domingo, 15 de setembro de 2019

Política + alienação + comportamento de torcida = desastre

No posto de gasolina, conversando com o frentista amigo pobre de direita bolsomonion, ele resolveu dizer o que pensa da Nota Fiscal Eletrônica:
- Isso é coisa do PT!
- Como assim, coisa do PT?
Tergiversou e tentou melhorar.
- Não é só do PT. Esses caras ficam inventando essas coisas pra roubar a gente, pra acabar com a sonegação.
- Ah, então você acha que é bom que haja sonegação de impostos?
- Mas esses caras fazem isso pra tirar dinheiro da gente enquanto muita gente sonega imposto. Meu objetivo é não pagar imposto, nem no holerite.
Não sei como seria isso, mas me parece papinho de alienado que não faz a menor ideia para que servem impostos e se limitou a repetir feito papagaio de pirata algum meme liberalzinho que ele leu no whatsapp.
- Então você acha que pelo fato de haver gente sonegando bastante, em vez de melhorar os mecanismos contra sonegação, o melhor a se fazer é liberar a sonegação de vez?
- Não, tem que combater a sonegação.
Daí, dou um desconto pra ele.
- Mas você tem razão: enquanto o governo faz esses programas para tentar diminuir a sonegação, o grosso dela vem de empresas, principalmente as maiores, que simplesmente não pagam imposto, dão calote na cara dura, porque sabem que daqui a pouco o governo vai abrir um programa pra perdoar esses calotes, enquanto que nós, os pobres, pagamos impostos por bem ou por mal.
Ele parece animado por finalmente eu concordar com ele. Mas não terminei.
- Mas sabe qual o problema? O problema é que justamente esse pessoal que sonega o grosso do imposto é que fica buzinando na sua orelha “culpa do PT” e você, sem olhar o todo, cai feito patinho nessa conversa. No final das contas, você toma no rabo e ainda faz o jogo sujo dos que realmente estão sendo beneficiados porque eles lançam essa cortina de fumaça para desviar sua atenção do que realmente interessa pra você. Porque, na sua cabeça é bem simples, a culpa é do PT, mas o buraco na realidade é bem mais embaixo.
Olha, que cansativo, viu?
Mas essa visão simplista e alienada não é exclusividade do frentista do posto de gasolina. É generalizada. Uma tristeza.

sábado, 14 de setembro de 2019

Seja um pseudo-intelectual de merda


Estou assistindo a série Explicando na Netflix e em alguns episódios de questões científicas eles colocam algumas informações que fogem do senso comum e que, por algum motivo eu penso: ué, mas isso é óbvio! Como eu sei que é óbvio? Sei lá. Só sei que é assim.

Não é bem assim e isso tem a ver com outra questão abordada na série, inclusive: nossa memória. Obviamente que eu já li tanto livro bom, tanta informação boa e embasada que não me lembro mais de onde veio a grande maioria das ideias que me parecem óbvias e que muitas vezes se chocam com o senso comum. Ou seja, não sou um iluminado. Apenas uma pessoa que lê bastante. E lê coisas boas.

Nas minhas interações em redes sociais com amigos ou nem tão amigos assim, um tipo de xingamento que recebo de forma recorrente é o de “pseudo-intelectual”. Em vez de me ofender, eu me divirto à beça. Mas esse tipo de xingamento tem uma explicação. Quando meu interlocutor expõe uma explicação simplória de um determinado fenômeno, eu contesto e sugiro que a realidade pode ser mais complexa que sua leitura simplista, em vez de pensar seriamente no que estou propondo, meu interlocutor se ofende e só lhe resta devolver a ofensa: seu pseudo-intelectualzinho de merda!

Isso sugere outra coisa: arrogância do meu interlocutor, xingamento que eu recebo com bastante frequência também. Sim, ainda que a arrogância seja pedante, na medida em que o arrogante se julgue melhor, penso que se recusar a investigar o argumento do outro sugere uma crença tão grande na superioridade do seu argumento que só lhe resta desprezar o argumento alheio, considerado desprezível: isso é arrogância. E nada melhor do que desprezar insultando: quem você pensa que é? Se julga um intelectual? Você é um nada, não passa de um pseudo-intelectual.

Ou então a reação pode significar outra coisa: sentimento de inferioridade. Na incapacidade de refutar o pensamento diferente e na sensação de que isso o torna inferior, só resta ao interlocutor ofender o outro, de forma a compensar seu sentimento de inferioridade.

Eu já perdi as contas em que discuti com outras pessoas e elas apresentaram argumentos muito mais consistentes que o meu. Às vezes até passei vergonha com meus argumentos frente à superioridade da argumentação de alguns dos meus interlocutores. O que eu fiz? Como não sofro complexo de inferioridade nem me julgo tão arrogante como algumas pessoas acreditam, me pus no exercício de entender melhor o que meu interlocutor dizia e, na maioria das vezes, joguei fora minha forma de pensar e adotei a do meu interlocutor porque me pareceu bem mais razoável.

Obviamente que todo esse exercício dá trabalho e exige esforço. É mais fácil digerir e ruminar visões simplórias e bovinas da realidade. E é por isso que estamos metidos em um Brasil medieval, autoritário, anti-intelectual e religiosamente obscurantista em pleno século XXI.

Então, se eu puder dar uma sugestão, tente se tornar em um “pseudo-intelectual de merda”. Dá um pouco de trabalho, mas é compensador. Dois hábitos são fundamentais:


  1. Ser um amante do conhecimento e devorador de bons livros
  2. Nunca se sentir ofendido com uma visão mais complexa da realidade: a realidade é complexa e somente análises mais complexas dão conta dela, não aquelas correntes de memes de whatsapp.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Sobre o sistema de saúde nos EUA


De uma conversa com amigos no Whatsapp

*** Amigo 1 comentando imagem que ele publicou ***
A gente reclama do SUS (que tem seus problemas), mas está ae um ponto que estamos anos luz a frente dos gringos

*** Amigo 2 ***
Apesar de toda a corrupção que existe nesses programas de saúde aqui no Brasil
E não é pouco, como tudo aqui, infelizmente
Eu tenho que admitir que é algo bom
Meu cunhado tem esclerose múltipla
A medicação pra compra custaria 20.000 por mês
Um casal de amigos da minha esposa, a filha deles faz um tratamento com uma medição que custaria 2.000.000 ano
Tem muito Brasileiro que vai morar fora e por causa do custo dessas medicações voltam pra cá

*** Amigo 1 ***
Caraca... e olha que eu já estava admirado com o que tenho na minha bolha que é minha mãe com a medicação pra diabetes dela...
Esses casos ae são ainda mais impressionantes

*** Eu ***
O Brasil possui o maior programa de saúde pública do mundo. Por conta das sua dimensão continental. Por ser um país pobre tão grande, é um enorme desafio fazer esse sistema funcionar e, por isso mesmo, é um grande feito.

Os EUA são a maior máquina de propaganda do mundo. O “way of life”norteamericano é uma ilusão muito bem vendida por esse sistema propagandístico e pela indústria cultural, em especial o cinema. Na realidade, os EUA são o pais “mais capitalista” do mundo e o “mais” implica no radicalismo do capitalismo. Ou seja, no limite zero influência nos governos na sociedade para balancear as distorções do capitalismo.

E que distorções são essas? Simples: quanto mais dinheiro você acumula, mais capacidade você tem de acumular capital e cada vez mais você transfere o dinheiro dos mais pobres para você. Essa ideia levada ao radicalismo implica em um estado totalmente descompromissado com a sociedade. Então, se vc tem dinheiro para pagar médico, beleza. Se não tem, morre. E as empresas de saúde são apenas empresas capitalistas cujo objetivo é dar lucro aos acionistas (ideia do mercado de ações levada ao extremismo: maior lucro no menor tempo possível).

A ANS praticamente nas mãos dos capitalistas do sistema privado de medicina tem como objetivo o modelo norte-americano onde a saúde é apenas uma mercadoria explorada por capitalistas objetivando o maior lucro possível (o custo disso são vidas humanas pobres perdidas, o que é natural na lógica do capitalismo selvagem onde você vale pelo que possui e não porque é um ser humano). Da mesma forma que existe um grande esforço em tornar a educação apenas mais uma mercadoria a ser explorada por capitalistas visando o maior lucro possível. Esses dois casos são exemplos acabados da total distorção e alienação do real objetivo da saúde e educação, que deveriam ser serviços de qualidade oferecidos à sociedade de forma mais igualitária possível cujo esforço é transformar em mera mercadoria a ser explorada para auferir o maior lucro possível a quem oferece os serviços e paga quem tiver condições, perpetuando e aprofundando ainda mais a extrema desigualdade social e de renda do país.

Países que desenvolveram capitalismos mais sadios, como os países europeus, possuem todos os mecanismos do capitalismo e um estado que garante serviços sociais a toda sociedade partindo da ideia de que a riqueza gerada na sociedade é produzida por todos e deve ser compartilhada por todos e não concentrada nas mãos daqueles que desenvolveram mecanismos poderosos para transferência de riqueza.

E o que acontece no Brasil? Como nos EUA, o brasileiro médio é um estúpido pouco afeito ao conhecimento. Então ele vive nesse estado eterno de ignorância e infantilidade que enxerga o mundo de forma maniqueísta: tudo o que se parece com a eficiente propaganda “meritória” dos EUA é bom e deve ser absorvido sem fazer qualquer tipo de crítica. Tudo o que difere disso é coisa de comunista e deve ser rejeitado sob o risco de o Brasil virar uma ditadura comunista. Pegue qualquer programa social que funcione em sociedade mais desenvolvidas da Europa e sugira aqui no Brasil para ver a reação do pobre de direita médio (talvez a maioria dos brasileiros): o sujeito vai ter urticária dizendo que é coisa de comunista que quer acabar com a família, deus e a propriedade.

Aí fica difícil, né? Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Para conhecer um pouco mais sobre a revoltante indústria de saúde nos EUA e que estão implantando aos poucos no Brasil, assista esse tenebroso documentário do Michael Moore: https://www.youtube.com/watch?v=VoBleMNAwUg

Para conhecer um pouco mais sobre os pés de barro da propaganda do “way of life”, assista esse documentário do Noam Chomsky, professor do MIT e um dos mais respeitados filósofos vivos: https://www.youtube.com/watch?v=VoBleMNAwUg

Para conhecer um pouco melhor sobre o motor da economia e que explcia muito disso que estou dizendo, leia essa “bíblia” do capitalismo moderno, um livro que já nasceu clássico e erigiu Piketty como uma das maiores autoridades no tema: https://www.amazon.com.br/Capital-no-S%C3%A9cu…/…/8580575818

(Essa obra, que já se tornou uma referência entre os estudos econômicos, contribui para renovar inteiramente nossa compreensão sobre a dinâmica do capitalismo ao colocar sua contradição fundamental na relação entre o crescimento econômico e o rendimento do capital. O capital no século XXI nos obriga a refletir profundamente sobre as questões mais prementes de nosso tempo.

“Piketty transformou nosso discurso econômico; jamais voltaremos a falar sobre renda e desigualdade da maneira que fazíamos.” - Paul Krugman (Prêmio Nobel de Economia), The New York Times

“Um livro seminal sobre a evolução econômico-social do planeta... Uma obra-prima.” - Emmanuel Todd, Marianne)

sábado, 7 de setembro de 2019

Filósofo e religioso diante do avanço científico e dos costumes

(ou sobre o Brasil religioso-fundamentalista que tem dificuldade em se adaptar ao novo) Diante de uma nova descoberta científica, um novo avanço tecnológico qualquer ou ainda de costumes, o filósofo diz “Que interessante! Que desafios éticos e morais isso pode propor! Reflitamos sobre isso.” E se põe a pensar, a questionar, a investigar no saber previamente acumulado quase sempre consciente de que seus preconceitos e carga cultural terão poder de influenciar nas suas conclusões. Dessa forma o pensamento filosófico vai se expandindo. Diante de uma nova descoberta científica, um novo avanço tecnológico qualquer ou ainda de costumes, o religioso diz “Hum... que negócio estranho é esse? Deixa-me ver o que meu livro sagrado tem a dizer.” E se debruça sobre o livro religioso (ou o saber armazenado de outra forma) que foi cristalizado provavelmente há milhares de anos por pessoas que acreditavam piamente que sua divindade soprava em seus ouvidos a revelação dos segredos do universo. Tal pesquisa será influenciada por sua leitura particular decorrente de seus preconceitos e carga cultural quase sempre inconscientes para ele. Se der sorte, num exercício a la Nostradamus, ele encontrará algo no seu oráculo milenar que possa se adaptar à nova realidade e dirá, exultante: “Já estava registrado na profecia!” Se não der essa sorte, provavelmente iniciará uma nova caça às bruxas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Esopo e o autoritarismo obscurantista religioso-bolsonariano brasileiro

Anos atrás, quando meus amigos evangélicos pensadores me diziam que o Brasil corria o risco de cair numa ditadura obscurantista evangélica, eu dizia: “Calma lá, amigos! Não acredito que essas ideias retrógradas terão espaço no Brasil! Temos muita gente civilizada!” Hoje, com a possibilidade de o Brasil se tornar uma teocracia evangélica nos moldes iranianos, devo reconhecer que apostei demais na nossa suposta civilidade.

No período eleitoral, quando Bolsonaro crescia assustadoramente do episódio obscuro da facada, eu dizia aos meus amigos mais catastrofistas: “Calma lá, amigos! Bolsonaro é um falastrão imbecil! Ele chegará ao poder e será enquadrado pelo establishment! Ainda que o establishment político brasileiro seja muito ruim, as forças políticas tradicionais não deixarão que ele instaure seu regime de barbárie!” Devo reconhecer, novamente, que fui muito otimista e acreditei demais na nossa suposta civilidade.

Lembrei-me desses episódios ao ler trechos do livro “Quando as democracias morrem”, de Steven Levitsky, quando cita abomináveis autocratas do século XX, grupo a que Bolsonaro está se tornando aos poucos um “venerável” candidato:

Surgira uma séria disputa entre o cavalo e o javali; então, o cavalo foi a um caçador e pediu ajuda para se vingar. O caçador concordou, mas disse: “Se deseja derrotar o javali, você deve permitir que eu ponha esta peça de ferro entre as suas mandíbulas, para que possa guiá-lo com estas rédeas, e que coloque esta sela nas suas costas, para que possa me manter firme enquanto seguimos o inimigo.” O cavalo aceitou as condições e o caçador logo o selou e bridou. Assim, com a ajuda do caçador, o cavalo logo venceu o javali, e então disse: “Agora, desça e retire essas coisas da minha boca e das minhas costas.” “Não tão rápido, amigo”, disse o caçador. “Eu o tenho sob minhas rédeas e esporas, e por enquanto prefiro mantê-lo assim.”
(...)
Com a ordem política restaurada pela nomeação de Mussolini e o socialismo em retirada, o mercado de ações italiano subiu fragorosamente. Estadistas mais velhos do establishment liberal, como Giovanni Giolitti e Antonio Salandra, se viram aplaudindo a virada dos acontecimentos. Eles encaravam Mussolini como um aliado útil. Contudo, como o cavalo da fábula de Esopo, a Itália logo se viu sob rédeas e esporas. Versões semelhantes dessa história se repetiram em todo o mundo ao longo do último século. Um elenco de outsiders políticos, incluindo Adolf Hitler, Alberto Fujimori no Peru e Hugo Chávez na Venezuela, chegou ao poder da mesma maneira: a partir de dentro, via eleições ou alianças com figuras políticas poderosas. Em cada caso, as elites acreditaram que o convite para exercer o poder conteria o outsider, levando a uma restauração do controle pelos políticos estabelecidos. Contudo, seus planos saíram pela culatra. Uma mistura letal de ambição, medo e cálculos equivocados conspirou para levá-las ao mesmo erro: entregar condescendentemente as chaves do poder a um autocrata em construção.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Não há limite de idade para a arte

Na Fundação das Artes:
- Pai, lembra que no teatro vieram várias pessoas me dar parabéns?
- Lembro.
- Lembra que veio uma senhora sozinha me dar parabéns?
- Lembro - menti.
- Ela está aqui hoje e falou comigo.
- Ah, é? Que legal!
- Ela me disse uma coisa que me deixou com muita vergonha.
- É mesmo? O que foi?
- Ela me disse: "Parabéns de novo, viu? Gostei muito de ver você tocando piano! Gostei tanto que resolvi aprender a tocar piano."
- Nossa, Felipe, que legal!!!

sábado, 13 de julho de 2019

Dois momentos épicos na feira

Momento 1

Parei na barraca de bananas para comprar uma dúzia de banana nanica. Um cliente, do lado de dentro da barraca, desenvolvia um diálogo bem solto com o feirante:
- Casal pra mim é homem e mulher!
E descrevia o acontecido, que um casal homossexual queria um desconto porque algum restaurante dizia que casal tinha desconto. Onde já se viu? Casal é homem e mulher. Quer se beijar? Não faça em público. E todas aquelas baboseiras típicas homofóbicas.
Queria fugir do estereótipo, mas era tão estereotipado que não consigo: um distinto senhor branco, bem vestido, de olhos azuis. O típico “cidadão de bem”.
Eu paguei e fiquei ali, do outro lado da barraca, postado, com aquele comichão: sacaneio ou não? Scaneio ou não?
Daí, o distinto senhor, vendo meu interesse, resolveu deixar a bola quicando bem em frente o gol para eu chutar:
- Foi num restaurante aqui em cima. Estava escrito que “casal tinha desconto” e dois homossexuais queriam desconto. Deu a maior confusão.
- Então... sou homossexual, casado. Eu faço um casal com meu marido. Se eu fosse nesse restaurante, iria exigir desconto também.
- Mas se você e sua esposa...
- Esposa não!!! Ma-ri-do!!! Ele é meu marido.
Visivelmente constrangido, nem terminou o que ia dizer.
- Pra você eu posso não ser um casal com meu marido. Mas eu formo um casal, sim!
- Mas o erro foi do restaurante... A culpa nem é do garçom. Eles deveriam ter colocado que duas pessoas juntas tinham desconto.
Fiquei impressionado com a mudança repentina de discurso. Até parecia uma pegadinha. AHAHAHAHAHAH! Na realidade era. A ocasiãozinha faz a pegadinha. Nossa, que rima tosca!
- Complicado – respondi – mas entendo a dificuldade. Talvez colocar “duas pessoas têm desconto” evitaria esse tipo de situação.
Resolvi não provocar mais porque a sacanagem já tinha sido completada, o senhor já estava visivelmente constrangido, os feirantes meio em suspenso. Com um sorriso amarelo ele capitulou, talvez na tentativa de não me provocar mais e sair daquela situação constrangedora o quanto antes:
- Estamos avançando aos poucos.
- Verdade, aos poucos estamos superando esses preconceitos.
E fiz menção de me retirar.
- Tudo de bom.
- Pro senhor também.

Momento 2

Na barraca de frutas onde tradicionalmente me abasteço, falei com o dono da barraca:
- Vi você ontem!
- Ontem? Não, impossível!
- Eu te vi, sim!
- Ontem não!
Pensei um pouco, recapitulei...
- Ah... verdade! Foi na quinta!
- Na quinta eu faço feira ali perto da Atlântica.
- Isso mesmo. Sabe a José Lins do Rego? Eu estava passando por ela e você, na transversal, estava esperando para entrar.
- Ah... sim, era eu mesmo!
- Tinha um monte de cara com você. Eu até pensei: nossa, esse cara só anda com macho!
O feirante do seu lado começou a sacanea-lo. Ele respondeu:
- Nem todos! Esse aqui é meio macho!
- Ah, sim... Aí já não sei... Ele até que tem cara de macho, hein?
O feirante dono da barraca sacaneou o feirante do lado. E concluiu.
- Sexta em nem saí de casa.
Gargalhei.
- Ahahahahahahah! Putz, suou frio agora, hein?
Foi a vez do feirante do lado sacaneá-lo, sem dó.
Fui embora dando risada.