sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Enlouquecemos todos?

 


Depois de um dia intenso em que eu estava tentando domar uma squamata phytonidae, fui fazer umas palavras cruzadas para descansar a mente. Descanso minha mente carregando tijolo. Mas você sabe né? O diabo mudou-se dos detalhes para o Facebook. E lá vem a notificação de um grupo que me colocaram algum dia. O assunto é filosofia.

Interagi de forma bastante irônica com uma das pessoas na publicação e sua incapacidade e das demais pessoas perceberem minha ironia escrachada me deixou pensativo: será que enlouquecemos todos?

Uma coisa é fato: a quantidade de pessoas dizendo sandices nas redes sociais, as coisas mais absurdas, sem o menor sentido, as convicções surreais, a inacreditável absolutização das opiniões, pior, opiniões totalmente piradas, enfim, esse sanatório geral em que se tornou o Brasil dos tempos bolsonaristas, é algo que garante o estupor meu de cada dia. Com uma frequência assustadora vejo amigos que até pouco tempo me pareciam, se não pessoas com um pensamento mais equilibrado ou mesmo uma forma de se expressar elegante, cristalina, ao menos pessoas que pensavam medianamente, tinham uma percepção da realidade distorcida por uma série de crenças superadas, mas não chegava a ser nada patológico.

Tenho a impressão de que, em meio a tanta gente histérica e surtada, estamos perdendo a capacidade de separar o que é real do que não é: uma ironia, por exemplo. Ironia nunca foi algo trivial, mas o exagero é algo facilmente detectável, porque se apresenta como uma deformação monstruosa da realidade. Mas, de repente, vivemos em um ambiente em que as deformidades de pensamento se tornaram tão explícitas, as pessoas se orgulham tanto de seus monstros pessoais, que simplesmente perdemos a referência: não sabemos mais se uma pessoa está sendo irônica ou é louca mesmo.

Isso me parece muito preocupante.

Voltando ao Facebook, a publicação me chamou a atenção, corri os olhos nos comentários e um deles me chamou atenção em particular. Daí, pensando em fazer uma “piada irônica e amigável” com a pessoa que tinha feito o comentário, respondi-lhe incorporando o fanático religioso, mas a pessoa não entendeu. Eu pensei, inicialmente, que minha ironia seria suficiente. Mas não. Resolvi aumentar as doses de ironia, mas mesmo assim a pessoa não sacou. No fim, joguei a toalha, antes que me denunciassem ao Facebook por mau comportamento.

Abaixo a conversa com alguns comentários meus entre parênteses:

ATEU: Sou ateu por convicção e opção.

EU: Filho de Belial, quando você chegar no inferno de fogo e enxofre, onde o Deus amoroso te lançará tão certo quanto o ar que eu respiro, quero ver onde você meterá sua convicção e opção. Arrependa-se antes que seja tarde. Porque Deus é amor mas também é justiça.

ATEU: Obadias de Deus, o seu sectarismo transcende ao ópio e a insanidade. Procure um psiquiatra já!

(Um cara entrou na conversa, quem eu chamarei de ATEU2)

ATEU2: Obadias de Deus Ahahahah pensei até que era uma piada mano, e esse nome ainda p cima kkkkkkkk. Na real não há nenhuma justiça em condenar alguém ao sofrimento eterno só pq ele não acredita em algo que não vê. E ainda diz que deuch é “amoroso” kkkkkkkkkkkkk 🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣

EU: ATEU2 piada??? Nunca falei tão sério, seu jebuseu incircunciso! 🍐 que vou orar pra Deus te tacar um câncer, seu ímpio de dura cerviz, filho de uma Raabe Madalena! 😡😡😡😡😡

ATEU2: Obadias de Deus, quanto amor de cristo estás emanando, meu caro! Posso sentir daqui os eflúvios benfazejos. Até minha querida mãe que nem ao menos sabe dessa celeuma, foi implicada... Mostra bem a laia dos que se dizem “os eleitos de deus” Tenho muito nojo de vcs e um pouco de pena também

ATEU2: PS: sou circuncidado sim, mas não devido à palhaçada judaica e sim a higiene – se quiser envio foto comprobatória

ATEU: Vc não passa de um mentecapto, vesânico, ANENCÉFALO, ACÉFALO, CACÓFAGO.

EU: ATEU, está me chamando de cacófato gago? Só fico gago diante do poder de Deus.

(Ok, essa piadinha foi bem ruim, mas foi a única que me ocorreu na hora)

EU: ATEU2 sua querida mãe não foi implicada. Eu falo da filiação espiritual. Se você estudar a Bíblia, além de ser salvo, vai entender o que eu quis dizer, amém? Quanto a ter nojo de mim, não tenha. Pensa bem: enquanto eu estiver nas bodas do cordeiro, em ruas de ouro, com Abraão, Isaque e Jacó, as 70 virgens (não, 🍐, as 70 virgens são no céu islâmico, me confundi), as 5 virgens prudentes, onde você estará? No inferno fedendo a enxofre. Pelo que consigo imaginar, o nojento será você, não?

EU: Vocês ateus são uma piada. Se Deus não existe, quem acende o bumbum dos vagalumes? Hein?

(Essa do vagalume me ocorreu porque eu tinha acabado de preencher a palavra VAGALUME no desafio de palavras cruzadas que estava fazendo: adoro jogos de palavras, duplo sentido, metáforas; e foi uma tentativa de mandar algo bem surreal pra ver se meus interlocutores perceberiam, finalmente, que eu estava sendo irônico)

(Aparentemente uma mulher viu a suposta surra que um suposto fanático religioso estava tomando de 2 ateus e fez uma pergunta; tive a impressão de que ela ficou com pena de mim e tentou dar uma aliviada. Por isso a chamarei de BOA SAMARITANA)

BOA SAMARITANA: ATEU Cê é filósofo?

ATEU: Significado de CACÓFAGO: É um adjetivo. "AQUELE QUE COME COISAS REPUGNANTES, EXCREMENTOS".

(De fato, não conhecia o termo. Aprendemos sempre. Aprendi mais uma)

ATEU: BOA SAMARITANA, qual é a essencialidade da pergunta? Filósofo todos nós somos, lógico: cada um com sua superficialidade...

EU: ATEU, essa eu não conhecia. De verdade. Cacófago. Obrigado por me ensinar essa. Fico lhe devendo essa. Agora vou utilizar essa maravilhosa palavra, nada eufônica, para acabar com a raça dos ateus e suas miseráveis ideias cacofônicas. A Bíblia diz que Jesus chorou. As pessoas acreditam que foi pela morte de Lázaro. Mas o Espírito Santo de Deus me revelou que não foi por isso. O motivo foi outro. Só não está nas Sagradas Escrituras porque ia pegar mal pro meu savior. Mas a verdade é que tinha um ateu cacófago do lado emitindo cacofonias ao dizer que Lázaro já não tinha mais jeito, já estava morto há dias. Jesus já irritado com aquele filho de Belial, sumamente irritado, acabou se emocionando e chorou, porque, apesar de ser Deus, também é filho do Homem. E homem que é homem, chora. Daí ele disse pro ateu: "Ô meu, para! Não enche o saco! Deixa eu fazer meu trampo, cacete! Pra quem pôs os bovinos pra cagar em forma de pasta e os caprinos pra cagar em forma de bolinhas, ressuscitar um presunto é brincadeira de criança, é trivial! Aparte-te de mim, ó tu comedor de bosta! Vai ter com as pastas e as bolinhas, cacófago!" Com um braço deu um jab no ateu e com outro tirou a pedra no túmulo, arrancou o defunto lazarento pra fora e... Bem, não vou dar spoiler. Quer saber o final da história? Vai ler a Bíblia. Quem sabe você aprende alguma coisa. Que la luciérnaga de Dios, lucena para os íntimos, te ilumine com seu bumbum fosforescente.

(“Luciérnaga de Dios” – “luciérnaga” é vagalume em espanhol – e lucena foi um feliz trocadilho que me ocorreu com o sobrenome Lucena de um amigo que, quando mandei a frase que me ocorreu, “Se Deus não existe, quem acende o bumbum dos vagalumes? Hein?”, ele me devolveu outra igualmente deliciosa, “Quem pôs os bovinos pra cagar em forma de pasta, e os caprinos em forma de bolinhas?” A pergunta dele foi tão deliciosa que tive que incluir no meu diálogo com os créditos devidamente cifrados. E por falar em cifra e jogo de palavras, “Obrigado por me ensinar essa. Fico lhe devendo essa. Agora vou utilizar essa maravilhosa palavra” foi proposital, pra forçar o vício de linguagem “eco”, uma cacofonia, já que eu iria falar justamente sobre isso 😊; ok, explicar piada é péssimo, mas já que estou comentando...)

EU: BOA SAMARITANA, concordo com o ATEU: todos somos filósofos, posto que todos somos pensantes. Eu apenas acrescentaria um detalhe: um bom filósofo entende ironia.


Enfim, espero que dessa vez eles saquem a ironia. O que me impressionou mesmo foi a incapacidade de eles perceberem o quanto eu estava sendo irônico. E é isso exatamente o que me causou a reflexão: ou as pessoas têm uma profunda incapacidade de entenderem ironia, ou – o que me parece mais provável – o espaço público e virtual está recentemente tão infestado de loucos, alucinados, fanáticos, que a gente acaba perdendo a capacidade de identificar uma irona, por mais exagerada e absurda que seja, contaminados que estamos por essa explosão de zumbis fanáticos nessa distopia apocalíptica bolsonarista walkingdeadiana que tem sido o Brasil dos últimos tempos.

Tempos tristes, apesar das piadas, memes, ironias e gargalhadas.


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Múltiplas personalidades



 A personagem Ondine Duquette da série Netflx Ratched me levou a uma viagem no tempo. 1986. Acabara de completar 17 anos. Conferi a data na minha CTPS. Eu trabalhava na Mercantil São Caetano, uma concessionária da João Apolinário e Cia.

Abre Parênteses

Nunca tive curiosidade em saber quem é essa figura João Apolinário que aparece na minha CTPS. Acabei de pesquisar e... incrível, João Appolinário é nascido em São Caetano do Sul e é presidente, proprietário e fundador da Polishop. É conhecido como o "homem da tevê" ou o "rei da TV do Brasil" por ser o maior anunciante da televisão brasileira. (Wikipédia). Não fazia a menor ideia.

Fecha Parênteses

Então

Eu era office-boy e comigo trabalhava outro garoto também office-boy. Vivia em um bairro mais pobre de São Caetano, que tinha uns cortiços, se não me falha a memória, Vila São José.

Mas o que me chamava atenção nele é que se tratava de um garoto extremamente inteligente. Falava francês. Aprendera sozinho, lendo livros. Sempre tive admiração por pessoas intelectualmente mais arrojadas. Era o caso desse garoto. Conversávamos bastante.

Ele também frequentava uma casa de umbanda. Opa! Isso é coisa do diabo. Era meu papel, como cristão, salvá-lo do inferno. Mas antes de salvá-lo, fiz todas as perguntas possíveis a respeito do que ocorria na umbanda, como ele fora parar naquela antessala do inferno.

Ele me contou tudo. Confesso que era fascinante. O mais fascinante eram os guias que ele recebia. Ele me dissera que fora parar na umbanda porque recebia esses espíritos e lhe disseram que ele deveria desenvolver sua mediunidade. Claro que não, dizia eu, esses espíritos na realidade são demônios. E comecei a levar a Bíblia para ele ler comigo, mostrando-lhe pelas escrituras sagradas, como era certo e verdadeiro o que eu dizia.

Ele não gostava de ler a Bíblia. Passava mal. Dizia que eram os espíritos que ficavam incomodados. Tá vendo? Por que incomodados? São demônios. Não suportam a palavra de Deus!

Passávamos todo o tempo do almoço conversando. E confesso que eu gostava. Porque, depois de um certo tempo falando com ele, do nada ele era possuído por um espírito qualquer e conversava comigo. Lembro-me que um dos espíritos era de um garotinho que havia morrido quando garotinho. Por isso espírito garotinho. Elementar, meu caro Watson. Ele falava como uma criancinha, enchia as bochechas emburrado, fazia biquinho. Era engraçado. Sempre que ele voltava do transe, sem noção do que tinha acontecido, me perguntava o que ele tinha feito e, quando eu lhe explicava, identificava o espírito.

Então eu gostava de provocá-lo apenas para desencadear o transe e a possessão de algum desses espíritos. Muito antes dos shows deprimentes e trapaceiros da IURD na TV, veja que coisa!

Com o tempo ele me disse que seus guias, esse era o termo, haviam lhe dito em uma sessão na casa de umbanda que ele deveria se afastar de mim porque eu era alguém perigoso, uma péssima influência para ele. Pensa na sensação de poder. O diabo está com medo de mim! Eu estava com a bola toda.

Ele me disse que havia um espírito muito forte, Exu, que era do mal. Que ele não gostava de receber. Um dia, estávamos escovando os dentes no banheiro masculino coletivo da concessionária e, do nada, ele começou a soltar grunhidos e caiu no chão convulsionando. Mas eu já tinha me preparado para isso pois estava em constante oração. Tentei contê-lo com a mão esquerda enquanto com minha mão direita, firme, sobre sua cabeça, fiquei alguns instantes expulsando o demônio que lhe havia possuído, em nome de Jesus, com muita autoridade na voz, a meia voz, claro, torcendo para ninguém entrar no banheiro e se deparar com aquela cena dantesca. Depois de alguns instantes ele recobrou a consciência e confirmou minha suspeita: havia sido Exu. Ele estava muito irritado comigo.

Eu lhe disse que ele deveria frequentar uma igreja evangélica para se livrar daqueles demônios que o atormentavam, que ele poderia ter uma vida feliz. Com o tempo ele pareceu realmente querer a libertação da qual eu falava. Marquei um dia para levá-lo à igreja. Fui de carro com um irmão, um sábado à tardezinha, para levá-lo ao culto. Fomos até o endereço que ele passou na Vila São José. Ele não estava. Esperamos. Ele nunca apareceu. Desistimos, decepcionados. O diabo é xujo.

Depois disso nossa amizade esfriou. Alguns meses mais tarde eu seria demitido.

Vendo o surto de Ondine Duquette na série, transformando-se em uma criança, mais uma vez retomo esse episódio do passado e refaço a leitura que já fiz diversas vezes:

Um garoto muito inteligente, aprendera a falar francês sozinho, em um bairro pobre, uma vida familiar bastante tumultuada, provavelmente deveria ter sofrido alguns tipos de violência que ele nunca me contou. Poderia ter desenvolvido múltiplas personalidades, um processo de autodefesa da psique para evitar o sofrimento que fragmenta a personalidade da vítima em várias sub personalidades? Não é difícil.

Seu sofrimento e incompreensão de sua parte em função das ausências e comportamentos que ele não conseguiria compreender, quando em contato com alguém da umbanda, naturalmente encaminharam para o diálogo você é alguém especial, tem medinunidade e precisa desenvolvê-la? Não é difícil.

E eu, diante dessa situação toda, tinha certeza que era coisa do diabo? Não tenha dúvida.


sábado, 26 de setembro de 2020

Compondo música com meu filho de 11 anos

- Pai, vamos compor uma música juntos?
- Tá bom, Felipe.
- Pode ser pra orquestra?
- Nossa, é muita coisa. Vamos fazer pra piano.
- Ah... eu queria mais instrumento.
- Então pode ser quarteto de cordas?
- Ah... legal!
Abre o Sibelius e me diz que tom o andamento eu quero:
- Dó maior. O andamento pode ser lento, pra ficar mais fácil pra eu tocar no piano.
Colocadas as informações iniciais e aberta a partitura em branco...
- Felipe, toca 4 notas aleatórias
Ele toca 4 teclas brancas a esmo em diferentes oitavas do piano.
Eu toco novamente as 4 notas dentro de uma única oitava. A combinação me sugere Dó maior.
- Nossa, pai, minha mente já imaginou um monte de coisas!
- Ótimo, toca o que você pensou então.
Ele toca a sequência de notas e acrescenta algumas outras improvisando um curto tema. Ele introduz um Si bemol.
- Percebeu que você improvisou um tema em Fá maior? Muda a armadura de clave pra Fá maior.
Cantarolo a melodia sugerindo uma determinada subdivisão rítmica em 4 por 4.
- Pode ser assim?
Ele sugere outra subdivisão rítmica, em 4 por 4, mas com as notas valendo metade do tempo que eu sugeri. Isso resulta em uma pulsação rítmica bem mais lenta que a que eu sugerira com minha subdivisão.
- Ok, escreve então.
Ele escreve via piano na linha do violino e toca. Impressionante! Soa exatamente com o andamento que ele tinha sugerido. Isso me leva a uma primeira “triste” constatação: como as crianças absorvem as coisas rapidamente, na velocidade da luz! Por conta das aulas de piano, ele tem experimentado vários tipos de andamento e a fixação dos padrões por parte dele é muito rápida.
Na sequência, completa a linha melódica do violino e se põe a escrever as demais vozes. Percebo que ele tem pouca preocupação com a harmonia (pensa de forma horizontal) mas as frases saem organicamente, funcionando bem harmonicamente.
- Felipe, em vez de você clicar com o mouse na figura da nota a cada mudança de figura, pode usar o teclado numérico. Tá vendo esse quadro aqui com as figuras musicais? Não lembra o teclado numérico? Essa é a ideia. Então é mais simples. Veja.
Repito a frase que ele acabou de escrever usando o teclado numérico, não o mouse, como ele estava fazendo.
- Nossa, pai, não sabia que era tão fácil assim! Eu demoro horas pra escrever uma frase!
Reassume o controle e com uma habilidade e coordenação impressionantes, sai tocando a melodia e rapidamente mudando as figuras pelo teclado numérico numa velocidade que eu, com meus anos de prática, jamais conseguiria. Segunda “triste” constatação: estou reduzido a um velho à beira da morte. Ahahahahahah!
- Felipe, as ideias estão bem legais. Sem querer limitar sua criatividade, se você tiver a percepção do caminho harmônico, talvez enriqueça. Deixa eu te mostrar.
Com minha habilidade limitada, cantarolo a melodia do violino que ele acabou de compor e toco a harmonia no piano. Alegre, ele percebe que, de fato, a percepção harmônica ajuda bastante.
Basicamente foi isso. No mais, ajudei-o em 2 ou 3 passagens onde ele se sentiu desconfortável com o resultado (e de fato dava para melhorar) mudando não mais que 5 ou 6 notas de passagem para que elas não distorcessem um pouco a clareza harmônica do todo. Ele quis fazer um final mais moderno, colocou algumas dissonâncias nos 2 últimos compassos, detestou por ter considerado “contemporâneo demais” e reescreveu de forma a ficar mais coerente com o todo. Concordei com sua decisão. Preferi não sugerir nada, apenas orientá-lo eventualmente em alguma dificuldade, mas isso foi muito ocasional.
Eu pouco mais de 2 horas ele tinha escrito sua pequena brincadeira composicional que ele chamou de “Teste Para Quarteto de Cordas”.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Sobre o racismo e a invisibilidade



O trecho abaixo do livro "Americanah" de Chimamanda Ngozi Adichie, que estou lendo, me fez recordar de um episódio idêntico que passei. O livro fala da experiência dos nigerianos nos EUA sob o ponto de vista do racismo.
 
Vamos ao trecho do livro:
 
Quando eles entraram num restaurante com mesas cobertas por toalhas de linho e o recepcionista olhou-os e perguntou a Curt: “Mesa para um?”, Curt rapidamente disse a Ifemelu que o recepcionista não tinha dito aquilo “por isso”. E ela quis perguntar: “Por qual outro motivo seria?”. Quando a mulher com cabelos cor de morango que era dona de uma pousada em Montreal se recusou a demonstrar que tinha registrado a presença de Ifemelu enquanto eles faziam o check-in, numa cegueira determinada, sorrindo e olhando apenas para Curt, ela quis lhe dizer o quanto se sentia negligenciada, mais ainda porque não sabia se a mulher não gostava de negros ou se gostava de Curt. Mas não disse, pois Curt lhe diria que ela estava se ofendendo por nada, ou que estava cansada, ou ambos.
 
(Chimamanda Ngozi Adichie. Americanah (Locais do Kindle 5061-5066). Edição do Kindle)
 
Agora minha experiência:
 
Durante muitos anos viajei a trabalho pela América do Sul, em vários países, por grandes multinacionais. O país que mais visitei foi a Colômbia, especificamente Bogotá. Tantas viagens que por duas vezes na "aduana" me perguntaram que tanto eu fazia naquele país. Por conta disso, meu espanhol era colombiano e impecável. Tanto que as pessoas achavam que eu era colombiano. Quando dizia que não e pedia para acertarem minha nacionalidade, nunca ninguém chutou brasileiro e ficavam impressionados com minha falta de sotaque, já que o portunhol do brasileiro é inconfundível. Meus amigos da ExxonMobil, quando tinham alguma dúvida em ortografia ou gramática espanhola, me consultavam.
 
Numa das minhas viagens a Buenos Aires, onde trabalhei em alguns projetos de outra multinacional, fui com um colega de trabalho que treinei no projeto por 2 semanas. No fim de semana, saímos para fazer turismo. Meu espanhol era perfeito, com sotaque colombiano, claro, e meu colega de trabalho, branco, arranhava um portunhol bem macarrônico. Por isso mesmo, nas interações com os transeuntes, percebi algo diferente daquela vez, já que eu costumava andar sozinho pelas ruas de Buenos Aires:
- Você percebeu que as pessoas não falam comigo, mas com você?
- Claro que não, é impressão sua.
- Será? Observe.
Sempre que parávamos para conversar com alguém na rua, ele se mantinha calado. Eu conversava com o(a) portenho(a) que simplesmente me ignorava e respondia para ele. Daí o diálogo era assim: eu falava com as pessoas que olhavam e respondiam para ele, ignorando totalmente minha presença.
Depois de algumas interações com outras pessoas logo após eu lhe sugerir que observasse o comportamento delas, ele reconheceu que eu tinha razão, impressionado.
 
Uma vez eu perguntei a um taxista se havia racismo na Argentina. Sua resposta foi reveladora:
- Não temos racismo: não temos negros aqui.
 
Mas esse episódio de invisibilidade não foi o pior que eu experimentei em Buenos Aires.
 
Também experimentei um episódio de invisibilidade, há muitos anos, em um banco extremamente chique na Av. Paulista, quando fui resolver um problema de um cliente que estava com a corda no pescoço. Quando cheguei no banco, no décimo alguma coisa andar de algum edifício na Paulista, uma recepção chiquérrima, havíamos apenas eu e a recepcionista na recepção que era bem grande. Eu estava afundado em chiquérrimo sofá de couro, esperando. O cliente passou por mim, ignorou-me e perguntou para a recepcionista:
- Cadê o Sr. Obadias?
Eu percebi que a recepcionista explicou para ele, por mímica, que o Sr. Obadias estava sentado no sofá.
Pausa dramática.
Ele se virou com um sorriso ensaiado e disse algo como:
- Bom dia, Sr. Obadias!
- Esperava alguém alto, loiro e de olhos azuis? - não perdoei, claro!
Extremamente constrangido, ele tentou negar o óbvio.
Resolvi seu problema da forma mais impressionantemente rápida e eficiente que pude somente para deixá-lo humilhado na sua cretinice racista.
Ele, de fato, ficou bem impressionado. Espero que tenha servido de lição e que ele tenha refletido a respeito da sua imbecilidade.


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Como trollar um bando de machista escroto


Algum lugar do passado.

Avenida Luis Carlos Berrini.

Primeira visita na área de TI de uma empresa, cliente, para tratar de um projeto de integração de dados. Trabalho na parte da manhã com minha visitada dando pontapé no projeto.

Almoço. 

Ela me convida para ir almoçar com seus colegas de TI, “berriners” típicos.

No restaurante, a conversa sobrevoou por vários temas até que aterrissou no caso Eliza Samudio – goleiro Bruno. Com o preconceito e escrotidão típicos do ambiente corporativo (quem conhece sabe do que estou falando), os caras vomitaram seus preconceitos sobre a “puta” Eliza.

Eu me limitei a escutar.

Não sei se minha visitada sacou meu desconforto ou foi apenas um insight do nada mas, de repente, no meio da conversa, ela solta essa:

- O Obadias conhece a Eliza.

Pausa dramática.

Todo mundo olha pra mim com aquela cara de “oi???”.

Eu, que não sou de perder a viagem, na maior cara de pau confirmei: de fato, eu a conhecia, já que ela era minha prima de segundo grau. Sua mãe seria prima de primeiro grau de minha mãe. Justifiquei o parentesco com a ascendência italiana por parte de minha avó materna, o que é verdade, supondo que Samudio seja um sobrenome italiano. Se não é, não faz a menor diferença: colou.

De repente, o clima de “descontraída gozação” em cima da desgraça que se abateu sobre Eliza Samudio se tornou bastante constrangedor. Agora sérios, pediram mais detalhes sobre a jovem, como ela era, enfim, curiosidade mórbida de quem se vê de repente diante de um parente de algum notavelmente morto.

Improvisei histórias e relações fictícias dando a impressão de que estava apenas sendo educado com aquele bando de escroto que estava se divertindo às expensas de macular a memória de minha suposta prima.

No final me pediram desculpas e o assunto, obviamente, morreu, já que a gozação em cima de alguém que não podia se defender havia se tornado tecnicamente um insulto a alguém que estava presente.

Depois do almoço, quando voltávamos para o escritório, perguntei discretamente para a cliente que eu tinha acabado de conhecer: "O que foi aquilo?" Não me lembro de sua resposta, mas me lembro que ela tinha achado muito divertido. Talvez achasse seus colegas muito escrotos e tinha tentado a sorte de colocá-los em uma saia justa. Arriscou e deu certo porque trollagem é comigo mesmo.

Na visita seguinte eu lhe perguntei se ela tinha desmentido a história. Ela disse que não. Rimos muito e deixamos assim mesmo.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Felipe e a literatura


Hoje o Felipe, 11 anos, que está na avó materna, me mandou um áudio de uma composição que ele acabou de improvisar, baseada no livro de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti que ele leu, João e Maria.

Texto que ele me mandou acompanhando o áudio:

João e Maria Op. 9 III - Floresta dos pesadelos

Nota do autor:
Nessa parte, eu retrato duas crianças perdidas, após serem abandonas, em uma floresta, à noite, com fantasmas e demônios, olhos negros atrás das árvores os observando.
Caminhando com medo.
Um vento forte soprando entre suas pernas, perdidos, sem onde ficar, lacrimejando de tanto medo.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Já tive meu momento Weintraub também


Vi no noticiário que Weintraub quer sair logo do Brasil porque estaria sendo ameaçado. Mas também assumiu que tem medo de ser preso. Acredito muito mais na segunda possibilidade.
Daí me lembrei do meu 1º ano do 2º grau (na época) na então ETE Júlio de Mesquita, em Santo André. Tínhamos uma turminha e, quando tínhamos aula vaga por algum motivo, dávamos um jeitinho de escapulirmos (nem que fosse pulando o muro da escola às escondidas) e dávamos uma volta pelo centro da cidade.
Como eu era o mais baixinho da turma, a ideia era eu provocar alguém na rua. Divertíamo-nos porque a pessoa não reagia à minha provocação por causa da turma de grandalhões comigo. Até o dia em que encontramos um maluco mais maluco que a gente.
Na época a moda “new wave” estava no auge. Passamos por um cara vestido com uma calça toda quadriculada. À frente do grupo, perguntei:
- E aí, quantos quadradinhos tem nessa calça?
- Vem contar!
Não esperávamos tal reação. Meus colegas grandalhões não reagiram, ficaram mudos. Eu, por falta de alternativa, pus o rabinho no meio das pernas e passei de largo.
Depois que nos afastamos do maluco, caímos na risada. Ué, por que os grandalhões não reagiram e compraram a briga?
Enfim, de valentão, de repente, me vi obrigado a colocar o rabo no meio das pernas e sair de fininho.
Esse foi o meu momento Weintraub.
E o seu?