moço, estou com fome, você tem algum dinheiro?”

Vou embora impressionado com o “arrastão amigo” promovido pela garota. Minha conclusão é óbvia: nossa, e não é que o carnaval despertou o espírito natalino do pessoal?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Ler é preciso

Ano de muita correria, muita leitura técnica. a leitura pelo prazer ficou de lado. 8 livros apenas:
Noites tropicais (Nelson Motta)
A insustentável leveza do ser (Milan Kundera)
Sybil (Flora Rheta Schreiber)
Apartamento 41 (Nelson Luiz de Carvalho)
Reconsiderando o odre (Frank Viola)
Reflexões brasileiras (Luiz Gonzaga de Souza Lima)

sábado, 19 de dezembro de 2015

Trezenhum

Sabadão, sol pelando, tive que sair de carro pra fazer umas correrias. Liguei a caranga e o rádio começou a tocar na estação pop preferida da patroa. Era uma música da Patrícia Marx. Não conheço muito o trampo da mina, de forma que deixei a música tocar. Era um balanço legalzinho. A próxima música era “Então é Natal”, com a Simone. Cacete, ninguém merece!

Incontinenti, pelo controle remoto do rádio selecionei minha rádio favorita, a Cultura FM. Deparei-me, agradavelmente surpreendido, com uma delicada e sensível interpretação de “The fool on the hill” por um grupo de câmara. Momentos depois, fui inteirado pelo locutor da transmissora tratar-se do Rococo Trio, composto pela peculiar formação de oboé, harpa e cello. Um requinte.

Quem pode sondar seus caminhos? Quem pode se contrapor ao seu eterno querer? Quem pode desafiar seu controle dos mínimos detalhes da nossa vida? Para ele, nada é uma coincidência. O que ele quis me dizer com isso? Miserável homem que sou, tão desprovido de olhos espirituais para ouvir sua voz! Elevo meus olhos para o monte, quem poderá me ajudar?

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Seu terno olhar

O Kol Brasilis surgiu do do convite que eu fiz a alguns amigos para executar um arranjo que eu havia acabado de escrever. Gostei tanto do resultado que resolvi escrever outros arranjos. O primeiro deles, Seu terno olhar. Escolhi essa música porque ela fazia parte das minhas reminiscências musicais da adolescência: sempre gostei do charme e da simplicidade da música e achei que um arranjo simples funcionaria bem. E funcionou.

No entanto, com o tempo, comecei a escrever arranjos bem mais sofisticados harmonicamente. Por esse motivo, sempre que ensaiávamos essa música, o Marcelo Carrara reclamava que o arranjo era “muito simples” para o padrão do grupo. Ele acabou me convencendo disso e resolvi escrever uma segunda versão do arranjo, mais sofisticada harmonicamente. A música é tão bonita que a versão ficou deliciosa de se ouvir e nem é tão complexa para se cantar, com exceção da linha do mezzo em alguns trechos.

Quando o Junior disse que uma coreografia de um balé moderno iria muito bem no vídeo, gostei demais da ideia, uma vez que ele disse que a coreografia seria em câmera lenta. Mas eu não imaginava que ele teria a ideia de propor um vídeo coreografado ao contrário. Foi o que a  Elaine fez e o resultado me pareceu belíssimo, muito leve e poético. Gostei demais. Espero que você goste também.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

O tic-tac do relógio

(da série “Contos da Dona Ilza”)

O homem vai à feira e compra tudo o que precisa. Tudo o que precisava era a lista que sua mulher lhe havia passado, inclusive farinha de mandioca. Ao chegar em uma barraca, ele ficou admirado por ver uma porção de coisas que não conhecia, nunca tinha visto, inclusive um despertador. Ele perguntou para o feirante:
- Pra que serve isso?
- Isso aqui serve para marcar a hora...
- Tem mais alguma serventia?
- Tem! O senhor pode por ele para despertar e ele, no horário certo, acorda o senhor.
- Ah, vou levar esse bichinho aqui que ele é muito bom!
O que ele fez? Comprou o despertador e o colocou dentro do saco da farinha de mandioca e jogou o saco nas costas. Enquanto voltava para casa, ele escutava o relógio a fazer tic-tac, tic-tac, tic-tac...
- Mas olha, ele gosta de cantar mesmo!
Quando chegou em casa, o relógio continuava no seu tic-tac, tic-tac... Quando ele tira o saco das costas, percebe que ele está bastante leve. Mas esse saco está ficando leve? Quando ele olha para dentro do saco, diz:
- Mulher, eu comprei um negócio que eu nunca vi, e o homem disse que chama relógio, serve pra acordar a gente, serve pra marcar a hora, mas o danado do relógio não comeu a farinha todinha?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Livros lidos em 2014

Uma das minhas paixões é a leitura. pena que não leio tanto quanto gostaria por falta de tempo. abaixo os livros que li em 2014:

A Sangue Frio (Truman Capote)
Cristianismo Pagão (Frank Viola)
Terra sonâmbula (Mia Couto)
O Guia do Moxileiro das Galáxias - vol. 1 (Adams Douglas)
Os pobres possuirão a terra (Comissão Pastoral da Terra)
O auto da barco do inferno (Gil Vicente)
Mito e realidade (Mircea Eliade)
O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marquez)
A arte de produzir efeito sem causa (Lourenço Mutarelli)
Zelota (Reza Aslam)
Uma vida inventada (Maitê Proença)
Verdade e transformação (Vishal Mangalwadi)
O mundo assombrado pelos demônios (Carl Sagan)
A sombra do vento (Carlos Ruiz Zafón)
Chega de Saudade (Rui Castro)
Viva o povo brasileiro (João Ubaldo Ribeiro)

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Petrushka - Igor Stravinsky

Meu emprego de office-boy aos 15 anos, na concessionária Ford Mercantil São Caetano, me proporcionou algumas alegrias na adolescência. Primeiro que eu tinha de viajar para pegar cheques de consórcio em clientes. Meus pais tiveram que assinar um termo liberando-me para fazer viagens de ônibus a partir do Terminal Rodoviário do Tietê, já que algumas viagens eram para o interior paulista. Para um garoto de 15 anos daquela época era uma experiência ímpar.

Outras alegrias proporcionadas por esse trabalho foram a possibilidade de eu assinar a Revista Veja, que eu lia inteirinha, inclusive as propagandas (imagine isso!), me permitiu fazer um curso chamado “Tecnologia Intelectual” no IADI que abrangia técnicas de oratória, leitura dinâmica, aprendizagem veloz, memorização, motivação e concentração. Eu havia visto um anúncio em um ônibus e, numa das minhas idas à Av. Paulista, passei no escritório deles dizendo-me interessado pelo curso. Era um lugar bastante chique. Tive a impressão que a recepcionista ficou surpresa com meu interesse, já que descobri depois que eu era o único adolescente do curso: o restante eram pessoas em cargo de gerenciamento. Daí eu entendi porque a moça do curso pediu para eu não divulgar o valor que eles estavam cobrando de mim para ninguém. Acho que lhes pareceu tão engraçado um adolescente se interessar pelo curso que resolveram me fazer um preço especial. Provavelmente o curso era caro para minhas possibilidades.

Outra alegria proporcionada pelo trabalho foi quando recebi meu primeiro salário. No sábado seguinte fui até a Rua São Bento, em uma loja de discos, e comprei os meus primeiros discos de vinil: Scheherazade, poema sinfônico de Rimksky Korsakov (minha peça sinfônica predileta naquela época e durante muitos anos) e Petrushka, balé de Igor Stravinsky. Poderia falar bastante de Scheherazade, por conta da minha ligação emocional com ela, mas hoje será sobre Perushka.

Desde a primeira audição, o balé me cativou por conta das suas ideias que me pareciam muito extravagantes, estimulantes, diferentes do tipo de música que eu ouvia, mais melódica, mais regular ritmicamente. Eu devo ter gasto o vinil de tanto ouvir o balé. Inclusive acompanhava com minha flauta doce. Cheguei a transcrever o solo de trompete pelo prazer de tê-lo transcrito (https://www.youtube.com/watch?v=hNYaBUFxPOc). Anos mais tarde, na faculdade, deixei-o escrito em uma lousa de uma das salas no IMES (atual USCS) e sempre imaginei qual seria a reação das pessoas ao se depararem com aquele manuscrito musical.

Falar da peça é chover no molhado pois se trata de uma peça popularíssima e há incontáveis referências a ela na internet. Como se trata de uma peça um pouco mais extensa, não há espaço para falar sobre ela, mas um bom resumo pode ser lido aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Petrushka_(ballet). Algo que me agrada muito em Stravinsky é seu caráter percussivo: suas obras são bastante percussivas. Já ouvi alguém dizer que Stravinsky conseguiu provar que o piano é, de fato, um instrumento de percussão.

Por fim, gostaria de ressaltar um aspecto que muito me agrada: transcrições. Um dos meus prazeres favoritos na música é ouvir diferentes versões de uma determinada composição. Coisa de arranjador. Transcrições bem feitas são um deleite à parte. Transcrições para piano dessa peça são bastante comuns, inclusive a 4 mãos, para darem conta de todas as ideias musicais da peça. Infelizmente não encontrei nada no Youtube em que pudéssemos ver a peça completa. Somente excertos. Esse vídeo é um bom exemplo de um excerto para piano solo muito bem executado: https://www.youtube.com/watch?v=8MyAkZpGv60.

Falei de transcrições porque gostaria de citar uma que eu gosto bastante, para duo de acordeons. Infelizmente não encontrei no Youtube. Mas usuários dos Spotify podem encontrar a gravação a que me refiro ao pesquisar por “James Crabb & Geir Draugsvoll”. É uma interpretação muito boa! É delicioso, para quem conhece a peça tão bem quanto eu, ouvir uma versão em um instrumento solo (ou duo) com a partitura multi-instrumental reduzida a um instrumento apenas. Quando garoto eu gostava de fazer esse exercício: reduzir peças orquestrais para flauta doce a algumas vozes: é preciso se fixar no essencial. Um ótimo exercício.

É isso aí. Sugestão de link para ouvir a peça inteira, em 3 partes: https://www.youtube.com/watch?v=4J9OypE80UE


(a propósito, nesse vídeo que enviei, o trompetista comete um erro crasso no solo do trompete. Será que ele foi demitido? Brincadeira. Erros assim não são tão raros. Imagino que o trompetista ficou um bom tempo remoendo o seu erro. Vamos ao erro: o solo começa com 2 arpejos, um ascendente e outro descendente: la-do-fá (ascendente), do-la-fá (descendente). De novo outro arpejo, agora atingindo a 7ª maior do acorde: la-do-mi (ascendente), do-la-fa, seguido da frase sol-la-si-do-re-mi-re-do-si-do-re-mi-re-do-fa. Ocorre que, no primeiro arpejo ascendente, ele se equivoca e toca la-do-SOL, em vez de lá-do-FA. Isso pode ser observado no minuto 2:26 do segundo vídeo dessa gravação. Na repetição da frase ele acerta a nota)