sábado, 24 de novembro de 2018

Vai Anitta (Netflix)


Nunca fui fã da música da Anitta. nem ouço. não curto. me cansa. Como muita música do funk carioca. Mas é questão de gosto mesmo. Não tenho nada contra o funk carioca e reconheço sua importância cultural, apesar de as pessoas gostarem de escrachar o funk, algumas até para se sentirem mais "inteligentes".

Quanto à Anitta, apesar de não curtir sua música e pouco lhe conhecer, reconheço que sempre fui muito com sua cara. Talvez por ela ser uma negra da periferia. Minha simpatia por essas pessoas, com as quais me identifico, é imediata. Já li por aí que ela não se identifica como negra. Eu até entendo. Em uma sociedade tão racista como a nossa, nem todo mundo tem a capacidade de assumir seus "estigmas".

Por conta dessa minha simpatia é que eu curti quando o Paulo Rogerio Salvador encomendou um arranjo de sua música, que eu escrevi dando minha cara, obviamente.

Depois dessa introdução, bora assistir o pequeno documentário a respeito dela na Netflix...

Will I See You (Anitta - arranjo: Obadias de Deus)

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

7 pretos e 1 meme

"Meu amigo... quem fez isso não conhece nada de movimento negro. Ambos são reverenciados. O primeiro é um personagem do século XVII, um guerreiro, estrategista, não submisso, um mito. Quilombo eram resistência não paraíso.
O Segundo, personagem do Século XIX, escravo que se tornou livre e abolicionista. Comparando temos Malcon X e Luther King"

"O desconhecimento da nossa história é infelizmente uma grande ferramenta para esse tipo de distorção. É triste ver como pessoas tão alienadas ou mal-intencionadas quanto o Holiday fazem sucesso com suas leituras desonestas e sem o menor compromisso com a História. Outro amigo preto compartilhou esse meme com uma legenda que dizia algo como 'há seculos temos esses dois tipos de pretos no Brasil'. Eu respondi 'há séculos o brasileiro preto não conhece direito sua própria história e um treinamento intensivo em História ajudaria a mudar isso'.

O preto brasileiro continua escravo em algumas dimensões, uma delas, a mental. Precisamos libertar os nossos pretos de sua servidão mental. Só assim seremos totalmente livres."

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Vergonha

Locutor da Cultura FM finaliza uma notícia sobre o projeto “Escola Sem Partido” com um grande suspiro.
- Obadias, e as escolas confessionais, tipo adventista, que doutrinam os alunos e até mesmo os pais?
- Olha, não sei, mas aposto que darão um jeitinho para elas não se enquadrarem. Mesmo porque o projeto “Escola Sem Partido” na realidade é o da escola com partido religioso, conservador, obscurantista, autoritário. Portanto, qualquer projeto educacional que se encaixar nesse perfil, quanto mais próximo dele, certamente terá apoio desses lunáticos.
De verdade, estou começando a ter vergonha de ser brasileiro. Apesar das mazelas do país, mesmo em minha conexões internacionais, nunca tive vergonha de ser brasileiro, porque as mazelas do país se explicam e, de alguma forma, via tentativas de melhorar isso. Agora, quando se somam às mazelas esse tipo de pensamento retrógrado e autoritário, realmente é desanimador e causador de muita vergonha...
Já não bastávamos ser motivo de piada por sermos um país de ignorantes em que é difícil encontrar pessoas com quem sustentar conversas se os temas não forem futebol e outras trivialidades típicas tupiniquins (visão de um estrangeiro com a qual eu infelizmente concordo), agora se soma a essa falta de conteúdo, essa visão tão tacanha e obscurantista do mundo... Triste. Obviamente que essa onda só cresceu porque as pessoas, no geral, entendem mesmo é de futebol e demais trivialidades. Se fôssemos um povo realmente dado ao conhecimento, não estaríamos nessa situação de penúria.
Por falar em penúria, causou-me tristeza ver em uma publicação o comentário de pessoas a uma pergunta que, por si só, já demonstra o estado doentio que nos encontramos. A foto de um marginal de fuzil, em uma favela, na mira de outro fuzil, supostamente de um policial: “o que você faria diante dessa situação?”. Algumas respostas:
- Pacificamente, no amor... senta o dedo!
- Mira na cabecinha e ...
- Nada, afinal o rapaz está apenas tentando se proteger de uma possível chuva.
- Chuva de bala nele então.
Veja que, diante de um problema tão complexo, com causas tão conhecidas, as pessoas preferem a solução de desumaniza o outro, a violência pela violência, a não solução dos problemas. Essas pessoas são tão violentas e desumanas, nos seus princípios, nos seus ideais, quanto aqueles marginais brutalizados. A diferença, para mim, é que uns estão armados, outros não. Mas a lógica, o raciocínio, é o mesmo.
Sim, vergonha de ser brasileiro. Definitivamente...

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Autocrítica


Estava lendo agora os comentários de uma notícia que fala dos diversos xingamentos do Trump em relação às mulheres. O mais exótico de publicações em portais são os comentários. Reconheço que sofro de uma certa curiosidade mórbida em relação a esses comentários.
Por quê?
Por uma questão muito simples: ali se vê todo tipo de atrocidade, desinformação, preconceito. Sempre fiquei muito impressionado com o nível de desinformação e preconceito que o brasileiro tem a partir das minhas leituras desses comentários.
Na reportagem em questão, a maioria dos comentários era na linha "go Trump", "tem que acabar com esse mimimi mesmo", "a culpa não é do Trump, mas das mulheres que estão embarangando demais" e coisas do gênero.
Daí eu me lembrei desse momento funesto em que estamos passando. Essa catarse de preconceito, desinformação, fakenews. É como se a maioria dos brasileiros estivesse escrevendo nos comentários de uma notícia em que todos tivessem acessado. Só mudou a escala. Eu vejo gente bem-educada, bem formada dizendo as maiores atrocidades, embarcando em um auto-engano impressionante. Nem é gente que eu consideraria estúpida.
Realmente, precisaríamos fazer uma autocrítica muito grande do que acreditamos, pensamos, do ódio que disseminamos com nossos discursos, das mentiras que alimentamos. Pena que estamos tão anestesiados em nossas certezas, nossos ódios, que dificilmente seremos capazes dessa tão necessária autocrítica.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Sobre homofobia e cotas


Participei há pouco involuntariamente de um experimento político/sociológico bem interessante.

Entabulei um diálogo com desconhecidos sobre a questão candente da política. Eu fiquei dando corda só para ver onde a coisa ia parar.

Houve momentos surrealmente épicos:
1.       Não houve ditadura: foi militarismo
2.       A Dilma não foi torturada: é tudo marketing
3.       Os nordestinos não trabalham e vivem de bolsa família, comem muito mal, o custo de vida é baixo e eles se contentam com o bolsa família. Os pais mandam os filhos mendigar nos faróis e ficam em casa vivendo de bolsa família

Um rapaz discordava de coisas que ouvia e depois entrou na conversa. Disse que os extremos de direita e esquerda são ruins. São uma desgraça, eu disse. Ele concordou.
Daí foi colocar seus pontos de vista. Destaco 2 deles:

- Sou contra homossexualismo. Não gosto. Mas não tenho nada contra homossexual (etc.)
- Eu também não gosto de brancos! (ele é branco) Mas não tenho preconceito.
Ele me olhou meio assustado, mas teve que concordar:
- Tudo bem, é seu direito. Mas, você não poderia deixar de empregar um branco.
- Claro que não! Não tenho preconceito contra brancos. Só não gostaria que meu filho se casasse com uma branca. De resto, de boa!
Um amigo na conversa tentou dar uma aliviada porque tinha ficado meio tenso. O rapaz riu, contemporizando:
- Ele está imitando o Bolsonaro...
Arrá! Ele percebeu, não é burro!
***
Daí veio o assunto das cotas:
- Sou totalmente contra cotas, sou a favor da meritocracia.
Concordei com ele e descrevi duas situações extremas: um filho de uma família abastada que nunca precisou trabalhar, estudou nas melhores escolas (pagas), fala outros idiomas, morou no exterior e outro favelado, que perdeu o pai, estuda numa escola pública péssima, do bairro, durante o dia tem que tomar conta dos irmãos mais novos porque a mãe tem que trabalhar, bla, bla,bla... O riquinho se dá super bem na vida, o outro não vai longe. Concluí, ironicamente:
- Óbvio que o primeiro conseguiu com seu esforço e tem todos os méritos por isso. Já o segundo é um encostado, preguiço, que não quis se esforçar.
Ele ficou meio emputecido e, meio alterado, deu a “cartada” tradicional:
- Estudei em escola pública, ralei muito na vida, bla, bla bla!!!
- E daí? Eu também. Ralei muuuuuito!!! Só que eu consigo enxergar essa realidade.
Daí tentei uma abordagem mais didática para ele entender o espírito das cotas.
Gastei alguns minutos explicando a questão do acesso à universidade e como um sistema de cotas pode ajudar quem tem condições de entrar lá mas, porque existe um número muito maior de pessoas que possuem um investimento pesado por parte dos pais, essas pessoas preenchem todas as vagas. Se as mesmas pessoas estivessem nas mesmas condições daquele pobre/negro bastante capacitado, em vez de tirar 7 (digamos) teriam tirado 3 e jamais teriam entrado na tal faculdade. Então o sistema ajuda a dar uma equilibrada nessa injustiça. Basicamente.
- Então, isso faz algum sentido para você? É justo?
- É... é justo. Mas eu não concordo com cotas!

Conclusão: as pessoas não são burras. Elas simplesmente não querem abrir mão de suas ideologias equivocadas, de seus preconceitos, de seus privilégios: se a situação as estiver favorecendo, que se lasque o resto do mundo.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Children


No carro, enquanto lê um livro, ele pede:
- Pai, põe alguma coisa de Bartók pra tocar?
No semáforo, pesquiso rapidamente "Bartok for children" e coloco para tocar.

Seus olhos brilham de felicidade quando uma ideia cruza sua mente.
Fecha o livro e pega, rapidamente, seu "Béla Bartók for Children" na sua mochila da aula de piano.
Feliz, acompanha na partitura, cantando junto as pequenas peças que ele já estudou.
O tempo volta, rapidamente. Os tempos eram outros, mas a felicidade era a mesma: nos tempos passados meus olhos se enchiam de felicidade, quando aos 9 anos, ficava horas e horas nos livros de método de instrumento e de solfejo do meu pai, descobrindo pelo solfejo as maravilhosas melodias que se esgueiravam por trás das notinhas pretas...

sábado, 15 de setembro de 2018

Livros na infância


- Pai, o filme Hugo Cabret é para crianças?, pergunta o Felipe quando o deixo na escola, com o livro “A invenção do Hugo Cabret” aberta nas últimas páginas, onde estava sua leitura.
- Hum... Não sei...
- É que o filme parecia complexo para crianças (ele assistiu faz um tempo), mas eu achei o livro tão simples...
- É que você já está se acostumando a ler coisas mais complexas.
Mais tarde ele comentou com a mãe que a história era muito linda.

Lembrei-me dos meus 9 anos. Eu já era um leitor convicto, mas até por conta do acesso aos livros, não lia com tanta frequência. Meus pais não tinham dinheiro para comprar livros. Então eu passava o tempo em casa lendo as partituras musicais do meu pai (nessa idade eu já solfejava com bastante facilidade) e lia o que caía nas minhas mãos (por exemplo, enciclopédias: aos 11 anos li uma enciclopédia de psicologia de 5 volumes kkkkk: era o que tinha à mão).

Hoje os tempos são outros, temos condições de comprar livros para ele e, mesmo sem ficarmos “pregando” para ele que ler é bom, esse hábito surgiu naturalmente. Com certeza por ver os pais e o irmão sempre com um livro aberto.

Uma das minhas pequenas decepções da vida é que somente há alguns anos caiu minha ficha de que eu poderia ter relacionado todos os livros que já li. Eu, um amante dos levantamentos estatísticos. Eu já tinha dito para o Felipe fazer isso. Essa semana eu lhe pedi para me dizer os livros que ele já leu que vou começar a anotar. Ele gostou da ideia e me trouxe, do seu quarto, os livros já lidos. Ficaram de fora, segundo ele, os livros com menos de 20 páginas e os gibis.

Só teremos um país melhor se nossos filhos forem leitores como o Felipe. Não tem milagre. Não tem atalho. A lástima é que adultos não leitores não têm ideia de como a falta de leitura é prejudicial e não ficam motivados e tentar fazer de seus filhos leitores. O Brasil só será uma grande nação quando cada adulto vivo tiver lido algumas dezenas de livros. Do contrário, teremos uma nação de zumbis intelectuais, que raciocinam em termos muito simplificados, que não são capazes de compreender a complexidade do mundo contemporâneo, que se deixam enganar por memes rasos dada sua inexistente capacidade de consumir informação de forma crítica.