quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Livros lidos em 2014

Uma das minhas paixões é a leitura. pena que não leio tanto quanto gostaria por falta de tempo. abaixo os livros que li em 2014:

A Sangue Frio (Truman Capote)
Cristianismo Pagão (Frank Viola)
Terra sonâmbula (Mia Couto)
O Guia do Moxileiro das Galáxias - vol. 1 (Adams Douglas)
Os pobres possuirão a terra (Comissão Pastoral da Terra)
O auto da barco do inferno (Gil Vicente)
Mito e realidade (Mircea Eliade)
O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marquez)
A arte de produzir efeito sem causa (Lourenço Mutarelli)
Zelota (Reza Aslam)
Uma vida inventada (Maitê Proença)
Verdade e transformação (Vishal Mangalwadi)
O mundo assombrado pelos demônios (Carl Sagan)
A sombra do vento (Carlos Ruiz Zafón)
Chega de Saudade (Rui Castro)
Viva o povo brasileiro (João Ubaldo Ribeiro)

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Petrushka - Igor Stravinsky

Meu emprego de office-boy aos 15 anos, na concessionária Ford Mercantil São Caetano, me proporcionou algumas alegrias na adolescência. Primeiro que eu tinha de viajar para pegar cheques de consórcio em clientes. Meus pais tiveram que assinar um termo liberando-me para fazer viagens de ônibus a partir do Terminal Rodoviário do Tietê, já que algumas viagens eram para o interior paulista. Para um garoto de 15 anos daquela época era uma experiência ímpar.

Outras alegrias proporcionadas por esse trabalho foram a possibilidade de eu assinar a Revista Veja, que eu lia inteirinha, inclusive as propagandas (imagine isso!), me permitiu fazer um curso chamado “Tecnologia Intelectual” no IADI que abrangia técnicas de oratória, leitura dinâmica, aprendizagem veloz, memorização, motivação e concentração. Eu havia visto um anúncio em um ônibus e, numa das minhas idas à Av. Paulista, passei no escritório deles dizendo-me interessado pelo curso. Era um lugar bastante chique. Tive a impressão que a recepcionista ficou surpresa com meu interesse, já que descobri depois que eu era o único adolescente do curso: o restante eram pessoas em cargo de gerenciamento. Daí eu entendi porque a moça do curso pediu para eu não divulgar o valor que eles estavam cobrando de mim para ninguém. Acho que lhes pareceu tão engraçado um adolescente se interessar pelo curso que resolveram me fazer um preço especial. Provavelmente o curso era caro para minhas possibilidades.

Outra alegria proporcionada pelo trabalho foi quando recebi meu primeiro salário. No sábado seguinte fui até a Rua São Bento, em uma loja de discos, e comprei os meus primeiros discos de vinil: Scheherazade, poema sinfônico de Rimksky Korsakov (minha peça sinfônica predileta naquela época e durante muitos anos) e Petrushka, balé de Igor Stravinsky. Poderia falar bastante de Scheherazade, por conta da minha ligação emocional com ela, mas hoje será sobre Perushka.

Desde a primeira audição, o balé me cativou por conta das suas ideias que me pareciam muito extravagantes, estimulantes, diferentes do tipo de música que eu ouvia, mais melódica, mais regular ritmicamente. Eu devo ter gasto o vinil de tanto ouvir o balé. Inclusive acompanhava com minha flauta doce. Cheguei a transcrever o solo de trompete pelo prazer de tê-lo transcrito (https://www.youtube.com/watch?v=hNYaBUFxPOc). Anos mais tarde, na faculdade, deixei-o escrito em uma lousa de uma das salas no IMES (atual USCS) e sempre imaginei qual seria a reação das pessoas ao se depararem com aquele manuscrito musical.

Falar da peça é chover no molhado pois se trata de uma peça popularíssima e há incontáveis referências a ela na internet. Como se trata de uma peça um pouco mais extensa, não há espaço para falar sobre ela, mas um bom resumo pode ser lido aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Petrushka_(ballet). Algo que me agrada muito em Stravinsky é seu caráter percussivo: suas obras são bastante percussivas. Já ouvi alguém dizer que Stravinsky conseguiu provar que o piano é, de fato, um instrumento de percussão.

Por fim, gostaria de ressaltar um aspecto que muito me agrada: transcrições. Um dos meus prazeres favoritos na música é ouvir diferentes versões de uma determinada composição. Coisa de arranjador. Transcrições bem feitas são um deleite à parte. Transcrições para piano dessa peça são bastante comuns, inclusive a 4 mãos, para darem conta de todas as ideias musicais da peça. Infelizmente não encontrei nada no Youtube em que pudéssemos ver a peça completa. Somente excertos. Esse vídeo é um bom exemplo de um excerto para piano solo muito bem executado: https://www.youtube.com/watch?v=8MyAkZpGv60.

Falei de transcrições porque gostaria de citar uma que eu gosto bastante, para duo de acordeons. Infelizmente não encontrei no Youtube. Mas usuários dos Spotify podem encontrar a gravação a que me refiro ao pesquisar por “James Crabb & Geir Draugsvoll”. É uma interpretação muito boa! É delicioso, para quem conhece a peça tão bem quanto eu, ouvir uma versão em um instrumento solo (ou duo) com a partitura multi-instrumental reduzida a um instrumento apenas. Quando garoto eu gostava de fazer esse exercício: reduzir peças orquestrais para flauta doce a algumas vozes: é preciso se fixar no essencial. Um ótimo exercício.

É isso aí. Sugestão de link para ouvir a peça inteira, em 3 partes: https://www.youtube.com/watch?v=4J9OypE80UE


(a propósito, nesse vídeo que enviei, o trompetista comete um erro crasso no solo do trompete. Será que ele foi demitido? Brincadeira. Erros assim não são tão raros. Imagino que o trompetista ficou um bom tempo remoendo o seu erro. Vamos ao erro: o solo começa com 2 arpejos, um ascendente e outro descendente: la-do-fá (ascendente), do-la-fá (descendente). De novo outro arpejo, agora atingindo a 7ª maior do acorde: la-do-mi (ascendente), do-la-fa, seguido da frase sol-la-si-do-re-mi-re-do-si-do-re-mi-re-do-fa. Ocorre que, no primeiro arpejo ascendente, ele se equivoca e toca la-do-SOL, em vez de lá-do-FA. Isso pode ser observado no minuto 2:26 do segundo vídeo dessa gravação. Na repetição da frase ele acerta a nota)


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

As segundas núpcias do Pastor

O Pastor era uma figura respeitada e admirada na sua comunidade. Podia-se dizer dele alguém com uma inquestionável vocação pastoral. Sua vocação também tinha explicação de berço. Filho caçula, de uma família com dois filhos, seu irmão 6 anos mais velho sempre fora um problema. Seus pais eram o típico casal de cristãos tradicionais e tementes a Deus. Apesar de todo esforço dos pais na educação dos filhos, o mais velho sempre lhes trouxera dores de cabeça. Na adolescência envolvera-se com más companhias e drogas. Apesar de caçula, o futuro pastor sempre fora capaz de perceber o que seu irmão mais velho estava a aprontar, mesmo quando os pais não desconfiavam. Mas ele não entregava o irmão para os pais porque via a dor que isso causaria neles. Por outro lado, ele também sofria pois não tinha como ajudar seu irmão mais velho que, apesar de tudo, era seu herói, por causa do seu caráter transgressor, um contraponto ao estilo tão conservador dos pais. Ele acabava sendo o eixo que equilibrava a tensão entre o irmão e os pais. Um pastor precoce. Um dia, em um assalto com outros jovens amigos tresloucados e drogados, seu irmão foi morto.

Seus pais nunca se recuperaram do golpe. Mas agradeciam a Deus por lhes ter dado o caçula, um garoto tão exemplar, tão admirável, a salvação da lavoura. O mais velho não dera certo. Mas esse seria um sucesso.

E foi: formou-se na faculdade de Arquitetura, embora seu coração estivesse mesmo nas pessoas problemáticas que cruzavam sua vida, como seu irmão mais velho. Não resistindo ao chamado, em vez de tentar a carreira de arquiteto, ingressou em um seminário. Formou-se com destaque, foi o orador de sua turma e foi lá que conheceu sua noiva. Uma jovem discreta, de modos delicados, a nora perfeita. Seus pais ficaram maravilhados. Deus tinha sido bondoso demais com eles ao compensar a dor do primeiro filho. Casaram-se na igrejinha de bairro onde ele crescera e seus pais frequentavam. Tiveram dois filhos, um casal. O primogênito e uma menina 2 anos mais nova.

Sua vocação saltava aos olhos e rapidamente ele pastoreava uma igreja. Depois outra, outra e mais outra. Até o dia em que foi convocado para um desafio internacional. Lá foi ele com a esposa e os filhos pequenos. Um sucesso. Sua sensibilidade para a dor alheia e a companhia de sua discreta e adorável esposa, fizeram-nos notórios no aconselhamento de famílias despedaçadas. E como eles recuperaram lares destroçados...

Passou muitos anos no exterior, até que voltou para seu país de origem, os filhos já adolescentes. E, um belo dia, sem nem mais nem porquês, eles avisaram, o mais discreto que podiam, que estavam se separando. Foi algo que chocou toda a comunidade. Só não foi um escândalo porque eles se separaram silenciosamente, sem vexames públicos, claramente amigos. Houve até quem dissesse que, na realidade, estavam se separando porque cada um queria servir melhor ao Senhor de forma individual: só podia ser. Usando suas economias amealhadas ao longo de mais de 20 anos de casados, puderam comprar 2 casas modestas e dignas. A mãe ficou com a garota, o pai com o menino. Até nisso eles foram exemplares. Serviram até de modelo para os que diziam ser lícito separar-se e, em alguns casos, até necessário e de boa espiritualidade, como se podia notar pelo fim do casamento do Pastor e sua digníssima esposa.

A separação durou um ano sem novidades. Tempo suficiente para eles se divorciarem e as pessoas se acostumarem com a ideia, os mais incrédulos por fim se convencerem de que não se tratava de uma pegadinha, afinal, até mesmo um casal perfeito e que restaurava famílias à beira da destruição poderia se separar.

Foi quando o Pastor avisou umas poucas pessoas que iria se casar novamente. Espanto e incredulidade generalizados novamente. Como seria possível isso? A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora. Todos julgavam que, uma vez separados, eles se manteriam “viúvos” para o serviço cristão! Qualquer um poderia se separar e casar novamente. Não aquele casal! Eles estavam muito acima disso! A separação se justificava porque provavelmente haveria algum propósito espiritual naquilo. Mas... casar-se novamente? Incompreensível!

O casamento foi marcado para alguns meses depois. Mas havia um fato intrigante: o Pastor não namorava ninguém, não se sabia quem era a noiva! Ele também mantinha sua reserva que era tão peculiar: não divulgou a ninguém quem seria a agraciada. Obviamente, toda essa desinformação gerou ainda mais especulação. E havia quem apostasse que, agora fazia todo sentido: ele iria confirmar os seus votos de casamento espiritual com a sua vocação! Somente alguém da sua estatura seria capaz de deixar até mesmo mulher e filhos para se dedicar totalmente à obra do Mestre. Enfim, as pessoas possuem uma imaginação muito fértil.

Nem é preciso dizer que, no dia do seu novo casamento, na mesma igrejinha de bairro onde se casara pela primeira vez, havia um público bem maior que a igreja comportava. Todos queriam saber quem era a noiva secreta. Muitos apostavam que não passava de um rito de elevada espiritualidade. Estavam tão excitados com a insólita ocasião, que ninguém sentiu a falta da ex-esposa e dos filhos.

O Pastor tampouco convidou qualquer outro ministro do evangelho para fazer seu casamento, daqueles que faziam parte do seu grupo mais próximo. Preferiu convidar um pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que nunca se casara. Na realidade, o celebrante do casamento ou quaisquer outras pessoas presentes eram mero detalhe, porque as pessoas queriam ver mesmo era quem seria a noiva, que até aquele momento não tinha dado o ar da graça. Na realidade, havia até algumas candidatas, mulheres na flor da idade e que consideravam o Pastor separado um partidão. E, nesses momentos, as más línguas ficam muito afiadas. Mas algumas delas já haviam sido descartadas de cara, porque faziam parte da assistência curiosa, elas, que, além de curiosas, tinham aquele olhar de ansiedade das viúvas por antecipação. Mas algumas não apareceram. Eram fortes suspeitas, portanto. Houve até mesmo aqueles mais desrespeitosos que, com um sorriso nos lábios, arriscavam um “Pastor safadinho!” quando pensavam nas virtuais candidatas, as ausentes.

Enfim, a cerimônia começou, a música serena, o Pastor entrou sozinho, mais ninguém, padrinhos, nada e, como tudo ali estava fora de lugar, ele pediu permissão ao celebrante para se dirigir à congregação.

Obviamente, ele podia, apesar de ser uma situação igualmente incomum. Dirigindo-se à assistência, com sua calma peculiar, ele começou a explicar o motivo de suas novas núpcias. O motivo é que, desde garoto, ele travara uma luta interna. Tivera uma vida de muitas renúncias e sofrimentos porque ele tinha que dar certo. Sempre fizera o que julgava o correto, o que Deus tinha preparado para ele. Dedicara-se a cuidar das pessoas, casara-se com uma mulher maravilhosa, sábia, que edificara o seu lar, que lhe dera dois lindos filhos e que, compreensivelmente, não estava presente naquele dia. Foi então que, envergonhados, os presentes se deram conta que não tinham dado até então pela falta do restante da família do Pastor. E o Pastor continuou: ele lutara toda sua vida contra o espinho na carne, pedira a Deus que o retirasse, mas nunca fora atendido. Chorara muito, penitenciara-se com o cilício da reclusão, do fechar-se em si mesmo. Até que um dia resolvera abrir-se para sua esposa, aquela mulher sábia, a única que talvez o compreendesse. Ela o ouviu, chorou muito com ele. No final das contas, disse-lhe que o seu papel de esposa era apoia-lo no que fosse preciso e era isso que ela faria. Mas, depois daquele dia, ele foi sentindo cada vez menos o peso da cruz que carregava e, não sabia como, se perdera. Ou se encontrara. Não dava para saber direito o que ocorrera. Mas foram necessários 4 anos para que seu casamento chegasse ao final. Da cumplicidade inicial da esposa, apesar da dor no primeiro momento, eles foram se distanciando gradualmente. A relação foi esfriando. E passou a achar que era injusto prendê-la naquele casamento que, por conta da sua confissão, fora ferido de morte. Foi quando se separaram.

O restante havia sido consequência. Cada vez mais ele se sentia aceito, perdoado, livre. Ainda que isso lhe parecesse tão estranho, tão surreal, tão fora dos valores que ele tanto predicara. Mas ele havia tomado uma decisão importantíssima e definitiva que tinha potencial de destruir toda sua carreira pastoral. E, com efeito, ele acreditava que isso aconteceria. Parou, respirou fundo, sorriu: “Hoje me caso com ele!” E se voltou para o pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que nunca se casara.

Estupefação! Torpor! Ignomínia! Revolta! Opróbrio! Desmaios! Incredulidade! Enjoo! Desespero! Ainda bem que seus pais já estão mortos para não passarem por essa humilhação! Ninguém sabe direito o que aconteceu depois. Foi tudo muito desorganizado. Num primeiro momento se ouviu um “oh!!!” geral e irrestrito, que durou alguns intermináveis segundos, aquela tensão insuportável no ar. Em seguida, fez-se um silêncio sepulcral, em que o Pastor aproveitou para tentar retomar a cerimônia da forma como ele planejara. Mas ninguém estava mais prestando atenção no que ele dizia: as mentes estavam travadas, em estado de choque. Três senhoras, das mais tradicionais da congregação, levantaram-se e começaram a se retirar. Um primo do Pastor, que não era lá muito dado a etiquetas, cerimônias, vaticinou em bom tom, interrompendo a fala do Pastor: “Primo, elas não vão ao banheiro, não! Elas estão indo embora mesmo!” Foi a senha. Um a um foi tomando coragem e abandonando o templo entre decepcionado e confuso.


No final restaram apenas o Pastor, o outro pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que finalmente estava se casando, o primo, que estava achando aquilo muito engraçado, e umas 10 pessoas que, num misto de êxtase e incredulidade, voando no tempo e no espaço, com um mal desenhado, mal disfarçado esboço de sorriso nos lábios, não conseguiam se despregar de seus assentos. Nem piscavam...

sábado, 10 de janeiro de 2015

Por toda minha vida

Por toda minha vida foi uma música que me cativou desde a primeira audição na voz da Elis Regina. O arranjo inicial já sugeria algo meio barroco. Mas foi ao ouvir a interpretação de Mônica Salmaso e Paulo Bellinati (violão) que o potencial mais barroco, polifônico, da música me ocorreu. A partir da ideia básica do diálogo entre o violão e a voz da Mônica, escrevi o arranjo a cappella.

A interpretação da Elis Regina, como tudo o que ela fazia era visceral. Mas o clima mais barroco da primorosa versão da Mônica Salmaso e do Paulo Bellinati me cativaram demais. Enquanto ouvia o violão dialogando com a voz da Mônica, eu imaginava como ficaria se fossem vozes fazendo um contraponto. Aquela imagem não saiu mais da minha cabeça e, um dia, enquanto fazia compras no supermercado, me ocorreu a primeira frase do arranjo, o diálogo da linha do baixo com a primeira nota da melodia, que poderia ser longa, uma fermata talvez. Empolguei-me. Ainda no supermercado me ocorreram algumas ideias de contracanto para as frases seguintes. Repeti-as várias vezes para não esquecer e, chegando em casa, a partir dessa ideia básica, tinha o ponto de partida para escrever o arranjo. E foi um arranjo escrito quase que a toque de caixa, já que não havia muito o que fazer e a música era curtinha.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Compadre Gavião e Compadre Urubu

(da série Contos da dona Ilza)

Diz que o Compadre Gavião estava com muita fome e resolveu sair em busca de algo para comer. Voou, voou, até que encontrou o Compadre Urubu. O Compadre Urubu vê o Compadre Gavião naquela aflição toda e lhe pergunta:
- Onde você vai, Compadre Gavião, tão afobado?
- Eu vou ali achar alguma coisa pra comer! Vamos comigo, compadre?
- Nãão, compadre, responde gravemente o Urubu, eu só como quando está morto, assim, sem pressa. Não gosto de sair atrás das coisas, não.
- Mas vamos comigo, me acompanhe!, insiste o Gavião.
- Não, eu só como quando está assim, deitado, no chão, quando já está morto. Eu não gosto de sair procurando a comida assim, desesperado!
- Mas vamos comigo, compadre, você vai comer já já!
- Tá bom!
É tanta a insistência do Gavião que o Urubu cede.
O Gavião, voando bem à frente, se perde em suas preocupações: “É já que eu vou encontrar alguma coisa pra comer com o Compadre Urubu.”
Logo mais à frente há uma árvore ressequida, toda escangalhada, cheia de pontas, e o Gavião, voando naquela euforia, não se dá conta e, numa fração de segundos... ploft!, estatela-se contra uma ponta de pau e fica travado. Desesperado, começa a bater as asas freneticamente.
Nisso vem chegando o Compadre Urubu lá de trás, na maior tranquilidade...
Quando o Gavião olha de lado e vê que o Urubu vem chegando, suplica:
- Compadre Urubu, pelo amor de Deus, me tire daqui! Tire eu daqui, compadre, que eu não vi esse toco! Eu me enganchei aqui!
O Urubu calmamente lhe responde:
- Não, compadre, você se esqueceu? Eu só como os mortos...
- Nããão, compadre!!! Pelo amor de Deus!!!!! Não vai fazer isso comigo, não!
- Mas compadre, eu só como quando está morto mesmo...

domingo, 9 de novembro de 2014

O programa

Ele não assistia muita televisão. Não tinha muita paciência para assistir programas, jornais ou mesmo filmes. Gastava seu tempo em frente à TV zapeando pelos canais, sem se fixar em nada. Por isso, conhecia quase todos os programas mas não conhecia nenhum muito bem. Os programas de auditório lhe pareciam ridículos e, se existe algo que ele não faria na vida, seria participar de um programa desses. Aquelas pessoas imbecilizadas rindo dos comentários sem graça dos apresentadores.

Um dia um amigo vizinho de bairro lhe perguntou se ele toparia lhe acompanhar a um programa de auditório. Inicialmente ele relutou mas depois a ideia lhe pareceu fantástica. Aparecer na TV, participar da experiência de algo que seria visto talvez por milhões de pessoas, aquela vibração toda... Ele topou sem reservas. Seu amigo cuidou dos aspectos burocráticos e, naquela manhã ensolarada, lá estavam os dois juntos com a pequena multidão recebendo as instruções e o lanchinho antes de começarem as gravações.

O programa começou, ele se sentou mais ou menos no meio da plateia que lhe lembrava, assim meio distante, a disposição de um cinema, se é que ele já havia estado em um cinema antes. O programa lhe pareceu interessante e a apresentadora chata era apoiada por diferentes colaboradores em quadros distintos. Um dos colaboradores apresentava um quadro com curiosidades do mundo do entretenimento e, naquele dia, trouxera uma reportagem de pessoas comuns – e desconhecidas – sósias de famosos. A reportagem promovia o encontro entre ambos e o ponto alto da reportagem era uma cidadã daquele país sósia de uma das maiores estrelas de Hollywood, a Anne Hairgrow. A repórter havia conseguido uma entrevista com a atriz e, ao colocar as duas mulheres frente a frente, era impressionante a semelhança entre elas; a desconhecida mal conseguia conter sua emoção e não disse nada, mesmo porque não entendia bulhufas do que as outras duas conversavam.  De forma inusitada, a repórter incentivara um abraço entre ambas; a atriz abraçou a desconhecida de forma cálida e afetuosa e recebeu em contrapartida um abraço frouxo e um tanto esquivo da anônima.

No final da reportagem, um desafio foi proposto aos presentes e aos colaboradores da apresentadora chata: descobrir o motivo pelo qual a desconhecida não entendera nada da conversa. Várias possibilidades foram levantadas, mas a mais plausível era porque ela não conseguiria rebater uma bola no chão com as mãos a uma certa velocidade determinada pelo ritmo de uma música romântica que iria ser tocada. Trouxeram uma bola de plástico pequena, colocaram a música para tocar, e o primeiro a tentar cumprir o desafio foi o repórter que apresentara o quadro. Sem chance: ele era incapaz de se adequar ao ritmo da música. Conseguiram outra bola, uma enorme, e nada! Os participantes foram convidados a encarar o desafio e fizeram uma fila para ver se conseguiriam. Ninguém conseguia. Foi quando ele, inquieto na sua poltrona, se levantou, invadiu o palco e disse o óbvio: “gente, basta colocar uma mesa dessa altura, subir em cima e rebater a bola a partir daí que se consegue fazê-lo no ritmo da música!” Utilizando o seu alto poder de improvisação, os assistentes de palco conseguiram uma mesinha, convidaram um dos participantes do programa que, coincidência, vinha a ser um vizinho seu da rua de trás, que subiu na mesinha, não sem antes responder ao seu cumprimento de “aê, truta!”, seguido de 23 toques diferentes de mão.

O desafio do quadro havia sido cumprido graças à sua intervenção mas, antes de refazerem o cenário, a apresentadora lhe chamou discretamente e lhe disse que ele não deveria ter se manifestado sem ser chamado e que seu cumprimento ao outro participante solicitado fora totalmente desnecessário e tumultuara o programa. Bastante desconfortável, ele retornou à sua poltrona e continuou a acompanhar o programa. Mas o fato é que o episódio com a apresentadora lhe deixara profundamente chateado e tudo aquilo perdera seu encanto. Acometido por uma sonolência incontrolável por causa da chatice que se tornara o programa, ele resolveu puxar um travesseiro e se acomodou ali mesmo na poltrona. Já estava quase engatando um sonho quando foi desperto, de maneira brusca, pela apresentadora que, com todas as câmeras voltadas para ele, o repreendia duramente por dormir durante o programa, algo extremamente deselegante.

Aquilo foi demais para ele. Do mais íntimo de suas entranhas foi surgindo uma gastura, um calor revolvendo seus órgãos internos, uma raiva incontida que foi crescendo rapidamente, subjugando-o até que explodiu pelo peito e a dor resultante saltou para fora em frases desconexas e impropérios. E ele esbravejou, xingou, descarregou todas as injustiças sofridas por seus ancestrais, sua raça, seus amigos, seus inimigos, todas vítimas daquele sistema falido, corrupto, perverso, insano, vil, que triturava as pessoas, que fazia o que queria delas, que zombava dos indefesos, que espoliava as velhinhas, que surrava os mais fracos! Gritou até ficar quase rouco. Não escapou ninguém, nem mesmo o dono da padaria que no dia anterior havia lhe devolvido 15 centavos de troco a 1 real que ele havia dado para pagar os 2 pãezinhos que custaram 81 centavos e que se fosse justo e desprendido o dono da padaria arredondaria para 80 centavos que estava mais próximo não para 85 num claro desrespeito à sua inteligência e dignidade não era pelos 4 centavos era porque aquele dono da padaria era mais um agente daquele sistema corrupto e diabólico que faz questão de oprimir os mais fracos os mais gentis os mais distraídos aquele filho da puta avarento!

E como sua raiva não terminava nunca e ninguém ousava pará-lo, estupefatos que estavam de sua inesperada reação, resolveu ligar o piloto automático, sair de si mesmo e se sentar numa poltrona próxima para se deliciar também com o espetáculo. Foi quando ele se deu conta do patético da situação. Correu rapidinho para dentro de si e encerrou o espetáculo tão logo pode controlar a torrente que emanava de sua garganta. Parou ofegante, suado e meio zonzo. Envergonhado, começou a se afastar, trôpego, rumo à porta de saída.

Uma jovem senhoura foi a única a reagir e ensaiou uma reprimenda com o dedo em riste quando ele passava por ela: “Seu maluco de...” Mas ele ainda tinha bala na agulha e a interrompeu bruscamente: “Epa, epa, epa! Pega esse dedo nojento e enfia bem no meio do seu nariz, sua puxa-saco!” E arrematou: “Pensou que eu iria dizer outro lugar, né? Não dá porque ele está cheio de merda!” A assistência explodiu numa gargalhada.

Em passos rápidos ele alcançou a porta lateral e se meteu em um corredor escuro, rumo à saída, ainda a tempo de ouvir a apresentadora chata chorando inconsolavelmente em uma sala no piso superior, ao fundo do estúdio de gravação, provavelmente a sala do diretor do programa, se é que existe isso.


Lá fora, uma garoa fria e irritante caía. Ele se encolheu, escondeu as mãos nos bolsos da calça e sumiu no escuro da noite meneando a cabeça: “bando de malucos!”

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O pernilongo

Há pouco, na praça de alimentação, enquanto lia minha revista sentado à mesa e aguardava a senha avisar-me que a salada caesar estava disponível, vi um pernilongo, ignorando solenemente o risco capital que corria, pousar na mesa junto a mim e ficar, aparentemente, exercitando suas patinhas (desconheço os hábitos dos pernilongos quando não estão a se deliciar com a seiva humana). Sua desatenção ao perigo que estava exposto era tanta que ele parecia desafiar-me: mate-me, mate-me! Um movimento súbito com a revista e ele estaria liquidado. Entretanto, dominado por um incontrolável sentimento de ternura, por um derrame de compaixão por aquele tão minúsculo e frágil ser, feito um spharion, o máximo que consegui de reação, depois de uma breve reflexão sobre a inutilidade do meu projeto assassino, foi enxota-lo suavemente com minhas folhas de celulose plastificada, como quem lhe dava mais uma chance de se aventurar e arriscar mais um banquete com o sumo de alguma pele desprevenida, antes de final e irremediavelmente ser despachado para o reino dos desencarnados, em um futuro próximo.