quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

As segundas núpcias do Pastor

O Pastor era uma figura respeitada e admirada na sua comunidade. Podia-se dizer dele alguém com uma inquestionável vocação pastoral. Sua vocação também tinha explicação de berço. Filho caçula, de uma família com dois filhos, seu irmão 6 anos mais velho sempre fora um problema. Seus pais eram o típico casal de cristãos tradicionais e tementes a Deus. Apesar de todo esforço dos pais na educação dos filhos, o mais velho sempre lhes trouxera dores de cabeça. Na adolescência envolvera-se com más companhias e drogas. Apesar de caçula, o futuro pastor sempre fora capaz de perceber o que seu irmão mais velho estava a aprontar, mesmo quando os pais não desconfiavam. Mas ele não entregava o irmão para os pais porque via a dor que isso causaria neles. Por outro lado, ele também sofria pois não tinha como ajudar seu irmão mais velho que, apesar de tudo, era seu herói, por causa do seu caráter transgressor, um contraponto ao estilo tão conservador dos pais. Ele acabava sendo o eixo que equilibrava a tensão entre o irmão e os pais. Um pastor precoce. Um dia, em um assalto com outros jovens amigos tresloucados e drogados, seu irmão foi morto.

Seus pais nunca se recuperaram do golpe. Mas agradeciam a Deus por lhes ter dado o caçula, um garoto tão exemplar, tão admirável, a salvação da lavoura. O mais velho não dera certo. Mas esse seria um sucesso.

E foi: formou-se na faculdade de Arquitetura, embora seu coração estivesse mesmo nas pessoas problemáticas que cruzavam sua vida, como seu irmão mais velho. Não resistindo ao chamado, em vez de tentar a carreira de arquiteto, ingressou em um seminário. Formou-se com destaque, foi o orador de sua turma e foi lá que conheceu sua noiva. Uma jovem discreta, de modos delicados, a nora perfeita. Seus pais ficaram maravilhados. Deus tinha sido bondoso demais com eles ao compensar a dor do primeiro filho. Casaram-se na igrejinha de bairro onde ele crescera e seus pais frequentavam. Tiveram dois filhos, um casal. O primogênito e uma menina 2 anos mais nova.

Sua vocação saltava aos olhos e rapidamente ele pastoreava uma igreja. Depois outra, outra e mais outra. Até o dia em que foi convocado para um desafio internacional. Lá foi ele com a esposa e os filhos pequenos. Um sucesso. Sua sensibilidade para a dor alheia e a companhia de sua discreta e adorável esposa, fizeram-nos notórios no aconselhamento de famílias despedaçadas. E como eles recuperaram lares destroçados...

Passou muitos anos no exterior, até que voltou para seu país de origem, os filhos já adolescentes. E, um belo dia, sem nem mais nem porquês, eles avisaram, o mais discreto que podiam, que estavam se separando. Foi algo que chocou toda a comunidade. Só não foi um escândalo porque eles se separaram silenciosamente, sem vexames públicos, claramente amigos. Houve até quem dissesse que, na realidade, estavam se separando porque cada um queria servir melhor ao Senhor de forma individual: só podia ser. Usando suas economias amealhadas ao longo de mais de 20 anos de casados, puderam comprar 2 casas modestas e dignas. A mãe ficou com a garota, o pai com o menino. Até nisso eles foram exemplares. Serviram até de modelo para os que diziam ser lícito separar-se e, em alguns casos, até necessário e de boa espiritualidade, como se podia notar pelo fim do casamento do Pastor e sua digníssima esposa.

A separação durou um ano sem novidades. Tempo suficiente para eles se divorciarem e as pessoas se acostumarem com a ideia, os mais incrédulos por fim se convencerem de que não se tratava de uma pegadinha, afinal, até mesmo um casal perfeito e que restaurava famílias à beira da destruição poderia se separar.

Foi quando o Pastor avisou umas poucas pessoas que iria se casar novamente. Espanto e incredulidade generalizados novamente. Como seria possível isso? A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora. Todos julgavam que, uma vez separados, eles se manteriam “viúvos” para o serviço cristão! Qualquer um poderia se separar e casar novamente. Não aquele casal! Eles estavam muito acima disso! A separação se justificava porque provavelmente haveria algum propósito espiritual naquilo. Mas... casar-se novamente? Incompreensível!

O casamento foi marcado para alguns meses depois. Mas havia um fato intrigante: o Pastor não namorava ninguém, não se sabia quem era a noiva! Ele também mantinha sua reserva que era tão peculiar: não divulgou a ninguém quem seria a agraciada. Obviamente, toda essa desinformação gerou ainda mais especulação. E havia quem apostasse que, agora fazia todo sentido: ele iria confirmar os seus votos de casamento espiritual com a sua vocação! Somente alguém da sua estatura seria capaz de deixar até mesmo mulher e filhos para se dedicar totalmente à obra do Mestre. Enfim, as pessoas possuem uma imaginação muito fértil.

Nem é preciso dizer que, no dia do seu novo casamento, na mesma igrejinha de bairro onde se casara pela primeira vez, havia um público bem maior que a igreja comportava. Todos queriam saber quem era a noiva secreta. Muitos apostavam que não passava de um rito de elevada espiritualidade. Estavam tão excitados com a insólita ocasião, que ninguém sentiu a falta da ex-esposa e dos filhos.

O Pastor tampouco convidou qualquer outro ministro do evangelho para fazer seu casamento, daqueles que faziam parte do seu grupo mais próximo. Preferiu convidar um pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que nunca se casara. Na realidade, o celebrante do casamento ou quaisquer outras pessoas presentes eram mero detalhe, porque as pessoas queriam ver mesmo era quem seria a noiva, que até aquele momento não tinha dado o ar da graça. Na realidade, havia até algumas candidatas, mulheres na flor da idade e que consideravam o Pastor separado um partidão. E, nesses momentos, as más línguas ficam muito afiadas. Mas algumas delas já haviam sido descartadas de cara, porque faziam parte da assistência curiosa, elas, que, além de curiosas, tinham aquele olhar de ansiedade das viúvas por antecipação. Mas algumas não apareceram. Eram fortes suspeitas, portanto. Houve até mesmo aqueles mais desrespeitosos que, com um sorriso nos lábios, arriscavam um “Pastor safadinho!” quando pensavam nas virtuais candidatas, as ausentes.

Enfim, a cerimônia começou, a música serena, o Pastor entrou sozinho, mais ninguém, padrinhos, nada e, como tudo ali estava fora de lugar, ele pediu permissão ao celebrante para se dirigir à congregação.

Obviamente, ele podia, apesar de ser uma situação igualmente incomum. Dirigindo-se à assistência, com sua calma peculiar, ele começou a explicar o motivo de suas novas núpcias. O motivo é que, desde garoto, ele travara uma luta interna. Tivera uma vida de muitas renúncias e sofrimentos porque ele tinha que dar certo. Sempre fizera o que julgava o correto, o que Deus tinha preparado para ele. Dedicara-se a cuidar das pessoas, casara-se com uma mulher maravilhosa, sábia, que edificara o seu lar, que lhe dera dois lindos filhos e que, compreensivelmente, não estava presente naquele dia. Foi então que, envergonhados, os presentes se deram conta que não tinham dado até então pela falta do restante da família do Pastor. E o Pastor continuou: ele lutara toda sua vida contra o espinho na carne, pedira a Deus que o retirasse, mas nunca fora atendido. Chorara muito, penitenciara-se com o cilício da reclusão, do fechar-se em si mesmo. Até que um dia resolvera abrir-se para sua esposa, aquela mulher sábia, a única que talvez o compreendesse. Ela o ouviu, chorou muito com ele. No final das contas, disse-lhe que o seu papel de esposa era apoia-lo no que fosse preciso e era isso que ela faria. Mas, depois daquele dia, ele foi sentindo cada vez menos o peso da cruz que carregava e, não sabia como, se perdera. Ou se encontrara. Não dava para saber direito o que ocorrera. Mas foram necessários 4 anos para que seu casamento chegasse ao final. Da cumplicidade inicial da esposa, apesar da dor no primeiro momento, eles foram se distanciando gradualmente. A relação foi esfriando. E passou a achar que era injusto prendê-la naquele casamento que, por conta da sua confissão, fora ferido de morte. Foi quando se separaram.

O restante havia sido consequência. Cada vez mais ele se sentia aceito, perdoado, livre. Ainda que isso lhe parecesse tão estranho, tão surreal, tão fora dos valores que ele tanto predicara. Mas ele havia tomado uma decisão importantíssima e definitiva que tinha potencial de destruir toda sua carreira pastoral. E, com efeito, ele acreditava que isso aconteceria. Parou, respirou fundo, sorriu: “Hoje me caso com ele!” E se voltou para o pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que nunca se casara.

Estupefação! Torpor! Ignomínia! Revolta! Opróbrio! Desmaios! Incredulidade! Enjoo! Desespero! Ainda bem que seus pais já estão mortos para não passarem por essa humilhação! Ninguém sabe direito o que aconteceu depois. Foi tudo muito desorganizado. Num primeiro momento se ouviu um “oh!!!” geral e irrestrito, que durou alguns intermináveis segundos, aquela tensão insuportável no ar. Em seguida, fez-se um silêncio sepulcral, em que o Pastor aproveitou para tentar retomar a cerimônia da forma como ele planejara. Mas ninguém estava mais prestando atenção no que ele dizia: as mentes estavam travadas, em estado de choque. Três senhoras, das mais tradicionais da congregação, levantaram-se e começaram a se retirar. Um primo do Pastor, que não era lá muito dado a etiquetas, cerimônias, vaticinou em bom tom, interrompendo a fala do Pastor: “Primo, elas não vão ao banheiro, não! Elas estão indo embora mesmo!” Foi a senha. Um a um foi tomando coragem e abandonando o templo entre decepcionado e confuso.


No final restaram apenas o Pastor, o outro pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que finalmente estava se casando, o primo, que estava achando aquilo muito engraçado, e umas 10 pessoas que, num misto de êxtase e incredulidade, voando no tempo e no espaço, com um mal desenhado, mal disfarçado esboço de sorriso nos lábios, não conseguiam se despregar de seus assentos. Nem piscavam...

sábado, 10 de janeiro de 2015

Por toda minha vida

Por toda minha vida foi uma música que me cativou desde a primeira audição na voz da Elis Regina. O arranjo inicial já sugeria algo meio barroco. Mas foi ao ouvir a interpretação de Mônica Salmaso e Paulo Bellinati (violão) que o potencial mais barroco, polifônico, da música me ocorreu. A partir da ideia básica do diálogo entre o violão e a voz da Mônica, escrevi o arranjo a cappella.

A interpretação da Elis Regina, como tudo o que ela fazia era visceral. Mas o clima mais barroco da primorosa versão da Mônica Salmaso e do Paulo Bellinati me cativaram demais. Enquanto ouvia o violão dialogando com a voz da Mônica, eu imaginava como ficaria se fossem vozes fazendo um contraponto. Aquela imagem não saiu mais da minha cabeça e, um dia, enquanto fazia compras no supermercado, me ocorreu a primeira frase do arranjo, o diálogo da linha do baixo com a primeira nota da melodia, que poderia ser longa, uma fermata talvez. Empolguei-me. Ainda no supermercado me ocorreram algumas ideias de contracanto para as frases seguintes. Repeti-as várias vezes para não esquecer e, chegando em casa, a partir dessa ideia básica, tinha o ponto de partida para escrever o arranjo. E foi um arranjo escrito quase que a toque de caixa, já que não havia muito o que fazer e a música era curtinha.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Compadre Gavião e Compadre Urubu

(da série Contos da dona Ilza)

Diz que o Compadre Gavião estava com muita fome e resolveu sair em busca de algo para comer. Voou, voou, até que encontrou o Compadre Urubu. O Compadre Urubu vê o Compadre Gavião naquela aflição toda e lhe pergunta:
- Onde você vai, Compadre Gavião, tão afobado?
- Eu vou ali achar alguma coisa pra comer! Vamos comigo, compadre?
- Nãão, compadre, responde gravemente o Urubu, eu só como quando está morto, assim, sem pressa. Não gosto de sair atrás das coisas, não.
- Mas vamos comigo, me acompanhe!, insiste o Gavião.
- Não, eu só como quando está assim, deitado, no chão, quando já está morto. Eu não gosto de sair procurando a comida assim, desesperado!
- Mas vamos comigo, compadre, você vai comer já já!
- Tá bom!
É tanta a insistência do Gavião que o Urubu cede.
O Gavião, voando bem à frente, se perde em suas preocupações: “É já que eu vou encontrar alguma coisa pra comer com o Compadre Urubu.”
Logo mais à frente há uma árvore ressequida, toda escangalhada, cheia de pontas, e o Gavião, voando naquela euforia, não se dá conta e, numa fração de segundos... ploft!, estatela-se contra uma ponta de pau e fica travado. Desesperado, começa a bater as asas freneticamente.
Nisso vem chegando o Compadre Urubu lá de trás, na maior tranquilidade...
Quando o Gavião olha de lado e vê que o Urubu vem chegando, suplica:
- Compadre Urubu, pelo amor de Deus, me tire daqui! Tire eu daqui, compadre, que eu não vi esse toco! Eu me enganchei aqui!
O Urubu calmamente lhe responde:
- Não, compadre, você se esqueceu? Eu só como os mortos...
- Nããão, compadre!!! Pelo amor de Deus!!!!! Não vai fazer isso comigo, não!
- Mas compadre, eu só como quando está morto mesmo...

domingo, 9 de novembro de 2014

O programa

Ele não assistia muita televisão. Não tinha muita paciência para assistir programas, jornais ou mesmo filmes. Gastava seu tempo em frente à TV zapeando pelos canais, sem se fixar em nada. Por isso, conhecia quase todos os programas mas não conhecia nenhum muito bem. Os programas de auditório lhe pareciam ridículos e, se existe algo que ele não faria na vida, seria participar de um programa desses. Aquelas pessoas imbecilizadas rindo dos comentários sem graça dos apresentadores.

Um dia um amigo vizinho de bairro lhe perguntou se ele toparia lhe acompanhar a um programa de auditório. Inicialmente ele relutou mas depois a ideia lhe pareceu fantástica. Aparecer na TV, participar da experiência de algo que seria visto talvez por milhões de pessoas, aquela vibração toda... Ele topou sem reservas. Seu amigo cuidou dos aspectos burocráticos e, naquela manhã ensolarada, lá estavam os dois juntos com a pequena multidão recebendo as instruções e o lanchinho antes de começarem as gravações.

O programa começou, ele se sentou mais ou menos no meio da plateia que lhe lembrava, assim meio distante, a disposição de um cinema, se é que ele já havia estado em um cinema antes. O programa lhe pareceu interessante e a apresentadora chata era apoiada por diferentes colaboradores em quadros distintos. Um dos colaboradores apresentava um quadro com curiosidades do mundo do entretenimento e, naquele dia, trouxera uma reportagem de pessoas comuns – e desconhecidas – sósias de famosos. A reportagem promovia o encontro entre ambos e o ponto alto da reportagem era uma cidadã daquele país sósia de uma das maiores estrelas de Hollywood, a Anne Hairgrow. A repórter havia conseguido uma entrevista com a atriz e, ao colocar as duas mulheres frente a frente, era impressionante a semelhança entre elas; a desconhecida mal conseguia conter sua emoção e não disse nada, mesmo porque não entendia bulhufas do que as outras duas conversavam.  De forma inusitada, a repórter incentivara um abraço entre ambas; a atriz abraçou a desconhecida de forma cálida e afetuosa e recebeu em contrapartida um abraço frouxo e um tanto esquivo da anônima.

No final da reportagem, um desafio foi proposto aos presentes e aos colaboradores da apresentadora chata: descobrir o motivo pelo qual a desconhecida não entendera nada da conversa. Várias possibilidades foram levantadas, mas a mais plausível era porque ela não conseguiria rebater uma bola no chão com as mãos a uma certa velocidade determinada pelo ritmo de uma música romântica que iria ser tocada. Trouxeram uma bola de plástico pequena, colocaram a música para tocar, e o primeiro a tentar cumprir o desafio foi o repórter que apresentara o quadro. Sem chance: ele era incapaz de se adequar ao ritmo da música. Conseguiram outra bola, uma enorme, e nada! Os participantes foram convidados a encarar o desafio e fizeram uma fila para ver se conseguiriam. Ninguém conseguia. Foi quando ele, inquieto na sua poltrona, se levantou, invadiu o palco e disse o óbvio: “gente, basta colocar uma mesa dessa altura, subir em cima e rebater a bola a partir daí que se consegue fazê-lo no ritmo da música!” Utilizando o seu alto poder de improvisação, os assistentes de palco conseguiram uma mesinha, convidaram um dos participantes do programa que, coincidência, vinha a ser um vizinho seu da rua de trás, que subiu na mesinha, não sem antes responder ao seu cumprimento de “aê, truta!”, seguido de 23 toques diferentes de mão.

O desafio do quadro havia sido cumprido graças à sua intervenção mas, antes de refazerem o cenário, a apresentadora lhe chamou discretamente e lhe disse que ele não deveria ter se manifestado sem ser chamado e que seu cumprimento ao outro participante solicitado fora totalmente desnecessário e tumultuara o programa. Bastante desconfortável, ele retornou à sua poltrona e continuou a acompanhar o programa. Mas o fato é que o episódio com a apresentadora lhe deixara profundamente chateado e tudo aquilo perdera seu encanto. Acometido por uma sonolência incontrolável por causa da chatice que se tornara o programa, ele resolveu puxar um travesseiro e se acomodou ali mesmo na poltrona. Já estava quase engatando um sonho quando foi desperto, de maneira brusca, pela apresentadora que, com todas as câmeras voltadas para ele, o repreendia duramente por dormir durante o programa, algo extremamente deselegante.

Aquilo foi demais para ele. Do mais íntimo de suas entranhas foi surgindo uma gastura, um calor revolvendo seus órgãos internos, uma raiva incontida que foi crescendo rapidamente, subjugando-o até que explodiu pelo peito e a dor resultante saltou para fora em frases desconexas e impropérios. E ele esbravejou, xingou, descarregou todas as injustiças sofridas por seus ancestrais, sua raça, seus amigos, seus inimigos, todas vítimas daquele sistema falido, corrupto, perverso, insano, vil, que triturava as pessoas, que fazia o que queria delas, que zombava dos indefesos, que espoliava as velhinhas, que surrava os mais fracos! Gritou até ficar quase rouco. Não escapou ninguém, nem mesmo o dono da padaria que no dia anterior havia lhe devolvido 15 centavos de troco a 1 real que ele havia dado para pagar os 2 pãezinhos que custaram 81 centavos e que se fosse justo e desprendido o dono da padaria arredondaria para 80 centavos que estava mais próximo não para 85 num claro desrespeito à sua inteligência e dignidade não era pelos 4 centavos era porque aquele dono da padaria era mais um agente daquele sistema corrupto e diabólico que faz questão de oprimir os mais fracos os mais gentis os mais distraídos aquele filho da puta avarento!

E como sua raiva não terminava nunca e ninguém ousava pará-lo, estupefatos que estavam de sua inesperada reação, resolveu ligar o piloto automático, sair de si mesmo e se sentar numa poltrona próxima para se deliciar também com o espetáculo. Foi quando ele se deu conta do patético da situação. Correu rapidinho para dentro de si e encerrou o espetáculo tão logo pode controlar a torrente que emanava de sua garganta. Parou ofegante, suado e meio zonzo. Envergonhado, começou a se afastar, trôpego, rumo à porta de saída.

Uma jovem senhoura foi a única a reagir e ensaiou uma reprimenda com o dedo em riste quando ele passava por ela: “Seu maluco de...” Mas ele ainda tinha bala na agulha e a interrompeu bruscamente: “Epa, epa, epa! Pega esse dedo nojento e enfia bem no meio do seu nariz, sua puxa-saco!” E arrematou: “Pensou que eu iria dizer outro lugar, né? Não dá porque ele está cheio de merda!” A assistência explodiu numa gargalhada.

Em passos rápidos ele alcançou a porta lateral e se meteu em um corredor escuro, rumo à saída, ainda a tempo de ouvir a apresentadora chata chorando inconsolavelmente em uma sala no piso superior, ao fundo do estúdio de gravação, provavelmente a sala do diretor do programa, se é que existe isso.


Lá fora, uma garoa fria e irritante caía. Ele se encolheu, escondeu as mãos nos bolsos da calça e sumiu no escuro da noite meneando a cabeça: “bando de malucos!”

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O pernilongo

Há pouco, na praça de alimentação, enquanto lia minha revista sentado à mesa e aguardava a senha avisar-me que a salada caesar estava disponível, vi um pernilongo, ignorando solenemente o risco capital que corria, pousar na mesa junto a mim e ficar, aparentemente, exercitando suas patinhas (desconheço os hábitos dos pernilongos quando não estão a se deliciar com a seiva humana). Sua desatenção ao perigo que estava exposto era tanta que ele parecia desafiar-me: mate-me, mate-me! Um movimento súbito com a revista e ele estaria liquidado. Entretanto, dominado por um incontrolável sentimento de ternura, por um derrame de compaixão por aquele tão minúsculo e frágil ser, feito um spharion, o máximo que consegui de reação, depois de uma breve reflexão sobre a inutilidade do meu projeto assassino, foi enxota-lo suavemente com minhas folhas de celulose plastificada, como quem lhe dava mais uma chance de se aventurar e arriscar mais um banquete com o sumo de alguma pele desprevenida, antes de final e irremediavelmente ser despachado para o reino dos desencarnados, em um futuro próximo.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Oração de um paulista crente que votou certo no segundo turno da eleição presidencial

Essa noite, preocupado com o futuro incerto do nosso país por causa da grande burrada que foi o resultado da eleição do domingo, perdi o sono. Resolvi levantar para interceder pela nossa nação mas, quando dobrei os joelhos, apesar do buraco sem fundo que estamos nos metendo, só me vieram palavras de agradecimento a Deus:

Obrigado, Senhor, pelas tuas bênçãos, teu favor ilimitado que esclareceram tanto minha mente e fizeram de mim alguém com tanto discernimento. Obrigado, Senhor, por abrir meus olhos para enxergar o que a maioria dos brasileiros não vê. Obrigado, Senhor, por me dar inteligência e empreendedorismo para vencer na vida. Obrigado, Senhor, por não me fazer preguiçoso e, mesmo saindo de uma família humilde do ABC paulista, ter sido sempre trabalhador e não precisar mendigar nenhum programa social para vencer na vida. E eu venci, Aleluia! Obrigado, Senhor, por ter me feito nascer no ABC, terra com tantas oportunidades de emprego que eu, tinhoso como sou, sempre soube aproveitar. Obrigado, Senhor, por ter me feito responsável, cumpridor dos meus deveres, cidadão de bem, que estudei numa das tantas faculdades que existem por aqui. Obrigado, Senhor, por eu ter utilizado todo esse conhecimento e sabedoria conseguidos à custa de muito estudo e trabalho honesto para saber o que é melhor para mim e para aquele miserável nordestino preguiçoso e analfabeto.

Aliás, obrigado, Senhor, por não me fazer indolente com os nordestinos que só querem viver à custa do bolsa miséria. Obrigado, Senhor, por ver que os paulistas, assim como eu, rejeitam essas esmolas do governo corrupto do PT. Obrigado, Senhor, por saber que São Paulo não precisa disso, que essas bolotas de porco sejam despejadas nesses nordestinos burros e bovinos. Obrigado, Senhor, por colocar pessoas sábias como o Diogo Mainardi para denunciar essa calamidade. Só não entendo, Senhor, porque São Paulo é um dos maiores beneficiários do bolsa esmola! Isso só pode ser fraude e a corrupção típicas do PT desmoralizando o programa: nordestinos safados que devem estar utilizando dois endereços diferentes, um naquela terrinha ridícula e outra aqui nesse local de tantas bênçãos, para ganhar o benefício em dobro. Aliás, um governo que, para ganhar uma eleição tenha que recorrer à fraude, eu li por aí, só pode dar esse tipo de incentivo mesmo. Obrigado, Senhor, por não ter permitido que eu nascesse naquela terrinha miserável de gente feia e fedida que nem banho toma, afinal, nem água lá tem! Obrigado, Senhor, por ter dado sabedoria e inteligência aos meus pais que, quando se casaram, saíram daquele lugar de gente deplorável e vieram aqui para essa terra de oportunidades, onde construíram uma família linda e de quem me orgulho bastante. Só lamento que essa gente preguiçosa nordestina, que vive às custas das esmolas dadas pelos analfabetos, corruptos e comunistas do PT, quando quiser subir na vida, venha pedir emprego aqui nessa terra maravilhosa governada com tanta competência pelos acadêmicos, ilustrados e distintos políticos do PSDB. Que apodreçam no nordeste, porque São Paulo é lugar de gente ordeira, trabalhadora.

Senhor, quando chegar no teu reino, além de querer conhecer pessoalmente Abraão, Isaque e Jacó, quero fazer duas perguntas que me incomodam bastante: a primeira, para onde vão as canetas quando desaparecem, a segunda, porque São Paulo é uma terra tão próspera, tão cheia de gente de bem, trabalhadora, que leva esse miserável país nas costas, que paga o bolsa esmola desses desocupados do nordeste, enquanto o nordeste é um lugar tão desagradável, pobre, cheio de gente inferior e analfabeta. Apesar de eu ser extremamente culto, inteligente, ler tantos livros, conhecer tudo de História, principalmente a do Brasil, ter um discernimento acima da média, como é comum nos paulistas bem sucedidos como eu, e se não bastasse, estar cercado de amigos igualmente notáveis como eu, muitos deles praticamente cientistas políticos, outros economistas informais de extraordinário saber, e como dizia, apesar disso, eu não entender porque essa discrepância toda entre nordeste e sudeste. Que carma esse miserável povo do nordeste tem, Senhor? Qual foi o pecado deles? E eu, por que Senhor, tenho que ficar sustentando esse bando de vagabundos? Eu sei, Senhor, que os seus desígnios são profundos, incompreensíveis, e o entendimento total desse mistério só terei quando estiver nas Bodas do Cordeiro ou quando chegar no Paraíso, se eu morrer antes do Arrebatamento.

Também entendo, Senhor, que a vitória do PT foi sua vontade permissiva, porque tua boa, agradável e perfeita vontade seria o PSDB ganhar porque assim ele acabaria com essa palhaçada dessa bolsa miséria o colocaria os vagabundos do nordeste para trabalhar. Nós, teus servos, falhamos quando não oramos e jejuamos suficiente. Seu servo Marco Feliciano até nos conclamou para tirarmos esse partido diabólico do poder mas nós somos desunidos: falhamos! Perdão, Senhor.

Mesmo assim, Senhor, tua benignidade é tão grande e a despeito de nossas falhas, tu nos abençoa sempre, até mesmo por meio de uma jesuscidência! Justamente agora, nas vésperas da eleição presidencial é que comprei meu Hyundai HB20 branco zero quilômetro. Foi em boa hora para poder postar uma foto no facebook com minha bênção e esfregar no nariz dos meus primos vadios nordestinos qual a diferença entre quem depende do bolsa esmola e quem trabalha de fato. Obrigado, Senhor! Momento melhor não havia. Ah, e ademais para mostrar aos meus vizinhos, invejosos e não invejosos, que eu também posso comprar um carrão, que eu sou servo de Deus, que fui colocado por cabeça, e não cauda! Eu te peço, Senhor, que nunca me falte emprego para eu poder pagar as 60 parcelas do financiamento e desde já eu repreendo toda cilada do inimigo, declaro que o diabo está derrotado e o devorador não tem poder sobre minhas finanças! Eu sei em quem tenho crido e tu és fiel, dia após dia, por isso não me faltará dinheiro para continuar pagando o seguro, o IPVA, as revisões e a gasolina aditivada, porque declaro que só vou colocar combustível decente na minha bênção.

Senhor, obrigado, obrigado, obrigado, eu te louvo, eu te adoro, acima de tudo eu te amo, por me fazer um paulista inteligente e não um nordestino burro.


Em nome de Jesus, Amém.


(Se você chegou até aqui e se sentiu ofendido ou achou o texto muito estranho, deixa-me explicar: esse é um texto irônico. Textos irônicos por vezes são difíceis de serem compreendidos. A ideia do texto é mostrar como esse tipo de pensamento, que infelizmente surgiu bastante nas eleições presidenciais de 2014, é ridículo. Procurei colocar cores fortes mas ainda assim algumas pessoas me disseram que há de fato pessoas que pensam exatamente assim, o que mostra o quanto isso é triste. Eu me inspirei em uma parábola de Jesus, a do fariseu e do publicano, em que o fariseu se julgava melhor que o publicano. É essa postura condenável que vemos em muitos cristãos, paulistas em particular, que se julgam melhores que nordestinos que votaram em uma alternativa política diferente das deles. Duplamente lamentável por se dizerem cristãos, já que tais atitudes demonstram que não entenderam direito a mensagem do cristianismo. Finalizando, paulistas arrogantes e xenófobos que se julgam melhores e mais inteligentes que nordestinos, não passam de infelizes tolos e patéticos)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Gloria – Francis Poulenc

Gloria – Francis Poulenc


Eu iniciei minha caminhada pela música de concerto (música clássica) pelos russos. Quando eu tinha por volta dos 10 a 12 anos, eu ouvia os russos incansavelmente, e as peças que mais me marcavam eram Uma Noite no Monte Calvo, de Mussorgsky e Danças Polovtzianas da Ópera o Príncipe Igor, de Borodin. Essa última na versão com coro, conseguia me deixar praticamente em transe. Mais tarde expandi meus horizontes e descobri a França. Os franceses foram minha segunda paixão musical.

O cristianismo proporcionou um incalculável legado às artes em geral. Na música não foi diferente. Há incontáveis obras escritas a partir da motivação religiosa e, nesse particular, há uma categoria delas dedicadas exclusivamente à missa católica. Há uma quantidade imensa de obras-primas baseadas na sua estrutura principal: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. No caso dos franceses, há uma composição específica que é bastante peculiar: Gloria, de Francis Poulenc. Em vez de musicar toda a missa, ele musicou somente essa seção. Ele escreveu a peça para coro e orquestra. Considerando a categoria “coro”, apesar de tantas obras-primas compostas pelos franceses, essa é minha obra coral preferida.

Poulenc também é um músico especial para mim por dois motivos. Primeiro, como sou músico – ainda que não me dedique a isso profissionalmente – encontro algumas semelhanças entre minha formação e a de Poulenc. Poulenc só estudou harmonia; os demais fundamentos eram explorados intuitivamente: contraponto e orquestração. Eu também só estudei harmonia. E mesmo antes de estuda-la, eu já considerava essa semelhança porque a harmonia foi sempre o que me atraiu mais. E essa peça, Gloria, do ponto de vista harmônico me excita demasiado. É muito rica. Além do mais, a escolha de compassos irregulares na peça também me agrada demais porque isso a deixa muito mais interessante para mim. O segundo motivo diz respeito à sua homossexualidade. Por meio da música, desde garoto aprendi a admirar a sensibilidade dos homossexuais. O meu grande herói orquestral sempre foi Tchaikovsky. Suas melodias e orquestrações tocavam minha alma de uma forma que nenhum outro compositor conseguia. Vez por outra eu topava com alguma coisa assim, de algum compositor, e de repente tropeçava com algum texto falando sobre sua homossexualidade. Samuel Barber, norte-americano e Francis Poulenc são exemplos de compositores que ouvi, alguma peça em particular me tocou de forma como outra jamais havia conseguido, e depois descobri que o cara era gay. No caso de Poulenc, a peça em questão é essa.

Antes de colocar algo específico sobre a peça, há uma coincidência também: minha primeira paixão foram os russos, incluídos os russos de um grupo de compositores nacionalistas que foram chamados de “Grupo dos Cinco” (Mussorgsky, César Cui, Rímski-Korsakov, Balakirev e Borodin), dos quais o que eu mais apreciei sempre foi Korsakov (Tchaikovsky e Korsakov foram meus heróis musicais russos da adolescência, seguidos de perto por Stravinsky). Já Poulenc fazia parte do chamado “Les Six”, claramente inspirado no grupo russo, formado por Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Darius Milhaud, Francis Poulenc e Germaine Tailleferre, dos quais eu só conheço de verdade Poulenc; a galeria de gênios franceses que os precedeu é tão importante que deve ter obscurecido esses músicos que nasceram na virada do século XIX para o XX.

Especificamente sobre a peça, não é de fácil assimilação para um ouvinte pouco familiarizado com o estilo. Ele utiliza coro, orquestra e solista. Utiliza uma sofisticada harmonização que remete claramente a Stravinsky, alterna bastante a dinâmica da música, algo que me agrada demasiado, e utiliza melodias que me trazem por vezes a sensação de que, com elas, poderia flutuar em um espaço livre da gravidade.

A peça é dividida em 6 partes:

·         I. Gloria in excelsis deo – uma introdução orquestral inicia a peça e prepara o coro para a crescente entrada do coro numa melodia vigorosa. Gosto de como a frase do coro termina, em um acorde dissonante
·         II. Laudamus te – essa parte é alegre, brincalhona, um pouco longe do espírito sóbrio e pesado de uma missa. Poulenc chegou a dizer que partes da obra foi inspirada em uma partida de futebol jogada por monges beneditinos que ele tinha assistido. Não duvido que tenha sido essa. Aliás, há um trecho em que a peça atinge o clímax e, depois de uma grande tensão, é interrompida e retomada com uma melodia muito melancólica para depois retomar ao tema inicial, alegre. Esse trecho teria sido um pênalti seguido de um gol tomado, revés sofrido pelo time que ele estava torcendo? Sacrilégio! J
·         III. Domine deus – o solo de soprano nesse trecho é pungente; a harmonização e o coro dando o pano de fundo já quase me levaram às lágrimas em algumas das minhas incontáveis (mais de cem, talvez) escutas ao longo dos anos.
·         IV. Domine fili unigenite – a introdução orquestral desse movimento me parece genial; o diálogo que a orquestra estabelece com o coro, nas duas melodias – a do coro e da orquestra – é sensacional.
·         V. Domine deus, agnus dei – para mim o movimento mais enigmático da peça, a solista volta a atuar; é o movimento mais longo e que me soa harmonicamente mais sofisticado; gosto demais da tensão proposta entre o coro e a solista, as constantes modulações e mudanças de intensidade; são muito estimulantes
·         VI. Qui sedes, ad dextram Patris – último movimento, sua entrada soa para mim como um “grand finale”. E não poderia ser diferente: é o final grandioso da peça. Ele intercala uma seção alegre, para depois desembocar em um Amém iniciado pela soprano solo que vai aos dialogando com orquestra e coro num crescendo lento e majestoso até terminar em um amém calmo e dissonante, no melhor estilo de Poulenc

A gravação que eu tenho dessa peça, um CD que comprei há muitos anos, é uma das melhores referências que eu tenho da obra e não poderia ser diferente, já que é interpretada pelo King's College Choir, Cambridge.

Para um ouvinte de primeira viagem, sua apreciação exige algumas escutas repetidas até que seja possível sacar todas as nuances da peça e realmente desfrutar do que ela tem a oferecer. Recomendo.