sábado, 5 de abril de 2025

Do Funk ao Funk Carioca

 



Nesta semana fazia um exame no Hospital Brasil quando o alarme do meu celular tocou. Perguntei ao médico que fazia o exame:

- Desligo ou você não se importa com o toque?

- Pode deixar, não tem problema. Não sendo funk...

E, logo, acrescentou:

- Você acredita que outro dia veio um paciente cujo toque do celular era funk?

- Eu curto funk – respondi de imediato.

Ele respondeu algo como “é uma questão de gosto...”

Momentos depois, achei importante dar uma carteira:

- Sou músico, escrevo para orquestra, big band, vozes... e curto funk. 

Ele resolveu então mostrar que também tem um pé na música: tem um piano em casa, a mulher gostaria que ele se livrasse do piano mas ele espera aprender a tocar piano algum dia. Eu lhe disse que a prática instrumental é muito boa, mas exige disciplina. Depois de outras “amenidades” musicais, resolvi fechar o assunto:

- Na realidade eu não tenho o hábito de ouvir funk, mas é uma expressão música absolutamente válida.

Não queria irritar o médico, afinal ele estava me dando umas agulhadas ahahahahah. Mas torci para que ele, com o preparo intelectual que possui, fosse capaz de refletir sobre seu preconceito. 


Se eu tivesse ouvido esse episódio de história negra antes do exame, certamente o teria indicado ao médico como uma aula de História para ele. Porque o nosso maior problema é a ignorância, histórica, inclusive. Vemos isso claramente na alucinação coletiva daqueles que não compreendem a gravidade da tentativa de golpe de estado urdida durante todo o mandato do inominável e que culminou com os atos do 8 de janeiro. Como é importante estudar a História! 


Idem com relação ao funk carioca. O que eu mais vejo são pessoas que falam mal do funk carioca e, parte delas, quando conhecem meus “atributos musicais”, mas desconhecem meu conhecimento histórico e capacidade de inclusão, tentam validar comigo seus preconceitos em relação ao funk, achando, ingenuamente, que irei validá-los. O serviço prestado por mais essa bela aula do professor Thiago André, é mostrar as origens orgânicas, culturais do funk carioca e, assim como o samba na sua origem, sofre de todo preconceito e criminalização por parte da sociedade, principalmente da elite, que molda o pensamento do restante da sociedade.


Acredito que o médico, se inteligente for, teria tido oportunidade de rever seu preconceito e perceber o quanto está equivocado somente por ignorar a História e aceitar discursos hegemônicos sem refletir, sem desconfiar.


Link do episódio de História Preta: Do Funk ao Funk Carioca

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Hérnia de disco

 


Em dezembro de 2021 escrevi um relato do meu problema de hérnia de disco para não me esquecer. Estava perdido no meu computador. Resolvi escrever no blog para ficar arquivado de forma mais organizada.


01/12/2021


Há uns 3 meses, enquanto fazia meu crossfit em casa, senti que a lombar estava doendo. Pensei ser algum problema muscular por eu ter feito algo errado. Parei de fazer os exercícios, esperando que a dor sumisse. Não desapareceu. Logo mais, eu teria retorno na reumatologista pra ver um problema antigo nos ossos. Na consulta, ela viu meus exames e disse que eu não tinha mais nada. estava tudo em perfeita ordem.

- E essa dor lombar?

- Deve ser muscular.

Receitou-me um relaxante muscular.


Não sarava, ao contrário, foi piorando a cada dia. Há cerca de 1 mês, com o aumento das dores, resolvi ir no pronto-socorro, sábado à noite. O ortopedista pediu Raio-X da coluna e disse que estava tudo bem. Solicitou uma ressonância magnética. Fiz a ressonância. Voltei dia 17 no ambulatório. O ortopedista que me atendeu me mostrou o resultado e indicou pra mim uma hérnia no final da minha coluna. Disse-me que iria pedir uma infiltração para a assistência médica. Iria demorar pra aprovar (eles tentam não aprovar), logo ele me avisaria por mensagem quando estivesse aprovado. Disse que, se fosse necessário cirurgia, era algo bem seguro, moderno. Explicou-me como seria. Mas sua primeira recomendação era mesmo um tratamento conservador. Receitou-me medicamentos para dor para diminuir o desconforto. Quando a aprovação da infiltração saísse, ele me avisaria. Se eu tivesse melhorado das dores, nem precisaria fazer nada: ele cancelaria o pedido. Comprei os remédios, parei de tomar o relaxante muscular que a reumatóloga havia me receitado e comecei a tomar os remédios receitados pelo neurologista.


No dia seguinte, ao acordar, fui descer as escadas do sobrado. Na metade da escadaria já não aguentava mais de dor. Desci bem devagar, escorando-me no corrimão. No chão, uma dor intensa, tive impressão de que desmaiaria. Sentei-me e chamei a Flávia. Ela veio enquanto eu quase desmaiava e tinha uma síncope (soube depois). Fiquei gemendo muito tempo no chão, sem conseguir articular nada, enquanto ela ligava para o SAMU. Depois de algum tempo fui melhorando, o SAMU ainda não havia chegado, ela cancelou. Depois de melhorar, ainda no chão, percebi que tinha me urinado todo. Tamanha a dor. Meu irmão passou em casa e deu carona para a gente até o hospital. Meu carro estava no conserto.


No hospital, diante do que eu contei, disseram-me que era melhor eu me internar para que eles entendessem melhor o que havia acontecido. Internei-me. Já medicado constantemente contra a dor, fizeram nova ressonância. O neurocirurgião que assumiu o caso veio falar com a gente: minha hérnia estava causando muita dor e eu precisaria fazer uma infiltração imediatamente. Normalmente isso resolve o problema, a menos que o caso seja muito grave. Eu tomaria a infiltração e melhoraria de cara. Agendaram no centro cirúrgico, sedação, infiltração... A dor não passou. Explicaram-me que alguns organismos demoram mesmo pra responder. Era dar tempo ao tempo. Recebi alta no dia 22.


No dia seguinte, 23, estou deitado no sofá, quando o cara da oficina ligou dizendo que o carro estava pronto. Eu lhe perguntei se ele pode trazer o carro até em casa porque eu estava sem condições de caminhar pela rua. depois eu o levaria de volta. Beleza, ele topou. Alguns minutos depois ele para em frente ao meu portão. Ao descer do sofá, distraído, em vez de me apoiar no chão com o pé direito, fiz com o pé esquerdo, o mais afetado pela dor (a hernia de disco estava afetando meu lado esquerdo). A dor foi lancinante. Dei um grito de dor e caí no chão. Tentei de todas as formas voltar para o sofá e gritei para o cara esperar um pouco. Depois de melhorar um pouco, liguei pra ele e disse que minha esposa estava voltando de um curso e estava perto de casa, a pé. Ele se encontrou com ela que resolveu a parada. Ao chegar em casa, encontrou-me gemendo de dor. Ela já estava meio irritada porque eu estava dando muito trabalho, a coisa não melhorava, cacete! Eu falei pra ela deixar que eu esperaria mais que a dor deveria passar. Fiquei umas 2 h gemendo de dor em cima do sofá e não passava. Nesse ínterim, ela foi dormir. Depois de umas 2 h, a dor aumentando, vi que não tinha jeito: joguei-me no chão, minha alma quase saiu pela boca. Tentei me arrastar até o carro. A dor era tanta que eu não conseguia nem me mexer. Gritei por ela. Ela veio. Falei que não tinha mais jeito, tínhamos que ir para o hospital de novo. Mas eu não tinha como sair dali. Sugeri que ela pedisse ajuda dos vizinhos. Tem uma loja de som em frente de casa. Ela pediu para o dono, o Ni, e o cara da loja de lavagem de bancos que estava com ele, ajudarem. Eles vieram na minha sala, pegaram-me e me colocaram no banco de trás do carro. Eu berrava de dor porque qualquer mexida que desse em mim, a dor explodia. Ela foi até o hospital, que não fica longe, eu gritando de dor. 


No hospital, pediram para ela estacionar na vaga de ambulância e uns caras de ambulância me pegaram e me colocaram em uma maca que eles trouxeram. Eu berrando de dor, porque não aguentava mais. Entraram comigo no pronto atendimento e me disseram que iriam aplicar morfina. E enfermeira me disse que a morfina tiraria minha dor imediatamente (porque ela é muito forte). Demorou um bom tempo para a dor sumir, depois que eu tomei a morfina. A dor foi diminuindo aos poucos. Acho que a dor era tanta que nem mesmo a morfina funcionou tão rápido. Na madrugada desse dia, nova ressonância, a 3ª, para eles virem o que havia acontecido: algo deveria ter piorado. Fiquei quase 1h e 20 minutos na máquina. Impressionante. Acho que analisaram até minha alma. No dia seguinte, depois do laudo da ressonância, uma neurocirgiã veio falar comigo explicando que eu poderia tentar o método mais conservador, nova infiltração, ou ir logo para a cirurgia. De qualquer forma, eu já tinha feito uma infiltração 2 dias antes. Se não tinha funcionado da primeira vez, nada garantia que funcionaria da segunda. Eu perguntei o que ela me aconselharia. Ela não aconselhou nada: a decisão teria que ser minha.


No pronto-atendimento, depois que a dor baixara, eu percebera que minha perna esquerda estava dormente e que eu tinha perdido sensibilidade na planta do pé e em parte da parte de trás da perna. A neuro me disse que isso era um problema e que poderia não voltar mais. Significava que a hérnia tinha pinçado meu nervo ciático e causado lesão nele. Por isso, inclusive, a dor tão forte. Se eu quisesse fazer o método conservador, demoraria de 3 a 6 meses para eu melhorar, com o risco de piorar minha lesão no nervo ciático. Nem tinha muito que pensar, né? Operei.


Meu pé esquerdo não funciona mais direito. Agora vou tentar recuperar isso com fisioterapia. Uma amiga me passou uma fisioterapeuta que, segundo ela, faz milagres. Já entrei em contato com ela. Não trabalha com plano de saúde. Logo, terei que pagar do meu bolso mesmo. 80 reais cada sessão. Ela me disse que, se eu puder ir diariamente, consigo me recuperar mais rápido. Fica no Tatuapé (São Paulo), meio fora de mão pra mim que moro em Santo André. Depois que eu retornar ao médico para tirar os pontos, em 15 dias ele vai me fazer os encaminhamentos. Geralmente fisioterapia que trabalha com assistência médica não dá muita atenção para o paciente. É uma bosta.


Ontem saí para caminhar um pouco na rua (recomendação médica de caminhar cerca de 30 minutos por dia). Fui cortar o cabelo. Fiquei impressionado com minha dificuldade para caminhar, agora que estou "coxo". Senti na pele o que é ser uma pessoa com limitação física. Impressionante. O esforço para caminhar, a dificuldade das calçadas, como é bem mais difícil subir uma ladeira! Complicado mesmo...


Ah... internei-me no Hospital Brasil. Atendimento fora de série. Praticamente tirei férias. Acomodações estupendas no quarto, comida farta e boa. Vida mansa, ahahahahahah! E o pessoal supersimpático. Muito bom mesmo.


sábado, 3 de julho de 2021

Eu ri



Entrega para a Flávia.

Entregador me entrega e pede meus dados.

Enquanto vou falando, ele, de cabeça baixa, vai anotando no celular.

- O que você é dele?

Dele??? – pensei

- Marido.

Os eventos dos próximos segundos se dão em câmera lenta:

Vagarosa e instintivamente, sem se dar conta, interrompe o que estava fazendo, tira os olhos do celular e aos poucos, de baixo para cima, sua mirada chega no meu rosto.

- Pensou que fosse Flávio?

Meio perdido na explicação, ele se enrola um pouco mas consegue encontrar uma resposta desconexa para minha pergunta:

- Não, é que eu preciso pegar seus documentos, saber se você é parente.

- Ah, ok.

Finaliza suas anotações e se despede:

- Bom dia, Deus abençoe.

- Amém – respondo, para sacramentar o alívio que ele deve ter sentido.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Ciclo de vida

 Uma seita, se muito bem-sucedida, torna-se uma religião. Uma religião, por mais bem-sucedida que seja, com o tempo acaba se tornando uma mitologia. A História está aí para demonstrar isso. 

Mitologias servem para explicar o mundo, nossas origens, para onde vamos, é uma maneira de dar respostas a esses mistérios de uma forma que sejamos capazes de assimilar. A diferença entre mitologias e religiões, além do tempo, é que o distanciamento histórico nos permite enxergar as mitologias pelo que elas são, apenas narrativas fantasiosas, enquanto pensamos serem as religiões fatos. 

Certamente as narrativas mitológicas surgem de acontecimentos que, pela tradição oral, vão ganhando contornos cada vez mais míticos, com novos ingredientes épicos e sobrenaturais, que criam um grupo de seguidores fervorosos à memória deles (seita), que podem subsistir ao tempo (religião), até que gerações em um futuro longínquo não acreditem mais na literalidade deles (mitologia).

O que importa realmente disso tudo é o que fazemos com isso: se usamos essa nossa crença (religiosa) ou diálogo (mitológico) para nos tornarmos pessoas melhores.



domingo, 31 de janeiro de 2021

Apito amigo

Fabio é meu primo rico. Nem tão rico assim. Mas, pra quem é muito pobre, qualquer um que esteja acima da linha da pobreza é rico. Ele estudou o colégio, hoje ensino médio, em uma escola pública, é verdade, mas em uma região de gente mais endinheirada. Era uma escola bastante tradicional, concorrida e que, dentre outras características, se destacava nos esportes. Seu colégio sempre batia cartão nos jogos interescolares.

A classe que lhe foi assignada no 1º colegial era uma combinação bem interessante e, do ponto de vista dos esportes, bastante feliz. Ele não tinha grandes habilidades esportivas, mas seus colegas de classe eram insuperáveis. Por isso mesmo, logo no primeiro ano, o time de futebol da sala ganhou o campeonato de futebol de campo da escola. Que, a propósito, tinha em suas dependências, um belo campo de futebol.

É verdade, ganharam, mas era uma classe muito problemática e arruaceira. Matavam aula, pulavam o muro da escola nas horas vagas e aprontavam presepadas na vizinhança, por exemplo. Qualquer confusão na escola e poderiam apostar: a sala do Fabio estava de alguma forma envolvida. Isso foi no 1º ano, no 2º e no 3º. Era uma turma muito coesa, apesar de haver alguns alunos na sala que não faziam parte das piores traquinagens. Com o tempo, tais arruaceiros se tornaram “personas non grata” na escola.

Mas o fato é que aquela turma era invencível no futebol. No segundo ano faturou o campeonato também. Isso só aumentou a rivalidade com os demais e o sentimento geral, no colégio, de que aquilo não estava certo: como pode uma turma de arruaceiros levar o caneco 2 anos seguidos o torneio mais tradicional da escola, praticamente um patrimônio de sua rica história?

No 3º ano botar a mão no caneco eram praticamente favas contadas. Mas o clima de animosidade na escola estava cada vez pior: tem que haver um jeito de parar esses marginais! E, como são essas coisas do destino, em uma das semifinais do torneio, estava a sala do meu primo Fabio e um time formado por um misto de alunos da escola, a maioria deles monitores.

Monitores, naquele tempo, eram alunos mais aplicados, mais “inteligentes”, que aprendiam melhor a matéria e depois davam aula de reforço para seus colegas em dificuldade. Nem precisa dizer que eram os queridinhos dos professores e uma espécie de heróis na escola: está em dificuldade na matéria? Procure um monitor em um horário alternativo. E os caras eram muito gente boa. Não tinha como não gostar deles.

E lá estava, numa das semifinais, o time de arruaceiros contra o time de monitores, que também jogavam uma bola redonda demais. Foi todo um evento. Meu primo Fabio estava tão empolgado com a ideia que cedi ao seu convite e fui lá assistir o “histórico” jogo. Afinal, o clima na escola era pura tensão: de um lado a classe dos arruaceiros e vários simpatizantes, alguns fanáticos até, torcendo pelo time, do outro lado o restante da escola, sangue nos olhos, uma sede insaciável de “justiça”, de acabar a raça com aquela quadrilha de marginais safados que, como é possível, tinha destruído a gloriosa tradicional futebolística da escola, com figuras tão detestáveis no time, com sua malandragem insuportável que, de alguma forma, os tornava invencíveis no campo. Mas dessa vez era diferente: o selecionado de monitores era bala e tinha o apoio mais que empolgado da maioria absoluta do colégio. E você sabe como é jogo de futebol: metade da vitória está nas arquibancadas.

Cheguei ao campo, as arquibancadas, que não eram tão grande já estavam lotadas, gente saindo pelo ladrão, uns pendurados nos ombros dos outros, aquele clima de tensão eletrizando no ar. O jogo começa.

Bem, não existe jogo de futebol sem juízes e bandeirinhas, não é mesmo? Dada a tensão do jogo, chamaram um treinador de futebol de outra escola para apitá-lo e professores do mesmo colégio fizeram papel de bandeirinha. Geralmente juízes são pessoas mais discretas, mas naquele dia tudo foi diferente. Parecia que o juiz queria roubar a cena. 

Foi uma das arbitragens mais controversas da história do torneio daquela história. Eu estava lá, eu me lembro bem. Até mesmo eu, que não sou especialista em futebol, fiquei chocado. O juiz massacrou o time de arruaceiros da classe do meu amigo. Qualquer esbarrão, mesmo acidental, contra um jogador dos monitores... falta! Qualquer olhada atravessada contra o juiz... cartão amarelo! Reversão de cobrança de lateral foi mato naquele dia. E o público da escola estava histérico. A gritaria era generalizada. Eu nunca estive em um espetáculo do Coliseu da Roma antiga, mas estava me sentindo naquele lugar. Na arena, uma disputa de sangue com um lado apanhando bonito do juiz, era o que meu bom senso me dizia. Nas arquibancadas, o público vibrando, torcendo, urrando a cada estocada contra o time de arruaceiros, o grito entalado nos anos anteriores agora liberado com toda força. Para essas pessoas, finalmente se fazia justiça, os arruaceiros estavam aprendendo uma grande lição, a gloriosa tradição futebolística do colégio sendo restaurada pela firme e justa mão daquele árbitro que ganhava a estatura de um super-homem.

Eu chocado. O Fabio exultante.

Ah, não contei? Pois é. Apesar do orgulho de fazer parte de uma classe tão talentosa nos esportes, meu primo foi aos poucos sendo convencido que aquele time era uma vergonha para a escola, manchava sua história, nunca a escola tinha sido tão humilhada com um grupo de marginais como aquele. Então meu primo também queria que a justiça fosse feita e, para ele, a justiça estava sendo feita com louvor. Eu estupefato. Nem tanto com a atitude do juiz e dos bandeirinhas, que já era deplorável, mas com a reação das demais pessoas. A impressão é que estávamos vendo jogos bem diferentes. Eu via um grande circo armado, as pessoas viam o espetáculo da justiça sendo feito por pessoas acima de qualquer julgamento, os adorados monitores, o técnico da outra escola, os professores como bandeirinhas.

O jogo se arrastou em um doloroso zero a zero, apesar da surra que o time de arruaceiros estava tomando do árbitro que, na minha leitura, tinha assumido um lado na disputa. Mas, na metade do 2º tempo... pênalti! Meu, aquilo foi ridículo. Um dos monitores se jogou na área, no melhor estilo de um telequete, e lá foi o juiz com seu apito decretar a derrota do time de arruaceiros. Claro que o jogador do time de monitores caprichou, sepultou a bola no fundo da rede e, dadas as condições de jogo, não tinha como o time de arruaceiro reverter o resultado.

Então, o desejado, o aspirado ardentemente, o maior anseio da maioria da escola se concretizou: o time de marginais não iria para a final. E tudo isso em um jogo histórico, épico, em que a justiça teria sido feita.

Saí de lá bastante decepcionado. Conversei muitas vezes depois com o Fabio sobre aquele que foi um dia trágico para mim, glorioso para ele. 

- Mas Fábio, você não viu que o juiz foi totalmente parcial?

- Que parcial, virou torcedor do time de marginais?

- Não é questão de torcer para o time de marginais, até eu que não sou especialista em futebol vi os absurdos!

- Do que você está falando? Eu vi um juiz correto, que apitou certinho, tudo de acordo com as regras.

- De acordo com as regras? Você não viu que as vezes o juiz conversava com o treinador do time de monitores? Desde quando juiz faz isso?

- Ué, o que tem a ver? Você não entende nada mesmo, né? Isso é comum. De repente o treinador queria falar alguma coisa sobre a grama, a posição do sol, sei lá.

- Cara, não é possível! Aquilo foi um espetáculo patético, uma palhaçada!

- Ah vá... Não é você que estuda na escola! Você não conhece esses caras. Eu estudo com eles, eu conheço. Eles precisavam ser parados mesmo. E foram parados! A justiça foi feita.

- Parados daquele jeito, roubando? Isso é justiça? Você enlouqueceu? E você viu como as pessoas gritavam o nome do juiz a cada falta que ele dava contra o time da sua classe? O cara estava todo pimpão. Aquele juiz deve ser um cara muito vaidoso para se deixar levar pelo orgulho daquele jeito.

- Nada a ver, cara! O juiz foi corretíssimo. Fez tudo direitinho. O resultado foi mais do que justo e, o melhor, o time foi eliminado. O juiz foi o herói do jogo.

- Cara, estou chocado... E aquele pênalti? De onde o juiz tirou aquilo? Do orifício corrugado onde não bate nossa estrela mãe?

- Se liga, cara, o pênalti foi justíssimo. Estou achando engraçado você. Nem conhece os caras e agora está de mimimi. Algumas pessoas que já participaram dos treinos do time da minha classe disseram coisas horríveis. Esses caras são muito escrotos. As pessoas odeiam eles!

- OK, tudo bem que odeiem pelo motivo que for, mas isso não é razão para simplesmente esquecerem as regras do jogo e exibirem aquele espetáculo tão patético. Ridículo, primo.

- Cara, os professores da escola estavam lá, os bandeirinhas eram professores. Então você quer dizer que todo mundo estava conspirando contra o time de marginais? Os marginais são uns coitadinhos injustiçados pelos professores, diretores e você está certo?

- Fabio, enfia uma coisa na sua cabeça: o fato de os professores não dizerem nada não quer dizer que não foi roubado. De repente os professores no fundo também queriam ver a derrota do time e se fingiram de mortos, tacitamente deram seu apoio àquele espetáculo dantesco. Pelo jeito você não conhece a natureza humana mesmo...

- Pronto, agora seu inteligentão, arrogante, vem me ensinar como funciona a natureza humana...

Enfim, até hoje conversamos sobre aquele episódio fatídico e o Fabio segue inflexível com a leitura de um jogo que eu jamais enxerguei.

Não bastasse, na confusão do resultado, entre a loucura das pessoas que estavam comemorando a vitória do time dos monitores, alguém surrupiou a mochila do treinador da outra escola e, depois que a poeira baixou, divulgou anonimamente imagens de uma caderneta que encontrou na mochila, onde o juiz tinha anotações de algumas estratégias acordadas entre o técnico do time de monitores para garantir que a efetividade do time de marginais fosse prejudicada. Até mesmo o pênalti tinha sido previsto como plano B, caso houvesse o risco de o time de monitores não ganhar.

Obviamente que isso virou um escândalo e acabei sabendo. Mas para as pessoas que queriam ver o time fora do campeonato, aquilo não importava, era um “mal” menor, já que o maior benefício tinha sido alcançado: ao menos tiramos o time do campeonato. E mais, tais pessoas ainda conseguiam utilizar uma justificativa que me parecia surreal: “aquela caderneta foi roubada, ela não pode ser considerada para nada!” Não é espantoso? Uma caderneta que exibe os planos de um roubo não deve ser considerada porque essa caderneta só veio a público por meio de um roubo. Dá pra aguentar a moral dessas pessoas? E as explicações e minimizações que o árbitro do jogo deu sobre tais anotações? Um completo disparate. Só alguém muito cara de pau pra dizer aquilo. Mas, o mais triste mesmo foi ver quase todo mundo batendo palma e celebrando que, finalmente, a justiça tinha sido feita e aquele time de marginais tinha sido extirpado da competição.

Numa das conversas com meu primo eu lhe disse que nós, seres humanos, somo assim mesmo, muito contraditórios. Quando queremos muito algo, quando temos muita raiva, quando pensamos com a bile, não com o cérebro, aceitamos todo tipo de absurdo e fazemos toda a ginástica possível para justificar o injustificável, num profundo exercício de auto engano que permita nosso intelecto absorver o absurdo que for. Em esportes, principalmente no futebol, como as emoções contam muito, é até compreensível que isso aconteça. E, no final das contas, um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol. O problema mesmo é quando incorporamos essa moral dúbia e depois levamos esse tipo de comportamento para áreas mais “sérias” de nossas vidas, a política, por exemplo. Nesse caso, o estrago pode ser grande.


 




domingo, 3 de janeiro de 2021

O Cabeleira, o Demonão e o Marreco

“Em 23 de maio, os inimigos dos Andradas, apesar da relutância da Câmara de São Paulo, fizeram do povo e da tropa massa de manobra para evitar que Oyehnausen-Gravenburg deixasse o governe e que Martim Francisco tomasse posse”. 

Titília e o Demonão – a história não contada (Paulo Rezzutti)


Certa vez um amigo me enviou um vídeo no Youtube de uma magnífica interpretação do Aleluia, de Handel, por um coro europeu. Depois de apreciar o vídeo, respondi-lhe, concordando com a beleza da interpretação e com um comentário: tinha achado curioso o tenor, em algum trecho da fuga, ter feito uma nota que não é a nota a que eu estava acostumado. E anexei trecho da partitura, que pesquisei na internet, mostrando-lhe o registro com a nota que eu esperava, não a que estava sendo cantada. Depois de ouvir o trecho algumas vezes, meu amigo me respondeu, chocado com minha capacidade de ter percebido uma notinha específica no meio de uma fuga a 4 vozes mais a orquestra. Eu lhe respondi que conheço tão bem aquela partitura que uma nota diferente provavelmente soaria estranha e me chamaria a atenção.


É bastante comum nos impressionarmos com a capacidade das pessoas verem coisas que não vemos. Isso nem é tão impressionante assim: se estamos acostumados a uma questão em particular, somos capazes de identificar padrões ou exceções de forma mais rápida que outras pessoas que não estão acostumadas.


Nos últimos dias, estive conversando com um amigo pelo facebook e, novamente, se deu o embate tradicional: ele acreditando que Sérgio Moro e toda a investida do “Fora Dilma” fez parte de um ato patriótico contra a corrupção, uma tentativa de moralizar o país e eu, novamente, batendo na mesma tecla que sempre bati desde que começou a histeria coletiva “fora PT”, de que não estávamos vivendo um momento histórico de moralização do país, apenas mais um repeteco de um filme que acontece toda hora na nossa história, que corresponde a um suposto salvador da pátria que, com apoio dos poderosos, usa o povo como massa de manobra para atingir seus objetivos políticos.


No caso do episódio narrado no início desse texto, trecho do livro que estou lendo no momento e que me inspirou a escrever esses parágrafos, os inimigos dos Andradas eram nem mais nem menos que os chamados “capitalistas paulistas”, ou seja, o baronato paulista, o poder econômico que sempre mandou e desmandou. No caso do episódio Moro, a grande mídia, capitaneada pela Globo, fez o mesmo, dando suporte a Moro e usando a população como massa de manobra. Eu via aquilo tudo e me dava uma mescla de preguiça e desespero por ver como os brasileiros embarcaram tão dócil e ingenuamente naquela manipulação toda. Para mim aquilo não passava de déjà-vu.


Mas eu fui escorraçado por amigos, colegas, conhecidos, inimigos, tido como alguém pretensioso que acha que sabe tudo. Ao que eu sempre dizia: “gente, não se trata disso, não acho que sei tudo! Estudem a história do Brasil, estudem o poder dos meios de comunicação, vejam como os poderosos de cada época sempre utilizaram o povo como massa de manobra! O padrão é clássico! É mais um super-herói! Vocês só caem nessa conversa porque não estão enxergando o todo, são incapazes de detectar os padrões!”.


Enfim, até hoje, quando falo sobre isso, as pessoas ficam irritadas comigo, porque isso pressupõe de que elas caíram em um conto do vigário. E olha que eu nem falei dos prejuízos que tudo isso trouxe para o país. Tais prejuízos são simplesmente ignorados por conta da dissonância cognitiva que, no caso recente, tem sua manifestação mais acabada na lapidar frase “pelo menos tiramos o PT”.


Por isso é tão importante estudar História. Não apenas para conhecer o passado, mas para não repetirmos os erros dele. 


 




sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Um conto do Dia da Consciência negra



 (Baseado em fatos reais)


Mazi Mwan migrara da África para o Brasil. Na condição de refugiado. Um garoto esperto, super esforçado. Com ajuda de organizações não governamentais, conseguiu entrar na universidade por meio das cotas. Tudo bem que ele era visto com desconfiança dentro da universidade: lá vai o desgraçado que roubou a vaga do meu primo que ficou na classificação 4.230. Mas ele sabia do seu potencial.

Estava já no 3º ano e era aluno destaque da sua turma. Porque fora por meio das cotas que ele tivera a oportunidade de chegar à universidade, algo que os bem nascidos do país que o acolhera conseguiam muito facilmente somente por serem bem nascidos. O importante era que estava lá. Não importava se apontavam o dedo para ele.

Em um dos projetos escolares, visitaram uma importante empresa da cidade e lá fizeram um laboratório. Um representante da empresa perguntou ao professor que os orientava se havia algum aluno que ele indicasse para uma nova posição de trainee que estava surgindo na empresa, porque eles haviam gostado bastante daquela equipe. 

O professor, naturalmente, indicou seu melhor aluno, Mazi Mwan. Que ficou muito feliz, um sonho se realizaria. Ele era exemplo de superação: chegara da África como refugiado, com o auxílio de ONGs que lhe apoiaram em todo o processo de aculturação no país e preparo para a universidade, conseguira o ingresso na prestigiada universidade e agora estava prestes a ingressar no mercado de trabalho por um projeto trainee em uma conceituada empresa.

Mas algo estranho aconteceu: a empresa nunca o chamou. Intrigado, o professor entrou em contato com a empresa para saber se eles haviam desistido de abrir a posição de trainee. A informação que recebeu da empresa é que outro professor também havia sugerido outro aluno e eles preferiram o outro por se encaixar mais no perfil da empresa. Quem foi o outro aluno? – perguntou o professor. 

A revelação do nome do outro aluno lhe deixou mais confuso ainda. O aluno tinha um desemprenho bem inferior ao de Mazi Mwan e a empresa sequer tinha se dado ao trabalho de incluir Mazi Mwan no processo seletivo, adotando de cara a indicação do outro professor.

A única explicação que o professor encontrou para a preferência da empresa é que o outro aluno, de desempenho bem inferior ao de Mazi Mwan, era loiro e tinha olhos claros. Será que era isso que a empresa quis dizer quando afirmou que o outro se encaixava mais no perfil da empresa?

Quanto a Mazi Mwan, teve que lidar com sua profunda frustração. Mais uma, na vida de quem nasceu com “a cor errada”.

Por essas e por outras que o Dia da Consciência Negra é tão importante.