terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hino à Bandeira – De Ivan Lins a Benjamin Britten

https://www.youtube.com/watch?v=-at6vGtD8Q0

Na década de 90, quando ouvi pela primeira vez o arranjo do Ivan Lins para o Hino à Bandeira, fiquei bastante impressionado porque sua leitura era bem diferente das minhas reminiscências da infância. Na minha infância, quando passava horas solfejando as partituras encontradas nos cadernos e livros de música do meu pai, uma das melodias que eu mais gostava era do Hino à Bandeira. A melodia me parecia maravilhosa e a música me parecia um pouco mais especial que as outras por ter quatro bemóis na armadura de clave (lá bemol maior) e por ter aquela rápida modulação no final da estrofe, antes do refrão, que fazia minha imaginação musical voar. Entretanto, cresci com a concepção militar da música, o ritmo de marcha que a partitura do meu pai me sugeria. Portanto, foi surpreendente e arrebatadora a experiência de ouvir a melodia despojada do seu caráter militar e com o lirismo da interpretação do Ivan Lins. Imediatamente eu imaginei como seria um arranjo escrito por mim para algum dos coros que eu trabalhava na época. E aquilo ficou: um dia ainda vou escrever um arranjo coral dessa música.

Quando formei o Kol Brasilis com meus amigos, uma das primeiras músicas que me ocorreu para arranjar foi justamente o hino. No entanto, eu não queria fazer um arranjo qualquer: eu queria escrever um arranjo à altura do meu apreço pelo hino. Eu queria fazer um arranjo com aquele lirismo que eu sentia na interpretação do Ivan Lins. Mas daí surgiram as dificuldades: como manter um arranjo interessante por 4 estrofes? Como escrever algo lírico, que não se repita, que não se torne desinteressante aos poucos? Eu comecei a pensar em formas de resolver a questão e nunca encontrei. Agravavam isso dois fatores: o final de cada estrofe deveria ter uma ponte para o arranjo não ficar muito burocrático e o Himn to St. Cecilia, de Benjamin Britten, um fantasma que me perseguia sempre que eu pensava em um arranjo para o Hino à Bandeira. A composição de Britten é uma obra de arte e uma das peças que mais me impressiona do repertório coral. Essa peça está na minha preferência entre as peças corais inglesas assim como o Gloria de Francis Poulenc entre as francesas. O Hino a Santa Cecília tem todo esse caráter lírico, etéreo, que quase me hipnotiza e tem algo muito interessante, o seu refrão curtíssimo em relação às 3 estrofes, que soa para mim quase como uma ponte que interliga as estrofes (“Blessed Cecilia, appear in visions. To all musicians, appear and inspire: Translated Daughter, come down and startle. Composing mortals with immortal fire.”). Também há outro aspecto muito interessante na composição de Britten e que me servia de paradigma: cada estrofe é totalmente diferente da outra; se eu conseguisse fazer algo parecido no meu arranjo, seria perfeito. Por esse motivo, o Hino a Santa Cecília era meu referencial maior de ideias para meu arranjo. Obviamente, uma grande bobagem porque, além de uma régua altíssima, existe o fato de que o hino de Britten é uma composição e ele tinha liberdade para trabalhar a melodia como quisesse, sem falar que o texto permitia essa liberdade. Mas o fato é que, se eu fosse fazer algo lírico, um tributo à composição de Britten seria um bom ponto de partida, ainda que qualquer tipo de comparação fosse no mínimo uma insanidade.

Como eu geralmente elaboro mentalmente o arranjo antes de escrevê-lo, passei alguns anos pensando de vez em quando no desafio e não me ocorreu nenhuma ideia interessante para fazer algo lírico, que não perdesse o interesse nas 4 estrofes e que fosse diferente entre as estrofes (para não ficar algo muito burocrático). A questão da ponte estava praticamente resolvida porque, no arranjo do Ivan Lins, ele faz uma ponte instrumental ligando cada estrofe o que permite que o resultado não fique burocrático. Eu poderia me aproveitar dessa ideia.

Depois de alguns anos sem me ocorrer qualquer ideia minimamente razoável nas poucas vezes que me dediquei a pensar na questão, resolvi desistir do que seria o mais difícil resolver: um arranjo lírico, etéreo, sem uma marcação de compasso muito evidente: qualquer outra solução que excluísse isso me serviria. Foi então que me ocorreu: simples, é só fazer sincopado, evocando o samba. A ideia me pareceu perfeita porque, afinal, o samba tem mais a ver com nossa terra que aquelas melodias etéreas de compositores europeus que me impressionam tanto. Como a harmonia é um dos elementos da música que mais me atrai, pensei que trabalhar de forma diferente a harmonia nas 4 estrofes era uma maneira eficiente de não deixar o arranjo burocrático e incrementar a sofisticação da harmonia aos poucos faria com que ele não se tornasse desinteressante e cansativo ao longo das estrofes. Daí, numa das minhas caminhadas de 1 hora pelo bairro, defini sua estrutura, que seria:

·         Estrofe 1 – uníssono
·         Estrofe 2 – harmonização mais básica, favorecendo mais os aspectos rítmicos
·         Estrofe 3 – fazer várias modulações ao longo das frases
·         Estrofe 4 – arregaçar na harmonização para fechar o arranjo

A ponte, aproveitando a ideia do Ivan Lins, em vez de concluir o “da amada terra, do Brasil” com um V-I seguido de um V7 para a estrofe seguinte, eu faria um V-IV-I/3-II-V7 e repetiria “meu Brasil” nesse trecho, até para deixar o hino mais sentimental.

Alguns meses depois parei para escrever o arranjo e, de cara, alguns problemas apareceram: se eu fizesse a primeira estrofe em uníssono, teria que ser em um tom que desse para todos cantarem na mesma oitava (escrever em duas oitavas me parecia uma solução ruim, pouco eficiente para o lirismo que eu ainda queria manter). Daí a coisa complicou de vez porque eu teria que ficar modulando de estrofe para estrofe, até terminar o arranjo em um tom que permitisse fazer um fechamento grandioso, se fosse o caso. Fazendo as contas, se eu começasse em dó maior e subisse um tom por estrofe, estaria resolvido o problema. Mas aí ficaria algo muito chato e previsível: cada estrofe finalizar com uma modulação que, a propósito, teria que ocorrer na ponte. Horrível! E mais: como ficaria a linha melódica, uma vez começaria muito grave? Em que vozes eu distribuiria a melodia? Ficaria trocando de naipe? Comentando um dia com a Ira, contralto, que já havia me dito querer fazer o contralto desse arranjo, ela me perguntou: “por que você não põe um solo de contralto?” Daí ela poderia fazer o solo, obviamente. Era isso! Solução encontrada! A música seria solada pelo contralto a partir da 2ª estrofe com inserções ocasionais das 4 vozes fazendo o “tutti”.  Mas ainda tinha a questão das modulações. Foi aí que me ocorreu outra ideia para acabar com a mesmice da modulação previsível em cada estrofe: eu começaria em dó maior, da primeira para a segunda estrofe eu modularia para dó menor; o ouvinte praticamente não sentiria a modulação, mas eu teria que deslocar a melodia uma terça menor acima para dar certo com o relativo menor, o que me permitiria elevar de cara a melodia. No meio da estrofe eu modularia para mi bemol e essa modulação nem seria sentida. De quebra ainda terminaria o arranjo em sol maior, onde poderia conseguir um resultado mais brilhante das vozes. Perfeito. Nas duas modulações seguintes, tentei chegar à tonalidade subsequente sem o previsível V-I para o tom seguinte.

E foi assim que surgiu o arranjo, com a diferença que abdiquei de forçar demais a harmonização na 4ª estrofe pois ficaria muito pesado. Em vez de manter o ritmo de samba com uma harmonização mais intrincada ainda, como tinha planejado, decidi voltar à estrutura rítmica original da música e dar à 4ª estrofe um ar mais solene. Com isso, eu manteria cada estrofe diferente, como se fossem variações da proposta original da música e, na 4ª estrofe, finalmente chegaria na ideia original da música. No refrão utilizei o material na 2ª estrofe e uma minúscula coda com o material das pontes para fechar.


Por fim, uma consideração sobre a melodia. Eu mudei algumas notas da melodia. Inicialmente, mudei o intervalo das duas últimas sílabas da primeira frase, em “esperança”. Originalmente, o intervalo é de uma 3ª maior. No entanto, eu sempre ouvi as pessoas cantarem com um intervalo de 5ª justa e que me parece mais bonito, inclusive. Também apliquei a mesma alteração na 2ª estrofe. Na 3ª estrofe, onde eu faço as modulações, tive que fazer algumas mudanças na melodia para permitir as modulações. Acabou ficando uma espécie de variação da melodia original. “Contemplando seu vulto sagrado” o intervalo das duas últimas sílabas mudou de uma 3ª maior para uma terça menor e a melodia perpassa pelo mezzo e soprano. No solo do mezzo, “Poderoso e feliz há de ser” também fiz uma ligeira alteração em “e feliz há” para viabilizar a modulação em curso. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Carla

Ele era baixinho e feio. Talvez mais baixinho que feio. Ou o contrário. Na realidade, talvez nem fosse tão feio assim. Era mais esquisito do que feio. Esquifeio? Pode ser. De prático é que, tirando o fato de ser bom aluno, fora da sala de aula era um zero absoluto. Bem, nem tanto, porque era um garoto amável. Mas não tinha qualquer habilidade para prática esportiva, por exemplo. Quer dizer, corria bastante. Talvez por ser pequeno, magro e lépido, correr mais que os outros era o seu trunfo esportivo. Veja bem, de repente era uma grande vantagem aos 8 anos, idade em que esportes coletivos ainda não haviam brotado totalmente dentro da garotada. Ele viria a ser humilhado anos mais tarde, por sua total incompetência com o esporte bretão (bretão? Isso é necessário mesmo?) e, convenhamos, uma certa inapetência que não ajudava nem um pouco. Mas ele gostava muito de correr.

Também havia outra atividade que lhe seduzia demais: apaixonar-se. Ah, como ele gostava de se apaixonar! Ele se apaixonava pelas deslumbrantes, pelas bonitinhas e pelas feias. Cada uma por um motivo diferente. As lindas porque eram lindas, deslumbrantes. Bastavam surgir na sua frente e o estrago estava feito. Ele era incapaz de esquecê-las. Ficava atônito. Sua timidez natural o paralisava. E a paralisia é a condição ideal para o deslumbramento: você fica lá, temporariamente (ou eternamente) paralisado, vítima do encantamento, feliz, como se nada mais importasse. Mas essas eram as que mais lhe metiam medo. Porque ele sabia que com elas não tinha a menor chance. Então, ele as contemplava certo de que elas haviam percebido o seu fascínio. E tentava acreditar que elas seriam capazes de enxergar além daquela fachada pouco interessante, esquisita até, descobririam aquele garoto inteligente e sensível – ele se supunha – e acabariam se interessando por ele. Mas é claro que não, ele sabia. É que ele gostava de fantasiar um pouco. Quem não gosta? Havia as bonitinhas, ou seja, as mais ou menos, as que eram quase feias ou quase bonitas. Ele também se apaixonava por elas. Não pela beleza plástica, soberana. Mas pelo sorriso. Bastava um meio sorriso, um quase olhar meigo, e ele se via descontruído. E como havia meninas de sorriso simpático! Ele não resistia. Era muita poesia para declamar. Por fim, as feias. Ele também se apaixonava por elas. De uma forma um tanto enviesada, é verdade, mas se apaixonava. Ele via as feias com solidariedade. Ele se enxergava nelas. Ele as compreendia. Ele compartilhava da dor da feiura delas. Então, quando seu olhar se cruzava com uma feia, se ela tivesse a menor graça interna, aquele olhar suplicante que somente os feios conseguem transmitir, afinal, eles possuem muita prática nisso, ele se apaixonava também. É claro que ele tinha vergonha de admitir se apaixonar por uma feia, mas a honestidade do texto não me permite esconder esse fato: ele se apaixonava por elas também. Na realidade, acredito que ele se apaixonava por qualquer uma. Mas, como gostava de racionalizar tudo, arranjava uma explicação. Acho que teria sido mais fácil se tivesse escrito apenas que ele se apaixonava pelas meninas e pronto. Teria sido mais econômico.

A única forma de se fazer ser visto pelas garotas por quem ele se apaixonava era mostrar que corria mais que os outros garotos. Ser melhor aluno não tinha lá seu charme, não. Então, o jeito era apelar para suas pernas magricelas. Aliás, ele também gostava de se exibir com outras habilidades como plantar bananeira ou dar voadora. Quando os garotos iam se exibir entre si com essas habilidades supremas, lá estava ele, desesperado para suplantar seus colegas, mas tentando disfarçar isso, para passar a ideia de que fizera “tudo aquilo” sem se esforçar, sem se importar muito. Enfim, um esnobe precoce. Teve uma vez que os garotos estavam dando voadoras no muro da quadra de futebol, no recreio, em uma parte em que o muro era mais alto. Todos eles estavam tentando mostrar o quão mais alto eram capazes de acertar o pé. Não é que, depois de alguns intentos, ele conseguiu suplantar todos? Mas teve tanto sucesso que seu pé passou do topo do muro, atingiu o vazio, e ele enroscou sua perna. O resultado, claro, foi sua coxa e perna raladas. Além do constrangedor tombo. Ainda bem que ninguém riu. Mas isso lhe pareceu pior, porque lhe deu a quase certeza de que ninguém estava tão preocupado assim em mostrar o quão mais alto podia pular: o único preocupado parecia ser ele. Talvez, se tivessem rido dele, teria sido melhor. Melhor ser motivo de gozação que ser simplesmente ignorado. Então lhe sobrou a coxa e a perna ralada, junto com a sensação de que ele era realmente desimportante, inclusive para as meninas, o que doía mais.

Mas, a despeito de sua desimportância, quase invisibilidade, ele brilhava nas brincadeiras de “salva-cadeia”. Quando escolhiam as duas equipes, ele era disputado a tapas. Era seu momento de glória. Quando sua equipe fazia o papel de bandido, quase nunca ele era capturado e sempre salvava seus colegas na prisão. Quando era polícia, é verdade, tinha lá sua dificuldade para capturar os colegas porque geralmente eram maiores que ele. Mas no papel de bandido... ah, ele desequilibrava o jogo! Às vezes até dava confusão porque a outra equipe não conseguia virar a brincadeira quando estava no papel de polícia, justamente porque ele sempre conseguia libertar seus coleguinhas e a equipe no papel de polícia nunca conseguia chegar ao papel de ladrão antes do final do recreio.

Nesses momentos ele conseguia uma certa visibilidade com as garotas. Talvez esse fosse o momento em que ele era mais percebido. Uma ironia, inclusive, porque era quando ele fugia que mais aparecia. E, talvez por isso, Carla, uma garota que não era do grupo das deslumbrantes nem das feias, acabou se aproximando dele nas brincadeiras. Ela tinha cabelos cacheados. Talvez isso fosse o que mais lhe atraísse. Ela era meio espalhafatosa também. Ria alto. Mas tudo isso o deixava deslumbrado. Provavelmente o efeito seria o mesmo se suas características fossem o oposto. Enfim, aos poucos eles foram se tornando amiguinhos mais próximos e, quando deu por si, estava apaixonado por ela.

É óbvio, faz-se necessário tal esclarecimento, paixões aos 8 anos não são daquelas paixões trágicas de quando se é mais velho. Nada disso! Você diz, relutantemente, que gosta da menina, e olhe lá. Mas como ele não parava de pensar nela, podemos considerar que, tecnicamente, ele estava apaixonado. Na realidade, talvez estivesse mais apaixonado pela hipótese de a garota estar gostando dele do que da garota em si. Mas o fato é que ele estava desfrutando aquela experiência. Talvez a primeira de verdade na sua vida.

E foi num desses recreios, talvez numa brincadeira de esconde-esconde, que eles foram para um local mais afastado do pátio da escola, onde havia um bebedouro fora de funcionamento, num local meio sombreado, cujo concreto cinzento e rústico o tornava pouco atraente para perambulações. Quando se deram por si, estavam abraçados. Aconteceu de repente. Quando perceberam, nenhum dos dois teve coragem de falar sobre o assunto. Simplesmente ficaram mudos, sem saber o que fazer. Depois de alguns instantes, resolveram conversar sobre qualquer coisa, sem pressa, para eternizar aquele momento sublime. Falaram quaisquer bobagens. Tão quaisquer que nem se deram conta do que estavam falando. Na realidade, não estavam falando nada. Estavam apenas se abraçando. A fala era para apenas para disfarçar o constrangimento ou para evitar que eles tivessem que discutir sobre o que estava ocorrendo e, de repente, se darem conta de que era preciso parar com aquilo. Conversaram. Não por muito tempo, porque o sinal para retorno à sala de aula os obrigou a se desabraçarem. Foi o que fizeram e voltaram mudos, cada um experimento as sensações daquele momento. E, admitamos, bastante envergonhados um com o outro.

Na sala de aula, a professora em um dado momento repara que Carla está com umas manchas estranhas. Interrompe a aula e a analisa melhor. Rubéola! Alarmada, põe todos os alunos da classe em revista para ver se havia mais alguém e descobre que o garoto também estava com sinais de rubéola. Ninguém soube porque os dois – e somente eles – estavam com os sintomas, mas as mães foram chamadas, a coincidência de somente os dois estarem com os sintomas foi comentada sem maiores explicações, interrogatórios ou tentativas de entendimento, e ambos foram dispensados para passarem uma temporada em casa, de quarentena.

E nunca mais se abraçaram.

domingo, 31 de agosto de 2014

Ixi

Ixi


- Oi!
- Paz do Senhor!
- Paz!
Troca de beijos.
- Vai lá hoje. Estamos tendo um congresso. O pregador é uma bênção! Tem palavra de sabedoria! Estamos aprendendo muito com ele.
- Ixi! Hoje tenho um compromisso, acho que não vai dar.
- Ixi é virgem.
- Como?
- Ixi é virgem. Cuidado!
- Ah...

domingo, 20 de abril de 2014

Parto e esquecimento

PARTO

Já me dei conta que, por fim, o que me empurra para a frente é a necessidade de parir. Música. É o que eu consigo parir. Parir, parir, parir. Talvez a angústia de deixar algo de mim depois que eu partir para o silêncio onde me acompanhará o esquecimento. Talvez uma tentativa inútil de não me deixar apagar jamais. Mas eu não pairo. Apena paro. Porque escolhi o caminho mais difícil do parto em que a cria, além de esquisita e cheia de rococós, e por isso mesmo só vem à luz depois de muito sofrimento, só surge depois de um parto coletivo. E onde há coletividade, sempre há mais emoção, mas também muito mais contingências. E o infeliz quase sempre vem à luz depois de passado o tempo que se julgaria razoável para uma gestação, quando o natural já era dá-lo como morto. No fim, só restará isso mesmo: morte e esquecimento.

ESQUECIMENTO

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Mais uma reminiscência brasiliense

Minha amiga Macy já havia me dito que, em Brasília, os motoristas respeitam faixa de pedestres. Experimentei essa sensação “estranha” de estar em um local civilizado em uma faixa de pedestres em frente ao Conjunto Nacional: basta você se aproximar da faixa e os veículos vão parando... Impressionante para os padrões de civilidade do trânsito de São Paulo.

Ontem, um episódio recorrente comigo no trânsito, me fez lembrar Brasília. Trafegava por uma rua tranquila em Santo André e, ao me aproximar de uma faixa de pedestres, vi um senhor parado como quem ia atravessar a rua. Parei. Ele olhou para mim e eu assenti a cabeça como quem diz: “Pode atravessar”. Ele deu um passo para trás. Eu dei uma buzinadinha de leve. Ele me olhou novamente. Assenti com a cabeça e com o braço, como quem lhe diz: “É sério, pode atravessar!”. Ele deu outro passo para trás.

Pensei: que mico, o tiozinho só estava na borda da calçada vendo o tempo passar. Pus o carro em movimento e parti. Pelo retrovisor o observei atravessar com segurança pela faixa de pedestres assim que eu me afastei. Por aqui, boa parte dos pedestres desconfia quando um veículo para dando passagem. Eles não entendem que isso seja possível.

Desventuras de um voo Brasilia - São Paulo

(texto escrito na madrugada de 12 de abril, no táxil, quando retornava para casa)

Me atrapalhei com o transito em Brasília (uma obra na pista que causou um grande congestionamento) e acabei chegando quase na hora do embarque. Em vez de embarcar às 17:20 rumo a Congonhas, embarquei às 22 e pouco rumo a Guarulhos, 226 reais mais pobre (era a opção menos cara). Tive tempo suficiente para observar a muvuca do aeroporto em Brasília. Pareceu-me uma grande confusão, mas nada se comparou aos caos que encontrei em Guarulhos.

Na aterrissagem o avião ficou taxiando um tempo infinito (preferi tirar uma soneca) porque havia 8 aviões fazendo fila. Quando finalmente ele abriu as portas, descobri que estávamos em um local remoto do aeroporto e fizemos um longo percurso de ônibus para chegarmos ao terminal. No setor das bagagens, outro caos: as pessoas se apinhavam e mal dava para andar. Descobri que a esteira do meu voo estava ao fundo compartilhando malas de outros 2 voos mais. Tentei acompanhar na ponta dos pés o amontoado de malas que circulava pela esteira, uma multidão à minha frente, caindo pelos lados, em meio a reclamações gerais, para ver se enxergava a minha. A coisa estava feia. Pedi licença às pessoas e pulei para o lado de dentro da esteira, onde poderia divisar mais facilmente minha mala quando ela chegasse e, enquanto isso, incorporei o funcionário da Infraero e contribuí para o fluxo das malas de forma menos precária, ajudando os passageiros a reorganizar as malas quando elas se amontoavam e colocando de novo na esteira as malas que caíam do lado de dentro. Depois de muito tempo, minha mala apareceu. O turba, possivelmente agradecida, abriu espaço e me ajudou a passar para o lado de fora da esteira e me mandar, enquanto outro passageiro, talvez inspirado pelo meu gesto, pulou para o lado de dentro e me substituiu no serviço voluntário.

Quando consegui chegar do lado de fora do aeroporto, um taxista me abordou: “táxi comum!”. Desconfiado, preferi optar pela frota do aeroporto mesmo, não antes de lhe perguntar quanto custaria a corrida até Santo André. Cento e cinquenta dilmas. 150 reais???, exclamei estupefato. Você vai pagar de 180 a 190 no oficial. Fiz as contas... será que vale o risco por conta de 40 reais, já que perdi muitas horas sem contar no prejuízo que já vou acumular ainda mais no táxi por conta da mudança de aeroporto? Preferi não correr o risco. Fui para a fila do Guarucoop e, quando informei o endereço, soube do preço: extorsivos 181 reais. Paguei com o coração espumando de raiva e fui para a fila do táxi. Foi quando percebi que a fila que eu tinha visto era o finalzinho dela, porque o início mesmo estava muuuito longe. E quase não havia táxis: eles não estavam dando conta. Abri meu ebook e me pus a ler para não sofrer a lentidão da espera interminável. Até que consegui embarcar no táxi.

Que tragédia! Não me lembro de ter chegado de qualquer voo nacional por Guarulhos. Pensei: será que isso é problema de desembarque nacional? Passando pelo desembarque internacional, tive impressão que a fila do táxi estava maior ainda.

Imagina na Copa...
 

O trem

Fazia tempo que não pegava o trem para São Paulo antes das 7 h da manhã. Não existe fila na bilheteria em Santandré. Isso me impressiona. Achava que nesse horário haveria uma fila enorme. Compro o bilhete e enquanto passo pela catraca, o trem chega. Nem dá tempo de passar para a plataforma do outro lado. Escolho a primeira porta mais à direita porque descerei próximo das escadas em Tamanduateí. Na realidade, o trem chega lotado e fica claro que nem todo mundo entrará. Calmamente me aproximo da porta, passando pelas pessoas que desistiram, esperando que eu seja o último a embarcar. Dessa forma não ficarei ensardinhado do lado de dentro. A estratégia funciona e eu fico bem no centro da porta. Não empurro como os demais porque, se o fizer, caberá uma pessoa mais e perderei minha posição estratégica.

O trem finalmente fecha as portas depois de eu colocar a mochila nos ombros, deixando-a pendurada pela frente. A ideia é não ter que ficar com meu rosto espremido em alguém e ainda me sobrar algum espaço para eu abrir meu Mutarelli e continuar minha leitura. O espaço não permite. Melhor utilizar o livro com outra utilidade: dados os aromas de hálito matutino e perfume barato que assaltam minhas narinas, decido afundar meu rosto na capa do livro e tentar, com o cheiro da encadernação, dar algum alento para meu olfato. Quando embarquei, certifiquei-me de que não haveria nenhuma mulher próxima a mim para que, por descuido, não ficasse roçando nela e ser interpretado de maneira incorreta. Não havia. Portanto, com a cara afundada no livro, além dos corpos me pressionando por todos os lados exceto na frente graças à mochila, o que me incomoda mesmo é sentir na minha mão, que segura o livro, dois jatos de respiração nasal que emitem duas pessoas. Isso me incomoda bastante, mas faz parte inevitável da experiência de trens lotados. Aliás, não sei como as pessoas conseguem soltar jatos de vento tão fortes pelo nariz enquanto respiram naturalmente. Para eu fazer o mesmo, tenho que empreender um grande esforço diafragmático, o que gera cansaço.

Prefeito Saladino. A porta se abre, gente que sai, gente que entra, naturalmente sou empurrado para mais dentro. Minha expectativa de que me livre dos jatos respiratórios faz com que essa onda de gente a me empurrar me pareça uma boa ideia. Realmente, mudo de posição e agora estou de costas para uma senhora gordinha. Tento diminuir a pressão desse lado para não incomodá-la. Livro-me da respiração nasal mas dou de cara com dois senhores com um insuportável hálito de cachaça. Afundo ainda mais minha cara no livro, fecho os olhos e espero o tempo passar.

Em Utinga quase nada muda e, em São Caetano, com a abertura das duas portas, eu não mudo de lugar mas mudo de posição, agora de frente à porta por onde entrei. Gente que sai, gente que entra, o trem fecha as portas e percebo que, uma pessoa depois da porta, vai uma garota de cabelos negros. Muito bonita e com ar de ser bastante meiga. Sua expressão denota que ela está bastante incomodada com o desconforto mas não reclama. Fico com dó dela. Depois de algum tempo, desvio o olhar: já pensou se ela me flagra olhando e confunde meu sentimento de empatia com outra coisa?
Finalmente chegamos a Tamanduateí. Alívio. A multidão se aglomera no acesso às escadas rolantes. Aproveito que quase ninguém acessou as escadas fixas e a escalo de 2 em 2 degraus. Ainda dá tempo de subir as escadas rolantes caminhando porque ela ainda não está entupida. O metrô chega logo e me posiciono no primeiro vagão, afinal vou fazer a baldeação na estação Consolação. O metrô está apenas lotado, o que me parece uma ótima ideia. Portanto, ainda que sinta algumas pessoas me encostando, isso é bem leve ou ocasionalmente por conta da inércia. Abro o livro e continuo a leitura. Vez por outra sinto uma cotovelada nas costas. Penso ser resultado da inércia. Do meu lado esquerdo há uma garota que me parece bastante bonita também. Vez por outra seu braço roça no meu e fica encostado. Gosto da sensação. Mas, sempre que isso acontece, depois de desfrutar alguns segundos do toque, afasto delicadamente meu braço, para ela não achar que estou me aproveitando. Continuo minha leitura.

Na estação Trianon-Masp ela sai, o que me obriga a me mover para lhe dar passagem. Quando me movo girando o corpo, percebo uma moça alta atrás de mim que me fuzila com o olhar. Daí suponho que as cotoveladas talvez não fossem acidentais: talvez, por estar lendo e meio desligado dos balanços do trem, eu tenha encostado nela algumas vezes e sua reação tenha sido me dar uma cotovelada por me considerar folgado ou imaginar que eu estava me aproveitando. Sei lá.

Finalmente chego na estação Consolação. Sempre que desço lá, observo se a luz da esteira está verde. Se não estiver, mudo minha rota para a esquerda e vou pelo piso normal. Não gosto muito de caminhar pela esteira parada. Distraído, me esqueço disso e, quando me dou conta, não dá mais para escapar: entro na esteira estacionária. Na minha frente vai uma garota de calça jeans desbotada e sapato preto de salto alto. Sacolejante. Mulher de calça jeans desbotada e salto alto me parece muito chique. Fora da esteira, na parte do piso, um rapaz caminha lendo sua revista de tecnologia. Normalmente eu leria também, mas como estou lendo um livro de papel e não um e-book que dá para aumentar a letra e ler em movimento sem ter que compensar o balanço natural da caminhada, desisto da leitura. Acompanho o sacolejo à minha frente. Duas esteiras paradas e uma catraca depois, já no túnel,  caminho um pouco mais rápido que a moça à minha frente e, no rabo de olho, dou uma olhadela rápida. Não que ela seja feia, e é um pouco nariguda, mas eu preferia a visão do sacolejo.

Quase chegando na plataforma da estação Paulista, fico atrás de um senhor que anda calmamente: chinelo de dedo, bermuda, camisa estampada e chapéu. Baixinho, constituição óssea avantajada, lhe dá um aspecto atarracado. Tem o tronco desproporcional, o que implica em pernas um pouco mais curtas. Mas nem tanto, como acontece com anões, por exemplo. Mas ele anda com passos bem curtos e arrastando os chinelos. Me pergunto se ele anda assim por conta da sua constituição física ou por conta de sua personalidade. Não me parece que ele tenha pernas tão curtas que não lhe permitam dar passos um pouco maiores. Mas de qualquer forma me pareceu uma figura meio insólita na multidão.

Desço para a plataforma sentido Luz, sentido que sempre me parece anormal, já que na maioria absoluta das vezes, quando embarco por ali, o faço no sentido oposto e, ufa!, o trem está menos lotado. Ainda estou com a mochila pendurada na frente. Um rapaz olha com muita atenção a TV no teto do vagão do lado oposto ao meu, o que me chama a atenção. Curioso, vou ver o que tanto lhe prende e fico surpreso ao ver que, do lado em que estou, está passando um comercial besta. Fico pensando se o que estou vendo é o mesmo que ele assiste. Distraído nesse exercício, desequilibro-me quando o trem dá partida e dou um encontrão, com a mochila, em uma senhora à minha frente. Imediatamente ela se vira, um misto de surpresa e começo de indignação, mas quando dá de cara com minha imediata expressão de pesar pelo incidente, a tensão do seu rosto desaparece e dá lugar a um sorriso compreensivo que interpreto como uma aceitação do pedido de desculpas que meu olhar sugere.

Uma estação depois desembarco na República e, como ocorre das poucas vezes que desembarquei ali, minha primeira reação é seguir a multidão que se desloca para a escadaria que dá acesso ao pavimento inferior, para a baldeação, quando caio em mim a tempo: opa, não é por aqui! Desvio do fluxo e vou em direção à escada rolante que dá acesso ao pavimento superior e depois à saída.


Absorto em pensamentos, passo pelas escadarias, vou pela Sete de Abril e, quando me dou conta, já estou apresentando o RG na recepção do edifício.