sábado, 26 de setembro de 2020
Compondo música com meu filho de 11 anos
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
Sobre o racismo e a invisibilidade
- Você percebeu que as pessoas não falam comigo, mas com você?
- Claro que não, é impressão sua.
- Será? Observe.
Sempre que parávamos para conversar com alguém na rua, ele se mantinha calado. Eu conversava com o(a) portenho(a) que simplesmente me ignorava e respondia para ele. Daí o diálogo era assim: eu falava com as pessoas que olhavam e respondiam para ele, ignorando totalmente minha presença.
Depois de algumas interações com outras pessoas logo após eu lhe sugerir que observasse o comportamento delas, ele reconheceu que eu tinha razão, impressionado.
- Não temos racismo: não temos negros aqui.
- Cadê o Sr. Obadias?
Eu percebi que a recepcionista explicou para ele, por mímica, que o Sr. Obadias estava sentado no sofá.
Pausa dramática.
Ele se virou com um sorriso ensaiado e disse algo como:
- Bom dia, Sr. Obadias!
- Esperava alguém alto, loiro e de olhos azuis? - não perdoei, claro!
Extremamente constrangido, ele tentou negar o óbvio.
Resolvi seu problema da forma mais impressionantemente rápida e eficiente que pude somente para deixá-lo humilhado na sua cretinice racista.
Ele, de fato, ficou bem impressionado. Espero que tenha servido de lição e que ele tenha refletido a respeito da sua imbecilidade.
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
Como trollar um bando de machista escroto
Algum lugar do passado.
Avenida Luis Carlos Berrini.
Primeira visita na área de TI de uma empresa, cliente, para tratar de um projeto de integração de dados. Trabalho na parte da manhã com minha visitada dando pontapé no projeto.
Almoço.
Ela me convida para ir almoçar com seus colegas de TI, “berriners” típicos.
No restaurante, a conversa sobrevoou por vários temas até que aterrissou no caso Eliza Samudio – goleiro Bruno. Com o preconceito e escrotidão típicos do ambiente corporativo (quem conhece sabe do que estou falando), os caras vomitaram seus preconceitos sobre a “puta” Eliza.
Eu me limitei a escutar.
Não sei se minha visitada sacou meu desconforto ou foi apenas um insight do nada mas, de repente, no meio da conversa, ela solta essa:
- O Obadias conhece a Eliza.
Pausa dramática.
Todo mundo olha pra mim com aquela cara de “oi???”.
Eu, que não sou de perder a viagem, na maior cara de pau confirmei: de fato, eu a conhecia, já que ela era minha prima de segundo grau. Sua mãe seria prima de primeiro grau de minha mãe. Justifiquei o parentesco com a ascendência italiana por parte de minha avó materna, o que é verdade, supondo que Samudio seja um sobrenome italiano. Se não é, não faz a menor diferença: colou.
De repente, o clima de “descontraída gozação” em cima da desgraça que se abateu sobre Eliza Samudio se tornou bastante constrangedor. Agora sérios, pediram mais detalhes sobre a jovem, como ela era, enfim, curiosidade mórbida de quem se vê de repente diante de um parente de algum notavelmente morto.
Improvisei histórias e relações fictícias dando a impressão de que estava apenas sendo educado com aquele bando de escroto que estava se divertindo às expensas de macular a memória de minha suposta prima.
No final me pediram desculpas e o assunto, obviamente, morreu, já que a gozação em cima de alguém que não podia se defender havia se tornado tecnicamente um insulto a alguém que estava presente.
Depois do almoço, quando voltávamos para o escritório, perguntei discretamente para a cliente que eu tinha acabado de conhecer: "O que foi aquilo?" Não me lembro de sua resposta, mas me lembro que ela tinha achado muito divertido. Talvez achasse seus colegas muito escrotos e tinha tentado a sorte de colocá-los em uma saia justa. Arriscou e deu certo porque trollagem é comigo mesmo.
Na visita seguinte eu lhe perguntei se ela tinha desmentido a história. Ela disse que não. Rimos muito e deixamos assim mesmo.
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Felipe e a literatura
Hoje o Felipe, 11 anos, que está na avó materna, me mandou um áudio de uma composição que ele acabou de improvisar, baseada no livro de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti que ele leu, João e Maria.
Texto que ele me mandou acompanhando o áudio:
João e Maria Op. 9 III - Floresta dos pesadelos
Nota do autor:
Nessa parte, eu retrato duas crianças perdidas, após serem abandonas, em uma floresta, à noite, com fantasmas e demônios, olhos negros atrás das árvores os observando.
Caminhando com medo.
Um vento forte soprando entre suas pernas, perdidos, sem onde ficar, lacrimejando de tanto medo.
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Já tive meu momento Weintraub também
Vi no noticiário que Weintraub quer sair logo do Brasil porque estaria sendo ameaçado. Mas também assumiu que tem medo de ser preso. Acredito muito mais na segunda possibilidade.
Daí me lembrei do meu 1º ano do 2º grau (na época) na então ETE Júlio de Mesquita, em Santo André. Tínhamos uma turminha e, quando tínhamos aula vaga por algum motivo, dávamos um jeitinho de escapulirmos (nem que fosse pulando o muro da escola às escondidas) e dávamos uma volta pelo centro da cidade.
Como eu era o mais baixinho da turma, a ideia era eu provocar alguém na rua. Divertíamo-nos porque a pessoa não reagia à minha provocação por causa da turma de grandalhões comigo. Até o dia em que encontramos um maluco mais maluco que a gente.
Na época a moda “new wave” estava no auge. Passamos por um cara vestido com uma calça toda quadriculada. À frente do grupo, perguntei:
- E aí, quantos quadradinhos tem nessa calça?
- Vem contar!
Não esperávamos tal reação. Meus colegas grandalhões não reagiram, ficaram mudos. Eu, por falta de alternativa, pus o rabinho no meio das pernas e passei de largo.
Depois que nos afastamos do maluco, caímos na risada. Ué, por que os grandalhões não reagiram e compraram a briga?
Enfim, de valentão, de repente, me vi obrigado a colocar o rabo no meio das pernas e sair de fininho.
Esse foi o meu momento Weintraub.
E o seu?
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Máscara
Comprei laranja e mamão enquanto a Flávia comprava verduras e legumes.
Antes de parar na barraca, achei que ela tinha ido para o fim da feira.
Saio de frente da barraca e fico parado na calçada oposta, onde há um vão livre, quase atrás de uma barraca de utensílios domésticos.
Longe das pessoas, fico de olho no movimento, para me dar conta quando a Flávia passar retornando do fim de feira.
Um casal de pretos se aproxima.
- Moço, quanto está o chinelo?
- Hoje está de graça, pode levar.
O feirante, que atende outra pessoa, fuzila-me com o olhar.
Mentira. Meu raciocínio não foi tão rápido o suficiente para me propiciar esse momento de divertimento.
Sorrio levemente com meu sorriso preto debaixo de minha máscara preta e o leve meneio de minha cabeça completa a mensagem para ela, que aparentemente sorri de volta seu sorriso preto, quem sabe emoldurado por seus quem sabe belos e alvos dentes, por baixo de sua máscara florida.
O marido a tudo acompanha, silencioso, debaixo de sua máscara cujas características não são captadas por mim, afinal meus sentidos estão sugados pelo diálogo com sua mulher, como sói ocorrer em situações equivalentes.
O feirante, um improvável japonês para aquele tipo de barraca, com traços nordestinos termina de atender outro cliente, informa-lhe o preço, ela agradece e desaparece com o marido preto cuja cor da máscara não fui capaz de observar.
O feirante que, pensando bem – não será um nordestino de ascendência indígena? Isso realmente parece mais provável – continua seu labor com sua máscara preta com o brasão corintiano, agora que meus sentidos estão desbloqueados, sou capaz de observar esse detalhe.
É, parece que a Flávia não foi para o fim da feira. Melhor ir para o carro. Ela deve estar lá me esperando.
terça-feira, 26 de maio de 2020
DEJAVU
Na rua o autofalante do carro anuncia os ovos e a mandioca baratos (nossa, somente agora o trocadilho me ocorreu!).
- Bada, avisa o cara que vou pegar dinheiro pros ovos!
Corro no portão, e pela fresta, assobio.
Ele ouve, para.
Volto pego a chave.
Abro o portão.
Saio para a calçada.
Olho toda aquela imensidão da rua deserta.
A sensação de que já estive naquele lugar antes é indescritível.



